09-17-2021, 04:28 PM
Carissa
Aquelas últimas semanas estavam uma bagunça, na sua vida pessoal e na delegacia. Tinha muitos casos no arquivo morto para revisar, Leona tinha decidido revirar muita coisa e trazer pontos de vista novos à tona. Isso demandava muito esforço, especialmente dela que estava o tempo todo com a loira, e o que era ainda mais perigoso também, considerando que Leona nunca perdia a chance de lhe lançar um olhar atravessado e de lhe fazer sentir que ia morrer a qualquer instante. Mas além do trabalho dobrado na delegacia, havia a presença recorrente de Jack Reinhardt, um antigo amigo de Leona que deixava a loira muito abalada sempre que aparecia, e que lhe deixava levemente desconsertada também… ele era muito charmoso, afinal. E para completar o cenário de filme norte-americano, outro policial tinha sido transferido direto do Texas, Boyd Garrett.
“Agora só falta o vilão mafioso russo pra gente estar num capítulo de seriado policial”, pensava consigo mesma enquanto caminhava na delegacia, carregando papeis de um lado para outro com os novos casos reabertos “E a Leona que é a protagonista badass vai ficar lá conquistando os dois caras bonitões e fortes com aqueles saltos altos, aquela bunda e aqueles peitões, enquanto eu aqui sou a coadjuvante que vai morrer primeiro numa bala perdida”. Estava organizando tudo e começando a imaginar que estavam precisando de mais mão de obra naquele arquivo “todo policial inútil aqui que fica só dizendo que já tem serviço quando não tem nada pra fazer e ninguém me ajuda, eu mereço…”, continuou o lamúrio mental enquanto seguia de volta para o seu cubículo próximo da recepção para dar baixa nos dados no computador.
E foi exatamente pensando nos policiais inúteis da delegacia que não lhe ajudavam com o trabalho extra que os olhos pousaram em Boyd, enquanto ele jogava charme para uma das garotas na recepção, ajustando o chapéu de cowboy e falando algo sobre fazer uma ronda, inclusive, convencendo a oficial a entregar a chave e os dados de uma das viaturas. Ficou tão momentaneamente distraída com o jeito dele de falar que só percebeu a situação geral quando ele já estava rodando a chave na mão com um sorriso satisfeito para se despedir da recepcionista. “Ei… ele já pode sair em rondas? E sozinho? Não tem que ter um parceiro com ele… ele acabou de chegar aqui e conseguir as licenças e…”
Àquela altura, Boyd já estava inclusive saindo da delegacia e a reação atrasada de Carissa finalmente chegou.
- AH! Ei, espere aí! - ela se levantou da cadeira, deixando os documentos sobre a mesa e correndo na direção da entrada da delegacia, mas só conseguiu acompanhar o policial novo depois de passos corridos e fora do prédio, já no estacionamento. - ESPERE! Ei! Oficial Garrett! Você! Onde você vai?! Não pode sair com uma viatura da polícia! Elas são só pra… fazer rondas!
Boyd
O tempo, mesmo que pouco, de convivência com os funcionários e oficiais do departamento de polícia da cidade já foi o suficiente para poder etiquetar cada um dos que trabalhavam lá. Os que iam só para bater o ponto, os que nem isso faziam, os que não faziam ideia de porque estavam lá e uns poucos que iam para trabalhar. Seguindo esse último exemplo era muito comum ver uma cena de documentário, a predadora Leona caçando a presa Carissa, coitada. O problema de ser proativo num ambiente desses é que tudo recai sobre você, era comum ver as coisas caírem em cima de Carissa, afora a perseguição de sua algoz ainda tinham os folgados que sempre disparavam o “já que você está indo para lá, pode...”, e infelizmente ela por notoriamente ser uma pessoa gentil, afora de saber que caso ela não faça ninguém fará, acaba cedendo, o que não melhorava a cara de Leona.
Mas era até compreensível esse marasmo no departamento, a cidade não proporciona muita emoção, a coisa que mais via eram filhinhos de papai aprontando enquanto ficavam sentados antes de ir para casa. Faltava um pouco mais de rigor nas abordagens, já que eles não apanharam em casa, bem que podiam levar uns tapas na rua, mas isso não era exatamente algo para se colocar na caixinha de sugestões. Para isso, precisava sair, fazer uma ronda para acelerar o coração.
Pensando nisso, Boyd pegou suas coisas, pistola, coldre, chapéu e se direcionou à recepção. A recepcionista do dia era simpática e em outra oportunidade, enquanto se inteirava das coisa da delegacia, viu a moça falando alegre sobre uma doceria fantástica, que fazia uns bombons maravilhosos. Bom, o cowboy podia não ser formado nessas faculdades conceituadas, nem possuir super conhecimentos da mente humana, mas sabia ser muito atento a detalhes, ser bem observador e ter um faro pra mentiras, tudo que precisava para exercer sua profissão. Foi avisado sobre precisar de reforço, que não poderia sair sozinho, mas usou a Antique como base da ronda e prometeu doces para a moça, ao ver o sorriso dela sabia que tinha atingido seu objetivo.
Após pegar a chave da viatura, já na saída ouviu um chamado meio que desesperado, ao olhar para trás viu Carissa indo em sua direção falando sobre as viaturas serem somente para rondas. – É exatamente isso que irei fazer, oficial Dubois. Vou enlouquecer se passar mais uma hora dentro do departamento. Não se preocupe, vou ficar bem. – Preferia que tivessem motos, essa cidade não era muito prática para perseguir pessoas com veículos grandes, era um pedido a fazer para o Chefe de Polícia depois.
Carissa
Carissa respirou fundo depois de parar a um par de passos de distância do outro. Nem tinha feito muito esforço, mas respirou fundo como se tivesse corrido a delegacia inteira para alcançar o oficial. Sorriu um tanto sem graça quando ele disse que estava exatamente indo fazer uma ronda, e coçou a lateral do rosto.
- Eh... m-mas você não pode ir fazer ronda, oficial Garrett. Q-quer dizer, não que você não seja capaz de fazer uma ronda, é claro, mas você chegou agora e eu não sei se nos EUA é assim, pelo menos nos seriados e nos filmes é... mas você precisa de um parceiro pra sair numa ronda. - explicou a ele com a mesma calma controlada de sempre. - Bom, como você chegou agora, ainda não tem um parceiro designado pra você, mas se falarmos com o chefe de polícia, eu acho que podemos submeter o pedido e depois de aprovado, você vai ter um parceiro novo e até o fim da semana vai poder sair em rondas. Claro que temos também que definir quais as suas áreas de atuação, porque não dá só pra sair e passear por qualquer lugar, não é? E... bom, eu acho que o senhor entendeu?
A última coisa que Carissa precisava em meio à pilha de trabalho que tinha que fazer - especialmente agora que tinha conseguido um breve intervalo pra ficar em seu pequeno cubículo -, era ter um policial novato saindo por Cerise pra se perder. "A Leona vai é me matar se souber que ele saiu sozinho pra uma ronda. E que ideia foi essa? Eu ainda tenho trabalho pra terminar de fazer, até eu queria sair pra fazer uma ronda sem encontrar nada também", reclamou mentalmente, aproximando-se do outro para estender a mão, esperando que ele lhe entregasse as chaves de volta.
- Eu posso arrumar alguma coisa pra o senhor fazer, Oficial Garrett. - Carissa sugeriu, esperando que ele colaborasse para lhe devolver a chave e continuar seu trabalho.
