09-01-2021, 03:13 PM
Wilbert
Já mantinha seu bistrô há algumas poucas semanas e até onde havia percebido, o público apreciava a boa comida que conseguia preparar, mas alguns dos clientes locais pareciam desgostosos com seu modo de interpretar a culinária local. Queria aceitar que aquilo não lhe incomodava tanto, mas estava estampado em seu rosto todas as vezes que ficava até mais tarde na cozinha do estabelecimento tentando acertar o tempero e o preparo local, o semblante de frustração pela ausência do sucesso. Por outro lado, era útil ficar com a mente ocupada com o próprio trabalho para não pensar em acontecimentos passados. Ainda lhe incomodava passar pelo mesmo bairro que o escritor que costumava visitar com frequência. Mesmo assim, não havia deixado a cidade. Já havia pensado a respeito, mas não havia tomado nenhum iniciativa por alguns motivos que preferia acreditar estarem relacionados ao seu advogado lhe repreendendo pelo telefone diante de todas as advertências que havia recebido nos últimos meses. Não havia como negar todos os problemas que havia causado devido ao seu temperamento e a falta de responsabilidade. E também era curioso como aquela cidadezinha do interior francês conseguia lhe provocar sensações bem opostas aquelas que esperava de um lugar tão pacato.
Saiu naquela manhã no final de semana para ir ao mercado e realizar algumas compras. Desde quando aquele seu aluno bastante peculiar havia lhe mostrado como aquele ambiente funcionava e a quais comerciantes poderia procurar em busca de materiais mais frescos, locais e de boa qualidade, não perdia a oportunidade de visitar o mercado de Cerise em seu tempo livre. Era uma boa experiência para alguém que estava habituado em visitar cidades turísticas e experimentar sabores diferenciados. Talvez fosse naquelas saídas que ainda guardasse a esperança de conseguir fazer uma satisfatória interpretação da culinária da região.
Passou por uma das lojinhas de tempero, segurando duas sacolas de compras com alguns legumes com casca que havia comprado para fatiar mais tarde. Estava usando uma bermuda terracota com uma camisa listrada monocromática, um par de tênis brancos e um de seus relógios. Como não podia mais dirigir na cidade, só lhe bastava andar e depender do transporte público da mesma. A parte agradável de ser um homem alto é que não havia como não se destacar em meio a tantas pessoas e, sendo assim, ser ignorado pelos vendedores.
Estava curioso com os temperos, mas especificamente com as pimentas. O tempero da região não era assim tão ácido e tinha quase certeza que da primeira vez que tivera uma experiência culinária com algum “chef” local, ele falara alguma coisa sobre aquilo. Assunto o qual não prestou muita atenção, pois estava muito mais interessado em enfurecer outra pessoa. Pediu para experimentar alguns dos temperos, acabando por comprar uma garrafa de água com gás para limpar o paladar na troca de especiarias, comprando algumas gramas aqui e ali. Já era um horário mais avançado da manhã e havia conseguido comprar tão pouco e as pessoas já começavam a se aglomerar no espaço. Não possuía nenhum problema com multidões, principalmente por ser alto o bastante para conseguir enxergar sobre a cabeça de algumas pessoas, a maioria mulheres, senhoras, preocupadas com a feira do dia.
Notou algumas pessoas mais exaltadas aparentemente atraídas por alguma promoção de pescados e, como bom consumidor, não podia não se sentir provocado também a pelo menos dar uma olhada no que era oferecido. Aproximou-se entre as pessoas, curioso com a qualidade do material, sem deixar de ouvir também o burburinho das senhoras tentando diminuir o preço do pescado pelo adicional das escamas. Outro aspecto interessante de sempre visitar aquelas feiras era a gama de cheiros do ambiente. Pelo menos o rapaz Blanco não estava ali daquela vez.
Dia
Dia já conhecia o mercado de Cerise de um lado a outro, da mesma forma que muitos dos vendedores já sabiam quem ela era, fosse pelas compras regulares ou pelo sobrenome, que preferia nunca mencionar. Mas tinha cara de Blanco. Isso não mudava. Estava à pé, talvez porque o dia estava muito bonito para sair de moto, ou talvez porque queria beber um pouco na feirinha enquanto passeava pelos produtores de bebidas artesanais. Em sua bolsa enorme de compras, que carregava a tira colo, já tinha conseguido colocar pelo menos três garrafas de cervejas de produção local, de uns conhecidos que gostavam de se arriscar com a bebida.
Os cheiros da feirinha lhe deixavam bem contente. Ainda bem que estava fresco, embora estivesse usando um vestido florido e tênis, e um chapéu panamá que tinha pertencido a seu pai há muito tempo. Estava vestida muito casualmente, e se sentindo amplamente confortável para passar entre as pessoas que começavam a se aglomerar na feira.
Passou pelas barracas de frutas, levando consigo alguns morangos que conseguiu provar enquanto andava, e pelo menos uns bons limões sicilianos que adoraria corta em rodelas e jogar com a cerveja leve que tinha comprado. Porém estava começando a ficar mais tarde e ainda não tinha pensado em seu almoço, que naquelas circunstâncias, poderia ser tudo que estivesse barato. Só não queria comer fora de casa. Já não tinha bastado a experiência no bistrô de Wilbert Funske.
