09-27-2021, 04:17 PM
Emil
[‘’Ange Blond’’- Emil]
Meses barulhentos com pouca probabilidade de calmaria, não precisava ser âncora do tempo para notar que essa era previsão atual da vida de adolescente, entre aulas chatas e estudos para as provas até reuniões em grupo tudo parecia um caos, e o peso das aulas extras na biblioteca e principalmente de química com o vice-presidente certamente viraram um grande tornado na sua rotina. Não só na sua vida de primeiranista mas também sua parte amante de filmes, todo o sentimento de estar perdendo nessa sexta a estreia de tantos filmes novos e interessantes, os itens colecionáveis estendendo as mãos imaginárias para ele, pensando quando que ele irá voltar para buscá-los, mexia com seu coração, porém, o fato de precisar aumentar as próprias notas chutava a coragem de assistí-los para o escanteio, não queria decepcionar a mama, seus amigos e sua família não conseguindo segurar a barra desse jeito. Então, nada mais justo do que tirar o fim de semana livre para si, um dia para descansar e talvez adiantar uma ou duas coisas que já estava pensando em fazer durante esse tempo, nada radical já que não era uma pessoa muito ativa, quem sabe ficar deitado escutando música enquanto ajudava o colega de quarto a escolher algum acessório, cuidar das queridas plantas, ou até mesmo... Ficar loiro.
A ideia não tinha surgido de um surto emocional recente de um adolescente rebelde, e sim, de observar as longas madeixas loiras e bonitas de Didier, sua principal inspiração de pessoa, ele parecia sempre tão confiante e feliz consigo mesmo, nunca ouviu sequer um comentário ruim sair da própria boca, se um dia conseguisse se parecer com ele, de certeza seria muito feliz. Todo o motivo por trás da tardia em descolorir os cabelos é em razão do medo, do medo de virar chacota dos outros estudantes e piorar a sua aparência, não fazia ideia sequer se o seu rosto combinaria com um cabelo loiro, talvez estivesse ficando biruta de vez, mas sabia que se realmente decidisse o fazer, teria que pedir a ajuda do colega de quarto, ou certamente terminaria careca.
Aproveitou a primeira oportunidade que teve de ver o amigo, e depois de muitos chiados da parte do ruivo por conta da autodepreciação, conselhos usados pela mama e nervosismo a conversa chegou em um fim, onde a resposta seria óbvia; Seu cabelo não seria mais castanho a partir dessa tarde de sábado.
Com a chegada do fim de semana, a lista de compras que recebeu era simples, apenas precisaria comprar uma hidratação, um descolorante e uma água oxigenada. Seguiria com seu afazeres de sempre até dar a hora de sair e pegar um transporte. Será que essa é uma boa ideia? Se esconderia em um buraco se alguém o zoasse, talvez os seus amigos do clube de jardinagem não gostem, e se por algum motivo seu cabelo terminasse verde e eles o chamassem de chia pet? Não ia conseguir se recuperar de uma vergonha dessa, mas agora era tarde demais, Adam já tinha concordado em se livrar mais cedo das atividades que tinha para ajudá-lo, e também pediria para sair um pouco mais cedo do clube para comprar o necessário. Era agora ou nunca.
Livre de compromissos, a ida para a loja foi rápida e tranquila, a loja era específica para produtos de cabelo e parecia ser moderadamente movimentada, tantos produtos o deixaram confuso, por sorte uma atendente veio ajudar e o guiou até os itens necessários, onde os comprou e voltou para o dormitório. Ao abrir a porta para o quarto, se sentiu num filme de suspense, Adam estava sentado na própria cama aparentemente com tudo pronto, mais um lembrete de nunca brigar com ele ou terminaria com um penteado peculiar, entregou a água oxigenada e o descolorante para o ruivo e se sentou na cadeira segurando a hidratação, esperando seu destino. Adam parecia confiante no que fazia, misturava os componentes enquanto assegurava que iria ficar muito adorável com a mudança, no começo não entendeu muito bem apenas uma mecha de cabelo foi usada, mas confiando no amigo, apenas se deixou levar enquanto pegou o celular para jogar alguma coisa, alguma recomendação de Yure provavelmente. As primeiras pinceladas do produto nos fios deixaram o nervosismo borbulhando em seu estômago, mesmo se quisesse desistir, sentia que era tarde demais, as palavras reconfortantes de Adam eram o motivo de não ter levantado e corrido para o banheiro ainda, confiava no amigo e sabia que se fosse para fazer um serviço como esse, da parte dele ficaria perfeito.
Ouvir que estava quase pronto foi como levar um soco no estômago, ainda teria que lavar o cabelo do produto, hidratar e secar, foram os 15 minutos mais longos da sua vida, se levantou e foi para o banheiro esperar o ruivo lavar o seu cabelo, mesmo nervoso ainda se recusou a ver até estar tudo terminado. A sensação da água na nuca trouxe arrepios e levou com ela uma parcela do medo, estava feito, com o cabelo lavado e depois hidratado, abriu os olhos depois de sentir que os movimentos das mãos de Adam com a toalha pararam em sua cabeça, se olhando no espelho, o resultado foi tão... Diferente, não conseguia acreditar que aquela era a cor do seu cabelo agora, estava todo bagunçado pelo atrito com a toalha mas parecia uma nuvem loira, pela primeira vez não conseguiu parar de encarar o próprio reflexo, que foi respondido pela risada do ruivo com uma expressão orgulhosa de si mesmo.
Não tinha palavras para descrever a mudança, não tinha mais nada em sua mente. Os outros estudantes, os comentários da família, o desgosto próprio, nada disso pareceu importar naquele momento e sim, o sentimento de aproximação com mama e gratidão pelo ruivo, talvez essa mudança tivesse plantado uma pequena semente dentro do seu coração, ainda não sabe no que ela iria germinar, mas estava disposto a descobrir.
Irina
[Vista a Limoges Collet]Alguns dias se passaram desde a chegada de Irina na cidade. Antes do início das aulas em Limoges Collet, Irina aproveitou bem seu “tempo livre”, visitando vários lugares da cidade, e fazendo novas amizades. Devido a promessa feita para seus parentes em manter boas notas, o foco nos estudos deixaria ser uma opção, para se tornar sua obrigação. Mas é claro que os Esportes não seriam deixados de lado devido a sua obrigação de estudar.
Irina se prepara para visitar Limoges Collet, primeiramente vendo no mapa, a distância entre seu apartamento e o colégio no mapa em seu Smartphone, para calcular o tempo de ida até o colégio, sendo a pé ou até mesmo de Táxi, e procurando outras possíveis rotas que a levasse mais rápido ao local. Mesmo a contra gosta, Irina resolve usa uma roupa mais formal para causar uma boa primeira impressão.
