Kyle
Os últimos dias tinham sido bem produtivos. Quando estava planejando coisas, encontrando pessoas e trabalhando em seu projeto particular, conseguia até amenizar toda a exaltação de lembrar que estava acordando, todos os dias a apenas alguns passos de distância de seu objeto de inspiração, seu próprio motivo de existência. Há mais de três anos que não conseguia tirar Dimitri da cabeça e aquilo era uma novidade excepcional… não costumava se importar muito com qualquer pessoa ao seu redor.
E era exatamente por este motivo que precisava preparar tudo para recepcioná-lo exatamente como ele merecia. Com cada passo calculado, cada presente, cada mostra da sua presença e da antecipação que tinha com aquele novo reencontro. Só mais alguns dias… alguns dias e seria um ciclo perfeito que marcaria os quatro anos em que tinham se conhecido.
Não esperava muito daquela pequena cidade no interior da França, mas se Dimitri tinha a escolhido, era porque havia algo de excepcional. E certamente havia… sua diversão intensificava a cada semana e a cada dia que passava com as novas ideias. E foi exatamente por conta da nova fase de seus testes ali que parou discretamente ao alcance daquela escolinha para crianças no distrito residencial no meio da semana, exatamente depois de ter confirmado com o devido cuidado que a responsável por aquela criança em particular se atrasaria novamente por conta de uma reunião de trabalho.
Havia dispensado as roupas costumeiramente brancas porque sabia o quanto elas podiam chamar atenção desnecessária, mas ainda vestiu um terno de um tom levemente cinza para não fugir às cores mais neutras. Para alguém que já estava rondando a cidade há alguns longos dias com conhecimento da polícia, a única coisa que fez foi escurecer um pouco o tom dos cabelos para um castanho médio e trocar os óculos escuros por óculos de grau que disfarçavam um pouco mais o tampão cor de pele discreto. As mãos usavam luvas beges quase imperceptíeveis por estarem enfiadas nos bolsos.
O horário do fim da tarde chegou e uma após outra, as crianças foram sendo levadas pelos seus pais. Deu uma volta no quarteirão e no parque, observando a movimentação que já conhecia de visitas anteriores ao lugar, para então voltar para próximo da escola a tempo de notar que apenas a menininha loira quieta estava esperando no parquinho dentro dos terrenos da escola. Daquela vez, seguiu direto até a escola, especificamente quando só havia também uma professora esperando com a criança, exatamente a pessoa que tinha determinado com as investigações prévias.
Aproximou-se o suficiente para chamar atenção das duas, acenando então para a jovem de cabelos curtos e castanhos, expressão jovial, que logo corou com o sorriso que lhe lançou.
- Posso ajudá-lo, s-senhor? - a professora perguntou, levantando-se para se colocar entre ele e a pequena Adelaide. Kyle acenou com a cabeça, olhando então para a menininha quieta sentada ao lado.
- Desculpe o atraso, eu sou Jean Martin, estou aqui para buscar a Adelaide. - ele respondeu, tirando uma carta de dentro do bolso interno do terno. - Eu sou primo da responsável dela, madame Annabelle Dupont, ela precisou viajar a negócios para Paris esta tarde e me pediu para vir buscar minha sobrinha. Aqui está, ela pediu para que eu entregasse isso a… Annete?
Fingiu observar a carta com o nome, estendendo para a professora curiosa.
- Ah sim, eu sou Annete. A madame Dupont é mesmo uma pessoa bem atarefada, não é? - a professora pegou a carta, observando a mensagem escrita à mão com a assinatura levemente familiar da responsável por Adelaide. - Eu gostaria que ela tivesse ligado antes, ao menos…
- Eu peço desculpas pela minha prima, ela é bem desatenta às vezes. - Kyle respondeu, com outro sorriso charmoso que facilmente provocou um rubor no rosto da professora. Mas ele foi mais rápido ao colocar a mão no outro bolso e tirar o celular. - Aqui, pode ligar para ela do meu celular, espero que ela esteja numa área com bom sinal.
- Ah, n-não precisa. A carta está bom. - a professora se voltou na direção de Adelaide e a única resposta de Kyle foi sorrir um pouco mais satisfeito, guardando o celular no bolso. - Vamos lá, Adelaide? Demorou um pouco, mas vieram te buscar para levar em casa.
Kyle deu um passo na direção da menina e se abaixou na mesma altura dela, encarando-a de um ângulo um pouco mais abaixo. Apoiou os cotovelos nas pernas, esperando encontrar o olhar dela de volta.
- Olá, senhorita Laurent. Desculpe por isso, sei que queria que sua mama tivesse vindo lhe buscar, não era? Não se preocupe, ela me mandou pra me certificar de que eu te leve até ela sã e salva. - falou, num tom um pouco mais baixo como se tentasse ser um pouco mais delicado com a menina, embora o olhar fosse um pouco mais incisivo, como se quisesse que a menina entendesse que não estava falando exatamente de Annabelle ao se referir à “mama” dela. estendeu a mão e esperou que ela a segurasse. - Então, você me perdoa por vir sem avisar? Prometo que vou levá-la direto até ela.
Adelaide
Mais uma vez, seguiu a rotina de ficar com a professora esperando que viessem lhe buscar na escolinha. Seria tão mais fácil se apenas pudesse voltar para a casa de sua tia Annabelle sozinha. Não deveria ser um caminho assim tão complicado e ao menos não ficaria ali esperando com a professorinha. Apertou a alça de sua mochila, pensativa. Queria mostrar seus novos desenhos para seu professor e para sua tia, quem sabe ela ficaria mais tranquila e ele lhe daria algum elogio. Observava os pequenos insetos, um grupo de formigas que passava perto de seus sapatos, entretida com o chão para prestar atenção no homem que acabara de chegar.
Contudo, não pode deixar de ouvir quando ele falou ser primo de sua tia. Ergueu o olhar, curiosa com o semblante do mais velho. Não se lembrava de outros parentes de sua tia. Imaginava se seria outro rapaz com quem ela poderia estar se encontrando além do homem ruivo. Bem, não era da sua conta e isso não mudava o fato de que mais uma vez estava ali esperando por alguém que não viria.
Enquanto o homem e sua professorinha conversavam, arrumou sua mochilinha nas costas e a barra do vestido, segurando em uma das mãos a mecha do próprio cabelo loiro comprido, esperando pelo momento de poder ir para casa. Todavia, antes de dar o primeiro passo para acompanhar o homem alto, parou, apertando a alça de sua mochilinha e a mecha do próprio cabelo quando ele se agachou, observando-a e lhe falando naquele estranho tom sobre “mama”.
Demorou alguns instantes, encarando-o de volta com olhos claros expressivos, piscando algumas vezes assim que se deu conta do que aquelas palavras podiam significar. Seria mesmo verdade? Ele estava ali por causa de sua “mama”? Concordou com ele com um aceno positivo de sua cabeça, estranhamente mais animada em ir embora com o estranho do que com qualquer outra pessoa. Só a possibilidade de poder encontrar a mulher novamente fazia seu peito aquecer. Não se importava com o que as outras pessoas diziam, queria ver sua “mama” de novo.
Estendeu a mão e não disse nada após concordar, sentindo, porém, a singular textura do tecido em seus dedos. O homem deveria conhecer o outro com a marca no rosto. Apesar do machucado, ele foi gentil com sua figura. Talvez aquele fosse um presente e não precisaria juntar dinheiro o resto de sua vida para reencontrar a mulher que tanto desejava ver novamente. Olhou para a professorinha e acenou como de costume, com a mão livre, sem soltar a mão do mais velho, temendo que ele sumisse dali e lhe deixasse sozinha também.
