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Anamnese [Paul; Henrique]
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Após ser levada para o Hospital Geral de Cerise, não conseguiu entender muito bem o que estava acontecendo. Ainda estava muito tonta por conta da fumaça inalada. Podia sentir a garganta doendo como se estivesse com muita sede. Tentou respirar fundo algumas vezes, mas não conseguiu pelo desconforto que conseguia sentir na garganta. Estava sem seus óculos, então não conseguia enxergar muito bem a distância também, então não fazia ideia de para onde estava indo e quem se aproximava.
Fechou os olhos claros por um instante, desejando ter seu gato de novo em suas mãos. Contudo, saber que o peludinho estava bem e havia sobrevivido já lhe era reconfortante. Soluçou por um momento, sentindo-se culpada pelo incêndio ter acontecido. Tinha certeza que havia desligado os eletrodomésticos antes de ir dormir, assim como o registro de gás na cozinha, mas pelo visto algo havia dado errado. Henrique deveria estar furioso agora que não tinha o próprio quarto para dormir. Ainda assim, ele tinha lhe salvado a vida.
Tentou pensar no que faria quando pudesse respirar adequadamente. Sabia que deveria ligar para o trabalho. Teve vontade de ligar para a própria família, quem sabe ouvir a voz de sua mãe, mas sabia que, no fundo, ela só culparia o ocorrido em suas escolhas pecaminosas por não ter seguido o caminho de deus como ela havia lhe ensinado. Não sabia o que faria caso sua garganta não voltasse logo ao normal, precisava da sua voz para dar aulas, e o que faria sem um empreso em Limoges? Henrique não tinha obrigação nenhuma em lhe ajudar naquela situação. Tentou manter a calma e se sentar na cama enquanto aguardava por algum responsável, visto que os responsáveis pela ambulância já haviam lhe deixado para ser transferida. Queria só beber um pouco de água. Tudo parecia muito frio naquele lugar. Não sabia dizer se era por conta da possível queda de pressão que havia sofrido ou se pelo conjunto de seda e o roupão que ainda estava usando.
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O dia de plantão na emergência para Paul foi bem tranquilo, considerando que Cerise só tinha um grande hospital para onde todos os casos de dores de barriga até graves acidentes eram direcionados. Às vezes a emergência era um pequeno inferno com gripes, crises alérgicas e dedos presos nas portas, mas na maioria dos casos, dava para relaxar um bom tempo ao longo das vinte e quatro horas de plantão. Naquele início de plantão, inclusive, numa manhã ordinária, ele até teve tempo de pegar alguns dos livros de fisioterapia e adiantar algumas anotações para um artigo que seria conveniente para nota de uma matéria e talvez publicação futura.
Mas a sua concentração não durou muito quando ouviu o chamado da emergência para atender uma vítima de incêndio que estava chegando ao hospital. Agora, aquela era uma coisa bem incomum numa cidade pequena como Cerise, ter acidentes muito graves ou incêndios. O máximo que ele tinha visto de incêndio eram pessoas que deixavam a comida queimar até acionar o corpo de bombeiros.
Paul deixou os livros e anotações de volta no seu armário no vestiário e foi prestar assistência. A vítima tinha chegado quase inconsciente e foi atendida pelo clínico que também estava de plantão. Paul se aproximou para auxiliá-lo no atendimento e ouvir as instruções, mas o máximo que tinha visto da jovem mulher de longos cabelos castanhos era que ela estava com o rosto sujo de cinzas e não tinha uma queimadura sequer. Bom, não era muito para uma vítima de incêndio de verdade, mas significava que teria menos trabalho. Não era difícil perceber que ela tinha inalado muita fumaça, então o clínico de plantão pediu os exames de rotina para garantir que ela não teria complicações respiratórias. A coisa mais interessante da jovem, talvez, foi o homem que a acompanhou e estava preenchendo a ficha com as informações pessoais dela - as quais ele não parecia saber.
Paul voltou a atenção para a paciente quando o clínico lhe instruiu a colocar o soro e a medicação, enquanto ele atendia o próximo paciente e esperavam os resultados dos exames gerais. Ele se aproximou para poder inserir o cateter para o soro, e só quando furou o braço da paciente, foi que ela teve alguma reação pronta para a dor.
- Está acordada? Pode me ouvir? - ele perguntou, enquanto colocava o esparadrapo na agulha e conferia o soro e a medicação.
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Estava desconfortável ao ser atendida pelo médico de plantão. Preferia que fosse uma mulher para que pudesse se sentir mais confortável, mas não negar que era agradável ter alguém que pudesse assegurar que ficaria bem. Ficou um pouco mais tranquila ao tentar se concentrar na própria respiração quando se deu conta de que alguém estava perfurando seu braço. Moveu-se em reflexo, a adrenalina subindo para cabeça ao tentar se sentar naquela cama, movendo o braço até que a sensação da agulha sendo movida em seu braço por sua ação lhe fez gritar de dor, o corpo tremendo com a sensação desagradável da perfuração.
- A-Ah... t-tira! - olhou com o olhar de súplica para a pessoa mais próxima, forçando a própria garganta para tentar falar, a sensação de dor e queimação lhe incomodando novamente pela sequência de tosses que se seguiu. Não conseguia sequer olhar para o próprio braço furado pela agulha do cateter, o corpo tremendo pelo medo de se mover rápido de novo e acabar sentindo a mesma dor de segundos atrás.