Boyd
Até o final da semana? Nem pensar! Não conseguia acreditar na complicação para fazer algo tão simples. “Especialidade: Atirar e, consequentemente, matar vagabundo. Era tão complicado assim?!” Ela tinha razão com relação a necessitar de um parceiro, mas devido a aura de preguiça do departamento, não tinha exatamente uma fila de pessoas excitadas em sair para prender alguém. No final das contas, os marginais não viriam cometer crimes em frente à delegacia, para todo mundo só empurrar as cadeiras com rodinhas para o lado de fora. Mas já tinha chegado longe demais para ser impedido.
- Não é passear de carro sem objetivo oficial Dubois, é Policiamento Ostensivo, é algo necessário. Além disso, não vejo muitos oficiais se voluntariando para essa tarefa, ou nenhuma outra se não estou errado. Mas você está completamente certa sobre a parte do parceiro, peço desculpas por ser tão impulsivo. – colocando a chave na mão esquerda, utilizou a direita para dar um aperto de mão em Carissa, olhando fixamente nos olhos dela enquanto falava sorrindo – Vamos lá então, parceira! Pegue suas armas e tudo mais e vamos prender uns bandidos. Já que estamos aumentando nosso vínculo, me chame de Boyd, ok?! Vou te esperar aqui. – Soltou a mão da companheira, e finalizou – Eu vejo como esses Bozos daqui tratam você, presto muita atenção em tudo ao meu redor, vamos lá mostrar do que você é feita! Vai te fazer bem sair daí, e digo mais, quando você entrar na delegacia chutando o traseiro de um marginal, vão pensar duas vezes antes de recusar um pedido seu. Isso me inclui também.
Faria bem para ela fazer uns trabalhos externos, muito trabalho de escritório deixava qualquer um tenso, ele próprio corria de trabalhos internos, só o fato de fazer um relatório muito detalhado de uma ação policial já lhe dava dor de cabeça. No final seria uma vitória completa, ele ganharia o que queria e ela conseguiria algo bom para si também. O que poderia dar errado?
Carissa
Carissa sorriu um tanto sem graça quando ele começou a lhe explicar o que exatamente pretendia fazer, ainda com a mão estendida na direção dele para esperar a chave "Até parece que eu não sei que é necessário, porque parece que esse povo dos EUA fica me subestimando? Hunf...".
- Mas oficial Garret, há policiais designados para fazer rondas, inclusive, eles estão cumprindo os seus intiner-- ela parou de falar ao sentir o aperto de mão, um tanto confusa, piscando longamente com a resposta dele, especialmente lhe chamando de "parceira".
"P-p-parceira...? C-como assim eu...", a linha de pensamento foi interrompida exatamente quando observou o sorriso alheio, sentindo o rosto corar levemente com o jeito charmoso que ele falava. "E ainda parece aqueles caubóis legais de filme de faroeste com esse chap--", fechou os olhos, balançando a cabeça para os lados para tirar os pensamentos inusitados da cabeça, suspirando longamente quando ele lhe soltou a mão, jogando-lhe ainda mais informações que sabia que eram verdade.
A morena abriu e fechou a boca algumas vezes. Era bem verdade o que ele estava falando e era bem difícil também ter o trabalho reconhecido de verdade... "Até queria me livrar dos pedidos de todos esses oficiais preguiçosos movidos a doce e café... tá que eu não sou uma pessoa muito boa pra fazer rondas e eu nunca saí de verdade numa ronda, mas... talvez fosse uma boa ideia começar a aprender se eu quiser ir pra UCLAT um dia, mesmo que seja pra área de inteligência e... isso parece uma situação tão legal..."
Riu um tanto sem graça quando ele ainda reforçou que ela podia fazer algo do tipo que surpreenderia os colegas da delegacia "Hm, eu podia ser uma policial legal como aquelas dos filmes norte-americanos" a ideia até lhe deixou com os olhos brilhando, mas antes mesmo de responder, respirou fundo para se recompor.
- Bom, só porque você está sem parceiro dessa vez... - falou, tentando não parecer mais empolgada do que a sua expressão inteira já tinha denunciado. - Depois voltamos pra delegacia e você vai esperar alguém ser designado para o posto até o fim de semana, certo?
Carissa suspirou, voltando para a delegacia para pegar o celular, vestir um colete à prova de balas por cima do uniforme, pegar o distintivo, algemas e um cacetete. Sequer pensou na possibilidade de pegar uma arma, já não usava uma há muito tempo, então voltou até o estacionamento onde estava Boyd, parecendo mais determinada na missão.
- Podemos ir. Não podemos demorar muito, certo?
Boyd
Enquanto estava esperando Carissa chegar, para passar o tempo começou a procurar no telefone por caracterizações da voz de GPS. O visor ainda quebrado, devido a última “festa” que participou na cidade, mas ainda funcionava. Percebeu que ela gostava de citar filmes e seriados em conversas corriqueiras, logo, para entrar no clima, procurou por uma voz que não o deixasse perdido nos futuros diálogos. Ao ouvir os passos se aproximando parou um tempo para observar a caracterização enquanto a parceira vinha em sua direção.
- É disso que eu estou falando! Vamos fazer algo básico, só para esticar as pernas. Você guia e eu dirijo ok?! Na dúvida nós perguntamos para ele – mostrou o celular com o aplicativo de orientação abrindo. No início, ao invés da voz feminina clássica, a voz de Clint Eastwood usando a icônica frase do filme Sudden Impact "Go ahead, make my day". Não conteve uma sonora risada por ter funcionado melhor do que imaginava. – Bom, ele sabe o que diz.
Não deixou de perceber que ela não carregava uma arma de fogo. Talvez eles mantivessem as armas prontas no porta-malas, talvez ela não achasse que ia precisar. Um misto de pensamentos cruzou a cabeça de Boyd no momento, desejando precisar da arma para manter as práticas, desejando em parte não precisar para não colocar a vida da companheira em risco. Ele já estava acostumado com o som de balas ricocheteando e objetos quebrando no processo, mas nem todo mundo tinha uma rotina como a dele. No fim, Carissa veio menos equipada que um goleiro de Hockey, então estava bom.
- Na volta, vamos comer algo, eu pago pelo atraso nas suas funções assim, que tal? Caso seja um contrassenso, já que vai atrasar ainda mais sua vida podemos jantar depois do turno, tem algum lugar que você goste de ir?
Precisava de algum momento de convivência decente, por mais que os chamados dos bares requintados como o de Lilu fossem interessantes, era um risco que ultrapassava a análise de custo/benefício. Um pouco de normalidade nessa nova etapa da vida cairia bem, sua mais nova parceira era uma das poucas que oferecia uma convivência amistosa o suficiente para valer a tentativa, diferente das outras opções de conhecidos do lugar que certamente o fariam perder o apetite.
Carissa
Carissa concordou com um aceno de cabeça determinado, como se realmente estivesse numa missão muito importante, respondendo a um superior. Piscou confusa quando ele indicou o GPS e no instante seguinte, ouviu uma voz muito conhecida sua de filmes antigos norte-americanos.
- AHHHHH, é o Callahan!! Harry Callahan!!! - apontou animada para o GPS, por um instante esquecendo-se que tinha se armado para a guerra. - Como você fez isso?! É no GPS? Eu quero isso no meu celular também! Bom, não que eu precise muito dele aqui pra Cerise, mas mesmo assim, eu ia gostar de ouvir a voz de algum personagem de filme assim! Ou é só porque o seu celular é americano e lá dá pra instalar essas coisas diferentes e todo mundo aqui na França é meio sem graça?