Kyle
A satisfação no rosto da menina foi notável até mesmo para ele, quando disse que tinha ido até ali por conta da mama dela. Bom, do encontro com Stefan, tinha confirmado algumas coisas sobre a pequenina e era só o que precisava para levá-la embora. Sorriu satisfeito quando ela facilmente aceitou lhe segurar a mão e se levantou, fazendo um aceno para a professora, sorrindo-lhe satisfeito de um modo charmoso que a mulher apenas corou um pouco mais também.
Mas estava satisfeito. Especialmente porque tudo estava saindo exatamente como tinha calculado. E não havia de ser diferente, não era? Podia contar as horas exatas até o dia em que encontraria Dimitri e os pensamentos voltando para o loiro fizeram com que seu sorriso aumentasse e andasse com os passos um pouco mais largos do que a menina podia alcançar. Parou ao perceber que ela estava se esforçando para lhe acompanhar e se abaixou de novo na altura dela.
- Desculpe, não queria apressá-la. - disse, encarando-a de perto de novo e daquela vez falando num tom um pouco mais de confidência. - Acho que você sabe que a sua tia Annabelle não tem uma família tão grande, não é? Eu só disse aquilo pra professora te deixar vir comigo. Na verdade, eu vim a pedido da sua mama de verdade. Ela disse que está com saudades, mas não pode voltar para lhe buscar, então... eu disse que lhe levaria para encontrá-la. Você quer ir comigo, Adelaide? Encontrar a mama? Encontrar a Liete? Mas esse tem que ser o nosso segredinho, certo? - ele fez um sinal de silêncio com o indicador sobre os lábios, ainda se manteve à altura da menina. - Mas se não quiser ir, não tem problema, eu posso te deixar em casa com a sua tia Annabelle. Ela é uma boa pessoa também, não é? Mas eu sei que ela não gosta tanto de você quanto a sua mama... e às vezes nem parece que ela se importa muito, hm? Bom, é você que escolhe, querida.
Manteve-se naquela posição esperando a resposta da garotinha. De qualquer jeito, ele a levaria a um destino certo. Só queria que ela não fizesse tanto barulho… crianças podiam ser insuportáveis o tempo todo.
Adelaide
Não soltou a mão do homem que lhe guiava na direção de onde estaria sua mama. Estava tão animada com a ideia de poder ver sua mãe novamente que quase chegou a sorrir, mas também se sentia inquieta com a ideia de reencontrá-la sem saber porque havia sido deixada ali na cidade, sozinha. Apressou o passo, quieta contudo, tentando acompanhar o homem mais alto e mais rápido. Lembrava um pouco de fato o gigante de cicatriz no rosto. Lembrava que ele também tinha problemas para ser acompanhado. Mas bem entendia aquele problema, sendo apenas uma menina, queria crescer logo e quem sabe usar aqueles sapatos bonitos da mulher da justiça. Quem sabe aqueles sapatos pudessem lhe fazer andar mais rápido?
Quando o mais velho parou para se abaixar novamente, encarou-o, o peito subindo de descendo suavemente enquanto recuperava o próprio fôlego pelo esforço. Concordou com um aceno positivo sobre as informações a respeito de sua tia Annabelle e não conseguiu esconder o rubor e o breve susto pela ideia de reencontrar sua mãe. Pressionou os lábios ao ouvir o nome da mulher, mas continuou quieta, baixando o olhar por um instante quando ele disse aquelas palavras sobre sua tia Annabelle. Não desgostava da mulher, mas não enxergava ela como sua mama. Sabia que ela ficaria mais feliz com uma criança normal como aquelas outras de sua escolinha.
Ergueu o olhar para o estranho homem bonito de novo, arrumando as alças de sua mochilinha antes de concordar mais uma vez. Observou o caminho que ele tomava, desconhecendo o destino que tomariam dali e onde quer que sua mãe poderia estar.
- Posso mesmo ver ela de novo? Eu quero ver ela de novo. - perguntou, afirmando seu desejo de reencontrar sua mãe. O tom de voz não era lá muito alto, até baixo para uma criança, afinal ele havia pedido que aquilo fosse um “segredo”, não era?
Kyle
Pela primeira vez em algum tempo, Kyle precisou conter a excitação de ter os planos indo tão de acordo com os seus cálculos. Não conseguia deixar de encarar os belos olhos claros da menina e cada mínima reação dela lhe indicava que tinha feito a escolha certa. Não teria problemas com ela, não como teria com outras crianças ativas e irritantes.
Conteve o sorriso satisfeito que queria antecipar a resposta dela, mas logo a menina perguntou com a mesma expectativa alta e infantil de reencontrar a pessoa que significava tudo para o pequeno mundo. Era ironia que entendesse aquela sensação? Mais irônico ainda... querer vê-la se despedaçar lenta e dolorosamente. Ela já tinha sido deixada de lado, quem é que voltaria para buscar uma criatura daquelas? Ela nem conseguia ser tão bonita...
Manteve a expressão comedida diante da resposta alheia, concordando com um aceno de cabeça quando Adelaide lhe perguntou se poderia mesmo rever a mãe.
- Sim, você vai ver. - ele finalmente revelou o sorriso, um sorriso mais discreto, embora o olhar não sorrisse. - Mas tem que me prometer que não vai fazer nenhum barulho... até chegarmos lá, certo?
Levantou-se de novo e estendeu a mão para que a menina segurasse, seguindo então para o carro alugado que estava estacionado a algumas ruas de distância. Colocou-a no banco de trás com o cinto e entrou no banco do motorista. Não falou mais nada com a menina ao longo do caminho, sequer encarando-a pelo retrovisor. Estava tão entretido no sucesso de sua empreitada que apenas cantarolou, entre lábios fechados, uma canção russa que conhecia há muito tempo e cuja letra não lembrava.
Alguns bons vinte minutos depois entre ruas e mais ruas da cidade, seguindo quase para fora da mesma, parou na parte antiga, diante de um depósito antigo num bairro pouco movimentado e sem casas residenciais. Desceu primeiro do carro, abrindo então a porta para que Adelaide descesse, pegando-a por baixo dos braços para colocá-la no chão, ficando de pé ao lado dela.
- Agora, você deveria arrumar um pouco a sua roupa para não ficar amarrotada, não é? - ele sugeriu, esperando que ela organizasse um pouco o próprio estado. Pegou a bolsa que ela ainda trazia da escola e devolveu-a ao carro. - Não vamos precisar disso agora, não é?
Esperou a resposta para segurar a mão dela de novo. O sorriso satisfeito continuava estampado no rosto, embora o olhar ainda não sorrisse. Seguiu com a menina a passos largos para dentro do galpão enorme e vazio, a iluminação era baixa, ligou um disjuntor que acendeu algumas luzes principais, umas delas piscando. No local amplo havia uma mesa com um tecido que cobria alguns objetos. Ao lado da mesa, havia duas cadeiras de madeira velhas, voltadas uma de frente para a outra, a uns bons três passos de distância. Kyle se aproximou da cadeira mais distante da mesa e se abaixou para pegar Adelaide e colocá-la sentada ali. Andou mais três passos e se sentou na cadeira próxima à mesa, o cotovelo apoiado sobre o tecido branco sujo. Encarou a menina com o mesmo sorriso, tirando finalmente o óculos de grau que tinha usado até ali e deixando-o de lado.
- Então. Agora nós esperamos. - avisou, incapaz de desfazer o sorriso no rosto. - Não é excitante? Ah. Esqueci que você não pode falar. - as palavras foram pronunciadas de modo mais incisivo e não desviou o olhar um instante sequer da menina, parado na mesma postura pelos minutos que se seguiram.
