[Drive] Sem Dor [Kyle; Natalia]
#1
Kyle

A sua semana tinha sido mais agitada naqueles dias do que tinha sido o tempo inteiro em que estivera em Cerise. Isso incluindo sua visita a Dimitri, as visitas não-programadas ao diretor de St. Clavier, as visitas ao paciente do psicólogo, e as visitas à casa dele para deixar alguns de seus presentes. Tudo aquilo porque tinha ido tirar mais satisfações com Vivien St. Clavier e sabia que ia acabar na mira da polícia lhe cercando. Não esperava ter sido alcançado tão rápido, claro, e por isso saiu daquela noite de terça com um tiro abaixo das costelas e uma série de viaturas que dificultaram bastante a sua fuga daquele bairro movimentado.

Podia não se incomodar tanto com a dor do tiro, mas tinha perdido sangue o suficiente para sentir os movimentos mais lentos, o tempo de reação diminuído e até ter febre por ter dado um jeito no buraco do ferimento sozinho. Não tinha muito o que fazer na primeira noite que fugira do policial texano, só dar conta do sangramento e descansar para recuperar as forças até achar alguém que pudesse lhe costurar melhor.

E até achar aquela pessoa, deixou que dois dias e uma noite se passassem, até conseguir um contato de uma médica que poderia lhe ajudar e enviar mensagem para a mulher marcando um encontro num quarto de motel bem acabado que ficava entre dois bairros antigos de Cerise, Pourpre e Rouge, e longe do centro da cidade. Posicionou-se num local conveniente apenas para observar quando a tal médica chegaria e conferir se ela estava sozinha e se podia encontrar com ela para lhe costurar. Seria mais uma noite de observação para se distrair. O dia de reencontrar com Dimitri estava chegando, era bom estar inteiro até lá.

Natalia

Não havia como negar a própria tensão das últimas semanas. Não havia como trabalhar na cidade e ignorar parte dos acontecimentos mais recentes. Amaldiçoava seu itinerário todo momento que se recordava de quando havia decidido tirar férias em Cerise. A cidadezinha do interior francês era tudo menos pacata. Se não tivesse uma amiga de longa data ali, talvez a ideia nunca tivesse lhe passado pela cabeça.

Estava no apartamento que dividia com Emily, descansando de mais um dia de trabalho após dois dias de plantão, quando recebeu a chamada em seu aparelho de trabalho para mais um atendimento ilícito. Trocou de roupa, colocou a calça jeans justa, a blusa branca decotada e uma jaqueta cinza, os sapatos de saltos baixos. Saiu com a picape como de costume, dirigindo para o local com as informações sobre o encontro. Até conhecia o lugar, já havia passado por ali antes. Deixou o veículo estacionado e foi até o quarto de motel que lhe foi indicado. Bateu na porta antes de girar a maçaneta para entrar, a maleta em mãos com seus utensílios de trabalho.

Estranhou ao encontrar o cômodo vazio e precisou levar a mão até o próprio pescoço, deixando a porta entreaberta ao se certificar de que não havia ninguém ali ainda. Respirou fundo e não removeu a jaqueta, checando o local e a disposição dos móveis antes de seguir até a entrada e encostar a porta. Retirou o celular do bolso e chegou a mensagem novamente, incomodada com a ideia de que não se lembrava daquela sequência de números. Se fosse um cliente já conhecido da cidade, teria lembrado, mas aparentemente era a primeira consulta desse cliente em particular. Esperava que fosse algum dos homens dos grupos da área portuária de Cerise.

Repousou a maleta na mesinha ao canto do quarto, verificando o horário em seu aparelho de trabalho antes de se recostar na parede ao lado da janela, a visão demorando alguns instantes para se adaptar a pouca luz do quarto, oriunda apenas da iluminação vinda do lado de fora, pelas luzes do corredor, entrando pelas frestas da cortina da janela. Cruzou os braços, contando os minutos mentalmente para esperar seu cliente. Se ele demorasse muito, precisaria de outra chamada.

Kyle

Depois de uns longos minutos de espera, a médica chegou ao quarto de motel e observou de longe enquanto ela entrava no quarto alugado. Havia um par de câmeras muito discretas dentro do quarto pouco iluminado para lhe mostrar mais da atitude dela dentro do ambiente. Mas ela só parecia realmente esperar pela sua chegada. Deixou uma maleta do que ele imaginou serem equipamentos cirúrgicos.