Optando a ir de Táxi até ao colégio, para evitar um atraso, Irina chega rapidamente a Limoges Collet, onde está bem movimentado, visto que o ano letivo havia começado a bastante tempo. Ao chegar, Irina é recepcionada por uma das Representantes de Turma, onde a direciona a Coordenação, para receber algumas informações por parte da Diretoria de Limoges Collet.
Depois de receber um palestra sobre o código de conduta, entre outras informações sobre o Colégio, Irina então é liberada para conhecer melhor as instalações de Limoges Collet, sendo guiada pela mesma Representante de Turma que a recepcionou no início do dia. Toda a instalação é apresentada, a começar pelas sala de aula, e por último, a área de esportes. Antes de entrar na área de esportes, Irina é apresentada a Área dos Troféus, um móvel gigantes onde estão os Troféus mais importantes de Limoges Collet. Irina vislumbra os troféus por alguns segundos, mas logo segue direção a área de esportes.
Chegando a quadra, os olhos de Irina brilham de empolgação com a quantidade pessoas jogando, e o tamanho de uma das quadras, mas a compostura é mantida. Terminando a apresentação de toda a instalação de Limoges Collet, a Representante entrega a Irina a lista dos atuais clubes ativos, e a avisa para escolher sabiamente, para os esportes não impactarem nas outras atividades. Irina agradece apertando a mão da Representante, e a balança freneticamente, não conseguindo de vez, esconder a sua empolgação.
Ethan
[Tempo de recomeço]
Não esperava que aquilo acontecesse. Sabia que era sua culpa, mas ainda esperava que fossem se resolver. Mas não, o limite havia chegado - e com razão. Uma semana, duas... e a realidade ainda pesava. Não ter o esgrimista ao lado, não sentir o cheiro dele na cama fazia o mais baixo passar noites em claro. Voltou com as olheiras, o cabelo bagunçado; voltou a ser a sombra que se esgueirava pela academia despercebida. Ainda tinha amigos que não fossem os virtuais, mas evitava todos. Sua rotina era a mesma: do trabalho para o dormitório, do dormitório pro videogame, do videogame para os livros de física. E quando havia tempo, por que não observar o ex namorado de longe? Patético.
Após uma tarde desviando das investidas de Yure, encontrou um bom lugar solitário para jogar com seu PSP em paz. Por quase um mês, conseguiu fugir de tudo e de todos. Sentia-se um covarde - e de fato o era - pois sequer conseguiu ir atrás de quem dizia amar nesse meio tempo. Só desejava se formar e se livrar daquela tortura, morar longe e deixar tudo para trás! Resignado em meio a revolta, sentiu o celular vibrar no bolso. Hesitou mas o atendeu, notando que era uma videochamada de sua mãe, grávida de alguns meses. Atendê-la o fez ver o próprio reflexo.
- A-alô, mãe...?
- Jeez, Ethan! Você está péssimo!
- S-sim... estou. Heh...
Encarando o próprio reflexo, contou sobre o acontecido para a mãe. Incomodava-se com o que via e o que ouvia de si mesmo. Naquela tarde nos corredores de Saint Clavier, pela primeira vez, havia narrado tudo para alguém. Sentia-se um fracassado, um idiota. E dessa vez não tinha como voltar atrás. Os olhos marejados fizeram-se presente. Após alguns minutos, a ligação havia chegado ao fim.
- Eu vou ficar com você sim, mãe... eu iria de qualquer jeito, lembra? Sim, eu sei.. obrigado. De verdade. Eu... precisava disso. Tchau. - desligando o celular, continuando a encarar o mesmo. Engoliu em seco. Precisava fazer alguma coisa com a própria vida que não fosse se lamentar. Buscou na lista de amigos, e finalmente tomou coragem para discar aquele número. Como era de se esperar, não demorou para que o outro atendesse: - Alô, Yure..? É, estou vivo. Heh. Quer jogar videogame hoje lá no meu quarto? Chama o Oliver e o Lui! - apesar da voz marejada, sabia que aquele seria um bom começo.
Raylan
[Uma verdade sob mil mentiras]
Era comum para Raylan, com seus contatos nos EUA comprar maconha sem grandes problemas. Tinha uma visão diferente da propagada pelos conservadores, que isso financiava o tráfico internacional, compra de armas de destruição em massa e coisas do gênero. Sabia com quem comprar, tinha uma ideia de onde vinha e, caso metade das conversas que escutava fosse verdade, a própria força policial fornecia as drogas em alguns casos. Esse tipo de assunto escandalizaria os moralistas, uma ótima forma de evitar perguntas sobre formação e namoradinhas, muito comuns em jantares de natal.
Sua nova morada havia se tornado um reality show de sobrevivência, não tinha mais seus contatos, nem seu dinheiro em abundância, nada era como antes. A necessidade realmente transformava o ser humano, se sentia o náufrago, sem o Wilson para dividir seus problemas mais íntimos. Como um sobrevivente, precisava se adaptar, isso o levou a ideia de cultivar seu próprio estoque de maconha, mas onde? Já tinha ouvido que o lugar mais óbvio, geralmente era o que seria procurado por último, afinal nenhum idiota colocaria algo onde qualquer um poderia ver, ora, se tinha uma coisa que o negão sabia ser com maestria, era ser idiota.
Um pouco de conhecimento de como cobrir seus rastros tecnológicos, obtido de seu amigo Nam-li, um pouco de pesquisa e testes, estava pronta sua horta. Dentro da academia, pesquisa nos computadores da escola, ferramentas e material das oficinas de arte, tinha se enturmado com uma quantidade grande de novas pessoas. Contatos iniciados devido aos conhecidos no grupo de poesias e literatura, no final, o vice governador presidente de St. Clavier tinha o auxiliado numa quantidade enorme de coisas no que viria por vir, mas jamais admitiria isso, nem sob tortura. Tinha após todo esse esforço e dedicação, feito um sistema de irrigação complexo e ramificado em meio aos laboratórios de botânica e estufa. Necessitava de contato mínimo após implantado, maximizando o crescimento, minimizando o esforço do cultivador... cultivador não, pai. Suas filhas estavam crescendo lindas e fortes, Bridget, sua primogênita estava crescida e formosa, Nicole era a mais nova, ainda estava ganhando suas curvas, mas notavelmente seria uma mulher forte e daria muito orgulho a seu pai. As outras irmãs, Sky, Jenny, Lucy, Nancy, Lindsay, todas filhas do meio, todas lindas, etiquetadas e radiantes. Nada poderia deixar um pai mais feliz. Sua mãe, tirando um detalhe moral ou outro, estaria orgulhosa de seu esforço.
