09-22-2021, 03:35 PM
Xavier
Provavelmente a pior escolha da vida de Xavier tinha sido se mudar para Cerise com a perspectiva de uma vida melhor, um emprego certo e uma casa até confortável. Desde que tinha chegado àquele inferno de cidade, já tinha torcido o pé, caído numa cova, visto tráfico de drogas, ameaçado por um criminoso, sem contar as surras regulares do seu pai quando estava nos picos de estresse por causa da falta de bebida.
E pra piorar a situação, tinha sido dispensado do trabalho no porto por conta do óbvio impedimento que era o seu pé machucado. A última coisa que precisava era voltar para o apartamento pequeno e receber mais rechaços do pai pela incompetência em tentar manter a casa sozinho.
Foi com aquele desânimo e com a cara já inchada de outras situações com o seu pai que ele desviou do caminho entre o porto e o apartamento, parando de andar quando o pé já estava incomodando demais, e acabou sentando no meio-fio da rua, não muito longe de uma praça, reconhecendo um pouco o ambiente ao redor, mas sem ter certeza de onde estava. Agora precisava achar outro emprego antes de voltar para casa e acabar levando outra surra.
Diodoro
Apesar dos eventos relativamente recentes da cicatriz, de descobrir que seu visitante usual de fato era um criminoso, e da fuga noturna de Natalia, todo o resto dos seus dias tinha sido muito tranquilo. Até o trabalho estava pouco movimentado, e isso era algo positivo, pois podiam ficar recebendo apenas o dinheiro do plano funeral e não ter movimentações dentro da funerária, o que era muito difícil para Diodoro lidar sozinho.
Por isso, naquele dia, se permitiu sair para a igreja por um tempo para fazer algumas preces e ouvir o diácono responsável pela paróquia, porque certamente não estavam em uma conversa. No caminho de volta, parou em um Pachidonald’s para pegar a promoção de três hambúrgueres e voltou com um saco de papel para a funerária para organizar os papéis que negligenciou durante o dia, comendo um pão pelo caminho.
A única coisa que lhe deteve imediatamente foi ver ao longe uma figura estranhamente conhecida sentada no meio fio. O rapaz tinha a cara quebrada e pelo visto o pé não estava em uma bota ou gesso como esperado. Aproximou-se devagar, e parou próximo a ele, vendo mais de perto a cara inchada, e usando o dedo para apontar para a própria bochecha, esperando que ele entendesse.
- Cova de novo? – questionou, mas supunha que não.
Xavier
Xavier estava pensando seriamente em continuar sentado ali até o pôr do sol, talvez tivesse a chance de voltar para casa quando seu pai já estivesse dormindo e não pudesse reclamar. E no estado em que estava, seria difícil conseguir outro emprego e passar alguma credibilidade de que conseguiria fazer trabalho pesado - já que trabalho de escritório não era seu forte, nem a sua cara lhe garantiria trabalho dentro de um escritório respeitável.
Com os braços apoiados nos joelhos, ele abaixou a cabeça, num suspiro pesado e levou uma mão até a nuca, bagunçando os cabelos cuja raiz escura já estava aparecendo. Só saiu do momento de distração quando ouviu uma voz conhecida e pelo menos agradeceu mentalmente que não era aquele criminoso com um gosto por roupas duvidoso, que tinha lhe dado as boas vindas no apartamento. Ao contrário, deu de cara com o agente funerário que já tinha um pouco mais de certeza que não era um assassino querendo lhe matar.
- Hm. Eu estaria melhor numa cova a essa altura. - ele reclamou, bufando entredentes, voltando a abaixar a cabeça e apoiar as mãos na nuca. - Mas eu também não tenho plano funerário, estaria numa vala.
Diodoro
Diodoro notou que o rapaz estava um pouco desesperado ali. Mas não pode evitar de rir da piada dele sobre poder estar melhor numa cova, embora ele não tivesse plano funerário. Claro que por rir, significava apenas que engasgou uma risada, e abriu um sorriso breve antes de voltar a sobriedade do rosto.