Ainda ficou observando as atitudes da doutora por longos dez minutos dentro do quarto escuro do hotel até se convencer de que não havia ligação com polícia nem ninguém de backup para ajudá-la. Seguiu finalmente para o quarto de motel, entrando pela porta da frente, sem se importar com discrição. Estava usando roupas escuras de novo, com calça jeans, sapatos marrons, camisa de botões azul escura e um blazer preto. Os cabelos estavam pretos também e o olho ferido coberto por um tampão de cor de pele. Ele usava luvas de couro pretas e na mão direita, segurava uma arma que não fez questão de esconder da médica ao entrar no quarto, fechar a porta e acender as luzes.

- Dra. Natalia Arlovskaya, certo? - ele sorriu para a mulher, seguindo pelo pequeno quarto até a única mesa em que ela tinha deixado já a maleta. Apontou a arma casualmente na direção dela, estendendo a outra mão aberta. - Não se importa se eu ficar com o seu celular enquanto conversamos, não é? Prometo que não vai demorar.

Esperou que ela se aproximasse para lhe entregar o celular, o sorriso ainda estampado no rosto de quem estava muito confortável consigo mesmo.

Natalia

Não foi nenhuma surpresa a tensão que tomou seus ombros assim que o completo estranho entrou no quarto de motel. O olhar prontamente se dirigiu para a arma que ele estava portando, as luvas que escondiam as digitais e o semblante do sujeito que parecia precisar de um outro olho coberto por um curativo. O que lhe deixou tensa, na verdade, além dele estar portando uma arma de fogo, era o fato do sujeito não aparentar, além do olho com o tampão, precisar de cuidados. Ele parecia bem a priori.

Assim que ele acendeu a luz, confirmou suas suspeitas. Se o machucado fosse recente, o curativo não poderia estar tão limpo como aquele, o que não era o caso. A roupa escura também não ajudava a descobrir se ele estava sangrando ou se estava machucado de fato. Para completar o cenário, ele ainda se dirigiu a sua pessoa, lhe chamando pelo nome completo, coisa que não costumava fazer durante o atendimento aos seus clientes mais corriqueiros.

Encarou o sujeito enquanto ele estendia a mão para receber seu celular e devagar como de costume ao lidar com aquele tipo de indivíduo perigoso, removeu o celular do bolso da calça, o mesmo que usava para aquele tipo de trabalho. Não levava seu aparelho pessoal consigo para a cena de encontro com criminosos. O aparelho não possuía muitas informações, apenas muitas sequências de números sem os contatos nomeados. Aproximou-se sem fazer movimentos bruscos, entregando o objeto para o moreno.

- Qual é a emergência? O senhor está ferido? - questionou sem tirar os olhos do sujeito, tentando diagnosticar ainda sem conseguir tocá-lo o que havia ocorrido com ele. Sentia-se desconfortável, pois ele não demonstrava estar ferido, apesar de notar ao se aproximar o tom de pele mais pálido típico.

Esperou ele lhe informar o que precisava antes de fazer qualquer outra coisa, incerta do real estado do suposto paciente. O sorriso dele era o de menos, estava séria e nervosa por não conseguir detectar a princípio o que havia de errado com o sujeito. E se não havia nada de errado, por que ele havia lhe chamado afinal?

Kyle

Ele não desviou o olhar um instante sequer da mulher que se aproximava em sua direção. Ao menos ela era obviamente acostumada com aquele tipo de abordagem, já que os movimentos eram bem medidos e lentos ao pegar o aparelho do bolso da calça calmamente e andar em sua direção para lhe entregar, sem qualquer movimento brusco. A atitude dela apenas fez com que Kyle sorrisse mais satisfeito, o tipo de sorriso que não se reflete no olhar.

Não desviou a atenção um segundo sequer de todos os movimentos e chegou a passar longos instantes sem sequer piscar ao observar a mulher de perto. Com aquela curta distância, podia desarmá-la de qualquer coisa que ela sacasse da roupa, então não se importou em colocar a arma no cós da calça, na parte de trás, e começar a despir o blazer.

- Não diria que é uma emergência em si, mas eu tenho um ferimento, ou não teria lhe contatado, não é, Dra. Arlovskaya? - ele continuou calmamente desabotoando agora a camisa de tecido, chegando até os últimos botões para tirar a peça de roupa sem fazer movimentos muito bruscos. Havia um curativo grande um pouco abaixo das costelas do lado esquerdo do tronco. O sorriso satisfeito permanecia no rosto e ele precisou ainda desabotoar as mangas da camisa antes de tirá-la de vez do caminho. - Eu soube que você é bem conhecida nesse tipo de serviço…

Ele não hesitou em tirar o curativo de cima do ferimento, mostrando um buraco de bala que tinha sido cauterizado de um jeito muito grosseiro, como algo temporário, e obviamente recente pela vermelhidão na área ao redor.