Mas como sempre, a vida tem suas decepções, ao andar pela academia, o cheiro tomava conta do ar. Ao imaginar que tinham outros muitos com seus gostos, uma pequena felicidade preencheu seu coração. Mas tal sensação logo deu espaço ao desespero, uma dor no peito causada por um pressentimento ruim. Ao correr em direção as suas filhas, viu à distância o desespero se tornar realidade, foram levadas e brutalmente assassinadas! Covardes sem coração, monstros, essas criaturas não mereceriam perdão jamais.
Sabendo que nada mais poderia ser feito, por costume se dirigiu aos computadores da biblioteca, onde costumava fazer suas pesquisas. Pensando em suas filhas, uma tristeza tomou conta de seu coração, enquanto abria a aba anônima do navegador, tudo em modo automático. Dessa vez não teve o cuidado de prestar atenção nos arredores, antes que começasse a digitar qualquer coisa, o famoso aluno mais velho reclamão que cuida da biblioteca, apareceu do nada.
- Posso saber o que o Sr. pretende olhar na aba anônima, sr. Thompson? – Disparou ele, com disposição apenas pra reclamar, como de costume.
O susto de ter sido pego não deixou espaço para uma elaboração de desculpa, teve que dizer a primeira coisa que veio na cabeça.
- Pornô, meu tio, foi mal aí. – Se levantou e vazou rápido, aproveitando da perplexidade causada pela resposta direta.
* * *
Renaud
[“Efeitos e Danos colaterais” – Renaud, Deodatos]
Depois do acidente na cozinha do professor de gastronomia Renaud se sentiu jogado de um lado a outro sem ter muita escolha do que poderia fazer ou escolher para si. Machucado, sem entender como as coisas tinham se desenvolvido daquela forma, tinha passado tantas horas no Hospital que tinha perdido um pouco da noção de tempo, mas tinha chegado num ponto onde não conseguia mais evitar a própria família, e estava falando da família biológica. Por mais que Sasha fosse sua família por escolha, e estivesse por perto e bem ciente do que acontecia, não podia negar que Renaud ainda era um Blanco, e que estava ligado a ela não somente por questões financeiras e devia algumas muitas explicações. Depois da espera interminável para poder sair do Hospital no dia seguinte, Renaud só queria voltar para os dormitórios e se esconder no próprio quarto e dormir, se esconder do mundo e ter algum tempo para si, mas depois de recusar ir para a casa dos Blancos ou ir pra qualquer outro lugar que não fosse os dormitórios.
Já no seu quarto, e depois de tirar a roupa suja do hospital e tomar banho com dificuldade, o Blanco estava sozinho no próprio quarto, então o telefone tocou, reconheceu o número no visor, e não sabia o que era pior, receber ligações dela ou dele aquela altura. Mas sabia que não podia simplesmente ignorar, usou o dedo midinho que não tinha pomada e nem estava machucado, e atendeu a ligação no viva-voz:
-- Renaud, eu quero uma explicação lógica para você ter deliberadamente voltado para os dormitórios sozinho, estando do jeito que está. – Deodatos não parecia muito feliz pelo que podia ouvir do outro lado da linha, e o silêncio prolongado do moreno mais novo não contribuiu: -- Renaud! Você está aí ainda?
-- Estou.
-- Ouviu o que eu perguntei?
-- Sim… escutei sim…!
-- Então porque você simplesmente não foi pra casa do seus avós?
-- Eles não têm essa obrigação, Deodatos… isso é um problema meu…!
-- Como assim “problema seu”? – O som da voz saiu chiado como se o mais velho estivesse em lugar aberto e caminhando: -- Olhe, escute bem Renaud, geralmente eu lhe considero sensato o suficiente pra tomar suas decisões sozinho, mas dessa vez, eu não vejo sentido algum no que você está fazendo consigo mesmo. Você está machucado, e você é um Blanco, isso não é problema só “seu”, é uma questão da família.
-- É mesmo...? – O moreno mais passou as costas da mão no rosto, ainda sentido a região da palma da mão formigar e incomodar. E toda aquela conversa sobre ser “Blanco” e ser “família” só lhe deixava mais injuriado e estava começando a lhe aborrecer.
-- Não me tome por idiota Renaud. Eu já fui estudante desse mesmo internato no passado, eu sei como é o volume de trabalho, exatamente no mesmo Conselho. Primeiro, você passa dias sem atender o telefone, sem dar qualquer notícia, e falta os compromissos agendados da semana, coisa que não faz costumeiramente. Dias depois, me vem com respostas curtas e evasivas, nem preciso ser um gênio pra saber que deve ter faltado às aulas também. Você está um pouco velho pra ter acessos de rebeldia adolescente de novo, não acha? -- Deodatos parecia irritado, mas não estava esbravejando como sua mãe faria, em verdade, era a primeira vez que recebia qualquer tipo de comentário que se assemelhava a uma bronca, e não apenas uma cobrança por serviço. Mas o jeito como ele falava, como se fosse um ser onipresente em sua vida, ou mesmo como se tudo que fizesse na academia fosse exatamente igual ao que ele fazia, estava contribuindo para que ficasse mais irritado que só enjoado daquela conversa:
-- E você quer que eu diga o quê, Deodatos!?
-- Renaud. É você que tem que me dizer, eu não tenho como adivinhar sozinho…! -- o fato de Deodatos falar aquilo de forma tão lenta sem parecer muito irritado, deixou Renaud confuso e irritado. Porque diabos ele estava lhe fazendo perguntas agora? Justo agora? Será que alguém no hospital falou sobre os ansiolíticos? Se ele sabe porque não pergunta de uma vez? Estaria fazendo joguinhos de Blanco consigo? Com seu próprio filho?
-- Eu não sei Pai! Eu não sei o que você quer ouvir de mim! E sendo bem sincero não sei porque você está me ligando pra fazer esse monte de perguntas!! O que aconteceu ontem foi uma porcaria de acidente! Entende!? A-ci-den-te! Ou você acha mesmo que eu ia queimar minhas mãos de propósito pra passar mais dias sem conseguir fazer o que tem pra fazer? Enfim... Se for só pra cumprir a cota, pra ser um “Bom Blanco Pai”, não precisava me ligar…!
Houve silêncio do outro lado da linha, apenas o chiado do vento, nada de passos, como se o mais velho tivesse parado no meio do caminho. Renaud sentiu o estômago revirar e o amargor lhe subir pela garganta até o estômago, o coração acelerado. Não iria estranhar se ele só desligasse o celular, ou use ele esbravejasse de volta, mas aquele silêncio enquanto esperava na linha era uma tremenda porcaria.
-- Você mesmo respondeu sua pergunta, eu sou seu Pai! – houve uma curta pausa apenas no que dava pra ouvir um suspiro profundo do outro lado da linha: -- Se quer mesmo resolver tudo sozinho, isso é uma escolha sua, mas isso não anula o meu lado de querer saber o que está acontecendo mesmo assim.
