[Drive] Destruído [Renaud, Isaac, Didier, Aleksei, Tamotsu, Sasha]
#6
Sasha/Didier

Quanto mais o doutor explicava a situação de Renaud, pelo menos para Didier, mais parecia difícil de lidar, e não tinha ideia do que o sujeito estava explicando, focado demais talvez na ideia de que não sabia ser tão pensativo ou profundo quanto aquela teoria. Sasha até podia entender com a ideia do sonâmbulo, mas tinha notado como a ideia toda era surreal: era como se estivessem no sonho de Renaud, que ele não pudesse ser acordado de repente, e que tivessem que agir de acordo como seria melhor para o sonho continuar até que o próprio decidisse acordar. Basicamente teriam que cuidar para não sacudir fortemente Renaud com a realidade dura, e, se ele tivesse outro surto como aquele, lhes restava reagir como conseguissem, pensando exatamente naquelas dicas.

Isaac dessa vez que fez uma pergunta muito pontual, que fez com que Sasha e Didier finalmente olhassem para ele, que parecia estranhamente quieto.

- Você sabe a história, Lemont...? – Sasha perguntou sem nem piscar, embora Didier fosse capaz de notar que havia certo ar de desconforto na pergunta de Isaac. Provavelmente havia alguma coisa muito perturbadora naquele conto, e não seria estranho para Didier, dado que Renaud lia coisas muito estranhas as vezes.

Mas Didier em particular não queria mais aprofundar aquela conversa. Quanto mais o doutor Vlahos falava, mais tinha certeza de que era um caso para um profissional e ele quem tinha que cuidar de Renaud por ora. Lhe restava a paciência que não tinha. Concordou silenciosamente com a cabeça a fala do loiro, cansado demais de pensar, e se curvou sobre as próprias pernas, batendo a canela de modo impaciente. Sasha soltou um longo suspiro, olhando de Isaac para Didier com um ar ainda curioso. Mas os dois pareciam muito cansados, muito mais que ele, e tinha que respeitar que os dois foram os primeiros a estar com Renaud. Talvez o que todos precisassem agora era de um incentivo para serem pacientes mesmo.

Aleksei

Isaac estava levemente perdido nos próprios pensamentos, mas voltou a atenção para Sasha quando ele perguntou se conhecia a história. A única coisa que pôde responder foi com um aceno positivo de cabeça, engolindo em seco incomodado. Agora que todo o estresse tinha passado e que estava mais certo de que Renaud estava em boas mãos e sendo bem tratado, começava a sentir o corpo pesado e cansado, além de dolorido, principalmente dolorido.

Mas ele não adicionou nenhum detalhe e depois que Aleksei terminou a explicação e pediu para que eles confiassem em seu trabalho, não houve mais protestos ou tentativas de perguntas, o que era bom, já que ele queria primeiro conversar com Renaud sobre a situação dele antes de explicar aos amigos.

- Eu preciso voltar à enfermaria e esperar que o Sr. Blanco recobre a consciência agora. Fiquem à vontade para esperar aqui, se preferirem outro lugar, me avisem e eu saberei onde encontrá-los depois que o Sr. Blanco acordar. - Aleksei avisou, levantando-se da poltrona, e Isaac foi o primeiro que acompanhou, sentindo todos os músculos doerem com o movimento.

- Eu vou voltar à sala do Conselho estudantil, preciso arrumar tudo. - ele explicou, e seria mais fácil ser contatado lá.

- Certo, saberei onde encontrar o Sr. Lemont e ele pode avisá-los, eu não conseguir contatá-los. - Aleksei avisou a Sasha e Didier, seguindo na direção da porta logo em seguida.