Entrou no carro do lado do carona, enquanto Boyd guiava a viatura mesmo sem saber muito de Cerise. “Bom, ele tem um GPS e eu também sei pra onde ir, é só se manter longe de onde tem muita coisa perigosa rolando porque eu não acho que nós dois sozinhos damos conta dessas coisas, isso mesmo, isso mesmo…”, os pensamentos só foram interrompidos quando ele sugeriu comer alguma coisa no horário do jantar. Abriu e fechou a boca num instante, imaginando o quanto aquilo demoraria para que os dois ainda fossem jantar “E também tem a Leona, eu geralmente janto com ela, mas ela geralmente faz isso na delegacia pra continuar trabalhando também, isso quando não tem alguma ronda que esteja fazendo no horário e... bom, não deve ter problema…”
- Dependendo de quanto tempo a gente demorar, dá pra ir jantar sim. Tem a Antique perto do Centro que é uma padaria muito boa e tem doces e tortas de todos os sabores. Não faria mal passar lá e eu podia levar alguma coisa pra casa, faz tempo que não vou lá e não vejo a dona Fleur também, mas tem outros lugares bons nas outras áreas de Cerise, perto do Distrito Residencial, tem um café ótimo com um monte de bebidas diferentes, e perto da praia as opções são infinitas, é só decidir por onde ir. Tem algumas rotas predeterminadas pela polícia, podemos seguir alguma delas. - explicou, procurando alguma coisa dentro do porta-luvas, com as informações de rotas que já era tão antigo que ainda estava traçado num mapa convencional dividindo as áreas de circulação da cidade. Claro que se ateve a descrever os locais que não eram considerados de alta periculosidade, embora houvesse uma parte do centro de Cerise que se ligava à parte antiga da cidade e havia mais confusão ali do que os policiais gostavam de admitir.
Boyd
No caminho, a lembrança de Carissa ao reconhecer a voz de Dirty Harry o divertiu. Explicou basicamente como achou a voz para o aplicativo, nada muito complicado, afinal ele mesmo não era muito vidrado em tecnologia. Ela era muito espontânea, transparente e ele achava isso engraçado. Enquanto ela explicava sobre as rotas do mapa no porta-luvas, ele pensava sobre como seria o percurso. Rotas eram boas pois você teria, de acordo com a organização do departamento, uma resposta em tempo satisfatório para reforços ou chamadas dos moradores, mas essa padronização poderia ser usada contra o próprio departamento. Era comum existirem policiais que passavam informações para traficantes, deixando eles preparados para uma possível batida.
Tão comum quanto esses ratos de departamento eram os rádios interceptando frequência da polícia, para qualquer uma das alternativas era indispensável descobrir logo se isso estava acontecendo. A pessoa que estava com ele, dentre os do departamento era a ideal para lhe passar a informação. Mesmo com o pouco tempo de convivência, ela lhe parecia bastante confiável e notoriamente levava o trabalho a sério, isso ou ela era uma atriz de primeira.
- Bom, como eu estou chegando agora ainda preciso descobrir umas coisas e fazer uns testes, você se importaria de dizer no rádio que vamos fazer essa rota aqui? – Apontou para uma rota no início do centro da cidade no mapa surrado da viatura – Mas na verdade eu queria ir no meio dessas duas – apontando para outras rotas no meio do centro, lugar que ele andou logo quando chegou. – Quero ver se estão muito atentos à frequência da polícia, ou se alguém do departamento vaza informações das rotas. O que acha?
Faria algumas adaptações no trajeto para tentar deixar os eventuais informantes confusos, só esperava não ficar confuso no processo. Não pretendia entrar em uma perseguição, isso não seria muito útil sem conhecer todas as rotas de cabeça, pretendia fazer umas revistas, e, se tudo desse certo, atirar em alguém. Na pior das hipóteses voltaria para o departamento de mãos vazias, mas pelo menos Boyd tentou, Deus é testemunha.
Carissa
Carissa parou de explicar no meio das rotas quando ele pediu para informar no rádio que caminho iriam seguir. "Bom, parece bem normal, não é uma rota ruim, deve ser coisa rápida", pensou consigo mesma, afinal, era a pessoa mais desacostumada com rotas daquele departamento inteiro.
- Hm... vou avisar então. - estendeu a mão para pegar o rádio, mas parou no meio do caminho quando ele sugeriu verem as rotas no centro para saber se alguém do departamento estava vazando informações. Abriu e fechou a boca algumas vezes, era uma técnica bem simples pra usar pra descobrir algumas coisas de errada dentro da polícia, mas nunca tinha nem pensado em fazer aquilo. "Ele é tipo a Leona que sai daqueles seriados norte-americanos, só espero que a gente não exploda nenhum prédio pra salvar só um gato no meio do caminho". Não respondeu diretamente, mas passou pelo rádio a rota que ele tinha sugerido inicialmente, recebendo a confirmação da central, de onde mal tinham saído, para recolocar o rádio no lugar. - Ah... é uma boa ideia. Mas eu não estou acostumada a fazer rondas, então eu não sei se vou ajudar em muita coisa. Essas áreas aqui são as de alta periculosidade, porque são ligadas com a parte antiga da cidade e tem áreas que não foram mapeadas direito, mas mesmo que não seja uma delegacia no meio do Brooklyn, nós sabemos que deve ter algum conluio com a polícia pra não mapear esses lugares. Nesse que você mostrou, é onde devemos achar mais movimentação suspeita, ao menos de acordo com todos os últimos relatos da Leona e os delinquentes que ela já arrastou de volta pra delegacia. Às vezes ela também faz umas rotas mas não diz quando desvia do caminho e isso me deixa muito irritada, sabe? Porque aí a gente não sabe pra onde enviar reforços se precisar. Mas pelo menos não aconteceu nada grave até agora. Bom, mas vamos ver o que acontece, né? Parece interessante... só espero que não seja perigoso.
Ela fechou o mapa da cidade e colocou de volta no porta-luvas, esperando que Boyd guiasse o caminho. "Bom, ele veio do Texas, ele deve ser muito experiente com vários tipos de bandidos. Só espero que a gente não esbarre em nenhum cartel de drogas pra ele querer explodir tudo. Deus me ajude..."
Boyd
- Esse tipo de coisa é muito natural, principalmente numa cidade pequena como essa. O ideal era ter mais controle por ser menor, mas com uma ou duas maçãs podres fica difícil trabalhar de maneira apropriada. Isso sem contar os riquinhos daqui que devem ter um monte de gente limpando as bundas deles.
Essa última parte era o que particularmente o irritava mais. Perdeu as contas de quantas vezes ouviu “você sabe com quem está falando?”. Geralmente isso era seguido de uns bons tapas dados pelo texano. Ora, se não tiveram isso em casa para educação, terão na rua. No fim, o trabalho policial era baseado em um monte de gente do departamento tentando trabalhar, um monte de meliantes que se reproduziam pior que baratas e a pior parte, um monte de gente rica que faz de tudo para atrapalhar seu serviço, mas são os primeiros a reclamar quando você não atende às expectativas da classe alta.
Esse devaneio seguido de algumas reclamações ditaram o início do assunto na viatura, imaginando que parecia uma idosa de 90 anos reclamando, decidiu recorrer ao GPS com a voz de Dirty Harry para não se perder. Não que ele precisasse, tinha quase total certeza para onde estava indo, uns 30%. A voz do personagem abriu uma gama de assuntos sobre filmes antigos de Western, seriados que Boyd não fazia ideia que existiam e, caso houvesse uma sombra de dúvida de que Carissa gostava muito de acompanhar esse tipo de mídia, esse questionamento tinha sido elucidado.