-- ...! – Renaud não respondeu porque não sabia o que queria responder, estava irritado e cansado, e não sabia como lidar com essa preocupação repentina.
-- Tente se cuidar, e pense numa resposta menos malcriada para dar a sua mãe quando ela lhe ligar para fazer as mesmas perguntas que eu fiz. – Dito isto Deodatos finalmente encerrou a ligação do seu lado.
Sabia que não era uma coisa, que era uma pessoa, mas estava acostumado demais a ver as ações dos outros para si, como se fosse apenas um objeto. Mas ainda estava em processo em perceber outras forma de tratamento das pessoas para si, certamente que a forma como seu pai tinha agido era muito diferente do que estava acostumado. E não tinha qualquer noção de como interpretar aquilo, ou mesmo de como reagir aquilo.
Tinha de dormir, descansar, falar com Dr. Vlahos sobre os medicamentos, provavelmente mudar o que estava tomando e pensar em algo menos “malcriado” para explicar a sua mãe. Em verdade não sabia se queria dizer tudo o que estava acontecendo ou se não queria dizer nada. Ela poderia simplesmente não ligar e dizer que ele mesmo se virasse com os problemas que tinha arrumado, mas se ela tentasse cuidar e se preocupar consigo? Não tinha ideia do que fazer ou como reagir. Estava tudo confuso, e sentia dor de cabeça e sono, muito sono, dormiria e pensaria na bagunça de sua vida quando acordasse.
* * *
Katrina
[“Devaneios” - Katrina e Yure (uma pequena reflexão)]
Descobri que não sou quem eu de fato gostaria. Tenho me frustrado por pouco, muito pouco. Mas sinto que a arte não me apetece tanto quanto antigamente. As mesmas dúvidas, a mesma rotina. Minha vida tem sido uma mesmice atrás da outra. Sinto falta de me cansar, de fazer coisas novas. Já vejo alguns fios brancos, então... seria essa sensação fruto da velhice chegando?
Sigh. Cheguei cedo demais na escola. Botei meu melhor sorriso, e conversei com minhas colegas. Sempre é bom fazer a Magali corar, ou perguntar sobre o homem da vida da Desireé. Ainda assim, "small talk" faz parte do meu cotidiano. Sou a professora legal que ajuda as alunas e as observa. Dou dicas sobre tudo. Que conversa sem desfazer o sorriso despreocupado. Essa máscara é cansativa demais!
Cheguei em casa. Preparei o jantar, tomei um banho relaxante. Decidi lidar com minha vida tedio--
- MANHÊ! Não esqueça que seu filho 'tá em casa!
Nossa! Ele tem razão... minha vida não tem nada de tediosa. Graças a um certo ruivo que traz agitação aos meus dias.
- Você tirou o gesso da perna? É isso?
- Hehe! só um pouquin--
- Vou pegar a chave do carro. Vamos engessar essa perna agora, menino! Tá pensando que eu aguento outra daquelas?
Eu sempre aguento. Eu sei, porque não é a primeira vez e nem vai ser a última que eu repito isso. A repetição com esse moleque é constante, mas... dele, eu não me canso.
Maldita TPM.
* * *
Raylan
[“O não já tem, só vai buscar.” - Raylan, Leona]
Bons frutos vêm para bons profissionais, eles disseram. Boas coisas vêm para os que trabalham duro, eles falaram. Então, Raylan se perguntava como raios ele que fugia sempre da polícia tinha agora, entre suas orientadas da academia justamente uma policial. A parte boa era que isso tinha, estranhamente, dado a ele uma boa moral dentro da academia. Aparentemente ninguém jamais recebeu nem um regular na avaliação, ao contrário do negão, que passou com louvor na prova de fogo.
Isso logo lhe rendeu muitas piadas, repreendidas veemente por ele. Não que fossem sem graça, mas caso Leona sequer sonhasse com alguma gracinha envolvendo o rapaz, bom, sua família teria todo um problema de transporte no caixão, ou não né, podia caber num potinho após cremado.
Foi feito um bolão, apostando o quão rápido o jovem estaria desfalecido caso convidasse sua algoz para sair. Raylan negou, era um homem que conhecia seus limites, sabia bem que era esse tipo de imbecilidade que fazia com que ela não gostasse de nenhum dos instrutores. Só mudou de ideia quando disseram que ele ficaria com o dinheiro, no caso de não apanhar, ser preso, ou simplesmente levar um não. Bom, nesse caso as possibilidades eram boas, uma aposta com possibilidades infinitas e poucas regras de como ser feita. Parecia dinheiro fácil, ou uma morte rápida.
Num jogo de basquete de rua, enquanto dava uma surra nos companheiros de academia, coincidentemente numa das rondas de domingo, Leona passou. Dirigiu-se até ela, após dar uma enterrada, chamou ela para jogar, sussurrando que era uma boa oportunidade de dar uma surra nos instrutores meia boca, que fizeram raiva para ela. Claro que ela negou. Em seguida, chamou ela para ver Lakers vs Knicks, seria no mesmo dia de noite, tinha um bar para ver os jogos, mas ele prometeu tomar só suco.
- Vai ser como ver o jogo e True Detective ao mesmo tempo, já que você vai tar lá, olha só. – Disparou o rapaz, sabendo que ia levar um não, além de provavelmente ela não fazer ideia do que ele estava falando.
A loira estava prestes a recusar, mas ao perceber que Carissa estaria acampada na frente da tv justamente por conta desse bendito seriado que, diga-se de passagem, não fazia o menor sentido em termos de investigação de verdade, respondeu, bem a contragosto, quase com postura de derrota. – Pode ser.
- Sabia, pera, pode?!
* * *
Renaud
[“Ombro Amigo” - Renaud, Isaac]
Parecia que depois do incidente na cozinha do professor Funske, tinha acendido a luz amarela de atenção da família Blanco sobre sua pessoa, tinha recebido aquela ligação do próprio pai, e tinha recebido mensagens das tias e tios. Era mais atenção do que tinha tido por todos os outros anos na academia e justamente em um momento que menos queria ter esse tipo de atenção sobre si. Realmente não queria? Pensou consigo mesmo porque sua mãe ainda não tinha lhe ligado, e aquilo gerava uma sensação dúbia, ao mesmo tempo que estava feliz por não ter que dar explicações a ela, em contrapartida, se sentia ansioso pra saber se ela teria uma reação adversa, que aparentasse preocupação.
Naquele dia conversou um pouco com Sasha antes das aulas e depois das mesmas, não podia assistir estava liberado porque as queimaduras ainda eram sérias o suficientes para lhe deixar sem possibilidade de escrever. Almoçou cedo, e trocou mensagens mais devagar do que o costumeiro por só ter os dedos mindinhos úteis para digitar, enviou uma mensagem para o secretário e amigo, perguntando se podia tomar um pouco do tempo dele. E tão logo teve aprovação, escapuliu do próprio quarto para o do moreno mais velho. Estava usando calças folgadas de elástico, e regata, porque não podia cobrir as mãos, já estava usando algumas bandagens mas apenas para não deixar a área completamente exposta.