- Dê um jeito nessa situação. Eu já tenho antibióticos, então seria muito conveniente diminuir a possibilidade de infecções. - ele apontou, muito casualmente. - E não precisa se preocupar com anestesia, doutora.

Natalia

Encarou o sujeito de volta ao ser observada com tanta constância, a sobrancelha arqueando como se quisesse entender o que se passava pela cabeça do sujeito. Para alguém que precisava de seus cuidados, o olhar dele parecia focado, não sabia dizer se ele estava em choque por conta de alguma contusão séria ou se havia algo mais ali.

- Hm. - foi a única coisa que conseguiu responder quando ele pareceu questionar sua capacidade lógica em associar que a presença dele ali significava de fato que ele precisava de seus cuidados. Respirou um pouco mais aliviada diante do fato dele estar mesmo machucado, mas isso não mudava o fato que não conhecia o sujeito e que ele poderia ser tão ou mais grosseiro que outros pacientes que já havia tido aos seus cuidados.

Notou os movimentos mais comedidos enquanto ele se despia para poder lhe mostrar finalmente o tal ferimento. Franziu o cenho ao encarar aquele curativo abaixo da costela do lado esquerdo e logo depois observou melhor o sujeito. Ele era mesmo pálido ou havia perdido sangue? Em uma região como aquela, bem vascularizada, ele deveria estar suando frio devido ao dano causado ao corpo.

- Espe-- ficou quieta assim que ele retirou o curativo sozinho. Imaginou que o sujeito fosse sangrar ainda mais, mas aparentemente alguém deveria já ter cauterizado a ferida para ele. Franziu o cenho de novo quando ele negou a aplicação de anestesia. Pressionou os lábios, ciente da urgência daquele ferimento e do quadro assintomático do paciente. - Sim, senhor. Preciso pegar meus materiais.

Anunciou como de costume como quando sempre atendia aqueles sujeitos desconfiados. A imagem do sujeito, a estrutura facial dele não estalava em sua memória pelos grupos de gangues e mafiosos que já havia atendido anteriormente e isso lhe deixava intrigada, mas resolver não comentar nada a respeito, primeiramente precisava garantir o cuidado daquele ferimento, ainda não sabia a gravidade de fato e nem quanto tempo o homem ainda poderia ter em caso de entrar em choque.

Foi até sua maleta e a carregou nos braços até a cama, tomando cuidado para posicioná-la onde ele pudesse ver os utensílios que trazia consigo. Havia muitos objetos perfuro cortantes de uso médico, assim como gazes, bandagens, medicamentos e produtos para assepsia. Arrumou o travesseiro da cama em pé apoiado na cabeceira antes de passar o álcool em gel nas próprias mãos, colocando o par de luvas logo depois.

- Sente-se reclinado, por favor. - deixou a maleta aberta próxima para que ele pudesse ver o que trazia e para que pudesse ter maior facilidade ao manusear os itens. Pelo que conseguiu concluir com com o olhar, ele deveria ter sido pego por algum disparo, principalmente pela característica da perfuração, ainda pobremente cauterizada. E como não havia sido a queima roupa, precisaria remover o projétil para ele se recuperar adequadamente. Colocou o estetoscópio nos ouvidos, aguardando que o sujeito seguisse seu pedido para fazer seu trabalho.

Kyle

Ela era uma pessoa bem discreta e aparentemente eficaz, teria que provar aquilo ao longo do atendimento improvisado. Ainda manteve o olhar bem atento na médica enquanto ela anunciava que precisava pegar os materiais.

- À vontade, doutora. - respondeu, com o mesmo sorriso largo no rosto e observando enquanto ela colocava a maleta na cama, abrindo-a para expor aquela série de instrumentos cirúrgicos com os quais ele estava até pouco acostumado, considerando os remendos que fazia ainda na época do serviço militar.

Aproximou-se da cama quando ela indicou para se sentar inclinado, com os travesseiros arrumados. Ainda passou bem perto da doutora, a mão deslizando pelos materiais que ela tinha trazido para pegar um dos bisturis muito calmamente e rodá-lo nos dedos como se fosse um brinquedo de criança. Sentou-se como ela tinha indicado, ainda com a arma na parte de trás do cós da calça e agora um bisturi na mão esquerda.

- Assim está bom? - perguntou, entretido em rodar o bisturi entre os dedos que nem eram do seu lado dominante. - Sabe, doutora, eu vou reencontrar com o meu amante em alguns dias e eu gostaria de estar bem inteiro para ele. Então, se puder fazer um trabalho rápido e discreto, seria de grande ajuda para as minhas futuras intenções.