A cidade não era grande, mas a falta de conhecimento do terreno fez com que a ronda ficasse mais lenta, uma rua errada e poderia causar um acidente ou impossibilitar uma perseguição. Depois de teoricamente estar no lugar desejado do mapa, enquanto conversava com sua companheira de veículo, uma movimentação estranha saltou aos olhos dele.
Num beco mais a frente, enquanto se aproximava lentamente com o veículo, ao menos três pessoas entraram, demoraram 1 minuto no máximo e saíram olhando para os lados desconfiadas. Ao passar em frente ao local, mais um estava fazendo um aperto de mão para logo em seguida sair. No local ao lado do homem simpático que cumprimentava todos que ao beco chegavam, uma moto com o baú aberto, nenhum capacete. A aparência do suspeito era contrária a suposta simpatia, era mau encarado, alto e de porte médio, uma jaqueta por cima da blusa que facilmente esconderia uma arma. Para Boyd era o suficiente para fazer uma visita ao possível comerciante. Continuou como se não visse nada, colocando o veículo em posição para fechar a rua dando ré.
- Você viu aquilo? Cara simpático não é mesmo? – rapidamente engatou a ré no carro – Espero que tenha trazido suas algemas, eu esqueci as minhas. – disse sorrindo ao ver que finalmente teria um pouco de ação. Enquanto direcionava o veículo para fechar a rua, falou rapidamente o que nem de longe seria um plano – Eu vou na frente, ele provavelmente está armado, se sacar eu atiro, se ele correr e passar por mim você pega, ok?! OK!
Carissa
A ronda pareceu bem mais tranquila do que tinha esperado, especialmente porque era muito mais fácil conversar com Boyd sobre todos os filmes antigos de ação e policiais, e contar pra ele sobre os seriados policiais novos que gostava de assistir todos os dias praticamente. "Bom, do jeito que estamos indo, não vai demorar muito pra gente passar por todas as áreas de ronda e voltar pra delegacia, não vai ser tão difícil... nem lembrava que era fácil assim fazer uma ronda, está mais divertido do que imaginava", pensou consigo mesma, puxando da memória mais e mais dados sobre seriados, filmes e livros americanos, tão distraída nos próprios comentários que mal percebeu quando a atenção de Boyd estava completamente voltada para alguma cena adiante na qual ela não prestou a menor atenção.
Só parou o discurso empolgado quando notou a ré cuidadosa para fechar uma rua específica e olhou ao redor, voltando-se para o parceiro de ronda.
- Ah? Por que estamos parando aqui? A ronda é... - não teve tempo nem de completar a frase, quando Boyd comentou sobre uma pessoa simpática. - Ver o que? Simpático? Quem...?
Olhou ao redor, perdida na situação, começando a sentir o nervosismo por não entender o que estava acontecendo. Conferiu as algemas que estavam no cinto das armas.
- Trouxe sim... o que é pra fazer? Espera, o que está acontecendo, eu deveria chamar reforços? Tem que avisar à central e... o que eu aviso? Qual o código? O que aconteceu? - perguntou a tempo de ser interrompida pelas instruções muito sucintas de Boyd sobre ir na frente, alguém estar armado, tiros e correr. No instante seguinte, o policial já estava saindo do carro e a morena se pegou completamente perdida. - O QUÊ?! Oficial Garret!!! OFICIAL! BOYD!
Boyd
Com tudo esclarecido, pelo menos era o que tinha certeza, Boyd saiu do carro, enquanto entrava andando no beco, sua mão apoiada no coldre, olhando fixamente para o traficante. Caso fosse necessário atirar, precisaria evitar um tiro fatal, causaria dores de cabeça que não sentia saudades, mas o pior seria um possível problema para Carissa que saiu com ele sem ter planejado isso para seu dia. Retirando a trava da pistola, posicionou-se de forma que a própria moto estacionada pelo imbecil dificultasse sua fuga. Caminhando vagarosamente, levantando a jaqueta de forma a mostrar o distintivo preso no cinto no lado oposto à arma.
- Polícia! De joelhos, com as mãos na cabeça, ou deitado num saco preto? Você decide. – Falou de forma incisiva, para mostrar que não era uma piadinha dos gordos da delegacia. Sabia que tinha sotaque em seu francês, mas fez-se entender muito bem.
Esse tipo de bandidinho geralmente não é muito inteligente, a maior prova era a localidade aberta e as drogas num veículo, que Boyd apostava 100 dólares que era registrado no nome do criminoso ou algum parente. Esses caras tendem a ser descartáveis, a quantidade que eles vendem geralmente cobre os prejuízos de quando eles finalmente são pegos, em seguida vem um novo imbecil e o ciclo se renova. Pressionados da forma certa, eles podem passar algumas informações interessantes, então precisava assustá-lo um pouco.
A reação do criminoso foi como o texano esperava, procurou com os olhos uma rota de fuga e por reflexo colocou a mão nas costas, onde certamente estaria a arma. Tentou justificar que não era crime estacionar a moto e falar com pessoas, enfim, a mesma ladainha que eles aprendem na escolinha dos marginais. Ao ver que o sujeito não tirava a mão das costas enquanto falava, provavelmente pegando o melhor apoio possível da arma. Boyd não esperou ele terminar a conversa fiada, interrompendo-o.
- Eu não dou uma foda, vou apreender essa merda que você está vendendo aí. Vou contar até 3, se você não ajoelhar com as mãos onde eu possa ver bem devagar, vou encher teu rabo de chumbo.
Iniciou a contagem, ainda com a arma no coldre, mão apoiada, de forma alguma o seu oponente tiraria uma arma das costas antes do cowboy sacar a sua. O marginal estaria morto antes de cair no chão caso tentasse. E conforme o planejado, antes do final da contagem o traficante quis tentar a sorte e fez todo o movimento para puxar sua arma, era um convite inevitável, dessa forma as balas começaram a voar.
Carissa
“Mas o que é que tá acontecendo?! É só uma ronda, não devia acontecer nada disso, o que foi que teve aqui? É pior do que os filmes com os policiais texanos, o que eu faço? O que eu faço? Chamo reforços? Eu tenho que fazer alguma coisa, mas ele disse que era pra pegar algemas e e e e... atirar e correr e... ah, ele já está lá, ele já tá indo falar com o cara, ai meu Deus, reforços, eu tenho que chamar reforços e.... não, eu sou o reforço eu... as algemas, eu tenho que ir também…”
Os pensamentos em profusão foram só um adicional às ações automáticas de Carissa ao sair do carro tão nervosa que fechou a porta com mais barulho do que precisava. Boyd já estava alguns bons passos distante, abordando o rapaz na moto com cara de delinquente que não era bom sinal. “Foco, Carissa, é o seu parceiro, ele sabe o que está fazendo, aprendeu com Máquina Mortífera... meu deus, eu podia pelo menos ter acabado com o Murtaugh de parceiro ao invés do texano... vai dar certo, vai dar certo…” Acompanhou a passos bem cautelosos, uma das mãos no cacetete que tinha levado e a outra nas algemas que ele tinha pedido. Engoliu em seco e antes que pudesse se aproximar o suficiente para saber como a conversa tinha se desenrolado, os movimentos dos dois foram bem mais rápidos e no instante seguinte, ouviu apenas o som dos tiros perto demais e a reação foi automática. Gritou ao mesmo tempo em que abaixou a cabeça entre os braços para se defender, o que fez com que largasse o cacetete e as algemas. Virou-se para correr de volta para o carro, onde poderia se defender e pedir reforços, mas aquilo foi suficiente para tropeçar no cacetete que tinha acabado de derrubar e cair de cara no chão, os joelhos batendo contra o asfalto para logo em seguida bater o queixo, mesmo na tentativa de aparar a queda com as mãos, que ficaram arranhadas, assim como o queixo e a língua que mordeu no processo, sentindo o gosto metálico de sangue na boca.