Isaac ainda tomou tempo checando os curativos, antes de lhe liberar espaço no próprio quarto, estava começando a achar o ambiente sóbrio do quarto do amigo extremamente aconchegante, talvez porque já tivesse edificado com certeza em sua mente, que o tinha como um amigo em quem confiar:
-- Ainda tenho um livro para fichar. E essa semana eu volto para o trabalho na delegacia. Então tenho de sair as 17:30h para estar lá às 18h em ponto. -- o mais velho lhe avisou com o tom sério e sóbrio de sempre:
-- Eu não vou atrapalhar, você sabe Zac… -- confirmou aproveitando que isaac estava deitado na própria cama, e se deitou do lado, buscando apoio para cabeça no corpo de Isaac: -- Quando você for sair, eu volto pro meu quarto…-- talvez o secretário não soubesse, mas ele tinha um bom toque para afagos, talvez algum dia dissesse isso a ele, ou talvez ele já soubesse, acabou divagando enquanto sentia o toque sobre os fios escuros.
Enquanto divagava perdeu completamente a noção de tempo, ultimamente estava mais dificil se atentar a nuances de passagem de tempo, mas certamente naquela tarde tinha se deixado perder completamente. Tanto que, o que pareceu ser poucos instantes o moreno estava lhe alertando que precisava sair:
-- hmm…!?
-- você dormiu?
-- talvez…! -- era algo novo, não costumava dormir perto de outras pessoas, mas se tinha feito, isso era algo bom? Deu espaço para que o mais velho se levantasse, enquanto bocejava preguiçoso, usando as costas da mão para cobrir a boca. Não prestou tanta atenção no que o moreno mais velho lhe avisou, mas acenou positivamente concordando com tudo.
Aquilo era uma novidade para dividir com o Dr. Vlahos certamente, era algum avanço não era? Queria acreditar que sim.
* * *
Annica
[“Noites Mal dormidas” - Pietro e Annica]
Depois do susto com Pietro e uma noite mal dormida no hospital, ainda não tinha entendido porque tinham atacado seu namorado, e parecia que quanto mais conversava com ele, mais incomodado ele ficava com a situação. Naturalmente, ele devia estar tão confuso quanto a si mesma, mas era algo que lhe revoltava por dentro, porque pessoas estranhas causavam esse tipo de mal aos outros? Será que não percebiam o mal que faziam a vida das outras pessoas, não importava o quanto pensasse apenas conseguia ficar com dor de cabeça, talvez fosse efeito da noite mal dormida no hospital somada a preocupação.
A verdade é que tinha dito a Pietro que lhe acompanharia em casa por alguns dias, já que o mesmo tinha dificuldades para se movimentar com o colar cervical, além da dificuldade notória de falar e engolir. Tinha seus benefícios em ser uma quartanista organizada, e podia tirar uns dias de folga, já que era uma situação de saúde. Mas a verdade é que aquele ambiente de “casa”, lhe deixava um pouco “triste”, porque tinha aquela sensação de que muita gente já morou ali, e agora era só o Pietro em uma casa grande.
Não era necessariamente difícil tomar conta de Pietro, até porque ele era bem acostumado a cuidar de si mesmo e de outras pessoas, em verdade era difícil deixá-lo quieto sem tentar fazer algo em casa. E para sua surpresa, embora toda essa situação de ataque, lhe remetesse a memórias bem ruins de seu passado, não conseguia ter medo de Pietro, por estar apenas com ele dentro daquela casa, em verdade sentia, que ele era mais vulnerável que ela.
Principalmente durante a noite, quando ele estava inquieto, falando sozinho, e acordando assustado e choroso, não tinha ideia de quão fundo eram os machucados nele, mas toda noite mal dormida por cuidar do moreno mais velho, sabia que queria cuidar dele mais, que ele precisava de si. E isso lhe deixava num misto de sentimentos, queria poder arrancar aqueles medos dele, mas tudo que podia oferecer era o alento de seu abraço. Queria poder fazer mais, mas era apenas uma, porém, a albina bem sabia o que era ter suas noites tomadas por terrores de memórias ruins, no entanto, também sabia que isso mais cedo ou mais tarde passava.
E estaria ali por Pietro para passar as noites ruins e esperar as noites boas.
* * *
Max
[“What's up danger? - diary edition” - Max]
"Nem sempre seguimos os nossos sonhos. Nem sempre seguimos eles com nossas próprias pernas - talvez com nossos braços! Parece loucura o que estou dizendo, eu sei, até entrar no ditado "trocar os pés pelas mãos". Pensamos que nada de ruim vai nos acontecer, que sacrifícios serão fáceis de encarar... por isso nem sempre conseguimos entender o que a vida nos reserva.
Em Cerise as coisas tem sidos complicadas. Nessa cidadezinha pacata, o crime parece ter aumentado. Continuo me preocupando com os meus, em especial com a mulher que me deu uma segunda chance e a garota que roubou minha atenção. Ela não sabe ainda disso, sou uma merda com romance. Mas recentemente mostrei meu afeto de uma forma bastante peculiar. Quase parei atrás das grades novamente, mas... serviu para que nos conhecêssemos um pouco mais. Yey!
O que estou querendo dizer é simples: decidi ficar mais forte. Treinar mais. Nunca se sabe quando vou precisar esmurrar um gordinho novamente, certo? Heh. Brincadeiras a parte... muita merda tem acontecido. E preciso ficar forte para não permitir que nada de mal aconteça com a dona Fleur, Arman, Carbella, Clementine…”
- Não acha que está velha demais para escrever em um diário nos fundos da padaria, Max? - perguntou em um tom surpreendentemente divertido, embora mantivesse a rigidez no semblante.
- Ah, foi mal! Vou voltar aos meus afazeres, Fleur.
E a ruiva fechou o caderno, deixando-o ao lado das luvas de boxe. Treinaria depois do expediente e quem sabe, passaria na casa da outra ruiva, a cereja, para ver como ela e sua irmãzinha estariam. Seria bom aproveitar um pouco da paz que ainda viviam.
* * *
Annabelle
[“Memories”]
Ele foi o rei do meu mundo, e senti meu mundo ruir quando ele partiu. Me vi sozinha, mesmo estando cercada de pessoas que eu sei que me amam verdadeiramente. Mas sorria, era gentil. Precisava fazer jus ao sobrenome que me foi dado e a memória do homem honesto que todos lembravam. Acredito que fiz meu melhor. Mas o buraco permanecia.