- Vendo planos. O preço é bom. – falou, se questionando se ele queria comprar. Se não quisesse, podia pelo menos rir de complementar a piada que ele mesmo tinha começado.
Amassou o papel do hambúrguer que tinha comprado, colocando-o dentro da sacola com mais comida e então pensou que talvez o rapaz estivesse mais triste por estar com fome, ou por provavelmente estar sentindo dor com a bochecha inchada. Encarou-o por um longo instante, pensando qual seria a melhor forma de convidá-lo a sair do chão.
- Hm... café? – perguntou, e então mostrou o saco do fast food, e chamou-o com a mão enluvada para se levantar e lhe seguir até a funerária. – Posso conversar. – falou, sem nenhuma grama de ironia.
Xavier
Xavier até achou que o outro já tinha ido embora depois da sua resposta e de toda a aura de derrotismo, mas ouviu um engasgo que muito devia ter sido uma risada da sua desgraça seguida daquele comentário sobre vender planos. O rapaz fechou a expressão no mesmo instante, encarando o outro de baixo.
- Tá de onda com a minha cara, mané? Se eu tivesse dinheiro só num ia gastar pra morrer enterrado. - ele reclamou, com um tch sonoro entredentes, levantando a mão até o nariz e coçando só pra sentir a dor do rosto inchado. - Merda.
Achou que, de novo, ele iria lhe deixar em paz com seus pensamentos derrotados, mas o agente funerário continuou onde estava, perguntando inclusive se queria café e mostrando a sacola do fast food. Até pensou em dar uma resposta mal criada por estar sendo atormentado, mas o comentário e o cheiro de comida lhe fizeram lembrar que não tinha comido nada o dia todo.
- Hmpf. Pior não pode ficar. - Xavier estendeu a mão para aceitar o tal café. Mas retraiu o braço no mesmo instante. - Ou tem veneno aí e você é amigo do estranho de roupa de drag?
Diodoro
Diodoro não tinha ideia da ultima vez que tinha sido chamado de “mané” na vida. Mas não podia discordar. Podia ter evitado rir da situação triste do rapaz, apesar dele ter feito um comentário muito divertido sobre funerais.
O rapaz pareceu aceitar o segundo convite, o que deixou Diodoro mais satisfeito, uma vez que tinha errado em rir dele. Mas tão logo tinha aceitado, o rapaz deu para trás, lhe questionando se era amigo de alguém de drag. O agente funerário acessou todas as suas memórias mais recentes de conhecidos, e tinha plena certeza que não conhecia nenhuma drag.
- Não? – perguntou, olhando o outro homem diretamente como quem estava incerto até mesmo sobre o que ele tinha perguntado. Sem esperar, agarrou o braço que ele ia usar pegar a comida da sacola e puxou-o para ajudá-lo a se levantar, antes de abrir a sacola e lhe entregar um hambúrguer. – Aqui.
Então seguiu, esperando por ele para que rumassem no caminho da funerária, se perguntando se deveria comer o outro hambúrguer ou só beliscar as batatinhas até chegarem finalmente em seu local de trabalho. Lá, pegou um copo, e dividiu café para ele e para o visitante. Quando finalmente tinha o café na mesa, sentou e pegou um pacote de batatinha, comendo e tomando café e deixando o hambúrguer para o outro. Ergueu as sobrancelhas, fazendo um sinal com a mão como quem esperava ele compartilhar seus problemas.
Xavier
Xavier ainda olhou desconfiado para o outro, especialmente porque ele tinha demorado a responder e ainda fez aquilo de um jeito um pouco desconfiado. Ele ainda estreitou o olhar para o agente funerário, mas quando ele lhe segurou o braço para lhe ajudar a ficar de pé, acabou aceitando a ajuda. Colocou o peso todo na perna boa e logo o outro estava lhe oferecendo um hambúrguer de dentro do saco de fast food.
- Hm. Valeu. - agradeceu rapidamente ao pegar o hambúrguer e começar a comer no caminho mesmo. Enfiou uma das mãos no bolso da calça e num gesto quase automático, acabou acompanhando o outro. Não ia fazer muita diferença mesmo ficar no meio fio ou andar mais alguns passos, já estava na merda, não tinha como piorar. Ao menos estava comendo.