Adelaide
Um brilho peculiar tomou os olhos claros da criança assim que o homem afirmou que veria sua mãe novamente. Concordou obediente com ele sobre não fazer nenhum barulho. E tal como o seguira antes, o fez logo depois, observando o veículo do maior. Já havia andado no carro de alguns amigos de sua mãe e não se incomodava em se acomodar nos bancos. Manteve a postura, agradecendo ao outro por lhe ajudar a se sentar no banco de trás. Deixou sua mochila de lado enquanto o cinto lhe era colocado.
Durante o trajeto, não disse muita coisa, acompanhando o percurso das ruas pelo vidro do veículo. Não fazia ideia de onde sua mãe poderia estar ou do quão longe já estaria de sua escolinha. Estava animada ao ponto de mover os pézinhos no banco, devagar, como se contasse os segundos pela chegada. Evitou fazer muito barulho assim como o mais velho tinha lhe instruído. Era bem educada por sua mãe para não desobedecer os mais velhos e imaginando que aquele homem estava a serviço da mulher, era quase como se, em sua cabeça, obedecesse ao desejo da mulher.
Assim que desceu do veículo e chegaram no destino, obedeceu novamente, arrumando o próprio vestido e os cabelos loiros antes de voltar a acompanhar o mais velho. Olhou para trás onde havia deixado sua mochilinha e estendeu a mão para segurar a do homem desconhecido novamente, seguindo-o para aquele curioso galpão mal iluminado.
Observou a mesa coberta e estranhou o ambiente. Sua mãe queria mesmo lhe encontrar ali? Aquele lugar lhe recordava um tanto o ambiente da fazenda onde sua mãe costumava lhe levar esporadicamente para colher flores para a floricultura. Ficou surpresa com o mais velho lhe segurando para colocá-la acomodada em uma das cadeiras de madeira. Acompanhou o sujeito com o olhar até ele se sentar também, removendo o par de óculos. Ao ser questionada, abriu a boca para responder, mas logo fechou os lábios, retraída com a ideia de que poderia fazer barulho sem querer.
Baixou o olhar para os seus sapatos, um tanto incomodada com o sorriso constante no rosto do mais velho. Gostava de pessoas felizes como sua namoradinha Clementine, mas não lembrava de muitos adultos com aquele tipo de sorriso constante no rosto. Passaram-se, então, horas enquanto aguardava por alguma nova instrução. Observou os arredores, atenta a qualquer ruído que poderia indicar a chegada de sua mãe. Respirou fundo algumas vezes, mas como de costume, não fez nenhum ruído. A espera estava começando a lhe cansar ao ponto de fechar os olhos durante alguns breves instantes, quase cochilando sentada no tradicional cochilo da tarde após o retorno da escola. No instante seguinte, ergueu o olhar de novo, esfregando os olhos para se manter desperta e esperando, mas quieta.
Kyle
Ele não se importou com o tempo que passou ali, apenas parado, encarando a menina numa expectativa crescente. Mas sabia ser paciente quando necessário e convenientemente, a garotinha ficou calada também, lhe encarando de volta mais obediente do que outra criança que tivesse tentado buscar. O quão conveniente aquilo poderia ser? Ela era a criatura perfeita para o que estava pensando. E nem precisou se dar ao trabalho de prendê-la senão apenas com palavras e promessas vazias.
Mas a mãe dela não a queria, ninguém mais a queria, não era como se alguém fosse sentir falta.
Não esperava que ela conseguisse ficar tão quieta aquele tempo todo, mas as horas se passando fizeram com que a menina se cansasse e logo estava notando o rosto dela pendendo para o lado e os olhos piscando mais demoradamente. Sorriu mais satisfeito, aproveitando a oportunidade de um cochilo breve dela para puxar o celular do bolso interno do terno, tomando o tempo para digitar uma mensagem curta para um destinatário já determinado.
Quote:“Você não deveria se atrasar para o chá. Ou será que não é louco o bastante para vir?”
A mensagem curta foi seguida de um endereço com instruções para alcançar o local. A noite já tinha caído, embora a cidade fosse mais movimentada no centro, àquela hora, já não havia tanto movimento onde estava. Como o rapaz chegaria ali e se ele conseguiria ser discreto, só descobriria com o tempo. Guardou o celular pouco antes da menina abrir os olhos cansada de novo. Não falou nada e ela também não perguntou, afinal, o dever dela era continuar calada para que conseguisse encontrar sua mãe.
Stefan
Era fascinante o quanto o contraste entre suas saídas da Academia e as horas que passava preso nela, estudando. A despeito de seu último convite para sair ter sido algo peculiarmente enervante, talvez por ter sido enganado em um encontro que não aconteceu, estava esperando um motivo, qualquer que fosse, para se retirar do quarto e do confinamento em que apenas pintava imagens escuras que preocupariam qualquer um dos seus psicólogos infantis, mas que sequer sacudiam o dia a dia de consultas com o doutor Vlahos. Até ele, ultimamente, estava lhe cansando.
Não que gostasse do seu “professor”. Pelo contrário. Ele parecia mais um na lista dos que estavam ali pra lhe causar mal. Só que ainda não tinha feito isso, nem demonstrado sinais de que iria, diferente das criaturas acuadas ou forçosas que tinha encontrado antes em Nikolas e Juliette. Estava em paz, e fazendo algo diferente. Como não desejar o toque do seu celular nessa circunstância?
A tela arcaica acendeu no meio do escuro e iluminou a mesinha. No instante seguinte, estava vestindo algo para sair.
Nunca sabia com ele. Se seria um encontro rápido ou se teria que passar das suas horas longe da Academia, se voltaria antes ou depois do toque de recolher. Ao menos ainda era fácil sair, fingindo que sairia dos dormitórios para qualquer lugar da Academia. Fosse um pouco mais tarde, se preocuparia. Mas uma volta discreta por trás dos prédios antigos e só o que lhe restava era descer a ladeira com cuidado, sem ter que responder pergunta alguma do responsável do andar.
As instruções para chegar ao lugar foram fáceis de seguir, e embora não tivesse nada no bolso a não ser um pouco de dinheiro, ao menos o sistema de transporte de Cerise era bem servido. Andou pelas ruas escuras que levavam até o armazém onde tinha estado antes, despreocupado por saber que não havia um único ruído atrás de si que denunciasse que estava sendo seguido. Assim como ele não tinha porque ter negócios ali, ninguém mais tinha, e isso era o que deixava sua jornada mais segura.
Entrou no armazém para encontrar o loiro das vezes anteriores sentado à mesa com… a pestinha, filha daquela criatura grotesca? Estreitou os olhos em estranhamento, até porque não tinha como supor que aquela seria a cena que veria no fim de um dia entediante.
- Dobra vecer, aos dois. É uma festa? - questionou com um ar curioso, especialmente porque o sorriso perpétuo no rosto do mais velho estava até lhe incomodando.
Kyle
Mais minutos, talvez mais de uma hora se passou em que Kyle continuou apenas encarando a menininha quieta que se forçava a ficar acordada. Era interessante que ela conseguisse ficar tão parada quando conhecia crianças apenas que não sabiam apreciar um bom momento de silêncio sem receberem antes alguma reclamação. Uma pena… não fosse ela tão ideal para o seu passatempo atual em Cerise, talvez fosse uma criaturinha muito útil para carregar para os lados e ver até onde ela conseguia chegar. Estava tão interessado nos próprios pensamentos do que aconteceria que não percebeu o tempo passar e nem conferiu se alguma mensagem tinha chegado. A garotinha estava fechando os olhos por mais tempo daquela vez, até que o barulho de passos lhe chamou a atenção e mal precisou erguer o rosto para observar o garoto magro de tez pálida que seguia em sua direção com uma expressão aparentemente confusa. Ao menos era o que poderia tirar do estreitar de olhos do rapaz.