Encontrou uma barraca com peixes frescos e seu rosto se iluminou. Queria um peixe pequeno e saboroso para fazer um assado com limão, e de repente, com algum molho, para não ser tão seco. Ouviu as barganhas enquanto analisava o frescor dos bichinhos pelos olhos, supondo que qualquer um que comprasse seria bom. Nem queria muito barganhar, o preço já estava bem agradável. Só que quando foi escolher, notou uma sombra atrás de si e foi obrigada a olhar para trás, para cima.
- Oh. Veio barganhar com as velhinhas por salmão, monsieur Funske? – Dia comentou, notando que sem os saltinhos usuais, ele parecia muito mais alto.
Wilbert
Estava bem complicado de observar os pescados mais de perto com aquelas senhoras tão próximas e a figura de chapéu panamá a sua frente. Não era tão grosseiro a ponto de empurrar ninguém, ainda mais senhorinhas que certamente estavam ali na cidade há mais tempo que ele. Sequer prestou atenção na figura feminina a sua frente, mais interessado em observar o brilho das escamas dos peixes. Dali, todos pareciam saudáveis. Contudo, sua atenção foi tomada ao se dar conta de que a sua frente não estava qualquer mulher, mas sim o próprio diabo.
- Não. - respondeu sem conseguir esconder sua expressão de desgosto ao encontrar aquela mulher em seu dia de compras no mercado, bem a frente de seu objetivo. - A não ser que a velhinha na minha frente demore muito. - claramente estava se referindo a morena. Por um instante, chegou a estranhar a altura dela. - Se não vai comprar nada, por que não sai da frente, Blanco? Vai apodrecer o peixe se demorar demais aí.
Não resistiu, sorrindo sarcástico ao provocar a mulher. Não sabia como explicar aquilo, mas possuía um sentimento pela morena que toda vez emergia na presença dela. Era como um tique nervoso que lhe obrigava a desejar fazer com que a mulher chorasse de novo ou que engasgasse em tomates - recordando o mais recente incidente em seu bistrô com sua própria falta de atenção acumulada a raiva por ser lembrado daquele detalhe.
Baixou o olhar, crispando os lábios ao notar um peixe em particular, as escamas saudáveis e os olhos ainda brilhantes. Tudo ali parecia mesmo bem fresco. Possuía um bom tamanho e parecia ter carne o bastante para tentar prepará-lo em um dos pratos locais. Estava bem a frente, próximo da mulher detestável, esse era o único porém.
- Hey! Pode me dar esse peixe aqui? Esse a frente dessa senhora aqui! - estendeu o braço pela lateral da mulher, evitando empurrá-la para conseguir apontar o peixe que queria. O bom de sempre falar alto era que na feira era bem natural se conseguir fazer ouvir pelos presentes.
Dia
A cara de desgosto de Wilbert para si não foi mais que o esperado. Ele não gostava dela, ela não gostava dele, e a vida seguia mesmo assim. Não seria uma cara feia que lhe tiraria do sério. Tampouco as tiradas cínicas dele, que lhe lembravam uma criancinha de cinco anos implicando com uma coleguinha. Já tinha caído naquele truque antes, não iria se deixar levar de novo.
- Bom, monsieur, eu pretendo comprar algo sim, ou não estaria aqui, especialmente na sua frente. – respondeu com o mesmo tom que ele, então observando o loiro por alguns instantes. Ele fazia questão em ser desagradável, e ela não que não fazia questão em ser gentil em troca. Na verdade, era até bom ser um atraso na vida de Wilbert Funske, para ver se ele se acostumava a se frustrar também.
Assistiu a mão que tentou passar a sua frente com o canto dos olhos azulados, observando o peixe de escamas brilhantes e olhos ainda bem vivos que ele tinha interesse em comprar. Ouviu a voz alta do loiro – como se ele precisasse levantar tanto a voz, alto do jeito que era – e franziu a testa, apertando os lábios um momento.
- Com licença, monsieur! Estou aguardando ser atendida também, não pode esperar sua vez? – falou com um tom suave, falsamente indignada, olhando então para o peixeiro que acabara de chegar próximo para atendê-los. O homem pareceu pronto para coçar a cabeça com a situação complicada formando-se na barraca. Dia apenas pôs um leve bico tristonho e levou a mão até o próprio rosto. – Isso sempre acontece comigo. Só porque falo baixo. Eu deixei de comprar tantas coisas para o jantar de maman hoje, por causa de pessoas rudes assim. E esse peixe parece tão bom. Monsieur, por favor, poderia me vender esse peixe? Eu posso até pagar a mais, se quiser...! – Dia pediu, com o ar feminino e indefeso elevado as alturas, embora no interior, estivesse se roendo por usar a mãe como exemplo. Só porque mães eram mais respeitadas que pais, então tinha que apelar.
- Oh, vejo, mademoiselle. Oui, oui. – o peixeiro se compadeceu e foi enrolar o peixe para Dia, mas não deixou de olhar para Wilbert. – Veja, monsieur, temos outros peixes muito bons aqui! Dê uma olhada nesse, hm? Está fresquíssimo, veja como está bonito! E é ainda maior, hm? Bom para um ensopado! Aqui, mademoiselle!