O comentário de Kyle foi num tom casual e até um pouco distante, de quem estava bem imerso nos próprios pensamentos e não no fato de que havia um buraco mau cauterizado em seu tronco e aquilo devia estar lhe deixando minimamente desconfortável.

Natalia

Acompanhou com o olhar o paciente pegar um de seus bisturis. Baixou a visão para a forma como ele parecia brincar com seu instrumento de trabalho. Apesar da dor que ele deveria estar sentindo, o sujeito parecia muito disposto a se distrair com o acessório perfuro cortante, lhe contando ainda sobre o objetivo de encontrar o tal amante dele. Ele tinha interesse por rapazes, então? Curioso. Mais curioso que ele julgasse que era de bom tom lhe contar sobre aquele detalhe.

Aproximou-se, anunciando o que faria com o estetoscópio, procurando primeiro os ruídos próximos ao local da bala. Os órgãos dele pareciam bem, mas o tecido ao redor estava mais rígido e machucado. Pelo seu olhar, podia dizer que ele havia mexido ali antes, ainda mais pela cauterização improvisada. Pelo visto, o que deveria estar ali já havia sido arrancado. Pousou seu instrumento de lado, tocando a região com uma das mãos enluvadas, verificando o inchaço logo depois.

Separou os itens que precisaria para o procedimento de limpeza e preparo para fechamento da ferida antes de começar a trabalhar de fato. Começou removendo o tecido machucado da pele pela cauterização irregular, deixando a região ao redor mais próxima da carne viva. Sem anestesia, o processo deveria ser bastante doloroso para o sujeito, portanto logo tratou de se apressar.

- Vou aplicar o medicamento antes de suturar. Ele vai ajudar na recuperação do tecido e no combate ao processo inflamatório por qualquer infecção. - explicou antes de qualquer coisa, deixando que o moreno visse o produto que usaria, aplicado na parte interna do ferimento com uma seringa sem agulha. - Talvez sinta uma pequena pressão… pela falta da anestesia.

Informou, terminando por usar linha e agulha já separadas para suturar rapidamente o ferimento, os pontos discretos devido a sua habilidade manual médica. Finalizou com um outro produto que também permitiu que o paciente visse a composição, um spray cicatrizante na região danificada. Protegeu seu trabalho limpo com a aplicação de uma gaze firme com o auxílio de bandagens.

- Pode, por favor, ficar ereto? - pediu ao precisar se aproximar um pouco mais para colocar as bandagens mais firmes ao redor da região do tronco para segurar a gaze limpa. - Com licença. - prendeu a respiração, concentrada no próprio trabalho ao deixar o curativo limpo, firme e protegido. Afastou-se devagar pouco depois, observando o acabamento que havia deixado ali. - Não tire as bandagens nos próximos dias. O curativo vai manter a cicatrização limpa. - fez uma pausa, retirando um potinho amarelado com alguns comprimidos dentro. - Use isso. Uma dose por dia vai ajudar na recuperação do sangue que perdeu.

Virou-se para seus utensílios, arrumando o que precisava ser descartado, o que estava sujo com o sangue do estranho paciente, e o que precisaria ser esterilizado novamente.

- Pegue leve com seu amante, senhor. Não vá se esforçar demais e magoar o ferimento. Se isso acontecer, é só me chamar de novo. - sorriu discreta, satisfeita com o próprio atendimento. - Pode me devolver o bisturi, por favor? - estendeu a mão ainda enluvada, pedindo educadamente seu instrumento de volta.

Kyle

Natalia se aproximou cautelosa para avaliar a área e iniciar o tratamento. Manteve o olhar curioso na mulher enquanto ainda brincava com o bisturi numa das mãos. Fazia tanto tempo que não tinha assistência daquele jeito para algum ferimento grave que era quase uma novidade. Não contou os instantes, mas depois de um tempo ela já tinha limpado a área e deixado tudo em carne viva. Nem se moveu muito, como se não estivesse minimamente incomodado com o tratamento sem anestesia.

- Sem problemas, doutora, só não demore. - avisou, sobre a pressão que ela tinha dito que sentiria. De fato, tinha sentido a pressão, mas tanto quanto a limpeza não pareceu lhe incomodar, a pressão no ferimento menos ainda. Olhou atentamente enquanto ela suturava o buraco de bala. - Olha só, talvez eu tenha uma cicatriz menos chamativa dessa vez. Melhor do que os outros açougueiros por quem já passei. Que sorte encontrar alguém assim no fim do mundo na França.