- Aiaiaiaiaiaiiiii,tádoendoooo,eunão queroserpegaporumabalaperdida,porqueéqueeuvimpracá?! - choramingou, mal conferindo a situação de Boyd, embora pudesse ouvir vozes masculinas alteradas e o som das balas tivesse cessado.
Boyd
Enquanto seu oponente fazia toda a movimentação, Boyd rapidamente sacou sua pistola. Por azar do traficante, ou sorte dependendo de quem vê, ele era destro e foi justamente o lado do tórax onde recebeu o tiro do texano. O impacto fez com que a movimentação ficasse comprometida e o posicionamento para atirar também, errando assim o disparo deferido contra o policial. O recuo da arma do criminoso só fez a dor causada pelo ferimento aumentar, de forma que um segundo disparo certeiro ou a troca de mão, mesmo com a adrenalina, fosse inviável. Nessa fração minúscula de tempo, Boyd fez o segundo disparo no joelho do meliante, causando um dano imenso na rótula do alvo, de forma que ele não poderia mais fugir, bem como seu equilíbrio se esvaiu. A soma desses dois fatores fez com que os disparos de desespero do bandido passassem longe de oferecer qualquer perigo a integridade física de Boyd.
- O próximo vai ser na cabeça, largue a arma! – gritou Boyd, enquanto se aproximava, mantendo seu oponente sob a mira da pistola.
Caído no chão, gritando de dor e vendo sua situação, o meliante largou a arma e deitou no chão, de bruços. Boyd até sorriu por ver que ele conhecia o procedimento, afinal. Chegando perto dele, o texano recolheu a arma deixada no chão, só então se virou para ver como estaria Carissa após toda a confusão. Levou um susto ao ver como ela estava, chegou até a procurar um segundo atacante que pudesse ter feito aquilo com ela, sem entender como tudo ocorreu. Decidiu deixar o sujeito no chão, afinal, ele não iria a lugar nenhum. Porém todo o choramingo dele estava fazendo Boyd perder a paciência.
- Calado, seu bosta. Agradeça que ainda está respirando. Não se mova nem um centímetro. – Vociferou o policial, enquanto dava as costas para entregar a arma do futuro apenado para a parceira. Aproximou-se dela, ainda atento e procurando um possível parceiro de vendas.
- Você tá bem? Pode guardar isso pra mim? – Abaixou, colocando a arma apreendida na frente de Carissa, pegando também as algemas. – Obrigado pelas algemas, está tudo bem, vou te levar no hospital quando jogar esse monte de bosta no porta malas. – Indo até a viatura, destravou o porta malas, lugar onde o novo companheiro deles residiria até chegar no hospital.
Voltando com as algemas, colocou o meliante na posição mais desconfortável possível, mãos presas nas costas, algemas apertadas e saiu arrastando ele até a viatura. Nesses momentos, todos os criminosos se tornam bacharéis em Direito. Começou a falar que Boyd não poderia fazer isso, que aquilo era desnecessário, que a droga não era dele, etc. Nem um pouco preocupado com tudo isso, o texano ainda forçava o sujeito para ele forçar o joelho machucado. Arremessou ele no porta malas, como se fosse um saco de batatas, e, ao ser xingado socou o nariz do sujeito, com toda a força.
- Dura lex sed lex filho da puta. – Disse ao receber o último “você não pode fazer isso”, fechando assim o porta malas.
Ajudou a companheira a entrar na viatura, pegou o saco de evidências para recolher a droga. Ficou um pouco decepcionado ao ver que não era uma quantidade tão grande, mas já era droga saindo das ruas. Ensacou, retirou a chave da ignição da moto e voltou para o carro. Pegando o rádio para anunciar a captura.
- Oficial Garret para central, preciso de apoio para extração de uma quantidade de droga apreendida. Temos uma oficial ferida sendo levada para o hospital. Necessito de reforço para vigiar um criminoso ferido levado sob custódia. – Colocou o rádio de volta no lugar, ligando o carro para finalmente irem embora. – Parece que nosso jantar vai ficar para outro dia, não é? Você tá bem? Se machucou muito?
Carissa
"Meu Deus, meu Deus, o que está acontecendo, aiiiii, tá tudo doendo! Que ideia estúpida de vir nessa ronda!!", os pensamentos da morena ainda continuavam a mil a despeito da agitação ter acabado, ou ao menos ela achava que tinha acabado, considerando o som bem alto de Boyd com voz de prisão para o delinquente. Ela ainda se apoiou nas mãos arranhadas, choramingando para si mesma até se sentar, averiguando o estrago nos joelhos, como se fosse uma criança fazendo coisas erradas.
- Eu nem to fazendo coisa errada, se a Leona me visse agora, só ia rir de mim, como é que uma pessoa desse jeito quer entrar na UCLAT? Mas eu bem que podia ser aquelas pessoas especialistas em computador que não precisa ir pra campo... tá que eu preciso aprender a mexer em computador antes, arh... - conversou consigo mesma bem a tempo de Boyd lhe alcançar e perguntar como estava, entregando a arma do criminoso. Só concordou com um aceno de cabeça, engolindo em seco diante do estresse e nervosismo da situação. Deixou que ele levasse as algemas e só concordou de novo com a cabeça. - T-tá bem, eu... eu espero.
Não tinha noção de que ele estava falando literalmente de colocar o delinquente na mala do carro, quando podiam muito bem colocá-lo no banco traseiro gradeado da viatura. Colocou-se de pé para andar até o carro e bater um pouco da sujeira do uniforme, mas nem alcançou a mala a tempo.
- O-oficial... v-você não pode...! T-Tem que colocá-lo no carro...! I-is-isso é... eu-- nem conseguia raciocinar muito bem, só seguiu com Boyd até o carro e entrou no lado do passageiro, enquanto ele passava o pedido de reforço para a central. A única coisa que fez foi suspirar longamente, passando a mão pelos cabelos. - Eu não fui feita pra isso, não mesmo...! Você e a Leona que são gente de filme e que podem ir pras rondas e fazer essas coisas de seriado! Eu só fui feita pra ficar na central e pesquisar e fazer perfil e essas coisas normais, não pra sair correndo pra atirar em todo mundo assim! Ahhhh... eu estou cansada e tá tudo doendo...! Eu quero ir embora...!
Boyd
- Não esquente, ele pode ficar no porta malas. Não gosto de sujar a viatura com sangue de animal. Ele teria uma viagem mais confortável se não tivesse um comportamento ruim. Afora que minha parceira se machucou por causa dele, isso eu não deixo passar. – Falou sorrindo, pois depois de um tempo, finalmente se sentia mais vivo e útil. A auto depreciação de sua companheira fez ele mudar o tom, para não parecer estar sentindo mais satisfação com tudo do que deveria, apesar de estar.
- Não fale assim, são oficiais como você que prendem peixes grandes. Caras como eu não conseguem seguir uma trilha de dinheiro por compras em empresas de fachada que se perde. – Tentou reconfortar sua companheira de viatura enquanto colocava a rota para o hospital no gps, ainda não sabia como chegar lá rápido o suficiente para jogar o lixo fora. Umas voltas na cidade posteriormente seriam úteis para situações como essa, procurar as pistas menos planas, fazer sua carga sacudir o máximo possível. Mas isso ficaria para outro dia. – O sonho de todo governo é ter gente preparada como você. Dinheiro apreendido, bens confiscados, tudo isso é lucro para o Estado. No meu caso são processos, reparação de danos e coisas do gênero. A vantagem do meu método, é que uma bala na cabeça impede a reincidência em 100% dos casos. Você aprende o que eu faço muito mais rápido do que o contrário.