Seguiu mancando até perceber que tinham chegado na funerária, e já tinha terminado de comer o hambúrguer com a fome que estava sem ao menos ter percebido. Xavier ainda deu uma olhada nos caixões expostos ao redor e andou até sentar numa das cadeiras à mesa da recepção. Ao menos podia descansar mais o pé machucado. E só quando sentou que o outro lhe serviu café, notou o sinal com a mão e arqueou as sobrancelhas.
- Que é? Não vou comprar plano funerário não, ô.
Diodoro
Diodoro estava acostumado a não ser entendido, mas nos últimos tempos, as pessoas ao seu redor estavam sendo tão compreensivas que até esqueceu que o normal eram as reações do tal do Três. Suspirou conformado, e então ajeitou-se em sua cadeira, tomando um pouco de café e comendo batata frita. E nem se incomodava com ele olhar os caixões: não era todo dia que alguém puxava conversa em uma funerária.
- O pé. Não enfaixou. – apontou o óbvio, mas porque tinha dito a ele naquela noite em que caiu na vala que era para o taxista levá-lo ao hospital para verificar a situação do pé. Ao invés disso, o rapaz estava todo abatido no meio fio e ainda por cima parecia sentir dor e fome. Não podia nem imaginar o que tinha acontecido, então claro que achava justo que ele lhe explicasse. – Que aconteceu... com você? – esperava que agora tivesse sido mais claro.
Roeu mais uma batatinha, esperando uma resposta.
Xavier
Xavier pegou o café e soprou antes de tomar o primeiro gole, e só depois de ter reforçado que não ia comprar plano funerário, o funcionário apontou o seu pé, dizendo que não tinha enfaixado. Olhou para ele atravessado por cima da xícara de café.
- Não diga. - ele retrucou, rodando os olhos. - Num tenho tempo pra enfaixar nada. Se tivesse enfaixado, não iam me deixar trabalhar no porto e me demitir. - ele reclamou, afinal, no fim das contas, ele tinha mesmo sido demitido. - Humf, não adiantou muita coisa, me demitiram do mesmo jeito.
Ele continuou tomando o café, fazendo uma careta para o líquido quente, e voltando a soprar antes de beber ao ouvir a pergunta sobre o que tinha acontecido. De novo, olhou pra o outro por cima da xícara e acabou queimando a língua de novo.
- Argh! Merda! - ele estalou a língua no céu da boca. Apontou para o pé machucado. - Cova. - apontou para o rosto quebrado. - Não te interessa. - ele soprou o café de novo para beber, agora mais tranquilo sem a língua queimando. - Hm. Num importa, depois que terminar aqui, vou procurar outro emprego.
Diodoro
Diodoro podia entender pelo menos que com o pé enfaixado certamente seria difícil trabalhar no porto. Na verdade impossível. Mas mesmo com o pé machucado, ele tinha tentado e obviamente não tinha dado certo para o rapaz. Podia dizer que ele precisava mesmo do emprego, ou não teria tentado trabalhar com o empecilho do pé daquele jeito.
O tal do Três não parecia muito acostumado a café quente. Até pensou que poderia arrumar gelo e jogar dentro do café para ele, mas imaginava que ele provavelmente não apreciaria o café aguado. Como um homem de descendência italiana isso também ia contra seus princípios.
- Interessa. Perguntei. – respondeu logo quando ele encerrou sua fala, apontando para o próprio rosto para indicar que tinha pegado a malcriação dele, mas certamente não parecia se importar o suficiente para estar bravo com isso. Só havia uma coisa que incomodava Diodoro de verdade naquilo: era que ninguém contrataria o rapaz com o pé machucado. Na verdade, até poderiam contratar, mas sentia que o sujeito só machucaria cada vez mais o pé se continuasse procurando por emprego daquele jeito, e se suas especializações só permitissem que ele fosse carregador no porto, ou coisa similar. - ... Tem currículo? – Diodoro questionou, terminando o café que estava bebendo.