Um negócio a mais para aumentar meu patrimônio e uma responsabilidade que eu jamais imaginei que teria. Fui incubida de cuidar de uma criança... aceitei. Passei então a amá-la como se fosse minha. Uma criança difícil, mas que com o tempo, se permitiu ter outra família. Com a ajuda inusitada de um mágico, de um professor e de vários outros adultos, a criança fechada que sentia-se abandonada foi se abrindo mais e mais. E meu mundo, ficando mais colorido.
Até aquele fatídico dia...
(continua. Preciso ler e conversar sobre a morte da Adelaide)
* * *
Jack
ie[“Uma vida pós-Cerise” - Jackie]
Solidão. Talvez a palavra mais marcante na vida de Jackelinn fosse essa, após sair de Cerise. Desde sempre enquanto vivia com a família, ao menos até onde conseguia se lembrar, se sentia solitária e tinha consigo apenas a própria companhia. Sempre se perguntou sobre como era ter muitos amigos, sair, ir para festas e ser uma garota normal como qualquer outra. Hah, normal. O que era a normalidade? Num mundo recheado de tantas diferenças... Ainda assim, quem tentava sair, mesmo que um pouco, da tão desejada normalidade acabava excluído no mundo. Jackelinn, infelizmente, era uma dessas pessoas, mas não por escolha e sim por circunstância. Sentiu uma vez o gostinho de fazer o que amava, de ter novos amigos. Ter uma mulher adulta como exemplo do que almejava ser. Tudo isso lhe foi tomado.
Agora aos 17 anos tornou-se uma garota com poucos ou nenhum amigo, para ela não havia expectativas naquele sentido também, mas durante aqueles anos solitários de vida antes da Limoges-Collet aprendeu a se virar como podia. Talvez seus melhores amigos, naquele momento, fossem os livros. Era neles que encontrava paz quando explorava mundos diferentes, vidas que não eram suas e mal percebia as horas passando. Devorava cada página, cada vida, história como quem se agarrava à única linha que lhe prendia ainda a estar viva e nem mesmo as dificuldades que tinha em interpretação foram capazes de se opor ao desejo que tinha de ler e se sentir parte daquelas narrativas. Na verdade, talvez fizesse parte delas. Sim, cada herói ou heroína daquelas histórias se sentia solitário assim como ela, cada um deles via o mundo girar e o tempo passar diante de seus olhos sem que pudessem fazer nada de início. A vida de Jackie agora era assim, mas diferente daquelas narrativas, seu momento de heroísmo ainda não havia começado, então o que podia fazer? Às vezes se perguntava se era possível sentir um pouco daquele gostinho de vivenciar uma experiência épica, chocante ou até mesmo lendária. Bom, claro que aquele era um ponto de vista seu a respeito daquelas histórias, não havia nada de épico nelas de fato ou fantasioso, mas era nelas que se inspirava, de onde tirava um pouco de esperança para seguir em frente e criar, quem sabe um dia, um final feliz para ela mesma.
- Senhorita Brodskaya, seu professor de violino chegou.
- Já estou indo... - respondia à criada, com uma voz morta que suas antigas amigas desconheciam.
Lembrou-se enfim das amigas. Uma luz de esperança se acendeu em seu peito, e um discreto sorriso se mostrou. Encarou o violão que estava guardado na case, e encarou o computador. Naquela noite, não teria nenhum compromisso chato. Talvez fosse o momento certo para voltar a sorrir e a planejar o próprio futuro. Uma vídeo-chamada não faria mal a ninguém, certo?
* * *
Isaac
[“Lavando os pratos” - Isaac, Renaud]
Nos últimos dias, desde a sua saída com Renaud e Sasha, tinha e tornado um pouco mais usual conviver com Renaud dada a condição atual do vice presidente do Conselho estudantil, mais ainda diante do fato de que tinha mesmo terminado o relacionamento com Ethan. Não se sentia tão mal quanto antes, mas era bom ter uma companhia a mais e, principalmente, se sentir útil para alguém… mesmo que aquele alguém fosse Renaud, que usualmente não precisava de suporte.
Por isso não tinha problema em fazer companhia para o moreno no tempo livre, fora da sala do conselho e fora da sala de aula. Naquela noite de sábado, tinha o acompanhado na cozinha dos dormitórios para fazer algo diferente para o jantar. Nada complicado, só algo que os tirasse do quarto e da mesmice de sempre.
Renaud ficou responsável pelo preparo da comida e o auxiliou no que era possível. Antes mesmo de se servirem, enquanto o prato ficava pronto, o Blanco começou a arrumar a bagunça da pia e à medida que lavava os pratos, Isaac começou a enxugar e devolvê-los ao armário. Mas parou o que estava fazendo ao notar o modo como Renaud colocava os pratos no escorredor e o modo como colocava os talheres para secar. Antes que pudesse guardar os pratos, começou a ajustar os pratos alinhados no espaço certo e principalmente inverter a posição dos talheres, deixando os garfos e facas com pontas para baixo e colheres para cima. Aquilo não pareceu ajudar e Renaud continuou colocando tudo de qualquer jeito.
- Chega, eu cuido disso. - ele disse, empurrando o Blanco para o lado para tomar o lugar dele terminando de lavar os pratos. - Você termina a comida.
* * *
Karen
[“Promessas de família” - Karen, Pietro]
Com a dor do ferimento mais recente amenizada, as inquietações na cabeça de Karen continuavam lhe perturbando. Tinha dormido na noite anterior meramente por exaustão, afinal, já não era tão novo para aguentar um ferimento em que a bala tinha continuado alojada em seu ombro por mais de horas. A dor e a perda de sangue lhe deixaram indisposto, mas acordou no apartamento do agente funerário antes do dono, saindo de lá como se nunca tivesse estado no local, exceto pela porta de entrada destrancada.
O ferimento tinha sido tratado parcialmente, com alguns analgésicos pelos próximos dias, logo aquilo se tornaria apenas uma cicatriz a mais. Mais incômodo do que a dor do ferimento que poderia facilmente inflamar por seu descuido, ainda estava inquieto por saber que seu irmão estava vivo, que estava em Cerise e que quase o tinha matado. Era um assunto não resolvido e não gostava de deixar seus problemas pela metade. Mais do que aquilo, sentia-se na responsabilidade pelo mais novo, agora que o tinha encontrado depois de tantos anos, como conseguiria consertar aquilo?
Do apartamento do agente funerário, voltou para um albergue em que já tinha se hospedado mais de uma vez, buscando em seus poucos pertences as informações que já tinha recolhido sobre o irmão na vida nova dele. Encarou os dados do endereço dele por alguns instantes, a informação decorada, para decidir ainda o que fazer.