Não costumava ser tão sincero com as falhas de suas próprias ações, mas a pobre coitada já ia ouvir horrores de Leona quando voltasse, concordar com os erros dela não ajudariam muito. Afora um possível choro copioso dentro da viatura, o texano era péssimo com esse tipo de situação, preferia um tiroteio no escuro contra SEALs do que passar por isso.
Durante o caminho, foi tagarelando experiências péssimas de seu início de carreira em campo, dentre elas uma vez que blefou com uma pasta de folhas em branco, avisando que os traficantes iam saber que o preso deu com a língua nos dentes, entregando a lavagem de dinheiro. – O cara em seguida pediu para ver a documentação das transações, se fossem dele efetivamente, ele cooperaria. Eu não fazia ideia de como conseguir aquilo tão rápido, claro que eu tentei enrolar, mas ele sacou na hora. Foi bem engraçado como tudo se desenrolou, tirando que os traficantes realmente mataram o cara. Mas eu avisei, não foi?! – Não sabia se Carissa estava muito afim de conversar, dada toda a situação. Ela tinha dito que estava cansada, e ele entendia isso. Para alguém sem tanta experiência de campo quanto ele, no primeiro dia arriscando com um parceiro acabar num tiroteio, não era muito legal. Apesar de que para ele, aquilo nem conta como um tiroteio, seria mais um pequeno desentendimento.
Ao finalmente chegar no hospital, para surpresa de ninguém, nenhum dos reforços chamados estava no local. Isso demoraria mais do que ele gostaria, e, se Leona não estivesse cuspindo fogo dentro do departamento, Boyd faria isso assim que colocasse os pés lá. – Bom, enquanto você se cuida, eu vou jogar o lixo fora. Vou checar você assim que der, ok?! Se você receber alta rápido, me avise. Vou precisar de uma carona quando você pegar a viatura.
Carissa
As palavras de Boyd não lhe deixaram mais tranquila. De qualquer jeito, tinha se metido no meio de uma perseguição na rua com um criminoso de beira de esquina e o acusado estava preso no porta-malas do carro, o que não era nada prudente nem dentro da legislação policial.
- Está tudo errado, tudo errado. Ele não devia ir no porta-malas, a gente pode ser processado por isso, sabia? E aí o problema vai vir pras minhas mãos e vai entrar na minha ficha e eu nunca vou pra UCLAT! Eu não prendo nada aqui em Cerise, nem documento com clipe de papel! E vocês fazem essas coisas aí fora das leis e eu não tenho como ajudar, a minha nota de campo não foi boa, sabia?! Quer dizer, eu me esforcei, mas mesmo assim, o suficiente pra não ser ruim e não afetar minha transferência futura! Eu não ando pegando nada de bandido como esses aí que você descreveu nem acabando com grandes redes de tráfico, isso é coisa de seriado! - ela continuou reclamando, choramingando, e logo o assunto na viatura tinha se tornado a extensa narrativa dos casos em que Boyd tinha se metido nos EUA, o que lhe deixou parcialmente distraída dos machucados nos joelhos e nas mãos, ao menos.
“E depois quer dizer que não é daqueles policiais de filme de ação, quebrando aí um monte de regras pra poder pegar os bandidos e as pessoas que se ferram são gente como eu que cuida das questões administrativas, e dessa vez eu até fiz parte dela!”, suspirou longamente, massageando o espaço entre os olhos, as pernas e braços começando a arder depois de toda a confusão e do sangue do corpo esfriar. Finalmente chegaram no hospital e ela sentiu a dor nos pés e nos joelhos quando saiu, soltando uma série de “au” ao se apoiar na viatura para andar até a entrada da emergência, ouvindo as instruções de Boyd.
- Espere aí, você vai me deixar aqui sozinha?! E o que vai fazer com o cara no porta-malas?! Temos que levar ele pra delegacia primeiro, Boyd, não vou ficar aqui no hospital sem fazer nada! E não vou ficar aqui sozinha também! - reclamou com o oficial, sem muita vontade de ir até a emergência como ele tinha sugerido.
Boyd
Aparentemente sua companheira achava que ele iria desovar o cara em algum lugar. O pensamento até o divertiu, em mais um mês ou pouco mais que isso ela estaria certíssima, mas não hoje. Realmente, seus métodos diferiam muito dos aplicados no local. Se algum membro da máfia russa, italiana ou algum irlandês metido a machão viesse para essa cidade, sem muito esforço tomaria conta de todo o lugar, até mesmo da força policial. Para a sorte (ou azar) de Carissa, ela tinha um ótimo professor de como domar esse tipo de situação.
- Não se preocupe, eu também vou ficar no hospital – disse, tentando acalmar a parceira – mas, como dá pra ver nos seus ferimentos, você e o manezão do porta-malas vão para alas completamente diferentes. Você vai estar livre em 10 ou 15 minutos, pode ir embora descansar se quiser. Sobre seu futuro, não se preocupe, faça o relatório e conte a verdade. Você foi atrás do policial recém-chegado, protestou em todo momento contra suas ações, ele colocou o cidadão no porta-malas e o trouxe para o hospital de forma inapropriada. Nada vai acontecer com você, esse animal não vai processar ninguém. Ele não será preso, claro, as condições de transporte farão com que ele seja solto. Mas... – fez uma pausa para efeitos dramáticos - ele vai para casa bem ferido, sem a droga que ele deveria vender, além de não ter mais o dinheiro. Vai precisar dar um monte de explicações sobre como ele foi subjugado pelos policiais gordinhos e preguiçosos que fazem as rondas, então é aí que a real função dele e dessa ronda se apresenta. – Finalizou sorrindo e começou a sair do carro, encostando-se no teto, completou – Ele é um cartão de visitas, agora os coleguinhas dele e todos os outros animais vão saber que chegou alguém com sangue no olho na cidade. Nada vai acontecer com você. Lembre-se, os criminosos sempre têm muito mais a explicar do que nós.
Dirigiu-se assobiando para o porta-malas, ao abrir, o passageiro logo começou a reclamar. Sem dar muita atenção, Boyd interrompeu o chororô com mais um soco – Levanta seu merda, vai receber tratamento muito melhor do que merece – o texano puxou o indivíduo do seu local de transporte como se fosse um saco de batatas, jogando-o no chão. Dando quase nenhum auxílio para o rapaz levantar-se. – Agora, seu bastardo, provavelmente algum bosta de advogado vai te soltar logo que você sair daqui, mas você tentou atirar em mim e agora eu tenho uma desculpa pra estourar seus miolos no próximo encontro. Se eu pegar qualquer um de vocês filhos da puta traficando na minha cidade, não vai ter advogado pra tirar vocês do caixão, tá entendendo?! Agora vamo lá, gastar gaze pra limpar um monte de estrume feito você.
Carissa
Carissa até tentou abrir a boca e protestar várias vezes a cada sentença que ele proferia, mas não fez mais do que abrir e fechar a boca. “Eu mereço, eu mereço, eu devia ter ficado na delegacia... a primeira coisa que tenho que fazer quando voltar é achar algum maluco pra ficar de parceiro desse Riggs, porque eu não aguento, eu vou me aposentar cedo demais com esse povo maluco na delegacia. E era tudo tão calmo! Que tristeza, que tristeza…” ela suspirou longamente depois de toda a explicação dele de porque a atitude servia para avisar aos outros bandidos que tinha gente nova na área. Sentia os joelhos muito doloridos e talvez fosse só a tensão de toda a situação. Podia até gostar daquelas cenas de filme de ação, mas não queria mesmo ter que passar por ela na vida real.