Ele só esperou a decisão dos alunos se ficariam ali ou não, para fechar a porta ou deixá-la aberta, e retornou para a enfermaria, finalmente liberando Tamotsu do trabalho que tinha forçado nele, agradecendo pelo serviço e se responsabilizando por monitorar Renaud. Mathew já tinha retornado à enfermaria, e daquela vez Aleksei tomou o tempo para sentar e explicar ao enfermeiro todo o ocorrido, o que deu bastante tempo para que Renaud descansasse. Mas o rapaz ainda ficou adormecido por longas horas, bem mais do que a uma hora prevista, o relógio já marcava pouco mais de 15h e Aleksei não tinha nem almoçado para continuar ali, tomando apenas um café no meio tempo. Quando houve alguma reação de Renaud, Aleksei estava sentado numa cadeira de rodinhas parado ao lado da maca, numa distância segura do alcance do braço de Renaud, caso ele ainda estivesse alterado.

- Renaud? - chamou pelo aluno, em dúvida se ele que responderia, ou o alter-ego. - Consegue reconhecer minha voz?

Renaud

“deriva”, era a primeira palavra que permeava o pensamento do jovem, ainda de olhos fechados jogado a escuridão e sem nenhuma imagem para se fixar, seu corpo era tomado pela sensação de leve flutuação, como se estivesse sendo embalado em um ritmo inconstante de balanços. A noção de que havia uma maré indo e vindo, e a medida que o corpo inerte era atingido por esse movimento descompassado, uma onda de calor irradiava por cada centímetro da pele do moreno deitado, como se tomado por uma ardência quase febril. Os aromas estavam distantes, embora seu nariz estivesse acostumado demais ao cheiro do próprio sangue. O gosto que tomava seu paladar era fortemente salgado, como se tivesse recém se afogado no oceano, mas era brutalmente amargo como se pudesse sentir o fundo de suas entranhas no topo de seu palato. Os sons estavam abafados, como se o próprio moreno estivesse tapando os ouvidos para se manter distante, mas sabia, que não poderia usar as mãos para aquilo.

Por que não poderia usar?
Porque estão machucadas Renaud.
Por que eu estou machucado …?
Porque nós estamos feridos Renaud.
Quem nos feriu …?!
Nós mesmos, todos um pouco, mas principalmente Ela.
Ela …!
Sim…
Não…
Sim.
NÃO!

O moreno mais novo abriu os olhos num reflexo, os olhos grandes escuros, a esclera avermelhada do sono profundo, espiou em volta sem de fato enxergar ou mesmo fazer sentido de onde estava, logo as pupilas se dilataram se ajustando a luminosidade incômoda, e o jovem Blanco estreitou os olhos, a voz conhecida chegando aos seus ouvidos numa pergunta que não lhe fez sentido imediatamente, mas sabia quem era:

- Dr. Vlahos… ?! - o timbre de voz soou baixo, e sentiu a garganta arranhar e arder, e pigarreou levando as costas da mão para cobrir a boca. Olhou as bandagens novas, o cheiro característico de pomada, sabia que estava machucado e ferido: - eu…!- e sabia que se estava machucado o único lugar para onde seria levado era justamente enfermaria ou um hospital. Mas se estivesse num hospital, o psicólogo não estaria ali bem do seu lado, porém, não lembrava de ter chegado ali, e isso era um mal sinal.

Renaud se encolheu na maca, massageando o meio da testa com as costas da mão, uma terrível dor de cabeça lhe cortando a nuca, e enquanto sua mente trabalhava rapidamente revisitando as últimas coisas que lembrava fazendo o caminho reverso, chegou no ponto do onde o telefone tocava, e a voz conhecida do assessor de seu pai falava com todas as letras que sua mãe não estava viva. Renaud parou o movimento com a mão e os olhos fundos se encheram novamente, e o moreno mais novo, usou das duas mãos pra cobrir a boca daquela vez:

- ela não está mais aqui Dr. Vlahos…! - falou com a voz miúda de quem tomava consciência dos fatos, embora estivesse ainda visivelmente abalado.