Xavier
Xavier olhou atravessado para o agente funerário do outro lado da mesa, mas concentrou-se em terminar de tomar o café e limpar o canto da boca com a manga da roupa. Só estava ali porque podia descansar num lugar mais confortável do que o meio fio da calçada e tinha sido ludibriado com comida, o que era bom na sua situação.
- Pra quê? Vai procurar emprego no meu lugar? - ele deixou o copo de café vazio de lado e se levantou, começando a se acostumar com o peso só na perna boa. - Aí, valeu pela comida, mas eu tenho o que fazer.
Podia não estar com nenhuma disposição depois de sair de casa, mas se não queria acabar numa cova de novo com outro pé torcido por causa de um acidente estúpido, era melhor começar a andar, literalmente.
Diodoro
Achou que tinha sido claro quando pediu o currículo que provavelmente daria emprego a ele, se ele atendesse as qualificações. Mas pelo visto o outro rapaz se sentiu ofendido por sua oferta, o que no mínimo achava estranho para alguém que pelo visto precisava tanto do trabalho. Encarou o outro por longos segundos, vendo ele colocar o copo de café vazio na mesa e se levantar para possivelmente ir embora.
- Quer o trabalho ou não? – Diodoro perguntou antes que ele fosse, porque não havia entendido o motivo dele ir embora. Apenas franziu de leve a testa. Não se importava em ter um funcionário ali que não fosse sua irmã. Para ajudar com os falecidos, precisava de alguém forte, e sua irmã só aparecia na funerária quando era necessário. Embora aquele agora fosse praticamente seu negócio, mesmo que de família, faria bem ter alguém para lhe cobrir na hora que precisasse almoçar, ou fazer o turno da manhã para que pudesse dormir depois de deixar algum falecido pronto para o enterro durante a madrugada. – Preciso de mais do que seu apelido.
Mostrou a mão enluvada, apontando para a cadeira, esperando que ele se sentasse mais uma vez para que pudesse conversar sobre a proposta.
Xavier
Xavier não teve tempo nem de se afastar, com as mãos socadas dentro dos bolsos da calça, quando o agente funerário perguntou se ele queria trabalho ou não. Franziu o cenho, o que lhe deixava com uma expressão muito mais fechada do que o costumeiro, virando-se na direção do outro e pensando se ele queria mesmo lhe ajudar a arrumar um emprego.
- Eu tô tentando ir atrás de um! Que é que você quer afinal?! Já agradeci pela comida, não vou te pagar. - a resposta com raiva nem era pelas perguntas de Diodoro, mas pela irritação de não conseguir acompanhar o que o outro estava dizendo, e ele não era muito bom em dizer muita coisa. Mas ele ainda lhe pediu o nome e apontou para a cadeira em que estava sentado antes. Xavier olhou dele para a cadeira e de volta para a cara do agente funerário. - Você quer me dar um emprego? - ele apontou para si mesmo, bastante surpreso e confuso. - Por quê?!
Diodoro
Diodoro supôs que embora fosse pouco comunicativo em geral, o rapaz também era relativamente lento em lhe entender. Isso não era um bom sinal. Ou talvez fosse mesmo sinal de que estava se acostumando a pessoas que lhe atropelavam mesmo sem lhe entender totalmente, o que não era tão ruim. Mas a cara intimidadora dele pelo menos não lhe deixava excessivamente nervoso. Provavelmente depois de enfrentar Karen ficou um pouco mais corajoso. Se bem que já tinha o hábito terrível de encarar as pessoas de frente.
Não sabia inteiramente porque estava cedendo aquele emprego para o tal do Três, especialmente na funerária, que era gerida por sua família apenas há muito tempo. Mas levou a mão enluvada a cabeça e encarou o rapaz.
- Porque você precisa. – respondeu, franzindo a testa. Talvez não fosse a melhor das respostas, mas era uma resposta. – Tem condições. – Diodoro adicionou, esperando que ele sentasse um instante. Nunca tinha contratado ninguém, e muito menos feito uma entrevista de emprego. – Vai curar seu pé. Não pode ter medo de cadáveres. Tem que saber limpar. – falou, enquanto levantava os dedos um atrás do outro, pontuando o que Xavier precisava para pegar aquele trabalho.