Dia pegou a sacola onde o homem havia colocado o peixe com um sorriso largo no rosto, trocou pelo dinheiro, agradeceu baixinho e saiu calmamente sem se despedir de Wilbert, sabendo que tinha feito sua péssima ação do dia ali.
Wilbert
Não podia acreditar no que estava presenciando acontecer na sua frente. Não sabia para quem olhar, se para o vendedor estúpido que não conseguia enxergar além daquela pele de cordeiro que a mulher vestia para conseguir o que queria. Era uma bruxa dissimulada e cínica mesmo, ainda metendo a mãe no meio da conversa para conseguir o seu peixe. Sabia muito bem que ela conseguia se fazer ouvir quando queria. E ainda por cima falava como se ele também não tivesse dinheiro para pagar a mais pelo peixe!
Lançou um olhar de puro ódio para o vendedor que ainda tentou lhe empurrar outro peixe, convencendo-o de que era melhor comprar um maior. Queria um peixe fresco de um bom tamanho para preparar uma refeição para si mesmo. Por que diabos compraria algo maior do que a medida que estava acostumado a preparar se não havia mais ninguém para provar a porcaria do prato?
- Oi! - chamou pela morena, ignorando o vendedor que havia lhe negado sua ordem, quase pedido. Não era difícil de encontrá-la com aquele chapéu ridículo e o vestido florido, ainda mais sendo maior que ela. - Me venda esse peixe, Blanco! Eu também posso pagar mais por ele! E eu estava de olho nele primeiro, antes de você!
Acusou, seguindo a morena sem dificuldade, conseguia dar passos mais largos que os dela e estava muito mais acostumado a longas caminhadas e a passeios a pé do que a maioria das pessoas esperava de um chef como ele. Não julgava justo ela sumir com sua escolha, mais ainda fingindo todo aquele interesse que sabia que ela não tinha no peixe. Obviamente considerava aquela atitude proposital por sua presença. A mulher era o diabo e lhe odiava, não tinha nenhum problema em dar motivos para ela lhe odiar de verdade.
Dia
Esperava que Wilbert fosse apenas ficar com a cara azeda e comprar outro peixe, afinal, porque ele se envolveria com ela mais que o necessário, sabendo que todas as vezes que isso tinha acontecido, ele tinha se ferrado? Porém, a voz do homem mais alto atrás de si fez com que virasse o rosto por cima do ombro, observando-o com um revirar nada delicado de olhos enquanto parava para ouvir a pergunta dele. Franziu de leve a testa, ainda descrente que ele iria tentar, e como se não bastasse, sequer um “por favor” tinha usado.
- Não. – respondeu com um sorriso no rosto, dando meia volta para sair dali calmamente, mesmo sabendo que ele estaria em sua cola apenas pela provocação de ter “comprado o peixe que era dele”, mesmo que ele sequer tivesse pago pelo alimento.
Andou apenas mais um pouco, parando apenas para roubar uma cereja discretamente de uma das banquinhas depois de cumprimentar a vendedora conhecida. Não sabia mesmo o que fazer com o peixe, com a preguiça que estava de cozinhar. Sua ideia era parar em um restaurante barato e almoçar com um bom copo de cerveja de lado, mas não queria dar muito mais na cara que o chapéu e o vestido para exibir que estava em um dia relaxado. Entortou os lábios com provavelmente a ideia mais absurda do dia, mas acabou parando mesmo assim, olhando para o loiro gigante atrás de si, pensativa.
- Monsieur Funske. – chamou-o, franzindo de leve a testa e sorrindo de leve, como quem aprontava. – Eu não vou lhe “dar” o peixe, que eu comprei com meu dinheiro, independente de você achar que que é seu ou não, porque a velhinha aqui claramente já estava na sua frente e você não lê mentes pra saber que peixe eu queria ou não... – disparou, com a expressão sonsa de quem cutucava a onça com vara curta sem se importar. - Mas... mesmo sabendo que sua comida é meio acerto, meio erro... quer fazer o almoço? – pôs um sorriso jovial no rosto, apesar de bem saber que aquilo podia gerar muito arrependimento depois.
Wilbert
Teve de puxar o ar ao encarar o revirar de olhos da morena acompanhado do “não” da mulher. Queria poder torcer-lhe o pescoço e lhe arrancar o peixe, mas se conteve, recordando que, apesar de insuportável, ela ainda era menor e provavelmente terminaria machucando-a se agisse bruscamente, o que poderia lhe gerar arrependimentos posteriores. Era bem difícil que uma mulher conseguisse lhe dar nos nervos daquela maneira, mas Cerise havia se provado uma cidade bem repleta daquele tipo.
- Eu entendo que vive aqui há muito mais tempo, mas eu não estou pedindo que me “dê” o peixe, estou querendo comprá-lo de você! - informou, sequer se importando com a cereja que ela roubada descaradamente da banquinha. Aquele tipo de atitude vinda da morena não lhe era nenhuma surpresa. Franziu o cenho de volta para a mulher assim que ela parou e lhe chamou pelo sobrenome, deixando-o mais indignado com a ideia de que, de novo, estava desejando que ela lhe desse aquele peixe. - Claro que eu não leio mentes e se eu pudesse ler alguma, certamente não seria a sua, velhinha. - falou por cima dela sem nenhum remorso, irritado com a forma sonsa dela lhe dirigir a palavra. - Minha comida não é meio erro. Deveria me deixar cozinhar esse peixe, é um desperdício que eu não possa-- !