Aleksei

Renaud estava obviamente atordoado ao acordar, os olhos vermelhos e circulando o ambiente até entender o que estava acontecendo. Aleksei esperou alguns instantes até que ouviu a voz e o tom conhecidos e o seu nome, o que era um bom sinal. Ele levou a mão enfaixada ao rosto e Aleksei tomou a liberdade de se aproximar um pouco mais, certo de que era Renaud e de que ele não estava na mesma disposição agressiva de antes. Aleksei ficou atento aos movimentos lentos e leves de Renaud, que só evidenciavam como ele estava fisicamente debilitado. E não demorou a notar que mentalmente também. Aos poucos, ele foi assimilando o que tinha acontecido e Aleksei percebeu pela mudança de expressões que ele estava de volta ao motivo que o tinha levado até ali: a notícia da morte da mãe.

Restou a Aleksei observar as reações dele no momento, enquanto a notícia passava pela mente e pelo corpo de Renaud. Ele levou ambas as mãos aos lábios a despeito de estar com a pele machucada, aquele momento definiria qual o próximo estágio em que ele entraria diante do choque da perda.

- Eu sei, Renaud. - Aleksei respondeu, sentando-se no canto da maca, mantendo a proximidade, mas sem encostar nele diretamente, atento aos gestos alheios, caso ele tentasse se machucar de novo ou se tornasse agressivo. - Eu sinto muito.

Naquele primeiro momento, não havia nada mais que pudesse adicionar para o processo de aceitação de Renaud.

Renaud

O corpo todo estava quente, principalmente seu rosto, nem sabia o quanto já tinha chorado, mas sabia que era uma estrada sem volta, o buraco em seu peito era um abismo profundo que seria preenchido por todas as lágrimas que conseguisse pôr pra fora. Muito embora naquele momento, com o corpo ainda letárgico do sono recente, apenas despencou sobre o próprio cansaço mental, parecia que todo o peso do mundo estava sobre seu corpo e se sentia pequeno e miúdo na maca da enfermaria.

Renaud permaneceu deitado e virou o rosto contra o travesseiro, esfregando o rosto ali, num aceno negativo, ao mesmo tempo que sua boca deixava as palavras escaparem em voz baixa, mas que aquela distância o psicólogo provavelmente ouviria. “Isso não é justo... porque isso tinha de acontecer?”

Levou alguns segundos pra que o moreno mais novo retornasse a olhar para o mais velho, os olhos fundo, marejados, a expressão arrasada, apesar de ter dormindo estava notoriamente cansado, sua mente estava exaurida de tentar processar o fato cruel da perda de sua mãe. E o único movimento que o mais novo fez foi de se encolher um pouco mais na maca, curvando os ombros pra dentro, e trazendo as pernas junto do corpo:

- O que eu vou fazer agora? Como é que se vive com isso? - O “isso” notoriamente o moreno se referia a esse conjunto de sentimentos desolados que permeavam todo o seu ser.

Aleksei

Renaud não se tornou violento, nem tentou voltar a se machucar de novo, o que era um bom sinal. Aleksei tomou a liberdade de se aproximar mais da maca, mas não o tocou nem tentou interferir no gesto dele ao enterrar o rosto no travesseiro, ouvindo os questionamentos tão costumeiros a alguém que passava por aquele tipo de perda. Não respondeu ao primeiro questionamento, mas esperou que Renaud saísse do conforto do travesseiro para lhe encarar de volta, com perguntas mais pontuais e direcionadas a ele.

- Você vai aprender a viver com isso, Renaud. - Aleksei respondeu, muito objetivo. - É melhor ter vivido e sentido algo do que não ter sentido nada. Significa que importava para você. Que importa.

Ele deixou a cadeira mais próxima de Renaud daquela vez, uma das mãos apoiadas na maca do aluno. Naquela distância, se Renaud tivesse qualquer novo surto, seria um grande problema para conseguir se defender.

