Julgando a vida alheia [Diodoro]
#13
Ocupou-se em passar mais geleia e queijo nas bolachas salgadas de aperitivo, dando de ombros e olhando para o amigo descrente de que ele não sabia do que estava falando.

- Telefone de trabalho. Quero dizer, mesmo que ele tenha se livrado do último, eu posso ligar pra alguém que vai ligar pra alguém e daí eu arrumo o número. - apontou a faca de plástico que estava usando para o amigo, estalando a língua e negando com a cabeça sobre a linha de pensamento dele. - Tcs, Tcs, Tcs. Aí que você se engana, meu chapa. Ele não fica nervoso. - apontou a faca para si mesma. - Eu nunca vi ele nervoso. E nem quero ver.

Terminou de preparar as bolachas com geleia e alguns queijos para servirem de aperitivo na mesa e pegou uma delas com gorgonzola e damasco, levando primeiro para o rosto do amigo, insistindo que ele comesse. Se ele fosse beber como ela, era melhor ter algo no estômago. Não queria arriscar que ele acabasse passando mal por conta de uma barriga vazia e altas doses de álcool.

- E você viu esse menino? Como ele é? Ele parece muito novo, mesmo? - resolveu questionar, continuando a beber do vinho, desconfiando que precisaria muito mais que uma garrafa para começar a ficar alcoolizada. Talvez passasse em alguma conveniência antes de ir para casa e comprasse algum novo vinho barato para terminar o serviço.
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#14
Arqueou a sobrancelha muito evidentemente para Natalia, pois ela falava do fato de ter o telefone "de trabalho" de Karen como fosse algo normal e esperado. Deveria dizer a ela que pessoas normais NÃO tinham o telefone de assassinos de aluguel? Não que ela fosse... "normal" nesse sentido, ela mesma disse. Era irônico como estava cercado de amigos com problemas com a polícia, mas provavelmente o único que tinha passagem era ele.

E ela estava errada. Se tinha aquela cicatriz no rosto, era porque tinha visto o descontrole emocional de Karen de perto. Mesmo que apenas a vaga aparência de descontrole.

Olhou para a bolacha a sua frente e instintivamente abriu a boca para comer, só depois percebendo que Natalia provavelmente preferia que ele pegasse com a mão. Cobriu a mão com a boca e murmurou um breve pedido de desculpas.

Quase parou de mastigar um instante quando ela perguntou do menino, mas terminou logo de engolir a comida com um gole de vinho. Balançou a cabeça de forma afirmativa.

- Hm. 14, talvez. Oriental... - com isso esperava que ela deduzisse que ele poderia ser mais velho. Aparentemente ele era um menininho mirrado, podia ser mais velho até onde imaginava. - Veste estranho.

Na verdade se bem pensasse, era quase engraçado o gigante silencioso com aquele menino que se vestia tão extravagante e parecia tão amigável. Entornou o copo, afinal, aquilo tudo estava começando a lhe doer o juízo.
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#15
- Oriental? - repetiu, sem fazer muito caso do pedido abafado de desculpas do amigo. - Hmm. E ainda com essa idade... e veste estranho? Tem muita gente em Cerise que se veste estranho, Dio. - pegou mais uma bolacha e respirou fundo enquanto saboreava o gosto agridoce do queijo com a geleia. - Se é oriental, ele deve ser aluno com domicílio no colégio. Muito improvável que tenha família por aqui. O que torna ainda mais difícil que o grandão encontre com ele. - suspirou um pouco mais aliviada. - E onde afinal foi que encontrou esse garoto? Ele te apresentou o namoradinho, foi?

Encarou o agente fúnebre desconfiada, estreitando o olhar sobre como ele poderia ter sido apresentado para um garoto de 14 anos. Com certeza, um evento como este não seria muito bem visto por autoridades. Desviou o olhar, dando de ombros, afinal de contas, também não era lá uma boa companhia para ser vista com o agente fúnebre, mas a família dele não precisava saber disso.

Encheu o copo dele novamente, tomando um pouco mais da garrafa, um tanto desanimada com o líquido acabando. Suspirou resignada, ainda pensando na garrafa de vinho barato que compraria no retorno para seu apartamento. Colocou a garrafa sobre a mesa e parou para passar os dedos pelo próprio cabelo, rearrumando os fios claros em um coque para aliviar o calor da bebida que, certamente, já havia lhe deixado com as bochechas róseas.
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#16
Deu de ombros para o "muita gente em Cerise se veste estranho". Ela tinha razão. Mas não tinha outro jeito de explicar as roupas do garoto. Não era especialista em moda adolescente. Concordava com o resto das conclusões de Natalia, em geral. Como raios os dois tinham se encontrado para começar, nem podia imaginar.

Diodoro virou o copo quando ela perguntou se Karen tinha lhe apresentado o namoradinho.

- No apartamento. O meu. - falou, respirando fundo. - Levou pro meu apartamento. Pra descansar. - nesse ponto, Diodoro fez menção de não segurar as mãos, e a indignação dele com o fato transpareceu nas jogadas de dedo tipicamente italianas.

Notou a ausência de vinho na garrafa de Natalia, então começou a fazer pequenos sanduichinhos de queijo e geleia , alinhando-os cuidadosamente no prato para que ela pelo menos tivesse com o que se entreter e alegrar sem a bebida.

- Fizeram algo errado? Ainda não. Espero. Mas está certo? Não. Do princípio. É errado. É ilegal. - Diodoro falou novamente com ar de indignação. - Não quero ser... conivente. Não posso. É... pouco cristão?
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#17
Voltou o olhar quase imediatamente quando o amigo informou que o namoradinho havia sido apresentado em seu apartamento. Arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços, acompanhando os movimentos dos gestos do moreno enquanto ele se expressava um pouco mais, provavelmente devido à quantidade de álcool no sangue. Sorriu com o canto dos lábios ao ouvir que o criminoso havia levado o namoradinho para "descansar" no apartamento dele. Olhou para o teto por um instante, esperando que pelo menos eles tivessem usado o sofá ao invés de construir uma cena de crime na cama onde seu amigo deveria dormir.

- Ah, querido, se é cristão ou não é o menor dos nossos problemas. - levantou-se de seu assento para encher dois copos com água, um para si e outro para o amigo. Voltou a se sentar e pegou um dos sanduíches de bolacha que ele havia feito, apreciando o gesto. - Existe um bom motivo para gente como a gente, tipo eu e ele, sabe? Para a gente não conseguir manter um bom relacionamento romântico por muito tempo. - tomou um pouco da água fria, suspirando em seguida com o líquido lavando o sabor do vinho de sua língua. - Esse garoto não deve ter noção nenhuma do tipo de risco que ele está correndo e-


Encarou o moreno de novo, colocando os dedos abaixo do próprio queixo, só então processando o cenário no qual se encontrava. Era noite já, e bem tarde até mesmo para a funerária estar aberta. Normalmente, sem ocorrências maiores, seu amigo já poderia estar preocupado em voltar para o próprio apartamento. Elevou o indicador para sua têmpora, descrente do que estava prestes a perguntar.

- Vem cá, Dio. Você não está aqui ainda só por causa da minha maravilhosa companhia, está? Quando foi que ele te apresentou esse menino no seu apartamento? Ele ainda está usando o teu apartamento? - questionou, chocada já com a possibilidade do moreno estar enfrentando aquele dilema enquanto o crime estava em andamento.
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