O incômodo no ombro lhe impediu de sair logo do quarto alugado. Comeu qualquer coisa da loja mais próxima e se rendeu ao descanso forçado apenas porque tinha passado muito tempo sem descansar direito. E precisava organizar os pensamentos antes de fazer qualquer coisa… e não sabia o que fazer ainda. Apenas em meio àquela confusão, de desarmou de todos os acessórios que costumeiramente andava, um tanto receoso dos próprios movimentos se encontrasse de fato com o irmão de novo.
Mas antes mesmo de decidir se queria ou não reencontrá-lo, o que exatamente queria fazer, se pegou parado próximo à residência em que ele morava com o avô adotivo antes dele falecer, situação que tinha lhe colocado com ele no mesmo lugar tão convenientemente. Se fosse uma pessoa que acreditava em mais do que os próprios punhos, podia começar a admitir aquilo tudo como carma. Não o tinha encontrado em vinte anos, por que agora?
Ficou encarando a residência sabe-se lá por quanto tempo. Já tinha passado tempo suficiente para perceber as pessoas começando a lhe encarar estranho, até porque era uma área residencial em que todos deviam se conhecer. Mas não saiu do local e não reagiu aos olhares estranhos com os quais estava tão acostumado, ao menos não até avistar uma jovem de pele muito pálida e cabelos esbranquiçados saindo da casa.
Não fazia ideia de quem era a garota, mas o seu instinto de atuação foi mais rápido ao se mover na direção da casa como se agora tivesse certeza de que não haveria mais ninguém em seu caminho. E por que razão estava se movendo tão furtivo na esperança de que pudesse encontrar Pietro sozinho? Os dedos formigaram como se quisesse buscar a faca que estava na cintura, mas encontrou o cós da calça desarmado, o que lhe trouxe então uma vaga sensação de alívio.
Mesmo para alguém do seu tamanho, os anos tinham lhe ensinado a ser bastante discreto e silencioso. Entrou na casa sem fazer um barulho sequer, circulando os cômodos principais com o olhar atento e uma sensação nova do coração acelerado. Era estranho sentir aquela mudança nos batimentos, porque em geral, não dava conta deles ali, e em geral, eles não eram tão barulhentos. Mas parou de andar exatamente quando encontrou a porta para um dos quartos da casa, entreaberta, avistando o rapaz de cabelos pretos bagunçados de costas, arrumando alguma coisa sobre a cama.
Ele parecia bem. Parecia… vivo. A sensação de estranhamento foi tamanha que não prestou atenção ao empurrar a porta de leve e ouvir o barulho da mesma. A reação dele foi imediata, virando-se um tanto despreocupado.
- Esqueceu alguma coisa, Ann--?
Pietro congelou no mesmo momento em que se virou para conferir se o barulho tinha sido causado por uma Annica que tinha esquecido algo antes de sair de casa. As reações do rapaz foram rápidas, mas aos olhos de Karen, pareceram demorar longos minutos, desde o movimento de se virar até associar a presença estranha - e perigosa -, para arregalar os olhos de leve e tropeçar para trás, derrubando um abajur de um criado-mudo no processo.
Karen não se moveu além de onde já estava, também não abriu a boca para falar qualquer coisa, incapaz de raciocinar o que exatamente tinha ido fazer ali. Foi tempo suficiente para analisar a expressão de puro pavor no mais novo, ao tentar se afastar, os olhos vidrados lhe encarando enquanto prendia o ar e fechava a mordida com força. Era possível até vê-lo estremecer ao pressionar a mão com tanta força contra o móvel em que se apoiava. E não deixou passar despercebido as marcas vermelhas que estavam começando a suavizar no pescoço, imagem que lhe causou um desconforto ainda maior do que imaginava ser capaz de sentir.
- O q- v-- n--
Todas as tentativas de falas de Pietro foram cortadas em meio ao desespero. Mas só quando ele pareceu associar a presença que estava ali e a pessoa que tinha acabado de sair foi que conseguiu reunir forças para se mover. E o movimento dele foi igualmente rápido. As mãos impulsionaram o corpo para frente e ele não hesitou em alcançar Karen ao cruzar o espaço pequeno em apenas dois passos, agarrando a camisa dele com tanta força que seria capaz de rasgá-la.
- A Annica… o-o que fez-- c-com ela?!
Karen encarou a expressão de desespero de Pietro, segurando-lhe a roupa com força suficiente para os dedos ficarem com as juntas brancas. Não sabia como falar com ele, mesmo que a resposta fosse simples. Antes de pensar em algo para responder ao rapaz de estado alarmado, ele mesmo puxou mais sua camisa, fazendo com que Karen atentasse para os olhos lacrimejando.
- Onde ela está?! O que você fez?!
Já tinha visto aquele tipo de reação de seus alvos mais de uma vez. Pietro realmente se importava com a garota, o que era um tipo de sensação que ele mesmo devia ser capaz de entender também, se ainda se importava tanto com a família… o que restava da família e que tinha acabado de descobrir vivo.
- Ela está bem. - Karen respondeu finalmente, notando o suspiro longo de alívio que não anulava completamente a expressão de medo nos olhos dele.
- Não a machuque… - Pietro afastou as mãos da roupa dele finalmente, dando um passo para trás tentando se manter o equilíbrio, ainda consternado com a ideia de que Annica tinha saído dali e poderia não voltar por culpa sua. - faça o que quiser comigo, mas…
- Não cheguei perto dela.
A reafirmação de que a garota estava bem pareceu atingir Pietro finalmente. Ele pareceu que ia cair sobre as pernas por um instante, mas conseguiu se manter de pé, recuperando o ritmo da respiração.
- O que quer comigo?! Veio continuar o que começou? - ele tentou colocar alguma firmeza nas palavras, mas até aquele tipo de reação já era infelizmente comum aos ouvidos e olhos de Karen, que notou as mãos do mais novo se fechando com força. - Por favor, eu não quero morrer…
A observação contínua dos trejeitos de Pietro só confirmavam como o que tinha acontecido deixara o outro completamente em guarda. Se pretendia consertar algo, era impossível. E observando o rapaz, as marcas vermelhas no pescoço dele, a cicatriz que estava no rosto do agente funerário… tinha mesmo esperado que alguma coisa pudesse ser diferente? Afinal de contas, tinha vivido sozinho aquele tempo todo, e a sua vida era ideal para ser vivida sozinho. Pietro estava morto anos atrás, devia continuar morto em sua cabeça.
Mas o assunto ainda era inacabado.
- Desculpe. Por não encontrar você todos esses anos. Eu devia ter cuidado de você.
Aquelas palavras não poderiam consertar o que tinha feito, é claro, mas foram o suficiente para que Pietro ficasse momentaneamente sem palavras.
- Você se saiu bem sem mim. Estou… - procurou alguma palavra para definir o que achava que estava sentido, o que demorou mais do que esperava. - feliz que esteja vivo.
De novo, encarou a expressão de confusão em misto com pavor. Ele respirou fundo, enquanto Karen assimilava as próprias palavras e reações alheias.