No fim das contas, só concordou em ir para a emergência para ser atendida enquanto ele voltava até o porta-malas para ver o estado do ladrão que estava lá. A sorte de Carissa foi conhecer gente suficiente no hospital que adiantou o seu atendimento, mas o azar de ter que conversar e explicar para muitas pessoas o que tinha acontecido, tentando omitir boa parte da história que só iria para o seu relatório, afinal, eram detalhes do seu trabalho.
Em alguns minutos, estava sentada numa das macas da emergência só para que um dos enfermeiros fosse buscar o material para limpar os machucados e passar um spray cicatrizante. A mente ainda estava a mil e só queria mesmo colocar um remédio nos joelhos e ir pra casa, mas nem aquilo podia fazer, tinha que voltar para a delegacia.
- Arhhhh... eu acho que esse dia não vai terminar tão cedo. Eu quero ir pra casa, urhhh... - choramingou na cama, a cabeça baixa olhando para os arranhões que pareciam bem ridículos para uma adulta e ainda por cima policial. - Melhor parecer uma criança do que ter levado um tiro...
Leona
A vida de oficial na pequena cidade de Cerise não estava de todo ruim, tinha achado coisas para se entreter, e estava investigando e mexendo em muita coisa, a ponto de que já estava começando a incomodar algumas pessoas que estavam lhe barrando passagem em algumas regiões, isso era bom. Mas é claro, que nem tudo eram flores, apesar do trabalho estar indo bem, algumas coisas estavam constantemente lhe irritando e aborrecendo. Embora Jack, fosse alguém com a qual já estivesse habituada a lidar, a ideia dele estar em Cerise, na França, fuçando nas coisas, sem que ela sequer soubesse no que ele estava envolvido. Como se não bastasse isso, tinha de lidar com o novo colega, conterrâneo das terras americanas.
Pensava não ter nada contra ele, mas não era verdade, depois do último encontro desastroso no apartamento de Carissa, onde teve de ouvir todo tipo de absurdo - claro que estava exagerando, mas quando se tratava dos seus times preferidos, a leoa ficava mais irritadiça -. Agora, enquanto estava responsável de checar documentação, Carissa estava fazendo trabalho de campo justamente na companhia de Boyd Garret. Só aquela ideia fazia a loira quebrar o lápis na mão, era o quinto naquela tarde. O humor estava péssimo, e o primeiro comentário que ouvisse falando sobre TPM, com certeza iria prender o outro oficial por desacato - mesmo que não fosse.
Estava entregando os memorandos nos setores, depois de terminar sua parte da papelada, ouviu a chegada da mensagem de rádio do oficial Garret. Imediatamente sentiu frio, mesmo que fosse uma situação extremamente costumeira, principalmente quando estava em NY, passar por aquilo em Cerise e ainda envolvendo Carissa lhe deixava com um frio e incômodo estranho. Sequer perguntou se podia ir, chamou outro oficial para lhe acompanhar e foi na viatura da polícia até o hospital, não ligou para nada do blá blá blá, do outro oficial reclamando que tinha saído do horário dele, e que ela teria de cobrir o serviço dele, e blá blá blá:
-- QUIETO! -- rosnou para o sujeito, que aquietou-se como um caixão, recém posto na cova.
Chegou na emergência do Hospital em tempo de ver os seguranças patrimoniais afastando as pessoas e criando um perímetro para o oficial Garret e o maloqueiro estrupiado. Caminhou séria, a expressão fechada, ignorou o segurança patrimonial, o outro oficial que parou para mostrar o distintivo e ter passagem:
-- Você parece bem oficial Garret.. -- Olhou de cima a baixo, conferindo que ele não estava machucado, e estreitou o olhar para ele, como se estivesse despojando um milhão de reclamações sobre ele, apenas com a cara fechada: -- Onde está a oficial Riviere?-- perguntou apenas para ter a confirmação, depois não fez questão de escutar mais nada, afinal, não tinha que conversar sobre burocracia da polícia na frente de marginais da rua.
Esperava que o outro oficial que tinha levado, soubesse que a única função dele, era dar carona ao oficial Garret, porque a sua preocupação era sua parceira, porque tinha concordado com aquela troca de turno mesmo? Esperava que ela não estivesse muito machucada, se culparia por muito tempo, embora isso fosse completamente normal no trabalho que faziam. Chegou a sala de emergência, para avistar Carissa sentada na maca, os joelhos arranhados, a cara vermelha, imediatamente sentiu um alívio enorme passar por todo o corpo, e até a expressão séria se desmanchou:
-- Ah...hmm-! -- Se recompôs e caminhou até próximo da morena mais nova: -- Como você está oficial Riviere?
Boyd
Após a entrada no hospital, verificou que tudo era tedioso nesta maldita cidade. Até mesmo a emergência, como pode?! Pelo que Boyd pôde perceber, aparentemente a emergência só atendia crianças e idosos. Provavelmente a causa de morte mais comum era “morreu de velho”. Eram necessárias algumas precauções para proteger as pessoas do hospital, no caso de uma eventual retaliação, mas pelo andar da carruagem isso era somente para os escritores de ficção. Estava auxiliando a delimitação do perímetro e verificando o que a segurança do local tinha disponível, para evitar futuros problemas, quando finalmente a cavalaria chegou. Ao menos, pelo que podia perceber, o coice do cavalo estava se aproximando.
Já estava a tempo o suficiente no departamento para saber que, apesar de parecer sempre igual, a cara de poucos amigos de Leona tinha algumas nuances, isso ajudava num gabarito para ler a situação. Lidar com ela é como lidar com um recém nascido, a comunicação é falha então você tem que se adaptar aos sinais enviados para saber se ele está com fome ou com gases. Aparentemente hoje era o dia de cada oficial trazer sua vítima, o texano trouxe o marginal, Leona trouxe um pobre oficial que certamente foi pego no fogo cruzado.
A oficial Blanche sempre dava infinitas aberturas para provocações nas conversas, a diferença é que obviamente ela não está habituada a recebê-las, nessa situação ela não decepcionou. O divertimento veio rapidamente ao ouvir o “você parece bem”. – Obrigado, você também não é de se jogar fora – Disse sorrindo. Ao ouvir a pergunta sobre Carissa, nem teve tempo de responder direito, a loira saiu na direção apontada pelo dedo de Boyd. – Você podia ao menos parecer menos decepcionada por eu estar bem! – Disse ele para as costas de sua companheira, num tom que certamente ela ouviria. Voltando sua atenção para o outro oficial, continuou – Ei, doucheface, cadê a chave da viatura? – o oficial, ao mostrar a chave, antes que pudesse impedir ou reclamar de algo, teve a mesma furtada pelo texano, que o atropelou com ordens – Parabéns, você é o porteiro do zoológico agora, cuide do animal baleado e avise ao animal selvagem que veio com você que eu fui embora. Boa sorte!
Carissa
A única coisa que faltava a Carissa era balançar as pernas que não tocavam no chão por estar sentada na maca esperando o enfermeiro voltar. "Eu quero ir pra casa e colocar as pernas pra cima no meu sofá! Mas por causa dessa confusão toda eu vou ter é que voltar pra delegacia pra poder fazer o relatório de tudo o que o Boyd fez, se ele for que nem o Riggs, é claro que ele não vai fazer nada de relatório, e se a Leona souber que fizemos toda essa bagunça e não teve um relatório, ela vai acabar comigo!!!", Carissa levou as duas mãos ao rosto, respirando fundo, ainda sentia o corpo todo tremendo pela tensão da confusão anterior.
