[Drive] Perguntas de Rotina [Leona; Emil]
#1
Leona

Leona estava com a cabeça cheia de coisas para pensar depois da breve conversa com o Dr. Vlahos, psicólogo e alvo do psicótico que estavam investigando. Só não estava mais inquieta porque era uma situação que já tinha previsto que ocorreria. E apesar de ser um quadro preocupante que começassem a surgir mortos e desaparecidos, a oficial sentia que finalmente tinha alcançado um ponto na investigação onde estava poucos passos atrás de Kyle. Ainda não tinha como adivinhar exatamente quem ele iria machucar, mas já sabia o que ele iria fazer, e estava e isso lhe dava segurança que estava no caminho certo.

Leona foi acompanhada pelo diretor St. Clavier até a sala de aconselhamento pedagógico, assentiu para o homem e o deixou partir, para lidar com seus próprios pensamentos, mas não antes sem deixá-lo com um aviso para tomar cuidado nos próximos dias. Afinal, estavam na segunda fase de investigação, onde poderiam ocorrer retaliações em pessoas próximas, mensagens, objetos sendo enviados, e em última instância o próprio aparecimento do sujeito, mas Leona não falou diretamente sobre uma chance dele reaparecer pessoalmente, primeiro porque isso atormentaria o homem, e segundo porque isso indicaria níveis elevados de estresse e ansiedade de Kyle, e seria uma atitude muito impulsiva até pra ele.

Tirou o colete que estava usando, que tinha mesmo de forma discreta o brasão bordado do departamento de polícia, ficando apenas com uma camisa social, calça, e coturnos, os cabelos antes entrançados foram soltos, deixando a oficial com uma aparência mais amigável, mas não menos formal. Contataria os alunos como parte da ouvidoria da empresa de segurança que presta serviços à Academia Masculina. Tinha vários alunos para ouvir, todos nomes pomposos, que sabia por já ter pesquisado sobre os grandes nomes da cidade, e embora a superficialidade dos comentários, se mantivesse em reclamações superficiais, algum ou outro comentário sobre os arredores da academia podia ser considerado relevante. Alguns bons minutos depois, tinha chegado nos alunos do primeiro ano, e o próximo aluno a entrar seria justamente o garoto que tinha entregue o objeto ao dr. Vlahos.

Recebeu o rapaz menor com um sorriso no rosto e uma expressão jovial e tranquila, se levantando para cumprimentá-lo com um aperto de mão breve: -- Boa tarde jovem Allard, que bom que podemos contar com sua ajuda hoje, sente-se por favor. Sou Leona Blanche, faço parte da ouvidoria da empresa que presta serviços a St. Clavier, e prometo não tomar muito do seu tempo, são apenas perguntas de rotina.

Emil

O horário de almoço tinha sido conturbado, o garoto não entendeu a reação do mais velho de o enxotar do consultório daquela maneira, certamente não foi a expressão que esperava. Ao sair do anexo administrativo não conseguiu comer de tanta ansiedade, apenas tinha procurado um lugar para ficar só em seus pensamentos. O que tinha feito de errado? Talvez o mais velho não gostasse de surpresas, mas se este fosse o caso, Kurt o teria avisado para ter outra abordagem, teria ele metido o nariz na vida particular do psicólogo e ele não gostou? não tinha certeza, Talvez ele nunca mais queira vê-lo na vida, mil e um pensamentos rondavam a cabeça do garoto enquanto encarava o joguinho no próprio celular, totalmente em outro universo, segunda-feira a primeira coisa que faria é pedir desculpas ao Dr. Vlahos por ter se intrometido e que não faria novamente.

Às vezes não podia acreditar nos problemas que ele mesmo conseguia trazer para os outros.

Com o fim do horário de almoço, Emil despertou de seu estado espaçado e se dirigiu para as salas de aula, ficou ainda mais suspeito da situação ao ser chamado novamente para o anexo administrativo, não esperava que seu dia iria correr assim mas já que ele estava, não queria piorá-lo. Não demorou em atender o pedido e ir para o local, inconscientemente começou a roer as unhas na metade do caminho, antigo hábito adquirido de tanto observar o irmão mais velho extravasar os estresses diários, ele sempre parecia se sentir um pouco melhor depois disso e fazia tempo que ele mesmo não o fazia, começou com o dedo médio, o som dos dentes partindo a queratina quase ritmicamente trazia um certo alívio, depois passou para o dedo anular, não tinha a preocupação de deixar sequer uma camada de unha ou de as cuspir no momento, estava concentrado em quebrar em quantos pedacinhos conseguisse, logo chegou num ponto onde não conseguia mais roer sem sentir dor, o dedo já cansado da mesma posição com sua parte sensível exposta. Por fim, antes de entrar no anexo cuspiu os pedaços de unha fora e limpou o dedo na própria calça, não esquecendo de limpar a saliva acumulada ao lado dos lábios, não contava e ser recebido por uma moça de ar formal, a mesma o deu um aperto de mão que foi retribuído.