Continuou a falar sobre a fala dela até se dar conta do que a morena estava lhe oferecendo. Baixou o olhar para encará-la, desconfiado. Ela estava mesmo lhe pedindo para fazer o almoço dela? Demorou alguns instantes antes de se aproximar da mulher, inclinando-se com o ar ainda suspeito, estreitando o olhar ao encarar Dia Blanco mais de perto.
- Quero. - respondeu, tomando-lhe as sacolas com o peixe e o restante das compras dela antes que ela pudesse reclamar, aproveitando da proximidade com a mulher irritante. Poderia satisfazer seu próprio desejo de preparar aquele peixe sem precisar continuar frustrado por se sentir roubado pela morena. Já que ela havia lhe oferecido o preparo do almoço, não havia porque não carregar as compras dela naquela feira. Já estava com os itens que desejava de qualquer forma, e o peixe.
Ao se afastar, ergueu o punho, sentindo o peso das sacolas da morena, notando então a cerveja que ela levava, tendo uma breve ideia de como poderia preparar aquele pescado. Esperou pela mulher, já que ela lhe ofereceu a oportunidade de preparar o almoço, ainda aguardaria ela terminar o que quer que ainda precisasse fazer naquela feira. Não estava mais tão irritadiço, nem incomodado com o peso extra das compras dela, a mente ocupada pensando em como prepararia aquele peixe para o almoço. Também poderia usar alguns dos novos temperos comprados ali, só precisava saber também onde prepararia o almoço.
- Quer que eu cozinhe na sua casa? Estou de mudança, estou cozinhando apenas no bistrô. - perguntou, informando-a de sua indisponibilidade residencial. Só esperava que não tivesse que conhecer nenhum outro Blanco para onde ela lhe levaria. Imaginou por um instante se ela de fato cuidava da própria mãe e chegaria a ter de conhecer a senhora Blanco também. A mera ideia daquilo acontecer lhe fazia torcer os lábios em uma breve careta. Os Blanco que conhecia já lhe causavam problema o bastante.
Dia
Wilbert falava demais para o próprio bem. Um dia ele aprenderia a ser mais resumido ou aceitar que nem todo mundo deveria obedecê-lo só porque ele era alto e falava alto, mas talvez isso não fosse possível. Dada a reação dele a seu convite para cozinhar o peixe, só podia julgá-lo muito estúpido. Tinha claramente provocado ele com a compra do peixe, e por várias vezes tirado sarro da cara dele. Pelo visto, isso não importava para Wilbert, já que ele estava disposto a esquecer tudo isso em prol de cozinhar. Aquele homem deveria ter cominho no lugar de cérebro, de certeza.
Deixou que ele levasse as sacolas, até porque ele as arrancou de seus dedos como um bruto. Arqueou a sobrancelha para o loiro, deixando que ele fizesse o que queria. Se saísse correndo com o peixe ao menos teria visto um lado mais patético dele, então pouco lhe incomodava. Tinha dinheiro para almoçar e voltar para casa, fosse esse o problema.
Então veio a ideia dele de que cozinhariam em sua casa. Acabou rindo de modo espontâneo, talvez porque ele fazia mesmo caras e bocas mal humoradas com a possibilidade. Por que diabos ele tinha aceitado se a ideia era tão desgostosa?
- Claro, porque não? Isso é, se você não tiver medo de pisar em território inimigo tão abertamente. - a morena desfez a expressão divertida para por o sorriso enigmático mais uma vez. - Além do que, já sei como cozinha em seu bistrô, monsieur. E peixe, inclusive. Talvez lhe deixe menos nervoso se estiver longe de seu trabalho, para variar. - apontou para trás com o polegar, indicando a direção em que deveriam seguir. - Eu moro bem perto.
Andou na direção de volta ao seu prédio simples. Honestamente, pouco lhe incomodava que Wilbert soubesse onde morava. Caso ele lhe odiasse o suficiente para ir bater na sua porta com uma faca, era para isso que existia a polícia… ou a oficial Blanche, pelo menos. Além do que, cabeça-de-tempero como ele era, certamente não lhe mataria durante a refeição. Pelo menos esperaria até fazer a digestão e tecer comentários.
O prédio onde morava era pequeno e charmoso, perto de um supermercado e suficientemente perto da feirinha. Os quatro andares simples tinham um ar caseiro, e no segundo andar, onde morava, a porta de seu apartamento, em um corredorzinho estreito, já denunciava que não eram lá grandes espaços. Claro, isso não incomodava Dia. Tinha dois quartos, uma sala, um banheiro, e uma cozinha na qual podia se mover bem, além de suas agradáveis paredes amarelinhas com móveis claros que refletiam bastante os gostos de alguém que apreciava o ambiente caseiro.
- A cozinha é ali, monsieur. - apontou para a esquerda assim que passaram pela porta. Então, avançou em direção as sacolas e pegou uma das cervejas mais baratas que tinha comprado. Rapidamente, abriu a garrafa com o antebraço, em um giro preciso, e logo levou a garrafa a boca. Jogou-se no sofá de modo preguiçoso, jogando os sapatos no canto da sala depois de sacudir os pés.