- Calma, Carissa, vai dar tudo certo... - ela comentou consigo mesma, até ouvir uma voz muito conhecida pigarreando na entrada do quarto.
Naquele mesmo instante ela sentiu o sangue descer até os pés, o corpo todo tão gelado que a expressão ficou completamente pálida ao levantar o olhar e avistar Leona entrando no quarto. Tinha que ser justo ela para atender ao chamado exagerado de Boyd e descobrir aquela vergonha de atuação?! Nem ouviu a pergunta que veio a seguir da loira, entrando imediatamente em desespero por ter feito algo "errado".
- E-e-e-eu...! D-desculpe! N-não foi intenção, e-eu-eu eu não queria sair d-d-da delegac-cia e-eu o-o of-ficial G-Garret ia s-s-air pra ronda e-e-e eu t-tentei explicar q-que n-não pode ir soz-zinho, q-que precisa de parceiro e-e-e ele n-não tem um p-p-parceiro então e-e-ele queria ir d-do mesmo jeito e-e eu n-não p-podia d-d-deixar ir s-s-sozinho e e-eu s-sei que n-não d-d-evia ter ido e m-meu tr-trabalho n-não é de campo eu t-tentei impedir e ele já t-tinha ido e foi tudo r-rápido d-demais e eu n-não consegui f-fazer nada e f-f-ui dar suporte e aí teve um tiro e-e-eu s-sei q-que não fui f-feita pra campo e f-foi tudo rápido e eu d-devia ter parado ele p-p-porque isso n-não é um seriado e eu n-não sabia o que fazer e-d-d-desculpe d-esculpe, - as palavras saíram completamente enroladas e rápidas, a oficial mal respirava entre uma palavra e outra e o rosto e os olhos começaram a queimar e ela só sentiu os olhos enchendo de lágrimas de frustração - eu não queria f-f-azer n-nada e-e-eu t-tô t-toda arranhada e-e m-meus joelhos doem e-e-eu desculpe...!
Ela levantou as mãos para esfregar o rosto com as costas das mesmas, já que até as palmas das mãos estavam arranhadas, e foi bem em tempo do enfermeiro voltar para ficar um tanto perdido na situação com Carissa choramingando na cama da emergência, com uma oficial nova na sala.
Leona
A loira quase deixou um suspiro mais drástico escapar diante de poder ver a parceira bem, sem qualquer ferimento mais grave. Se surpreendeu com a palidez da pele, mas supôs que aquilo estava mais relacionado a surpresa de Carissa ao lhe ver ali tão cedo, e não em casa, quando provavelmente teria uma desenho melhor do cenário para poder falar. No entanto, diante de todo o estresse da situação, achou compreensível a reação exagerada da mais nova, ao tentar lhe narrar todos os acontecimentos da tarde aí sair na companhia do oficial Garret e os demais problemas que a fizeram estar sentada numa maca com os joelhos arranhados. E ainda bem que aquilo era o máximo de machucados que sua parceira tinha recebido naquela saída desvairada na companhia de Boyd, senão o Texano ia ouvir umas boas reclamações, sabia que ele não levaria a sério, mas o importunava mesmo assim.
Aliviou a expressão diante da expressão de quase choro da mais nova, porque se ela estava se desculpando era justamente porque imaginava que seria repreendida pela loira por todo ocorrido. Antes que pudesse falar algo, o enfermeiro retornou a sala, observando as duas, e Leona fez um meneio com a cabeça indicando na direção de Carissa: -- Ela vai demorar muito pra ser liberada?
No que o enfermeiro negou com a cabeça, explicando brevemente que estava apenas fazendo avaliação de rotina pra saber se havia ocorrido alguma concussão, não sendo o caso ela estava liberada para ir embora. A loira nem esperou que o enfermeiro de fato saísse da sala para reduzir o caminho e se aproximar de Carissa, depositando a mão sobre o ombro da mais nova:
-- Você teve um dia difícil, fez um bom trabalho hoje, pode descansar oficial Riviere. -- Leona ainda fez questão de soar menos assertiva e mais compreensiva daquela vez. E esperou apenas que a mais nova erguesse o olhar para poder encará-la nos olhos: -- Carissa, Vamos pra casa...?!
Perguntou soando mais compreensiva do que qualquer outro oficial poderia supor, mas sabia o que era o estresse de ir a campo, isso porque gostava, quem dirá para Carissa que tinha ido apenas para evitar que um colega de trabalho se metesse em confusão, e acabou entrando em uma situação muito maior. Carissa era boa demais para aquela delegacia, realmente, ninguém ali merecia toda a atenção que era dava. Mas não era hora de dar bronca na menor, e sim de acalmá-la cuidar do joelho ralado e pedir algo pra jantar e fechar aquele dia conturbado.
Carissa
Carissa até fez bastante esforço para parar de choramingar, tanto que o rosto ficou bastante vermelho com o esforço e com as mãos esfregando os olhos “Eu não fui feita pra isso, e agora que a Leona ouviu tudo, ela vai brigar comigo de verdade! O Boyd devia ter ficado aqui, ele que devia levar a bronca! Não eu! Mas eu que fiz errado de sair com ele sem ser a parceira dele também, então eu acho que mereço ouvir as broncas e eu só queria... eu só queria fazer o meu trabalho quietinha e em paz e não dentro de um seriado de TV!”, os pensamentos embolados fizeram com que a morena ficasse mais ansiosa e nervosa, os olhos enchendo de lágrimas de novo enquanto ela olhava para baixo com o enfermeiro de volta à sala.
Nem deu para ver a expressão de Leona e nem queria levantar o rosto para confirmar que só ia receber mais uma reclamação “Eu não posso chorar, eu vou chorar na frente dela, ai meu Deus, eu sou muito idiota! Eu num vou chorar por causa de uns arranhões e uns tiros e umas coisas erradas e...!”, ela quase encolheu os ombros com a expectativa quando ouviu a voz de Leona, mas ela só queria saber a informação de quando seria liberada. “Ela não pode brigar comigo aqui com testemunhas e vai esperar a gente voltar pra delegacia pra reclamar! E se chamarem a ouvidoria?! Minha carreira de policial está acabada!”, ela ficou de novo, tão perdida nas próprias suposições que nem ouviu direito as instruções do enfermeiro, e no instante seguinte, sentiu a mão leve no ombro e a voz de Leona perto demais, o que lhe fez sobressaltar e até ficar um pouco tensa com a expectativa da bronca.
Mas todos os pensamentos sumiram da cabeça quando ouviu o tom mais compreensivo de Leona lhe dizendo que tinha feito um bom trabalho e podia descansar. Até levantou os olhos cheios de lágrimas, com uma expressão muito surpresa para a resposta da loira, e foi o suficiente só para que ela lhe chamasse para irem pra casa.
Pela primeira vez em muito tempo, Carissa abriu e fechou a boca algumas vezes, piscando mais de uma vez também, confusa com todas as próprias suposições do que poderia acontecer, pensando que devia voltar à delegacia para fazer um relatório da situação e cuidar de toda a burocracia... mas tudo ficou de lado e ela só pressionou os lábios juntos e concordou com um aceno de cabeça veemente para que fossem para casa. Parecia quase uma criança com os olhos cintilantes, o rosto vermelho, os ombros encolhidos e o conjunto de arranhões de uma queda estúpida. Mas ao mesmo tempo, ao menos se sentia uma criança mais segura na companhia de Leona do que qualquer outro oficial na delegacia - principalmente Boyd.