Ela não perdeu tempo em se apresentar e especificar o motivo da presença, aparentemente perguntas de rotina - Boa tarde Senhora... t...tudo bem, não estava ocupado mesmo...- o novo contato já estava o deixando nervoso.

Leona

Não era difícil de entender porque o jovem Allard tinha sido escolhido como presa para o psicótico que estavam perseguindo, o garoto tinha todos os indícios de que não era capaz de julgar uma situação como perigosa ou não principalmente pela idade e pela aparência mais retesada e introspectiva. O movimento incessante do corpo, em pequenos espasmos de mover mãos ou pés, desviar o olhar ou mover a cabeça, era típico de jovens com altos níveis de estresse decorrente de ansiedade. A confirmação vinha muito fácil através das unhas visivelmente roídas da hesitação em falar, e do reforço em dizer que não tinha nada melhor para fazer. Qualquer estudante mais convencional, tem coisas melhores pra fazer e se entreter que responder perguntas de rotina para uma estranha:

-- Que bom que tinha tempo e disposição para atender a esse chamado. É sempre bom ouvir a opinião dos alunos, que são os maiores interessados nessa instituição. -- comentou com um texto mais prosaico, e batido, para tentar dar a sensação de que a situação era plenamente comum, a loira uniu as mãos e manteve um sorriso amistoso, embora observasse o menor de forma muito direta, tentava aliviar ao máximo a presença mais intensa que tinha como policial:

-- A primeira pergunta, é relacionada ao seu tempo dentro da academia, quanto tempo você passa em aulas, em atividades extracurriculares como: clubes, fale-me um pouco da sua rotina aqui jovem Allard, por favor.

Completou reforçando o “por favor” e a ideia de pedido, para que o garoto sentisse que tinha algum nível de controle sobre a situação e que não estava completamente sendo interrogado. Embora soubesse por experiência, que lidar com pessoas ansiosas sempre ditava ter muito mais cuidado com elementos de gatilho que poderiam desencadear crises de estresse. E pelo que podia ver, o menor já estava bem no meio de uma crise, não precisava que ele tivesse outra em decorrência da sua conversa.

Emil

Leona Blanche, um nome até agora desconhecido pelo menor, ou nunca relembrado até o presente momento. A mulher parecia alguém de personalidade forte, representante da ouvidoria de uma das empresas relacionadas à St.Clavier, e alí estava, o observando enquanto procurava saber mais da rotina do garoto, uma situação diferente para se dizer o mínimo.

O clima do local até poderia se assemelhar a um de pesquisa social, embora o moreno não conseguisse engolir aquela massa de pressentimento ruim no fim de sua garganta. Leona não estava fazendo pressão para que respondesse ou tinha sequer um ar de demanda, o que facilitava para organizar parcialmente os próprios pensamentos do garoto para as perguntas.

Com sua rotina organizada mentalmente, conseguiu voz para explicar à representante seus horários de aula, suas durações e horários livres como o de almoço, também citou os horários do clube de jardinagem, geralmente começando às 15:00 indo terminar pelas 17:00 horas, o que costumava fazer no local e as frequências com que participava das atividades, não esquecendo do horário que cumpria aos sábados. Durante o meio da explicação, o garoto levou uma das mãos até os fios encaracolados, os enrolava no dedo e girava os fios, tentava colocar atrás da orelha, dava leves puxos, não tinha o mesmo comprimento de cabelo que o colega de quarto, então mesmo que seu cérebro o condicionasse a imitá-lo inconscientemente, não o fazia em sua perfeição.

- Eu tento não me atrasar para nada... Mas as vezes esqueço da hora de sair da estufa, não faço por mal.. - parou a interação com o cabelo, se tocando que estava imitando mais uma vez alguém que conhecia, levando a mão para a barra da camisa, eram apenas perguntas de rotina.