Wilbert
- Eu não fico nervoso no trabalho. Eu fico nervoso com alguns clientes inconvenientes. - respondeu antes dela terminar de informar onde morava. Não estava mentindo. O trabalho na verdade lhe tranquilizava, principalmente o bistrô sendo menor e com um ritmo bem menos exigente do que estava acostumado a lidar em uma capital como Paris.
Apesar do semblante desgostoso com a ideia de acabar encontrando algum novo Blanco, seguiu a mulher pelas ruas na direção da moradia dela que, segunda a mesma, não era nem tão distante. Ergueu o olhar ao observar o prédio onde vivia. Um lugar peculiar para uma Blanco viver. Aquela família não era rica e uma parte importante da história daquele lugarzinho? Continuou seguindo os passos da morena e permaneceu quieto, sem comentar sobre a estrutura do lugar que muito lhe recordava o tempo quando ainda sequer sonhava em ser um chef reconhecido. A cor das paredes não era sua favorita, mas não era exatamente isso que lhe causava estranheza. Olhou aos redores como se procurasse por qualquer outro sinal de vida.
Parou com as sacolas em mãos, acompanhando a mulher procurar nelas uma das garrafas de cerveja para logo se acomodar no sofá, servindo-se na bebida sem sequer se preocupar em arrumar algum recipiente diferente da própria garrafa para beber.
- Inacreditável. - foi o único comentário que conseguiu deixar seus lábios a priori enquanto observava a cena dela se livrando dos sapatos, preguiçosa. Deu-lhe as costas e dirigiu-se para a tal cozinha, mas sem antes parar no caminho para observá-la por sobre o ombro, irritadiço como de costume. - Deveria tirar essa coisa ridícula da cabeça.
Avisou sobre o chapéu panamá e não esperou nenhuma resposta da morena enquanto rumava para a cozinha. Colocou as sacolas sobre o balcão e tratou de observar os armários, geladeira e o conteúdo do que poderia utilizar para preparar o almoço, tudo após lavar bem as mãos. Não demorou muito até começar a guardar o que precisava ser conservado na geladeira. Parou alguns instantes, avaliando as informações das garrafas de cerveja que a morena havia comprado.
Antes que começasse a fazer qualquer coisa, demorou alguns minutos, descobrindo onde ficava o que naquela cozinha, pois apesar de conhecer diversos tipos de cozinhas, bem imaginava que a mulher na sala tomando cerveja possuía o próprio modo de organizar as coisas ali. E não se incomodava de perguntar nada a ela, aproveitando da paz de estar finalmente em uma cozinha prestes a preparar um bom pescado com os condimentos que havia acabado de comprar. Estava planejando fazer um filé marinado com alguns temperos e verduras, mas dependia mais do que conteúdo presente na geladeira da mulher para optar pelo preparo adequado.
Não demorou muito mais até se fazer ouvir no cômodo, utilizando de uma das facas amoladas da morena para poder começar a preparar os cortes e a fervura. Ainda precisava dos acompanhamentos, mas resolveu que algo mais simples como legumes cozidos ou verduras no vapor seriam uma boa opção ao paladar. O peixe não foi difícil de tratar e preparar com os condimentos, enchendo-lhe de se satisfação com o perfume dos temperos ao colocar uma das panelas em fogo baixo, dando mais atenção ao preparo do caldo para cozido marinado.
Dia
Wilbert até queria fingir que não era estressado, mas as rugas de quem vivia franzindo a testa mentiam menos que ele. Ela, por outro lado, tentava ser verdadeira ao menos dentro da própria casa. Até podia ser inimiga natural do chef, mas não deixaria que a presença dele - especialmente a presença dele fazendo o almoço – lhe intimidasse em seu momento de pés descalços e cerveja gelada. Inacreditável era que ele julgava aquele comportamento. Só um homem que não sabia se divertir teria essa capacidade.
Girou no sofá e tirou o chapéu da cabeça para não amassar, colocando-o no encosto do assento para que não ficasse em sua cabeça.
- Inacreditável é a sua incapacidade de conter o desejo de me ofender, monsieur. Parece uma criança pequena. – a morena tomou mais um gole longo de cerveja, sem parecer ligar muito para a reclamação de Wilbert. Porém ela levantou o indicador e olhou para ele como quem ralhava com um menino. – E é bom o “mocinho” não falar mais nada sobre o chapéu porque foi presente do meu pai. Guarde seus comentários ou vou ter que ir aí jogar esse peixe todo pela janela para os gatos da vizinhança terem o que almoçar também.
Era uma pessoa organizada contra a própria vontade. As vezes queria deixar a casa uma bagunça completa, mas era incapaz, considerando toda a boa educação que teve, e o fato de ser uma professora de Economia Doméstica. Os utensílios estavam bem organizados, os temperos não estavam faltando. Não havia nada fora da validade em sua cozinha, e era bom ressaltar, estava tudo limpo. Não tinha nenhuma sogra horrível, mas se tivesse, a deixaria quieta como um túmulo, para reclamar apenas do fato de beber nos finais de semana e assistir televisão de calcinha.