O sorriso não sumiu de seu rosto, senão, alargou, embora ainda assim fosse incapaz de se expressar no resto de sua face. Ouviu o cumprimento e a pergunta de Stefan, ignorando por um instante se a garota tinha acordado de seu breve cochilo para ouvir a voz conhecida. Levantou-se para andar a passos largos na direção do rapaz, com os braços abertos como se o estivesse recepcionando com um convite a um abraço. Mas parou a um bom passo de distância, mantendo aquele limite bem definido entre os dois.
- É uma festa do chá, não lhe disse? - respondeu para o outro, colocando as mãos atrás do corpo e dando alguns passos até o lado de Stefan, virando-se para que os dois ficassem de frente para Adelaide, ainda bem sentada na cadeira e bem confusa com a situação geral. Curvou-se mais próximo de Stefan, para que seu rosto estivesse numa proximidade maior do ouvido dele, especificamente. Seus olhos, entretanto, estavam bem focados na criança. - Eu disse que nosso último encontro tinha sido proveitoso, não disse? Eu estava pensando no que lhe dar de presente desde o cachorro de estimação. Não teria graça conseguir outro, não é?
Andou a passos muito curtos por trás do rapaz, dando algum tempo para que ele raciocinasse o que queria lhe dizer. Parou do outro lado dele, de novo, aproximando demais o rosto do ouvido dele, mas não o suficiente para se tocarem.
- Um desafio mais interessante, Sr. Ladislavic. - sibilou junto ao ouvido alheio. - Dessa vez, me deixaria os olhos inteiros?
E afastou-se até a mesa, tamborilando os dedos sobre o tecido que cobria vários instrumentos, até dar alguns passos na direção de Adelaide e puxar o lençol consigo, parando bem diante da menina com o olhar fixo na garotinha.
- Eu trouxe alguém pra brincar com você, querida. - curvou-se mais próximo do rosto infantil, incapaz de associar qualquer emoção que era tão evidente no rosto da criança com os olhos marejados. - Nem. Um. Barulho. Lembra? Ou sua mama nunca vai tê-la de volta…
Ergueu-se, dando a volta na cadeira em que Adelaide estava sentada e apoiando as duas mãos no encosto alto, voltando o olhar para Stefan novamente.
- Será que é louco o bastante, Sr. Ladislavic? - perguntou ao moreno, sem sequer assimilar o sorriso satisfeito e largo que havia em seus lábios, os dedos pressionando o encosto da cadeira com força como se quisesse quebrar a madeira.
Stefan
Talvez porque a presença da pequena lhe lembrasse da terrível ocasião na fazenda, seu corpo todo tencionou ao ver o loiro se aproximando com os braços abertos. Porém, assim como ele tinha feito vez após vez, ele parou a um passo de distância, o suficiente para que os músculos relaxassem. Observou o outro enquanto ele retomava uma posição confortável ao seu lado, embora a distância dos lábios dele do seu ouvido fizeram com que um arrepio preocupado percorresse sua nuca.
Então os olhos escuros focaram na menina.
Ela era um “presente”, assim como o cachorro. Um presente para si, pra que... fizesse o que queria? Os orbes escuros penderam pensativos sob as pálpebras enquanto analisava a figura confusa da criança ali. Mas ela não estava com uma coleira. Estava solta. Mas era tão pequena, e tão indefesa, mais até que um cão preso, afinal, ele tinha dentes, e força, e um instinto de sobrevivência muito maior que o dela. Ou talvez ela também tivesse instinto de sobrevivência. Sabia que tinha, quando era pequeno, queria viver, mesmo exposto a situação de perigo. Ela sabia que estava em situação de perigo? Que era o perigo?
Ele era o perigo.
Sua respiração ficou mais forte, e embora não tivesse um sorriso no rosto como Kyle, sentia o corpo todo quente, tomado por algum tipo de energia que não sentira em nenhuma vez anterior. Nem mesmo quando torceu o pescoço daquele filhote de gato, nem quando martelou o crânio daquele cão adulto. Seus dedos moveram-se, como se tamborilassem no ar, como se tivesse um tique nos ossos magros. Era assim que sentia? Ser uma ameaça para alguém? Para uma criatura que podia lhe responder? Que tinha vontade própria? Que chorava porque tinha medo, e não porque sentia dor? Era assim que sua mãe se sentia, todas as vezes?
Assustado, pelo poder, ansioso, pelo poder.
- Ela não quer a mama dela de volta. E mesmo se quiser, ela não vai ter. – a menção daquela fêmea em corpo de criança, daquela criatura nojenta fazia com que uma repulsa imensa voltasse a sua boca em palavras. Andou até a mesa e apoiou ambas as mãos na mesma, os dedos tamborilando na madeira enquanto curvava-se até encostar a orelha na superfície, observando Adelaide da mesma altura, os olhos escuros fixos nela. – Aquela govno jedno largou você aqui, gospodjica, porque se ela pisar aqui, ela sabe que a polícia vai levá-la para apodrecer em um buraco sujo. Sua mama é uma criminosa. Uma criminosa suja, vrag, mais suja que a ugavi cigo que é a minha...! Para que você iria querer uma mama assim? Uma mama suja que te abandona porque não quer apodrecer como merece, no inferno?
Levantou-se arrastado sobre a mesa, ainda completamente focado na pequena.
- Para que você quer uma mama que dá doces estranhos, e toca os outros sem permissão? Que acha que a dobra picka dela, aquela coisa asquerosa, molhada e apertada de onde você saiu é algo que todos vão aceitar, aquela prostituta? – os dedos tencionaram aponto de todos os ossos ficarem evidentes na mão masculina, que Stefan espalmou sobre a mesa. – Talvez seja por isso que você não tem um papa, hm? Porque é filha de qualquer um? Que ela nem sabe o nome? Que ela usou? Quem sabe é isso que ela faz? Han? Arruma pessoas problemáticas para fingir ser boazinha, mas as estupra, quem sabe você nasceu assim? E quem sabe, tenha sido deixada aqui, pra mim, para que eu possa descontar em você cada noite sem dormir, cada segundo tremendo de medo depois de reviver tudo em um pesadelo? Sabia, que sua mama me machucou muito? E que eu quero machucar você, muito?
Stefan disparou com a língua que há muito tempo não usava para falar tão excessivamente, talvez exceto pelas sessões com o doutor Vlahos. Tinha absoluta certeza que pequena como ela era, não tinha condições dela entender metade do que estava dizendo, mas supunha que precisava dizer. Precisava colocar aquilo para fora, precisava berrar aquilo para alguém de alguma forma, e precisava, mais que tudo, se sentir revigorado depois do trauma.
- Corra. – disse a ela, levando os dedos até os cabelos cheios, observando a menina agora de cima, o queixo erguido.- Não faça um som. Poupe seu fôlego. Corra.
Adelaide
Não entendia mais o que estava acontecendo. O homem que havia lhe trazido até ali não parecia sozinho e quando pensou que veria sua mãe, quem surgiu foi justamente aquele rapaz que pouco tempo atrás havia lhe dado aquele desenho que ainda guardava entre tantos seus. Olhou para o homem estranho com ar de confusão, desperta mais por educação que por de fato estar assustada. Desde quando havia nascido, havia sido criada com aquele tipo de repressão. Não lhe era dado o luxo de fazer muito barulho ou de aborrecer sua mãe. Preocupava-se com a mulher ao mesmo tempo que temia que ela fosse embora assim como seu pai parecia ter lhe deixado. Seu olhar, no entanto, foi levado para a mesa de objetos perigosos. Não sabia o nome de muitos, mas sabia o que podiam fazer - se até um lápis para sua mente poderia ser usado para machucar um coleguinha, aqueles itens não eram nem de longe algo que esperava ver em uma mesa de jantar tradicional ou em uma papelaria. E o rapaz moreno parecia bem confortável perto deles.