Xavier
Xavier fechou ainda mais a expressão quando ele respondeu que estava lhe dando o trabalho porque precisava, numa reação quase automática.
- Tá me achando com cara de mendigo pra me dar trabalho por pena?! Eu não preciso da sua ajuda, nem de ninguém! - Xavier reclamou, mais exaltado do que a situação pedia, seguindo para fora da funerária sem nem se importar com a dor no pé ao andar a passos firmes.
E saiu antes mesmo de deixar que o agente funerário tentasse lhe responder ou adicionar qualquer detalhe. Já não bastava estar na situação complicada em Cerise e com o seu pai, ainda precisava depender dos outros como se fosse um incapaz? Não que estivesse em suas melhores condições com o pé torcido e a cara quebrada, claro, mas pelo menos tinha o resto do orgulho de conseguir cuidar da casa e do seu pai sozinho como tinha feito nos últimos anos.
E claro que uma cara quebrada e um pé torcido, além da expressão de poucos amigos não foram muito bons em lhe ajudar a conseguir emprego mesmo nos piores lugares. Estava cansado de andar, o pé estava doendo mais na tentativa de disfarçar que estava tudo bem, e teria que voltar para casa para encontrar seu pai provavelmente bêbado e lhe xingando porque não tinha conseguido encontrar um novo emprego para pagar as contas de casa.
Antes que pudesse perceber, tinha voltado até a funerária, mas não entrou e só conferiu que as luzes ainda estavam acesas, se sentou de novo no meio fio da calçada e esperou até que o agente funerário resolvesse ir para casa, o que esperava não ser muito tempo. De qualquer jeito, estava dando um descanso para a perna enquanto ele não aparecia, o que demorou um pouco mais do que ele esperava.
- Ei... ainda posso aceitar o emprego?
Diodoro
Apesar de Diodoro achar a proposta bem sensata, especialmente na necessidade do rapaz de um emprego, sabia que todo mundo tinha seu orgulho. O fato dele subitamente levantar a voz e ficar com raiva da ideia de um emprego por “pena” fazia sentido, afinal, não era como se ele fosse incapaz de conseguir um emprego por conta própria. Só estava em uma situação difícil. Encarou ele de volta, mas não respondeu, até porque não tinha palavras para rebater o que ele tinha lhe dito. Estava sim tentando ser solidário com ele. E claro que havia um quê de pena nisso.
- Descul- - Diodoro tentou pedir, mas Três saiu porta afora, mesmo com o pé machucado, deixando bem claro que não queria sua ajuda. - ...pa.
O agente funerário não podia fazer muito naquele caso senão retomar seus afazeres normais. Organizou documentos e limpou objetos em sua sala, além de tirar um cochilo no sofá. Demorou um pouco até que sentisse fome novamente, e lembrou que seu hambúrguer do jantar tinha ficado com Três. Talvez fosse a hora de sair e comprar outro. Porém, para sua surpresa, ao abrir a porta, encontrou o tal rapaz sentado no meio fio, parecendo querer descansar a perna. E quando ele lhe viu, notou que havia um ar de frustração nele. Pelo visto destruir um pouco do próprio orgulho era melhor do que voltar para casa sem emprego. A situação dele deveria ser bem difícil.
- Pode. Entra.- Diodoro falou, indo até o rapaz estender a mão enluvada para ajuda-lo a se levantar.
Xavier
Xavier até ficou internamente aliviado que a resposta tinha sido positiva depois do seu péssimo dia, e embora tivesse o orgulho ferido mais cedo, era melhor o orgulho do que outro machucado na cara. Quando ele lhe estendeu a mão para ajudar a levantar, até olhou feio para a pretensa ajuda, afinal, ele ainda podia se levantar sozinho. Mas de que adiantava responder do mesmo jeito que mais cedo e dispensar a única pessoa que estava disposta a lhe empregar.