Ela terminou de suturar o ferimento e fez o curativo ao se colocar numa postura mais ereta. Logo estava lhe dando as instruções sobre o uso das bandagens e como aquilo deixaria a cicatrização mais limpa. Pegou os comprimidos para tomar nos dias seguintes, que lhe auxiliariam na cicatrização, porque a dor não era tanto um problema. Até sorriu quando ela lhe recomendou pegar leve com o amante.

- Com um trabalho tão bom quanto esse, eu vou até conseguir encontrá-lo antes, doutora. - ele se levantou da cama, levando o bisturi consigo quando ela apontou para o detalhe, pedindo o instrumento de volta. Virou-se para a mulher, sorrindo mais largamente, mas parou ao lado da mesinha em que tinha deixado o celular dela. - Claro.

Mesmo concordando, ele virou o bisturi para baixo e fincou-o no celular que estava sobre a mesa, quebrando o aparelho da médica.

- Aqui está. Obrigado pelo tratamento, doutora. Meu amante vai gostar muito do resultado. - ele disse, pegando a camisa de botões para vestir de novo, abotoando os botões e colocando o blazer por cima. - Até outro dia, doutora.

Acenou brevemente para ela e seguiu para fora do quarto de motel, andando despreocupado como se não tivesse acabado de ser suturado. Seria uma longa noite e alguns dias mais longos também.

Natalia

- Hm. - sorriu discreta quando o paciente pareceu satisfeito por não ficar com uma cicatriz grande por seu atendimento. Estava concentrada nos cuidados ao homem, por isso não falou muito, contudo, não significava que não podia ouvi-lo com clareza. O que era mais curioso era a falta de sensibilidade do moreno para o atendimento que estava prestando a ele. Já havia lidado com pacientes que naquele estado de dano ao corpo já teriam entrado em choque. Conhecia poucas pessoas com aquele baixo grau de sensibilidade a dor. Uma delas era o gigante sério que atendia por encomenda também. Mas ele era um profissional bem caro. Imaginava se o moreno também não seria um daquele tipo.

Acompanhou o sujeito com o olhar, permanecendo próxima da cama quando ele se afastou com seu bisturi em mãos. Encarou o sorriso alheio com desconfiança, principalmente pelo fato dele ainda estar com o objeto perfuro cortante em posse.

- Me-! - abriu a boca para reclamar pelo estrago em seu aparelho, mas logo ficou quieta, o cenho franzido de quem certamente não havia apreciado o gesto alheio. Havia atendido o homem conforme seus deveres previam, e ele lhe respondia com aquela gentileza, danificando seus instrumentos de trabalho.

Terminou suspirando resignada com a cena, cruzando os braços ao esperar que o sujeito partisse para começar a arrumar seus pertences. Não havia muito o que fazer agora que seu celular de trabalho havia sido danificado. Nem poderia recuperar o bisturi estragado com a quebra da tela. Acenou de volta, decidindo que preferia certamente o gigante sério a ter de lidar com aquela raposa sorridente e imprevisível.

Arrumou seus pertences quando o moreno deixou o recinto, ocupando-se em deixar tudo limpo e separar o material biológico oriundo da limpeza do ferimento do homem, o tecido morto da cauterização e as gazes que havia usado para estancar o sangue das bordas em alguns momentos.

“O amante desse sujeito deve ser um santo para ficar com um maluco feito esse.” - pensou, removendo as luvas ao concluir seu trabalho de higienização da cena. Foi nesse exato momento em que seu foco de concentração não era mais o trabalho e o atendimento a um cliente novo que teve o estalo. Diante de tudo o que havia acontecido nos últimos dias, o surgimento do novo cliente, o crescimento no número de policiais na cidade e no hospital, tudo parecia estar acontecendo de uma forma escalada demais para ser apenas uma breve desconfiança sua. Logo em seguida, lembrou-se da garotinha, o caso que havia chocado a cidade e a mídia.

Saiu do local de trabalho, recolhendo seus pertences, inclusive o celular quebrado e o bisturi. Ainda conseguia lembrar com nitidez de como o assassinato brutal da garotinha havia sido de grande impacto para a irmã mais nova de Bennedict. Voltou para o seu veículo e verificou se havia algum sinal ainda do sujeito. Dirigiu de volta para o centro da cidade, mas decidiu parar no trajeto para fumar um cigarro. Precisava colocar os pensamentos em ordem antes de fazer qualquer coisa. Com o celular de trabalho quebrado, lhe restava apenas seu aparelho pessoal. Naquele cenário, tinha certeza que acabaria prejudicada no processo.

[thread encerrada]


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