Indigno [Renaud, Didier, Robespierre]
#1
Borrado. As coisas estavam todas borradas, parecia que não tinha de fato ocorrido, e eram coisas ditas sobre os outros, não que estava vivenciando aquelas experiências. O dia já caia e a noite era úmida e salgada em Cerise, não sabia se pela proximidade com o mar, ou pelo fato das lágrimas terem secado no rosto do moreno.

Um carro luxuoso tinha ido buscar o jovem Renaud Blanco no internato de St. Clavier, não tinha respondido as mensagens de celular, pois não tinha mais um, tinha estourado o aparelho no chão durante seu surto de raiva, e desde então todas as suas memórias eram um borrão.

Podia dizer que a única coisa que sustentava sua sanidade era a conversa que tinha tido com o psicólogo e o apoio incondicional de seu frater e de seu namorado. Mas até disso tinha sido privado ao ser levado da Academia para “casa”.

Queria ter sido acompanhado por Didier até a residência dos Blancos, mas houve resistência do assessor de seu pai, que disse em claro e bom tom que era “assunto de família”, ou seja, não tinha espaço para amigos. Quem em sã consciência e que se importa com o emocional dos outros, afastaria amigos em um momento de luto? Ele mesmo não conhecia tão bem a família Blanco a ponto de saber que a última coisa que se esperaria daquele lugar era “apoio emocional”.

Mas Renaud talvez estivesse apenas desacostumado à realidade, que a maior preocupação agora não era velar a morte recente de sua mãe, mas sim manter a integridade dos Blanco diante do ocorrido. Evitar fofocas de porque Beatrice estava indo e vindo entre Paris e Cerise fora de sua agenda, omitir os machucados e acidentes recém ocorridos com o filho mais velho de Deodatos. Porque a “saúde da família” era mais importante do que o estado emocional de qualquer indivíduo isoladamente.

Renaud apenas seguiu, sendo empurrado para o carro, depois para dentro da mansão, pessoas indo e vindo, sequer se deu o trabalho de falar com qualquer um deles. A casa da família Blanco em Cerise, era um símbolo de austeridade, um casarão antigo reformado para ser sede e palco de eventos sociais de grande porte, claro que todos os membros seriam chamados pra se reunir ali.

Apenas foi guiado pelo fluxo, para se trancar no quarto, no primeiro andar, com pequena varanda, e trepadeiras que careciam de corte. Era um dos cômodos que tinha usado poucas vezes no passado, não era diferente de um quarto de hotel bem arrumado. Limpo, genérico, totalmente superficial, não lhe representava nada, assim como sua própria "família".

O moreno se jogou sobre a cama, sem tomar banho, sem conversar, sem saber em quantas andava o velório.

Não queria pensar sobre existir.

Não queria nada.
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Indigno [Renaud, Didier, Robespierre] - by Renaud - 01-09-2023, 12:55 PM

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