Terminou a cerveja rapidamente, e embora não quisesse entrar na cozinha com Wilbert segurando uma faca afiada, se arriscou, indo pegar a segunda na sacola, e guardar a artesanal no freezer bem enrolada com um papel úmido. Não era como se ele fosse levar uma vida para preparar o peixe. Abriu a segunda garrafa e puxou uma cadeira da mesa de jantar, sentando calmamente e cruzando as pernas, observando-o como expectadora de um programa de culinária do portal da cozinha.
- Então, o que está preparando, chef Funske? E não me responda “peixe”. – a morena perguntou, muito satisfeita que ainda não tinha sido assassinada. – Me sinto vendo aquele programa americano onde as donas de casa trazem o chefe alto para preparar o jantar delas... chef Curtis? Bom, ele é bem mais amigável, mas acho que fica a comparação.
Wilbert
A forma da mulher lhe apontar o dedo e lhe tratar feito uma criança lhe dava nos nervos, por isso preferia se concentrar na ideia de apenas cozinhar o peixe em questão. Além disso, apesar das palavras dela, a cozinha compensava por ser bem organizada e com temperos locais que poderia usar no preparo do prato. E, claro, ela havia removido o chapéu ridículo para deixá-lo de lado - o que já era o bastante para sua visão.
Estava entretido com o preparo do pescado quando se deu conta de que a morena havia adentrado a cozinha atrás de uma nova garrafa de cerveja. Pelo visto, ela bebia rápido também, não se recordava muito bem da capacidade alcóolica da morena, pois só se recordava de encontrá-la bebendo uma vez em um espaço noturno que visitara antes de perder sua licença para dirigir. Arqueou uma sobrancelha com a pergunta dela sobre o que estava preparando, os lábios se movendo e logo se torcendo assim que ela lhe alertou sobre exatamente o que responderia naquela ocasião.
- Estou preparando um marinado com alguns legumes e verduras ao forno. - respondeu. Não era nenhuma receita complexa, mas ao notar que a mulher estava bebendo cerveja, eliminou a ideia de preparar algo ao álcool naquela receita, mantendo os legumes e as verduras como acompanhamento ao ingrediente principal. E apesar de já ter tido diversas oportunidades de encontrar a mulher à mesa, não se recordava de nenhuma situação em que ela havia lhe assistido preparando alguma coisa. - Certo que aquele seu amigo do Saute deve ser mais parecido com Curtis que eu, Blanco. Só não é alto e nem você é uma dona de casa. - fez uma breve pausa, voltando seu olhar para Dia, descrente daquela possibilidade. - Você é uma dona de casa?
Perguntou pouco antes de provar algumas verduras ao removê-las do forno, o vapor do azeite e dos temperos não sendo mais característicos que o sabor preenchendo sua boca ao experimentar um dos pedaços. Ainda que fosse um chef reconhecido, possuía aquela peculiaridade de provar os ingredientes enquanto cozinhava. Não demorou muito para remover o peixe do marinado, usando da tampa da panela do preparo para abanar o perfume da carne e dos temperos. Precisava de cuidado e de observação para não passar do ponto e terminar quebrando as postas do peixe no líquido fervendo.
- Quer experimentar? - ofereceu, estendendo um pedaço de pepino ao forno, cortado fino e comprido, com a aparência de suculento pelo azeite que ainda estava nos dedos do chef. Ofereceu a ela a oportunidade de experimentar o que preparava já que estava na residência dela e ela havia removido o chapéu ridículo, não custava nada que ela também provasse das verduras enquanto o peixe esfriava um pouco antes de servi-lo. Havia preparado as verduras com os temperos e azeite local. Na verdade, estava há algum tempo tentando encontrar o bom tempero daquela cidade, e aparentemente não estava tendo sucesso como gostaria.
Dia
Era curioso ouvir da boca de Wilbert que ele estava preparando algo tão simples quanto um peixe marinado com verduras de acompanhamento. Era um prato leve e saudável para o domingo, e embora não combinasse em nada com sua cerveja, só o fato de não ter que preparar nada já lhe dava certo alívio. Aliás, saber que ele não estava tentando tornar o almoço nada extremamente gourmet também era uma boa notícia. Comidas simples costumavam ser mais saborosas de todo modo. E... ele erraria menos.
Abriu um sorriso e arqueou uma sobrancelha de descrença para o loiro quando ele tornou a falar de seu amigo do Sautée, aliás, lhe questionando se era uma dona de casa.
- Sou a dona de uma casa, mas não me dedico exclusivamente a isso, se quer saber. Eu tenho um trabalho porque apesar de tudo, os diabinhos precisam pagar as contas também. – brincou, fazendo uma expressão cínica para Wilbert. Ele não podia ser tão ignorante assim. – Sou professora... de donas de casa. Ensino economia doméstica em Limoges-Collet. – acrescentou com um giro de pulso, tendo que aceitar sua condição.
Observou enquanto ele preparava o peixe, sentindo o aroma das verduras que já estavam abrindo seu apetite, especialmente depois da caminhada matinal. Só que o modo de Wilbert lhe oferecer um pedaço fez com que olhasse com um olhar sério dos dedos com azeite para a cara do loiro de volta para os dedos com azeite com duas longas piscadas sérias.
- Se você me der um garfo, sim. – respondeu com a delicadeza de uma dama, então sorrindo e entrando na cozinha para pegar um garfo e tirar um pedaço para si mesma. Assoprou algumas vezes, então provando as verduras. – Hm. Estão bem temperadas, monsieur. Parabéns ao chef.