- Vai doer, provavelmente mais do que todas as dores físicas com que você está acostumado. - ele adicionou. - Mas também vai melhorar. Vai demorar algum tempo, mas você vai começar a saber como lidar com esses sentimentos. Uma perda como essa não é fácil para ninguém. Mas lembre-se, você não está sozinho, todos os seus amigos estão esperando notícias suas, eles que cuidaram de você antes que eu chegasse. Você não está sozinho, Renaud. - ele fez questão de reforçar.

Renaud

A forma muito direta com a qual o psiquiatra lhe respondia lhe dava um misto de sensações, porque não era tão fácil como simplesmente “aprender a viver”, mas sabia que nada que o Dr. Vlahos falava podia ser compreendido de forma simples e objetiva, por melhor que ele fosse em usar as palavras. Porque a complicação e o caos estavam na cabeça do Blanco, e agora todo aquele abismo de emoções indistintas pertencia a ele, e por isso mesmo que fosse algo que invariavelmente fosse aprender a lidar, agora tudo lhe parecia impossível de ser absorvido.

Renaud torceu os lábios, amargando uma expressão abatida e triste, os olhos fundos do choro recente o corpo apenas se encolheu mais na maca, porque se sentia exposto demais, e quebrado demais, se não se recolhesse não sobraria muito de si pra juntar os cacos. O moreno mais novo só tornou a encarar o loiro a sua frente quando ele lhe lembrou que não estava “sozinho” e por mais que sentisse que tinha perdido tudo, aquilo não era verdade, mas doía de um jeito que era difícil de mensurar:

-- Eu sei que não estou sozinho… você está aqui cuidando de mim. Didier, Isaac e Sasha devem estar preocupados também… e os meus outros amigos vão ficar preocupados quando souberem… -- o moreno falou a voz foi ficando miúda na garganta, e precisou puxar o ar devagar pra não começar a chorar imediatamente, logo encarou as mãos machucadas, movendo os dedos de forma desengonçada: -- eu sei que seria bem pior se eu estivesse de fato só, mas ainda assim, ainda assim… doí tanto… que eu não sei por em palavras.

Renaud sentiu os olhos nublados, e a respiração ficar curta, o peito apertou e o coração doeu, não havia aquela vontade de sorrir pra esconder como estava se sentindo, tinha apenas aquele montante de recordações recentes, do cheiro, da voz, do gosto da comida, do toque, do colo de sua mãe e uma arrasadora saudade que lhe cortava por dentro:

-- logo quando a gente conseguiu conversar… logo quando a gente conseguiu se desculpar… -- a voz foi ficando entrecortada, porque as lágrimas rolaram pelo rosto e Renaud não estava fazendo nada para tentar esconder como estava se sentindo, estava apenas falando, quando falava, tomava mais ciência de que aquelas coisas tinham acontecido e de que não aconteceriam nunca mais: -- é como se ela soubesse que ia embora e tivesse só vindo se despedir…

Aleksei

Aleksei resolveu deixar a cadeira e se sentar na maca quando Renaud se encolheu mais na posição defensiva em que estava. Não havia nenhuma indicação de que ele se tornaria agressivo se não fosse provocado para aquilo. E mesmo que fosse provocado, ele estava num estado muito debilitado para fazer qualquer coisa. O psiquiatra achou por bem se aproximar, mostrar que podia estar também dentro do espaço pessoal dele e que era uma presença na qual ele podia se apoiar, mesmo que fosse apenas no âmbito profissional. Aliás, especialmente por ser no âmbito profissional, afinal, era a segurança que Renaud tinha de que independente do que acontecesse ou de como agisse, não seria abandonado.

- Você não precisa colocar em palavras, Renaud, algumas coisas não precisam ser ditas. - Aleksei se sentou no canto da maca, mas não chegou a encostar em Renaud, dando a ele a opção de buscar por suporte se precisasse, mas não invadiria mais do que aquele limite do espaço pessoal.