- O que… você quer de mim?
A pergunta num fio de voz fez com que Karen pensasse em um milhão de respostas que não se enquadrariam no que queria de fato do rapaz. Queria que ele fosse sua família de novo? Queria fazer o que tinha prometido ao seu pai e proteger a sua família? E quem disse que ele precisava de seu apoio ou proteção? Estava bem melhor sem sua presença.
- Nada. - respondeu, inclinando o rosto levemente para o lado para se certificar que não tinha ouvido nada demais. - Não vou mais entrar no seu caminho. - deu um passo para trás, parando no portal de entrada do quarto. - Sinto muito… por tudo.
O gesto para sair do quarto foi tão rápido quanto os passos que lhe levaram até a casa desavisado. Mas pela primeira vez, estava se sentindo mais leve. Foi necessário apenas sair do campo de visão de Pietro para que o rapaz caísse sentado no chão frio, sem a menor força nas pernas. Enquanto saía da casa a passos rápidos, ainda avistou mais uma vez a jovem albina que estava retornando para a casa, daquela vez, ela parecia ter notado a sua presença que não era nada discreta.
Não se importou de ser visto. O assunto estava resolvido, por fim. Mesmo que a sensação ainda fosse incômoda ao deixar a casa com um rapaz que sequer tinha o nome do qual lembrava.
* * *
Enzo
[“Louva-a-deus” – Enzo, Talulah]
- O que deu para ele, Enzo? – ela perguntou assim que fechou a porta do quarto onde tinham deixado Nathan, encarando longamente o dono da pousada.
- E-Eu dei um calmante para ele, mas era só para deixá-lo mais tranquilo, não dopado. São os calmantes que eu tomo. Eu esqueci de avisar a ele pra não misturar com álcool, pois dá um efeito rebote. – respondeu com uma tensão óbvia nos ombros.
- “Esqueceu”?
O som suave da voz dela lhe fez gelar por dentro, pois de todos os detalhes que tinha dado, ela destacou esse. Podia sentir que estava prestes a ser mordido na jugular, e sua predadora estava em uma posição bem propícia. Talvez pela primeira vez em sua vida estivesse tremendo só de encarar uma mulher.
- Que memória a sua, não é mesmo? Esquecer de avisar ao rapaz, nervoso com o encontro, que deveria evitar misturar álcool e calmantes? Que deslize, Enzo. Espero que não tenha sido proposital. – Talulah adicionou, vendo Enzo franzir a testa. Ele até sabia que era baixo, mas não tanto assim para se aproveitar do rapaz drogado. Entretanto, não tinha coragem de abrir a boca para se defender, e apenas sacudiu a cabeça em negação. – Que o efeito do álcool e do calmante não causem nenhum mal a Nathan. Pretendo dar uma terceira chance a ele de um encontro, e de preferência, o quero completamente sóbrio. Se algo acontecer a ele hoje, me deixe saber depois de amanhã na paróquia de Cerise. Estarei lá o dia inteiro. Se nada acontecer, mande ele me encontrar lá depois de amanhã. Estamos de acordo?
- É... é-é só isso? Pelo jeito que você me olha... achei que estaria mais p-preocupada... – Enzo franziu a testa, porque o comportamento defensivo dela quando lhe viu e cuidadoso com Nathan não combinava com o rumo da conversa dos dois.
Porém Talulah apenas deixou o canto dos lábios se curvarem de leve.
- Não. Não preciso. – ela respondeu com calma. – Pois você está perfeitamente ciente de que vou atrás de você se qualquer coisa acontecer com Nathan. Se algo acontecer e você não me avisar, sei seu nome e onde mora. Se Nathan não for me ver depois de amanhã na paróquia, sei seu nome e onde mora. Então um dos dois vai aparecer. E se não aparecerem, dois dias não são suficientes para que eu não possa te alcançar se decidir sair da cidade, ou algo semelhante. Mas certamente você não vai. Afinal, eu estou preocupada.
Enzo engoliu em seco, pois o tom dela não parecia uma ameaça, e algumas palavras delas não pareciam ameaças, mas tudo na postura dela e na escolha cuidadosa e não de palavras certamente berrava que aquilo era uma ameaça. O dono da pousada levou a mão até a camisa, segurando firmemente na região do peito.
- Mademoiselle... ele é um bom rapaz... por que ele? – questionou antes até mesmo de pensar, vendo nos traços delicados e na cor púrpura dos olhos dela perfeitamente a espécie a que ela pertencia. – Todo o respeito a você, mas por que predar um garoto tão estúpido?
- Por que não? – ela respondeu sem esclarecer necessariamente qual pergunta, enfim indo até a saída. - Conto com você, Enzo.
Fazia algum tempo que Enzo não jogava a presa direto nas garras do predador. Estava decepcionado consigo mesmo, mas ao mesmo tempo, se sentindo sortudo por ainda estar vivo.
Charles
[Silenciando por um ano]Nos últimos meses, a vida social de Charles estava tão ativa que ainda causava certa estranheza no loirinho. Havia conhecido mais pessoas novas graças a Yure, o que não era algo ruim, mas também não era 100% bom o tempo inteiro.
Um dos momentos que Charles sabia que havia conhecido mais pessoas nos últimos meses do que nos últimos 5 anos, foi quando sua caixa de mensagens do What's App estava com pelo menos umas 300 mensagens não lidas, e elas não vinham de apenas uma pessoa, mas dos diversos grupos que estava inserido. O cadeirante estava largado na cama, entediado, porém sem a mínima paciência de ler todas aquelas mensagens que haviam chegado.
Estava passando o olho rápido, tinha mensagens do Yure, falando mais sobre os ocorridos na academia. O grupo de basquete, mandando videos engraçados, alguns memes e marcando a próxima partida entre eles. Monique enviava links de alguns celulares que ela pensava em comprar e pedia a opinião pessoal do loirinho sobre qual modelo deveria comprar. E surpreendentemente, Lyss era um dos poucos contatos que não estava em um grupo e estava com muitas mensagens, que variavam de vídeos de competição, lugares onde ele estava comendo, selfies... ONDE ELE HAVIA DADO ESSA INTIMIDADE?! Apenas passou o olho rapidamente nas mensagens, ignorando completamente as fotos, e percebeu que no fim, o número de mensagens não havia diminuído.
Era irritante ter tantos contatos.
O loirinho mal-humorado se sentou na cama, e passou a silenciar todos os contatos pelo restante do ano, e colocou todas as mensagens como "lidas". Bufou depois de ter terminado o seu trabalho árduo e deixou o celular de lado, puxando o controle do videogame e ligando a TV para jogar alguma coisa.
Conhecer muitas pessoas era chato, e não sabia como Yure tinha paciência para isso.
* * *