Dia então fez o favor de pegar os pratos e talheres para por a mesa, afinal, não comeriam em pé na cozinha. Tirou o arranjo simples do centro da mesa e colocou na estante por um momento, então forrando uma toalha diferente para dispor os pratos para o almoço. A primeira a ocupar seu lugar de direito na mesa foi a garrafa de cerveja. Depois Dia tornou a relaxar, sentada na cadeira.
- Pode servir nas panelas. Depois terei menos para limpar.
Wilbert
Para uma professora de economia doméstica, ela era bem diferente do que tinha em mente do exemplo feminino de dona de casa. Ao que parecia, ela era bem independente ali. Imaginou se a família dela se interessava em pagar alguma das contas da mulher. Aquela família não era importante em Cerise, afinal? Pensou que todos eram ricos e viviam juntos em alguma espécie de mansão maluca de pessoas com a mesma cara, mas poder conhecer o apartamento da mulher só confirmava as informações que já possuía de que ela era mais rebelde do que de fato aparentava.
Deu de ombros quando ela não aceitou o alimento que oferecia para que ela experimentasse e acabou comendo o mesmo sem cerimônia, deixando, porém, que ela, com o tal garfo, experimentasse do que preparava. Sorriu torto com o canto dos lábios ao elogio dela que era bem difícil dele acreditar que era um “elogio” de fato.
Assim que terminou o preparo do almoço, organizou as panelas na mesa, especialmente as com as verduras no vapor, mas fez questão de buscar os pratos, servindo-lhes com a porção do peixe para cada um. Com cuidado, as postas que havia preparado não desmontaram e o peixe seguiu inteiro, ainda com o perfume no vapor e o exterior bem dourado. Utilizou de alguns dos legumes para acomodá-los ao lado de cada posta do peixe, permitindo que a morena, todavia, se servisse bem das verduras.
- Pode deixar que eu limpo a bagunça. - informou, sequer se preocupando em soar como se estivesse pedindo algo.
Finalmente se sentou a mesa para comer após lavar bem as mãos na pia, interessado em como havia conseguido estabilizar o sabor do peixe marinado em questão. Observou a mulher a sua frente na mesa enquanto se servia de algumas verduras no próprio prato. Esperava que ela experimentasse o peixe para ter alguma opinião sobre suas tentativas de um preparo mais local. Todavia, quando estava prestes a analisar a reação dela ao provar de seu peixe, o celular acabou tocando em seu bolso, deixando-o surpreso e, no segundo seguinte, irritadiço. Largou o garfo ao lado do prato antes de buscar o aparelho, desligando a ligação sem nem sequer se dar ao trabalho de verificar sobre quem se tratava. Respirou fundo e já ia voltar a prestar atenção na refeição quando, como se o aparelho adivinhasse seu próprio comportamento, ele voltou a tocar.
- Mas que inferno! - esbravejou, verificando dessa vez de quem se tratava e não havia como esconder a própria expressão de desgosto e conformismo que se levantou da mesa, abandonando o peixe ainda quente para poder atender o telefonema daquela vez. - Perdão. Com licença.
Pediu daquela vez, sendo mais educado, não pela companhia, mas pela comida que estava abandonando para atender seu maldito advogado do outro lado da linha. Desde que havia perdido novamente a licença para dirigir em território francês, o homem parecia furioso e inquieto, tratando-o como um adulto irresponsável e que deveria buscar ajuda profissional para tratar de seus traumas. Normalmente ignorava aquele tipo de opinião com muita eficiência, mas como o homem já havia lhe tirado das piores enrascadas de sua vida, passou a decidir dar-lhe a devida atenção quando ele reclamava de seu comportamento.
- Eu estava prestes a almoçar. Você arruinou minha refeição. Sabe como odeio que faça isso. - reclamou como se fosse bastante óbvio de quem era a culpa ali. Mas não deixou de ouvir o outro pela linha do celular, afastando-se para a sala de estar para poder falar mais abertamente com o sujeito. - Encontrou um corretor? Ele é confiável? Não. Nada muito caro. Não. Eu sei que é um bom apartamento. - coçou a própria nuca, passando pelo sofá e observando o chapéu ridículo da morena dona da casa com olhar de desgosto só pelo costume. - Eu só não quero ficar mais lá. - reclamou antes de ouvir a resposta negativa do outro lado da linha e desligar, cruzando os braços como se tivesse acabado de ouvir algo desagradável. Guardou o aparelho e foi lavar as mãos novamente para retornar a mesa, o interesse bem menor pela comida não estar mais tão quente como no instante em que havia servido-a. Sua expressão também não era das melhores, mais irritadiço que de costume.
Dia
Arqueou a sobrancelha quando ele disse que limparia a cozinha em seguida. Se qualquer cozinheiro fosse tão eficiente, ninguém começaria lavando pratos em restaurante. Mas deixou que ele fizesse o que queria. Já tinha conseguido engolir ele até ali, e podia ver agora que, mais que desagradável, ele era um sujeito esquentado e infantil, apesar da idade. E obcecado por culinária. Provavelmente a pessoa mais obcecada por culinária que conhecia.