O comentário dele sobre ter conseguido conversar e se desculpar só lhe deu um panorama maior do motivo pelo qual a perda tinha sido ainda mais impactante. Aleksei já sabia que havia uma série de problemas não resolvidos naquele relacionamento mãe e filho, e questões que pretendia trabalhar pouco a pouco com Renaud. Na verdade, naquela manhã quando ele tinha passado em seu consultório pedindo por um tempo para conversarem fora dos horários convencionais, já tinha notado que algo de bom tinha acontecido. Mas a coisa boa tinha obviamente durado muito pouco. O psiquiatra ainda pensou num modo de questioná-lo se ele preferiria não ter tido uma conversa ou um momento de conexão, mas sabia que seria só uma carga mais pesada no estado abatido de Renaud, então guardou o pensamento para si que poderia apontar num outro momento em que ele estivesse mais recuperado.

- Ninguém tem como saber esse tipo de coisa, infelizmente. - respondeu Aleksei. - Você gostaria de ver alguém agora, Renaud?

Aleksei sabia que havia amigos que queriam saber do estado do rapaz, mas acima de tudo, sendo de uma família tão importante quanto os Blanco, algum representante da família certamente viria para falar com ele e talvez levá-lo de St. Clavier.

Renaud

O jovem Blanco tinha diversas qualidades e defeitos, e certamente podia ser visto como uma pessoa forte, tinha todo um histórico de brigas que o faziam ser praticamente uma lenda urbana, mas agora, era apenas uma caricatura de um Renaud. Estava tão desgraçadamente abatido, que mesmo depois de dormir por algumas horas, seu corpo não lhe obedecia, e nem tinha energia pra absolutamente nada. Era injusto, muito injusto, e aquele pensamento se repetia em loop em sua cabeça.

A proximidade com o Dr. Vlahos de si ao invés de lhe causar ojeriza, como normalmente acontecia quando se sentia exposto perto de alguém que não era Didier ou Sasha. Apenas lhe despertou a necessidade de companhia, de contato, de apoio, sentia que um buraco iria se abrir no chão e seria engolido bem ali. Renaud se moveu na maca, encolhido no máximo que um rapaz forte de 1,75m podia ficar, e encostou a testa no médico, quase como se pedisse colo naquele momento de fragilidade extenuante.

O choro ainda persistiu em lágrimas graúdas, o corpo todo tremendo em pequenos espasmos, que não eram uma crise de ansiedade, era apenas a mais pura tristeza ali, transbordando do Blanco e jorrando sobre o outro, como uma fonte interminável de dor. Muita dor. E era como o próprio Dr. Vlahos tinha comentado em outra conversa, embora tenha se acostumado a estar sempre machucado, não gostava de estar ferido, não havia nada de bom em sofrer. estava farto de sofrer, mas aparentemente seu carma era grande demais e teria de pagar agora, não amanhã ou depois.

E embora tenha ouvido as palavras do médico sobre ver alguém, ainda levou alguns minutos para se recompor e cessar o choro. Respirou fundo, levando às costas das mãos enfaixadas ao rosto para enxugar o rastro molhado deixado pelas lágrimas:

- Didier… Sasha… Isaac… tod-....! - soluçou tal qual faria uma criança pequena depois de muito chorar: - devem estar muito… preocupados…!

Aleksei

A despeito de tudo que já tinha visto ao longo da evolução de Renaud durante o tratamento, no fim das contas, ele era apenas uma pessoa tentando lidar com os fortes sentimentos da perda de um ente querido. Entre as complicações do estado mental e do estado físico, ele só queria chorar até as lágrimas acabarem e o corpo se exaurir para tentar esquecer a tragédia que tinha lhe acometido. Claro que havia uma série de complicações a mais em como ele entenderia aqueles sentimentos e a perspectiva daquele alter-ego lidando com parte da consciência de Renaud era algo que deveria pesar com cuidado na continuidade do tratamento dele.