Não estranhou as palavras ofensivas que saíam da boca do maior. Ele sempre parecia enojar e desrespeitar muita coisa ao seu próprio redor e ela, acostumada com o comportamento dos colegas de turma sempre perguntando onde sua mãe estaria, a falta de respostas por parte de sua tia Annabelle, e os pensamentos que percorriam sua cabeça todas as noites em que se pegava pensando sobre o que havia feito para que a mãe lhe deixasse. Acompanhou o discurso dele, sem entender algumas partes sobre o que ele dizia a respeito de sua mãe tê-lo machucado. Ele era aquele tipo estranho, mas não imaginava porque sua mãe o machucaria de fato.
Talvez fosse o fato de conhecê-lo, já tê-lo visto antes, ou pelas ofensas que ele soltava sobre sua mãe não serem surpreendentes o bastante para que se sentisse ofendida. E por que ele estava lhe dizendo para correr depois de falar sobre querer lhe machucar? E ainda sem fazer nenhum barulho? Ele pensava que gritaria? Mas o homem que lhe trouxe ali também lhe disse que não deveria fazer barulhos ou não veria sua mãe.
Abriu a boca como se fosse responder algo, mas nada vez, perdendo alguns instantes ao descer da cadeira que quase não lhe deixava alcançar o chão. Algo lhe dizia para de fato não ficar perto do rapaz de cabelos cheios então olhou ao seu redor, pensando para onde correria como se aquilo fizesse parte de algum tipo de brincadeira. E sem pestanejar correu, as pernas menores lhe levando na direção das costas da cadeira de onde o homem que havia lhe levado até ali estava acomodado. Ele não parecia irritado, muito pelo contrário.
- Por que… trouxe ele…? Ele disse que quer me machucar. - disse baixinho para não fazer barulho de fato. Acima de tudo, ainda estava confusa, mas não esperava que o homem não fosse de fato amigo de sua mãe. E o rapaz moreno de cabelo cheio e aparência singular ainda lhe era familiar, apesar de ainda parecer estar muito bravo com sua mãe. Ele queria brigar com a mulher? E por isso estava ali?
Kyle
Atiçou o rapaz o suficiente para que ele demorasse um pouco a processar a situação. Mas andou a passos lentos de volta para a sua cadeira de onde assistiria aquilo de camarote. Seria interessante e só o pensamento das várias possibilidades lhe fazia ficar excitado em expectativa.
A necessidade de Stefan de absorver a situação pareceu muito com aquela ao sugerir a sua ajuda ao rapaz pelas primeiras vezes, em que ele falava demais e fazia de menos. Bom, estava dando a oportunidade para que ele falasse menos e agisse mais, mas ainda poderia consertar aquilo com um pouco mais de tempo. Não interferiu na situação, deixando que ele mesmo ditasse as próprias regras e despejasse quantas palavras fossem necessárias para fazê-lo se sentir aparentemente melhor. Não fazia ideia de até onde iria aquele relacionamento perturbado dele com a menina e a mãe dela, mas agora tinha uma certeza maior do que tinha acontecido naquele mesmo dia em que tinha chegado a Cerise e encontrado com o rapaz. Tinha sido um tiro bem certeiro.
Só prestou atenção de fato nas reações discretas da garotinha quando ela ouviu a ordem para que corresse, e assim o fez, ironicamente, seguindo na direção de seu primeiro algoz. Kyle quase teve vontade de rir com a necessidade dela de se esconder atrás da cadeira em que estava sentado. Mas manteve aquele mesmo sorriso no rosto, agradado por ser expectador daquela cena, ouvindo as palavras sussurradas e suplicantes da menina. Como se ela fosse nada mais que um cachorro, igual àquele que tinha levado para Stefan da primeira vez, pousou a mão enluvada na cabeça de fios loiros, aproximando o rosto dela, mas ainda assim desviando o olhar para Stefan.
- Bom, e você vai deixar? - perguntou, sobre deixar Stefan machucá-la. Voltou a atenção para a menina. Talvez um pouco mais de ação dos dois para ver como Stefan se sairia? Encarou a garota direto nos olhos grandes e azuis, um azul tão bonito... - Se ele conseguir lhe machucar, você não vai poder encontrar a sua mama, não é? É melhor conseguir se livrar dele, e sozinha… - as últimas palavras, fez questão de sussurrar ainda mais baixo, para que apenas ela lhe ouvisse, antes de afastar-se e tirar a mão da cabeça dela.
Se ela resistisse um pouco mais do que a personalidade ditava… aí sim, seria algo interessante de se assistir.
Stefan
Stefan esperou que a menininha corresse, mas ao invés disso, ela apenas saiu da cadeira, e sua corrida não foi tão longe, além de se esconder atrás de Kyle, o que fez com que piscasse longamente em descrença. Se ele decidisse protegê-la agora, depois de tudo, estaria determinado a se isolar, pois seria a prova final de que não havia nenhum lugar no mundo em que as pessoas não quisessem lhe atacar. Por outro lado, o fato dele assistir enquanto matava o cão lhe dava certa esperança de que aquele galpão, com aquelas armas e aquele isolamento eram o lugar perfeito para ser o que era, sem as restrições formais das convenções sociais e leis que lhe impediam, em seu instinto de autopreservação, de ser um predador.
Afinal, se ele podia ver algo assim e estar ali, parado, sorrindo como um idiota que fingia saber sorrir, então também podia. Queria também poder.
Abaixou-se para pegar pedrinhas pequenas e velhas que estavam jogadas no chão imundo, sentindo-as entre os dedos enquanto se aproximava da pequena. Então jogou uma nela, para bater na testa, depois outra, e outra.
- Porque você não está correndo? Corra. – sinalizou novamente para ela, encarando-a diretamente. – Corra, eu mandei. – era uma das primeiras vezes que tentava mandar em qualquer coisa, de modo direto, sem dar um milhão e meio de voltas em como a pessoa deveria fazer algo por ele, sem nenhuma manipulação mental, só uma ordem direta e simples. O que ela faria, esperava, era obedecer.
Caso não obedecesse, tinha um monte de armas a disposição que poderiam fazer isso.
Adelaide
Franziu o cenho diante da ideia de não acabar encontrando sua mãe de novo e com a mão, ainda que enluvada do estranho, em sua cabeça, em seus cabelos loiros tão bem cuidados por sua mãe. Não gostava que outros tocassem eles e a ideia de que o homem não faria nada só lhe deixava mais inquieta, pois lhe fazia recordar de todos os momentos na escolinha em que precisava da ajuda de algum adulto, mas eles pareciam ignorar o que acontecia quando as outras crianças lhe provocavam.
A situação só piorava. Podia sentir a testa doendo com o impacto daquelas pedras arremessadas contra si. O maior não estava nada diferente de seus coleguinhas, dizendo-lhes coisas horríveis sobre sua mãe e sua família, atirando objetos contra ela quando se sentiam seguros o bastante para fazê-lo e covardes o bastante para não se aproximarem demais. Cerrou os dentes e os olhos sequer marejaram com a dor latente em sua cabeça por ser atingida pelas pedras. A vida toda foi daquela maneira, desde quando podia se lembrar, e talvez fosse por isso que seus coleguinhas também gostavam de lhe provocar, pois não chorava como uma criança da sua idade.