Leona

Era perceptível que o jovem rapaz tinha ficado menos tenso ao dar-lhe o poder de escolha sobre o que falar e não falar. Imaginava como deveria ter sido uma conversa breve até que o psicótico conseguisse a empatia do rapaz, ele parecia muito prestativo, principalmente ao afirmar que passava mais tempo na estufa do que deveria. Aquilo era um sinal claro de alguém que sentia como se não fosse o suficiente, e por isso precisasse fazer mais do que os outros, para ser minimamente reconhecido. E a necessidade de aprovação também ficava evidente no gesto de mexer no próprio cabelo, como se houvesse certa expectativa em saber se tinha dado a resposta certa, ou se as informações dadas eram aquelas procuradas naquela entrevista em questão:

-- Muito bom, exatamente o que estamos procurando, alunos comprometidos com suas atividades na instituição, sejam as aulas ou atividade extra-curriculares, isso mostra que passa mais tempos nas dependências da academia do que fora dela. -- Fez questão de destacar que as informações dadas eram relevantes e o ponto que buscavam naquela pesquisa, para servir de isca. Como o rapaz reagia a ser elogiado e a acreditar estar ajudado genuinamente outra pessoa: -- Sobre os atrasos, eu não vou contar a ninguém sobre eles, sabemos que acontece, e é natural que entre tantas coisas para fazer em algum ponto acabe ocorrendo algum atraso, não sendo algo recorrente, não há qualquer problema. -- Não deixou o ponto de defeito solto, mas destacou que aquilo não era um grande problema e ainda se ofereceu como uma cúmplice daquele pequeno delito, seria possível estabelecer algum grau de empatia através de uma brincadeira simples?

-- Imagino que dessa forma, sobre pouco tempo para aproveitar fora da instituição de ensino. Se puder, gostaria que falasse um pouco sobre os seus horários de saída, e retorno para St. Clavier, se sente tranquilo em caminhar nas imediações da academia masculina? -- Reforçou o “se puder”, para o ponto que o Emil tinha controle sobre o que dizer e não dizer naquela conversa, mas o induziu a pensar que a informação da segurança no entorno da escola era algo importante para ser dito.

Emil

Desviou o olhar ao ser elogiado pela mais velha enquanto suas bochechas ganhavam um leve rubor, embora expressado que trabalhava para a ouvidoria de alguma empresa relacionada a ST. Clavier, o mais novo ainda não tinha certeza do motivo em questão dela estar lá, se fosse algum tipo de pesquisa de campo já teria sido anunciado no início da conversa ou qualquer pesquisa da mesma natureza.

-Não é nada demais... Qualquer um que goste do seu clube provavelmente gostaria de passar mais tempo na escola... Não precisa se preocupar com os atrasos! Eu posso conversar com o representante do clube depois e pedir desculpa. Não quero atrapalhar o trabalho da senhora... - deu uma certa ênfase em não atrapalhar a moça, com tudo que aconteceu a última coisa que queria era que causasse mais confusão - Bom....hm... Eu não saio para muitos lugares, é mais a floricultura e o cinema que eu visito, se meu colega de quarto quiser que eu o acompanhe em algo eu até vou, mas ele que escolhe os lugares então, e eu sigo os horários de recolher. No geral eu acho tranquilo andar pela cidade, uma vez eu me perdi e parei em um beco estranho mas foi por culpa minha mesmo... E uma moça me ajudou então não tenho do que reclamar eu acho

Mudando um pouco a posição como estava, voltou a olhar para Leona, curioso sobre o interrogatório surpresa.

- A escola é segura pelo que eu vi e ouvi falar, não que eu vá entender dessas coisas...

Leona

Era possível ler o garoto mais novo com facilidade, ele era certamente inofensivo, e não tinha nada a esconder, talvez o que não mostrasse fosse apenas pela natureza introvertida e ansiosa do jovem rapaz. Notou o quanto ele reforçava o sentimento de não atrapalhar, com certeza ele tinha sentido recentemente como se estivesse atrapalhando alguém ou algo a se concretizar. Observou o rapaz e desenhou um sorriso, desviando o olhar um pouco para aliviar a tensão, se recostando a cadeira e cruzando as pernas até para dar mais espaço entre os dois:

-- A escola é segura, disso não há dúvidas. E fico feliz de que tenha conseguido auxílio por parte dos moradores da cidade, Cerise é um local bastante acolhedor. -- comentou, passando um ar mais tranquilo na conversa, tentando diluir a ideia de que era um interrogatório onde o mais novo estava sendo julgado por suas respostas:

-- Não se preocupe jovem Allard, você não me atrapalha de forma alguma, não acredito que um rapaz proativo como está se mostrando seja capaz de causar qualquer transtorno a alguém. -- Pontuou aquilo, jogando a informação, a fim de ver as demais reações do garoto, afinal se ele tinha tido a sensação de que tinha atrapalhado alguém num passado recente, ele não conseguiria esconder as expressões quando a recordação viesse.