- Tch. - o som saiu quase involuntário entre os lábios e ele aceitou a ajuda para se levantar e voltarem para dentro da funerária. - Olha aqui, eu não tenho currículo, mas eu sei limpar… pelo menos. E nunca vi um cadáver de perto, mas posso acostumar.
Não sabia se ele aceitaria sem um currículo, mas um trabalho por pena era melhor que trabalho nenhum. Quem sabe depois dali pudesse arrumar outro emprego quando estivesse com o pé melhor, e só então olhou para o tornozelo quando lembrou da primeira especificação dele.
- Eu posso limpar mesmo com o pé assim. - ele adiantou para esclarecer a situação.
Diodoro
Diodoro notou que ele realmente não gostava de receber ajuda. Entortou a boca de ele, supondo que teria que tomar cuidado para não ferir o orgulho alheio. Mas pelo menos ele tinha noção de duas coisas: 1) estava com o pé inchado e 2) precisava do trabalho. Não demorou para voltarem para a funerária, onde ele podia acomodar a perna de modo mais confortável. Talvez fizesse mais sentido pedir o Delivery de algum lugar.
Quando Três anunciou que tinha experiência em limpar, achou conveniente, porém quando ele disse que se acostumaria com os cadáveres, voltou os olhos claros para ele, encarando-o longamente. Talvez fosse verdade, mas Diodoro que tinha sido criado em uma funerária tinha levado bastante tempo para se acostumar. Não o pressionaria caso ele não conseguisse. Por quanto tempo ele trabalharia ali, para precisar se preocupar se aceitava olhar cadáveres ou não?
- Não. – respondeu prontamente quando ele disse que poderia limpar no estado em que estava. Alcançou uma gaveta para pegar um papel de cadastro de plano funerário e riscou todas as partes que eram contratuais, para anulá-las. Só precisava das informações essenciais dele, já que não tinha currículo. Nome, telefone, residência. – Aqui. Já que falta currículo. – falou, mostrando os espaços em branco que ele tinha de responder.
Xavier
Xavier voltou a se sentar para não precisar ficar forçando o pé, o agente funerário ainda negou a sua proposta de poder fazer o trabalho mesmo com o pé daquele jeito e ele franziu o cenho numa careta de desagrado. Esperou um pouco mais pela especificação do trabalho, mas ele estendeu uma ficha para que preenchesse, depois de ter riscado as informações, deixando apenas os campos simples para que preenchesse. Bom, era mais fácil do que ter que arrumar um currículo.
Ele pegou a ficha e colocou as informações de nome, endereço e contato, devolvendo a ficha para o outro logo em seguida. Já estava tarde, depois de ter passado o dia todo procurando algum lugar para trabalhar, e bem queria descansar.
- Pronto. O que vou fazer? Quando começo? E o horário?
Diodoro
Ficou um pouco feliz que o rapaz até tinha uma caligrafia legível. Estava contratando alguém sobre quem não sabia absolutamente nada. Isso poderia ser muito ruim para a funerária. Na verdade, certamente seria muito ruim. Mas que podia fazer se era de sua natureza não conseguir deixá-lo sair dali para passar mais tempo procurando um emprego com o pé daquele jeito?
Diodoro olhou o papel devolvido: Xavier era o nome dele. Esperava que ele pelo menos lembrasse do seu, já que seriam chefe e funcionário. Aliás, tinha dito seu nome? Franziu de leve a testa, olhando todas as informações de contato, e parando especificamente no endereço, que era Gris. Até não era tão longe quanto pensava. Ergueu os olhos para o rapaz quando ele questionou o que faria.
- Pegar um táxi. – Diodoro respondeu, indo até o bolso para tirar a carteira e uma nota que daria apenas o suficiente para que Xavier chegasse em segurança em casa e pudesse descansar o pé. – Segunda, 8 horas aqui. – completou. Isso daria tempo do pé dele melhorar um pouco, e de convencer suas família que não tinha acabado de fazer uma grande merda. Na verdade, bem sabia o quanto ouviria de Brigida.
[thread encerrada]