Olhou ao redor, queria estar com sua mochila ali, pois poderia usá-la para se proteger e sabia de muitas coisas lá dentro que poderia usar para afastar o maior se ele chegasse perto demais. Ainda não entendia o motivo dele estar fazendo aquilo. Pensara que era só um estudante e conhecido de sua mãe. Já havia conversado com ele mais de uma vez e ele até havia lhe dado um desenho - o que mantinha guardado entre seus cadernos de arte com cuidado - e ele até havia lhe falado sobre coisas que não entendia de arte. E agora ele queria lhe machucar. Aquilo não fazia sentido em sua cabeça e se sentia traída por acreditar que aquele seu coleguinha mais velho podia entender e lhe explicar alguma coisa do que estava acontecendo. Mas naquele cenário, ele só queria lhe machucar como todos os outros.
Não disse nada, correndo diretamente para a mesa de objetos cortantes e perfurantes. Pegou o primeiro que parecia poder ser carregado pelo seu tamanho, nas mãozinhas pequenas e de punho fechado. Em nenhum momento, afastou o olhar do moreno que lhe perseguia, irritadiça com a ideia de que ele realmente queria lhe machucar sem nenhum real motivo para tal. Não se recordava de ter brigado com ele recentemente ou de ter desafiado o outro durante o último encontro que tiveram na galeria de arte. Manteve o objeto abaixado, movendo-se cuidadosa e mais devagar, esperando a ação do mais velho para se mexer. Não era do tipo que atacava os outros sem motivo, mas sabia se defender, ainda que sua defesa pudesse ser entendida como mais agressiva que a de outras crianças de sua idade.
Stefan
Esperou que as pedras fossem o suficiente para fazê-la se mover ao seu bel prazer. Tinha dado uma ordem clara e direta, o que tinha sido suficiente para que alguém verborrágico como a si mesmo obedecesse, mesmo a contragosto, o homem que estava ali parado com um sorriso no rosto. O que tinha sido suficiente para que aquela loira asquerosa lhe impedisse de fugir. O que tinha sido suficiente para sua mãe, vez após vez, lhe infligir medo, apesar de odiá-la. Agora, por que... ela não obedecia?
Observou a trajetória da pequena em direção a mesa, e o fato dela ter agarrado um pequeno estilete* para se defender, lhe olhando de volta o tempo inteiro. Estreitou os olhos, tentando juntar um mais um de porque ela simplesmente não tinha fugido, mas a desobediência dela não lhe parecia nada óbvia. Tanto que tensionou os dedos, movendo-os rapidamente em agonia, querendo achar um sentido naquilo. Então, abaixou os ombros em leve decepção. Só tinha uma resposta para aquilo.
Ela não tinha medo dele o suficiente.
Suspirou longamente, os olhos escuros focando-se na menina. Seria incapaz, realmente, de infligir medo em qualquer pessoa que fosse? Era pré-determinado em sua genética que seria algo fraco e patético, apanhando de todas as pessoas que viessem em sua vida uma após a outra? Era o bode expiatório da natureza violenta alheia? Fosse quem fosse, de sua mãe ao seu médico, ninguém lhe levava a sério, ninguém lhe via como um predador. Mas tinha ganhado a oportunidade para provar que era um, e por mais que não fosse seu interesse direto predar uma criança, se nem mesmo ela tinha receio de si, ficaria abaixo dela, naquela cadeia?
O que era uma criança para um adulto de 1,70m? O que era uma expressão defensiva para quem tinha visto expressões agressivas? O que era um estilete para quem tinha sido violentado com as mãos, as mãos, as mãos...
Olhou para suas próprias mãos. Quantas vezes tinha hesitado em tocar em alguém? Quantas vezes elas denunciaram seu nervosismo? Essa era a diferença entre ele e todos eles, provavelmente. Eles não hesitavam em destruir os empecilhos com as próprias mãos.
Antes mesmo que raciocinasse a ansiedade que sentia, caminhou a passos firmes na direção da criança, e como quem não se importa se será cortado, agarrou-a pelo punho que projetava para frente com aquele objeto nas mãos. Apertou os ossinhos pequenos sem se preocupar com a força que empregava nela, observando-a de cima. Tirou o estilete das mãos dela num movimento brusco e jogou-o para longe, porque não precisava daquilo. O tempo todo tinha boas armas. Armas habilidosas. Só tinha muito muito medo de usá-las.
Moveu o braço, empurrando Adelaide no chão no solavanco brusco e ajoelhou-se sobre ela. Sabia como fazê-lo, pois tinha sido ele, muitas vezes, na mesma posição. Abriu bem os olhos escuros e segurou-a pela gola do uniforme antes de erguer o punho fechado.
“Deixar os olhos inteiros”, ecoou em sua mente.
Mas não hesitou em atingir o rosto dela com um soco firme, direto na lateral do mesmo. Ela não era densa, mas também não era macia. Mas podia fazer outra vez, com certeza. E tornou a esmurra-la, dessa vez no nariz, e mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez, até ver o supercílio abrir, e o nariz inchar e sangrar, e os lábios ficarem irreconhecíveis, assim como ficava, sempre que estava sozinho com ela. Respirou fundo, tentando recuperar o fôlego.
- Arf... Vai correr agora? – questionou, novamente em tom de ordem, apontando para ela o punho agora manchado de vermelho.
*Escolhi o objeto por você porque no teu post não especifica :v
Adelaide
Precisava escapar dali para encontrar sua mãe. Ela deveria estar em algum lugar ou ao menos era o que sua mente buscava, ainda apegada a esperança nas palavras do estranho sentado na cadeira, observando tudo. Todavia, se posicionando na defensiva e não tirando os olhos do maior, não conseguiu se mover rápido o bastante para impedir que ele lhe agarrasse o pulso. Podia jurar ter sentido a pressão a carne do braço dele com o estilete em mãos, mas tudo aconteceu rápido demais para que pudesse raciocinar uma forma de escapar.
Ainda com a dor no pulso pela pressão infligida, não gritou pelo reflexo que fora treinado durante tantos anos, instruída por sua mãe a não fazer nenhum barulho ainda que sentisse dor. Tentou puxar o próprio corpo para longe daquele ser de longos membros e de corpo esguio. Ergueu o olhar para observar o rapaz, pouco antes de ser levada ao chão, a pressão em seu corpo lhe incomodando por não ter mais o controle de para onde desejava ir.
Rangeu os dentes como se a frustração ali fosse maior que seu medo, mas não teve sequer tempo de tentar se soltar novamente, o outro era bem mais forte que ela, ainda que com aqueles braços magros. Notou a mão dele se erguendo para lhe atacar e, em seguida, a tontura e a dor pelo impacto. Conforme ele repetia o processo, sentiu a dor e a pressão aumentarem até se tornarem insuportáveis. As mãos que tentavam se soltar, arranhando e pressionando os joelhos dele que lhe seguravam, logo tentaram se soltar para que pudesse parar a dor que ele infligia sobre ela.
A dor era tamanha que não conseguiu mais reprimir o choro natural de seu corpo. O mesmo choro que era um reflexo proibido por sua mãe. Naquele momento, tinha a certeza que ela não voltaria mais. Havia falhado. Ainda que não conseguisse gritar direito pela dor em sua cabeça que parecia explodir e o sangue das áreas quebradas e inchadas que lhe engasgavam nas vias respiratórias, além do pânico de estar em total descontrole daquela situação, a visão se tornava turva pelas lágrimas vertendo dos olhos azuis, agora avermelhados em suas extremidades devido a pressão em sua cabeça e os golpes deferidos contra sua face.
O corpo amoleceu enquanto não segurava mais o choro copioso e engasgado pela dor e decepção que havia causado a sua mãe. O mesmo pensamento que não demorou a desaparecer diante da tontura pelos golpes. Até mesmo a voz do maior parecia distante aos seus ouvidos, como um eco tinindo em seus tímpanos, metálico e agressivo.