Serviu-se das verduras e do peixe e sentou a mesa com sua cerveja, apenas porque não queria sujar o sofá com nada. Não se incomodava de parecer pouco educada porque não se importava de parecer nada na frente dele, mas ainda tinha o hábito dos modos elegantes de menina de boa criação. Comeu calmamente, sem esperar ele chegar, provando do peixe assim que ele levantou para atender a ligação, ignorando o quão bravo ele parecia. Afinal, ele estava sempre bravo.
A comida estava bem agradável, e mais agradável ainda era não ter que lavar os pratos depois. Comeu com calma, e já estava na metade do prato quando ele terminou a ligação e voltou a sentar-se a mesa, abusado com a própria alimentação.
- Problemas para arrumar uma casa nova, Funske? – questionou mais por educação, talvez porque a maioria das pessoas quando falava sobre seus problemas, costumavam sentir certo alívio. Não havia nada mais desagradável que sentar á mesa com alguém mal humorado. Tomou um gole de cerveja e pegou um copo, colocando para ele também, pois parecia que ele precisava mais do que ela.
Wilbert
Olhou para o próprio prato a mesa, menos interessado que antes. Pegou os talheres para começar a se alimentar, já com baixas expectativas por ser ritual ter sido quebrado. Detestava aqueles aparelhos quando estava prestes a fazer uma refeição e odiava ainda mais os jovens malditos que iam até seu bistrô para, ao invés de apreciarem a boa comida e uma conversa agradável, pareciam mais interessados em seus aparelhos celulares.
Contudo, estranhou o movimento da morena ao lhe servir um copo da cerveja local que ela mesma havia comprado e a pergunta sobre seus problemas. Arqueou uma sobrancelha para a cena, encarando-a descrente que de fato ela se importava. Ainda assim, não negou a cerveja ou ignorou a pergunta, mastigando bem o peixe antes de responder:
- Apartamento. - corrigiu, recordando que nunca havia morado em uma casa a sua vida toda. As casas que conhecia ou eram de ex namoradas, pessoas com quem costumava sair e havia aquela residência do escritor com quem havia terminado não fazia muito tempo. - Meu advogado encontrou um corretor, mas eu estou cansado de apartamentos enormes e caros.
Explicou a sua anfitriã, ainda que ela não fosse das melhores. Deu continuidade a sua refeição, fazendo uma pausa com o sabor do peixe que ainda lhe parecia suculento, mas sem todo o molho que esperava que ele tivesse absorvido. Experimentou da cerveja em seguida, deixando que o sabor da fermentação dela se misturasse a do peixe preparado. Era algo mais nostálgico e casual ao paladar do chef, algo que certamente usaria depois em algum novo teste de receita.
- Pensei que os Blanco vivessem juntos, como aquela família do seriado antigo, Adams. - comentou durante a refeição, não resistindo ao impulso de compará-los a um tipo bem singular de família esquisita com costumes mórbidos. - Por que mora sozinha? Certo que sua família tem como bancar suas despesas. Seus pais não se importam com isso?
Tinha certeza que os pais da mulher não se importavam com muita coisa e imaginava que, com o comportamento dela, era bem melhor que ela tivesse escolhido viver sozinha em um apartamento barato como aquele. Contudo, ela ainda parecia se importar com a figura paterna - podia se lembrar bem da irritabilidade dela com a ofensa gratuita que havia tido com o chapéu panamá. Ainda assim, questionou por mera curiosidade, ainda mais por não esperar nenhuma formalidade vinda da mulher. Já havia lidado com ela antes em cenas bem menos confortáveis que aquela. E se estavam almoçando juntos, na casa dela, não via porque não poderia conversar com ela, ainda que seu tom de voz fosse predominantemente grosseiro e autoritário.
Dia
Wilbert continuava tendo aquela carinha desgostosa de quem tinha chupado limão e comido jiló, mas quando ele não estava ativamente tentando lhe fazer chorar de raiva, até que podia aguentá-lo. Mas isso certamente não anulava sua raiva dele. Ele fazia questão em ser desagradável, mesmo quando era agradável, e Dia, depois da primeira pancada, não era o tipo que ignorava fácil o que tinha acontecido. Mas também não era de estragar a refeição calma de domingo com brigas gratuitas.
Arqueou a sobrancelha quando ele mencionou sua família. Levantou as duas mãos e estalou os dedos um par de vezes para tirar sarro da cara dele, por compará-los com os Adams.
- Bem, monsieur Funske. Se tenho um trabalho e condições de me manter, porque deveria viver com meus pais? A liberdade me agrada. – respondeu como uma pessoa civilizada, terminando de comer o almoço e tomando um gole agradável de cerveja em seguida. – Além do que, se isso irritar meus pais, é apenas mais agradável. – sorriu, então cruzando os dedos e apoiando o cotovelo em cima da mesa. – Eu não sei de onde tirou a ideia de que os Blanco vivem todos juntos. Conhece meu sobrinho. Ele já tem 19 anos. O pai dele certamente não está na idade de receber dinheiro dos pais.
Então, colocou as mãos sobre a toalha da mesa e riu.
- Ah, é mesmo. De onde conhece “Renaud”, monsieur? Aquele menino tem um bom espírito. Só precisa parar de querer agradar. – comentou, então levantando da mesa para tirar o próprio prato.