Por enquanto, a única coisa que Aleksei fez foi permitir a proximidade e a busca por apoio. Sabia muito bem que aquele tipo de proximidade não era o mais indicado numa relação de médico-paciente, mas permitiu que Renaud ficasse ao seu alcance e até levou uma mão ao topo da cabeça dele, esperando alguma resposta sobre alguém que ele quisesse ver. O ambiente parecia finalmente mais seguro, então, não haveria problemas nos amigos dele indo visitá-lo agora que o surto tinha passado e não era Duncan que tinha acordado. Só depois de alguns longos minutos foi que ele concordou em ver os amigos mais próximos, reconhecendo que deviam estar preocupados, o que era um tipo de admissão de sentimentos com a qual Renaud não estava acostumado.

- Eles se importam mesmo com você, Renaud, estavam esperando notícias suas até agora. - Aleksei respondeu, afastando-se, ficando de pé ao lado da maca só para se certificar que Renaud não se importaria com a saída dele. - Eu vou chamá-los para lhe fazer companhia, tudo bem? Pode contar com eles, e comigo, se precisar.

Esperou só uma confirmação do aluno para poder seguir até a porta. Sabia que Isaac tinha retornado a sala do Conselho no prédio principal, mas dado o estado de Didier e Sasha, estava certo de que eles estariam no máximo no fim do corredor da enfermaria esperando algum aval para voltar.

Renaud

Mesmo que o jovem Blanco fosse uma pessoa com amplo vocabulário, não acharia nenhuma descrição que se equivalesse ao que estava sentindo. Era a mais brutal das dores que já tivera que experienciar em sua vida, porque era irreparável, nenhum analgésico iria aliviar ou curar. Pensar sobre sua perda recente fazia sua cabeça latejar, mal conseguia conter o choro de voltar. Respirava com a boca aberta, seu palato estava amargo e o ar entrava quente em seus pulmões, sentia na pele a reação do oxigênio com o corpo em combustão. Queimava por dentro, pior do que sentira suas mãos dias atrás.

Seus pensamentos voltaram ao momento presente apenas quando sentiu o toque sobre o topo dos seus fios escuros. De todas as pessoas deste vasto mundo com quem já tinha tido algum nível de contato, não esperava que o gesto do médico lhe deixasse tão desnorteado. Não porque ele fosse ruim ou lhe quisesse algum mal, longe disso, Dr. Vlahos sempre esteve presente como profissional disposto a lhe ajudar, mesmo quando não queria. Sua tontura e surpresa se voltava para si mesmo, porque precisava ser amparado, e mesmo que fosse um afago simples, era exatamente o que precisava. E tomar ciência de seu nível de fragilidade e exposição era ao mesmo tempo constrangedor e assustador.

Mas Renaud estava exausto.

Não queria ter de pensar em deixar a guarda alta pra não se machucar, afinal estava dilacerado. Aceitaria aquele afago, mesmo que não fossem amigos, sabia que podia confiar no trabalho do Dr. Vlahos, e isso lhe servia de algum conforto. Tão desgraçado e esmigalhado quanto estivesse, ao menos seu médico não ia desistir de tentar por tudo no lugar, e como ia precisar dessa ajuda.

Renaud intencionou em responder, mas ao abrir a boca pra tentar falar nenhum som saiu, os olhos apenas se umedeceram novamente, soluçou engolindo a vontade iminente de voltar a chorar. Imaginava que o Dr. Vlahos sabia que estava grato pela ajuda, mas que simplesmente não conseguia conversar sem voltar a chorar. Então se contentou apenas com o silêncio daquele momento.

[thread encerrada]


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RE: [Drive] Destruído [Renaud, Isaac, Didier, Aleksei, Tamotsu, Sasha] - by Lil - 09-27-2021, 01:09 PM

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