“Mamãe…” - chamou pela mulher, ainda que tudo o que conseguisse fazer era mover os lábios em mais um reflexo vulnerável. Naquele momento, era uma criança comum que chamava pela mãe e chorava assustada pelo medo causado pelo homem sobre si.
Stefan
As lágrimas, nem conseguia enxergá-las em meio ao vermelho do sangue que começava a lavar parte do rosto da menina, ou além do brilho das mesmas abaixo dos olhos, presas nas bochechas inchadas. Também não lhe importava. Não lhe importava porque era ele quem estava fazendo aquilo, era ele quem estava causando aquelas lágrimas, e aquele medo, e aquele desespero. E ela parecia cada vez mais desfalecida independente de ter parado de bater. O corpo pequeno não aguentava as pancadas, ou a sua agressividade.
Observou-a, supondo que uma pessoa, coberta do brio que sentia naquele momento, sorriria. Mas ele não. Ele não tinha outra expressão além da seriedade usual. Porque aquilo era natural. Era sua natureza, sentir o sangue quente cobrindo os punhos. Sentia uma imensa vontade de vomitar, mas aquela era a sensação real da felicidade, supunha.
Os olhos escuros fixaram nos lábios pequenos e inchados enquanto ela tentava balbuciar uma palavra com dificuldade, graças ao nariz quebrado. Moveu os dedos de ambos os punhos ao discernir o chamar pela figura materna, tamborilando-os contra a palma da mão, olhando para a carinha dela, irreconhecível. Como a sua. Quando estava nas mãos dela. Porque só a sua mãe, era alguém a quem não poderia recorrer? Porque essas necessidade tão grande, por ela? Para sobreviver. Mas não precisava mais sobreviver, não precisava dela como aquela pequena precisava. Seu corpo todo sacudiu ao lembrar de que aquela mulher era outro monstro.
- ELA NÃO ESTÁ AQUI! – rosnou para a pequena, batendo ambos os punhos, um de cada lado da cabeça dela, o corpo todo curvado sobre o da loira. – Ela não está aqui...! E ela não vai voltar porque você quer...! Se você não importa para ela viva, com certeza não vai importar morta. – pontuou, a respiração ofegante dos golpes, o rosto inexpressivo próximo ao dela. Levou a mão até a testa da pequena, tirando os cabelos claros da frente da mesma, descolando-os do sangue por um instante. – Mas eu não sou... um monstro. Eu não vou esperar você levantar, e lhe surrar de novo. Levantar... e surrar de novo... levantar... surrar... – Stefan então ergueu-se, uma mão sobre o pescoço estreito de Adelaide, a outra acompanhando. – Uma única mordida, direto na jugular.
Sem conter força alguma, sem sentir remorso algum por isso, Stefan enrolou os dedos em volta daquele pescoço, como se aqueles fossem suas presas, fechando-os cada vez com mais força em volta da pele clara. E não parou de apertar. Nem quando ela começou a tossir. Nem quando engasgou. Nem quando sentiu os músculos embaixo de sua palma cederem. Nem enquanto ela se debatia abaixo de si em uma última demonstração desesperada de força. Nem quando sentiu seus dedos estalarem... e tudo parar... exceto o suor escorrendo por sua testa e gotejando sobre ela. Tudo parar, até mesmo o reflexo trêmulo do corpo daquela criança, morta.
Soltou-a devagar e viu as marcas de seus dedos tão apertadas e juntas no pescoço dela que pareciam uma marca singular, apenas. Ajoelhou-se para levantar e sacudiu os pulsos, aquecendo a junta das mãos que tinha ficado rija de tanto apertar. Em pé, enfim, voltou o olhar para Kyle, e com os dedos trêmulos da força aplicada anteriormente, girou o pulso e pôs a palma para cima, indicando que tinha feito aquilo.
- Morta. – disse a ele, como se não fosse o óbvio, a expressão também desprovida de vida. Deu um chute no que era o resto de uma pessoa no chão, virando o corpo de barriga para baixo. – Morta. É isso.
Kyle
Era um show interessante, observar pessoas disputando pela própria vida. Já tinha observado aquele cenário tantas e tantas vezes, com crianças, adultos, idosos. Crianças eram chatas, mas sinceras. Elas sempre gritavam demais e choravam demais. Adultos conseguiam ser piores na maioria das vezes, por isso não lhe interessava tanto prolongar o destino certo da maioria deles. Mas assistir as cenas de vez em quando lhe deixava mais instigado. Aquele rapaz a quem estava ensinando algumas coisas precisava de um longo caminho ainda até conseguir se controlar mais e aperfeiçoar as técnicas, mas entendia que algumas pessoas apenas precisavam daquilo, ser passionais. O problema de ser passional era deixar alguns traços muito evidentes pelo caminho, até ele sabia daquilo.
Assistir a menininha ser espancada sem soltar um grito sequer foi mais interessante. A ponto até de se curvar na direção dos dois, curioso, com as pernas cruzadas e os braços apoiados nas coxas. Stefan conseguia ser até mais barulhento que a menina, mas já tinha apontado nele aquela necessidade de falar mais do que o necessário. Uma hora ele se acostumaria a fechar a boca. Pena que a menina estava prestes a morrer, talvez até ela fosse uma aprendiz mais promissora, embora não lhe fosse útil já que ela não significava nada para Dimitri.
Observou toda a cena em silêncio até ele pressionar os dedos com força suficeinte no pescoço pequeno para cortar a respiração da garota, que sem qualquer força, não teve como resistir à morte certa. Não tinha sido exatamente como o cachorro, depois que a menina parou de respirar, com o rosto completamente inchado das pancadas e os olhos avermelhados e arregalados causados pela falta de ar, Stefan também cessou, parecendo assimilar por um instante o que tinha acabado de fazer. Mas logo ele se colocou de pé, como se nada demais tivesse acontecido, alongando os dedos e as mãos antes de mostrá-las com as palmas para cima, anunciando a morte da garota, ainda chutando-a para ficar de bruços. Devolveu o olhar tão sem emoção quanto o dele, mas havia um sorriso em seu rosto e não fez questão de se levantar.
- Está satisfeito, Sr. Ladislavic? - perguntou, sem se mover mais do que tinha feito apenas para encará-lo.
Stefan
Diferente de si, seu professor não era um homem de muitas palavras, de muitos gestos ou de qualquer expressão que pudesse discernir ou sentir como verdadeira ou real. Era seu oposto: embora não entendesse muito bem o que as pessoas consideravam por normal, Stefan era um homem passional, e a prova estava a seus pés. Mas não tinha exata noção de sentimentos, tanto que ergueu o olhar para Kyle, voltou-o para o corpo da fedelha a seus pés, e de volta para Kyle antes de pensar em qualquer resposta plausível para aquela pergunta.
- Não sei. – foi o que respondeu, não porque estava incerto se ainda queria fazer algo com o corpo, mas porque não tinha noção do que era ter satisfação com algo como aquilo. Mas não se aproximou mais da menina, apenas andando em direção a primeira fonte de água que pudesse encontrar, pois lembrava de ter conseguido lavar o próprio corpo em um galpão como aquele quando matou o cachorro. Deveria poder também fazer isso agora.
Mas algo ficou em sua cabeça, talvez porque havia muita diferença entre a primeira vez que tinha ido até ali e aquela vez, em que tinha terminado daquela forma simples e pouco planejada. Apenas parou no caminho, bem do lado do loiro, e observou-o por um instante.
- O que você vai fazer... com os olhos? – questionou, embora não esperasse resposta, talvez porque não queria saber de verdade, exceto porque o pedido ficou no fundo de sua mente e tinha emergido com a pergunta dele. – Desse jeito... está satisfeito também?