Emil

As palavras da oficial passaram nos ouvidos do garoto como pequenas agulhas, não merecia receber palavras tão doces depois do que aconteceu com o psicólogo. Em sua deixa, voltou a curvar o corpo e mexer nas unhas, o sentimento de tristeza borbulhando dentro de si, já não tinha ideia se estava suando de nervoso ou se era culpa do tempo. Das formas que tinha imaginado aproveitar a estadia na escola não iria em mil anos conseguir pensar que causar transtorno para alguém profissional como Dr. Vlahos seria uma delas, tudo o que ele queria era alguém para conversar e dar direções, embora pouco provável, no fim, apenas esperava que um dia ele consiga o perdoar.

-... Não é bem assim... Eu...- com um forte suspiro, Emil contou brevemente o acontecimento, segurando algumas lágrimas com sucesso omitindo certas partes como ser retirado rapidamente pelo profissional em desespero, ou o olhar do mesmo quando descreveu o “amigo” que tinha encontrado, esse olhar ficaria marcado para sempre, para lembrar desse dia.

Queria apenas sair de lá o mais rápido possível, se sentia péssimo relembrando de tudo, como ele poderia ter sido enganado tão facilmente? Não era mais uma criança, se seus pais ficassem sabendo dessa história saberia que teria que ouvir muita coisa por muito tempo. Já sem a vontade inicial de chorar, o garoto desviou contato visual com a moça, queria que essas “perguntas de rotina” chegassem ao fim para poder ir descansar enquanto ainda tinha tempo.

Leona

E como esperado a loira logo conseguiu notar que os diversos sentimentos de constrangimentos gerados pela situação anterior com o psicólogo vieram a tona e o mais novo não conseguiu conter as palavras quase chorando em seus próprios tiques nervosos. Não o interrompeu em sua narrativa, apenas o observou e pontuou como o garoto foi manipulado pelo psicótico ao ponto dele fazer exatamente como o maníaco tinha previsto. Assim como o próprio dr. Vlahos tinha suposto, Kyle tinha de fato, feito uso dos relatórios médicos dos pacientes frequentes das consultas para achar alvos fáceis de manipular. Mas era muito estranho que isso tivesse se restringido apenas a alunos simples como o jovem Allard. Tinha algo nas ações do psicopata que Leona não tinha conseguido enxergar ainda, mas não era hora de pensar nisso, tinha de liberar o jovem Emil e lhe oferecer algumas palavras de segurança para que o mais novo não saísse dali completamente derrotado.

-- Jovem Allard, eu entendo o sentimento de frustração diante de uma situação que saiu completamente do seu previsto. Mas eu quero que entenda, que isso não foi culpa sua. Afinal, no currículo de St. Clavier não tem a matéria adivinhação, não tinha como você adivinhar as reações do Dr. Psicólogo. E lembre-se sempre, se ele disse “até a próxima seção” ou “até o próximo encontro” foi apenas um momento, é natural de qualquer profissão que lide com pessoas o tempo todo, ter seus momentos de cansaço.

Dito isto, Leona se levanta com um sorriso simples no rosto, mas logo que se aproxima da cadeira onde Emil está sentado, a loira se abaixa sobre um dos joelhos para ficar com a linha de visão mais baixa que a do jovem rapaz: -- Você fez um ótimo trabalho aqui hoje, eu sei que seu dia foi ruim, mas isso não muda o fato que você é um bom garoto, e fez tudo pensando no melhor das outras pessoas. Eu sei que em uma outra oportunidade você vai ser mais atento, isso não vai mais acontecer, e da próxima vez que você se encontrar com o Dr. Psicológo verá que está tudo normal de novo. Obrigada por hoje.

Dito isto, a loira liberou o rapaz para que ele pudesse descansar da longa conversa.

[Thread Encerrada]


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