Kyle
- Em breve, você descobrirá. - respondeu, sobre ele estar satisfeito ou não, e se colocou de pé quando o rapaz seguiu em sua direção. Ele estava certamente buscando se limpar como tinha feito da última vez, mas ao matar a criança, não havia tanto sangue, nem tanto cheiro de podre como da outra vez. Havia mais coisas para assimilar, mas entre a assimilação dele e a sua satisfação em terem progredido tanto, o sorriso em seu rosto denunciava um gosto muito peculiar pela cena e especificamente pelo corpo infantil largado no chão.
Apontou por cima das costas para Stefan, indicando o local onde ele podia lavar as mãos. Até tinha preparado outras peças de roupa, imaginando que ele ficaria ainda mais sujo do que da última vez, o que não era o caso. Desviou o olhar do corpo da menina apenas quando Stefan lhe perguntou o que faria com os olhos, e mais uma vez, sorriu… um sorriso que era excessivamente superficial, incapaz de transmitir qualquer sensação boa, ao menos.
- São um presente. Eu gosto bastante de olhos claros, Sr. Ladislavic. - apontou para o próprio olho, coberto pelo tampão cor da pele, encarando Stefan de volta com o único olho ainda assim incisivo. - Mas estou muito satisfeito, por mim, e por você. Você está progredindo bastante…
Estendeu a mão como se fosse tocar o rapaz na altura do topo da cabeça, mas não ultrapassou a distância suficiente para alcançá-lo. O gesto se perdeu no meio do caminho e ele deu a volta, seguindo até o corpo de Adelaide e agarrando um dos tornozelos com facilidade, puxando-a consigo como se fosse uma boneca quebrada. Ergueu o pequeno corpo ainda de cabeça pra baixo e soltou-o sem qualquer cuidado sobre a mesa, onde os objetos metálicos tintilaram. Deixou-a de corpo para cima, buscando um bisturi entre as ferramentas para poder se curvar, muito interessado e compenetrado no seu alvo, até delinear com cuidado a pele em volta dos olhos e tirá-la do caminho, para conseguir arrancar o globo ocular inteiro. Fez o mesmo com ambos os olhos, mal desviando a atenção para o que quer que Stefan estivesse fazendo. Ambos os olhos na palma da mão, alguns minutos depois, e os encarava como se fosse algo muito precioso. A outra mão tirou do bolso uma pequena caixinha preta e depositou os dois olhos lá dentro, para então colocá-los de volta no bolso e largar o bisturi de volta com as outras ferramentas.
- Então, podemos voltar, Sr. Ladislavic? Imagino que ainda tenha algumas coisas para processar da nossa noite.
Stefan
Como poderia ele entender sua futura satisfação ou não com um ato que ele mesmo havia cometido? Observou-o de volta. Talvez fosse por isso que o papel dele ali era ser seu professor. Porque ele sabia mais, de fato, não só sobre matar, mas sobre o sentimento que viria depois do feito. Isso, se já não era óbvio, o tornava ainda mais perigoso, mas para alguém que se metia na frente do perigo o tempo todo como Stefan, aquele era apenas mais um passeio noturno que lhe ensinava que também podia caçar, se assim quisesse.
Foi lavar as mãos ainda sujas de sangue na pia que ele tinha indicado. Talvez Kyle esperasse que fizesse mais bagunça, assim como tinha feito com o cachorro, mas dessa vez, tinha apenas magoado os ossos do punho nossos ossos da face da menininha. Fora força o suficiente para abrir parcialmente a pele sobre o dedo médio e deixar todos os outros bem vermelhos, mas suas mãos, calejadas, eram bem bonitas. Alguma vez havia visto elas assim? Não. Elas eram impecáveis, porque nunca as usava para nada além de segurar utensílios e pincéis. Não achava que havia voluntariamente agredido outro ser humano daquele jeito, nunca.
A ideia dos olhos serem um presente, claro, chamou sua atenção. Estava ainda começando a se mover quando o loiro se aproximou e tão pronto a distância se tornou incomodamente próxima, seu corpo prontamente tencionou por inteiro. Tinha absoluta certeza que tinha dito algo que ofendeu o loiro, porque estava sendo incisivo sobre algo que ele não deveria querer responder. Mas, ao invés de correr, ou guinchar de medo, apenas observou ele de volta, com a mesma expressão neutra no rosto de quem julgava aquele sorriso superficial e enigmático.
E ele não lhe bateu. Aliás, sequer lhe tocou.
Estreitou os olhos e seguiu o movimento dele da mão próxima que lhe parabenizava sem lhe tocar à saída dele dali em direção ao corpo pequeno estirado no chão. Assim como não tinha entendido se estava satisfeito, não tinha entendido o gesto. Mas era melhor que apanhar, muito melhor. Seguiu-o de perto para ver o que ele faria com a menina e parou do outro lado da mesa, assistindo a cirurgia que não sabia se era cuidadosa ou não, mas que era pontual em arrancar uma parte do corpo muito delicada de alguém. E aquilo se decomporia em breve, e começaria a feder e faria um presente incrivelmente dedicado, mas igualmente cruel. Como... Kyle?
Virou o pescoço levemente de lado, observando-o por um instante quando questionado sobre tudo que tinha para processar aquela noite ainda. E não sabia se iria processar. Ou se sentia apenas uma vontade imensa de saber qual a diferença entre suas mãos que não fazem nada além de arte, e suas mãos, que machucam. Quanto tempo havia desde a última vez que se sentia assim?
- Sim. Suponho que tenho. – respondeu, afastando-se da mesa, pensando mais uma vez nas imagens que deveriam lhe chocar aquela noite, mas que ainda não conseguia compreender por inteiro, nem mesmo a visão dele abrindo outro ser humano como um pedaço de carne, como tinha tratado o cão, como eram tratados os veados por seus predadores. – Mas e o que vai fazer com... ela?
Kyle
Kyle não se importou com as luvas sujas de terra e de sangue do seu ato mais recente. Colocou-as dentro dos bolsos, sem se importar também de sujar as roupas brancas, onde qualquer mancha era muito perceptível. Não se desfez delas nem de nada ao redor, deixando o corpo jogado na mesa e os instrumentos bagunçados como se fosse uma pessoa sem vontade de arrumar o próprio quarto.
- Eu acho que os responsáveis dela gostariam muito de saber porque ela não chegou em casa no fim do dia, não é? - ele respondeu, estendendo uma das mãos para indicar a saída do galpão, para que Stefan passasse primeiro. - Não se preocupe, você se saiu bem o suficiente para que eu me preocupe em me livrar de seus traços no corpo dela. Mas é uma emoção intensa, não é? A perspectiva de que depois que o corpo seja encontrado, alguém talvez chegue a você.
Ele esperou que Stefan saísse do galpão para andar até um carro diferente do que tinham usado na última vez, abrindo a porta para que o rapaz entrasse.
- Não me desaponte agora e acabe desesperado para assumir a culpa pelo nosso jogo, Sr. Ladislavic. Gostaria de ver como vai se sair nas próximas semanas com isso na cabeça. - ele fechou a porta assim que Stefan entrou e deu a volta no carro, entrando do lado do motorista.
O trajeto de volta a St. Clavier foi silencioso. Não porque Stefan não tivesse falado algo, ou porque a noite já ia muito longa para haver movimentos intensos nas ruas, mas porque a única coisa que Kyle conseguiu ouvir foi o som dos próprios murmúrios cantarolando músicas antigas que lhe lembravam de tempos em que estivera em outras partes da Europa e do Oriente Médio. Nos arredores dos terrenos dos dormitórios de St. Clavier, apenas acenou numa despedida breve para o adolescente, acelerando o carro de volta no caminho para o mesmo galpão em que o corpo de Adelaide ainda esperava para ser embalado para presente.
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