Não queria ficar com aquela coisa em seu braço e ainda estava incomodada com a sensação de dor em suas cordas vocais. Os olhos não demoraram a ficar marejados novamente. Olhou para os lados como se procurasse por algum conhecido. Talvez Henrique não estivesse tão bravo com sua figura e aceitasse ficar ali com ela. Não queria acreditar que estava sozinha naquela hospital. Teve vontade de telefonar para a diretora ou para alguma de suas colegas de trabalho, mas imaginou o quão vergonhoso e inapropriado aquilo poderia ser.
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Paul mal teve tempo de inserir o catéter para o soro, quando a paciente se revirou na cama para impedir que ele terminasse o trabalho. Esperava que ela estivesse mais grogue da medicação e dos efeitos da fumaça do incêndio, mas pelo visto a mera sensação da agulha despertou o pouco de energia que ela tinha.
- Ou, calma aí, moça, Srta. Florence, não é? Pode me ouvir? - Paul tentou conversar com ela, num tom mais suave para que ela não continuasse se debatendo, além de tentar falar e machucar mais a garganta, cujo estado ainda não tinham certeza, já que precisavam esperar resultados de alguns exames. De todo modo, como tinha inserido a agulha, era uma péssima ideia que ela ficasse consciente do braço e continuasse se movendo, aí sim ela sentiria mais dores. - Não se preocupe, está tudo bem, você está no hospital geral de Cerise, eu sou o enfermeiro Walker. Estarei aqui para o que precisar, até se sentir melhor. Você precisa de alguma coisa?
Paul manteve um pouco de firmeza no braço dela, mas sem apertar demais para que ela não sentisse incômodo com a pressão, só precisava impedir que ela se movesse e sentisse a agulha mexendo dentro do braço, o que seria ruim para ela, já que se a agulha saísse do lugar, além de sentir dor de verdade, podia machucar os vasos frágeis. Ao menos ele tinha muita experiência na medida certa de pressionar os músculos alheios e saber como causar relaxamento ao invés de dor.
- O seu namorado está terminando de preencher a ficha com as suas informações, ele deve vir lhe ver logo. Imagino que esteja com dor na garganta, a senhorita aceita água? - ele até podia ter ido buscar logo o copo de água, mas manteve a mão sobre o braço dela, num toque mais suave, como se estivesse mais lhe dando algum alento do que, de fato, impedindo que ela percebesse a agulha na veia.
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Sentiu o arrepio atravessar seu corpo com o toque mais seguro em seu braço e as palavras do enfermeiro. Ergueu o olhar para observar melhor o rapaz, piscando algumas vezes, apreensiva por não conseguir enxergar com exatidão pela falta do par de óculos. Ainda assim, conseguia reconhecer o cabelo vermelho e os fios claro do sujeito. Ficou com o braço ainda tenso, mas não ousou se mover e terminar piorando a sensação invasiva da agulha em seu braço.
Ouviu o aviso sobre seu "namorado" e baixou o olhar de novo, sentindo as lágrimas que haviam se formado em seus olhos começarem a cair, lavando seu rosto. Não estava triste por Henrique não ser seu namorado, nem por não ter um namorado. Estava triste porque tinha certeza que havia sido sua culpa que o incêndio havia ocorrido na casa onde vivia com o português. Henrique não deveria sequer aparecer ali, deveria estar furioso com ela, apesar de ter salvo sua vida. Queria ao menos conseguir vocalizar e pedir perdão a ele por conta de sua incapacidade em cuidar de ambos.
Não se moveu, buscando evitar dar trabalho para o enfermeiro que parecia gentil e preocupado com seu bem estar. Concordou com um aceno positivo de sua cabeça sobre beber água, estava com sede de fato. Usou a mão livre para cobrir o próprio rosto, tentando ignorar o desconforto que era estar naquela maca, com frio e uma agulha enfiada em seu braço. Esperava que o enfermeiro pudesse ficar mais tempo, pelo menos prestar atenção ao toque dele era mais agradável que ficar sozinha ali, imaginando o que faria agora que sua residência havia pegado fogo.
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Ao menos a mulher não voltou a falar, o que era um ponto positivo para quem devia estar com a garganta machucada por causa da fumaça inalada no incêndio. Ela só parecia muito assustada e Paul estava acostumado com aquele tipo de reação, considerando o tanto de pacientes que atendia na emergência, desde os mais calmos aos mais exaltados e assustados. Quando ela concordou com um aceno de cabeça sobre a água, ele devolveu com um aceno em concordância também, mas para pegar a água, teria que se afastar e soltar o braço dela.
- Eu vou buscar pra você, mas precisa ficar parada para não causar mais desconforto, tudo bem? - ele respondeu, num tom de voz mais tranquilo para tentar passar mais segurança e conforto para a paciente também. Já era uma vitória que ela não estivesse incomodada com a cicatriz no seu rosto, o que acontecia com frequência, ou talvez ela nem estivesse enxergando direito.
Depois da concordância dela, ele se afastou para pegar a água e voltar ao lado da cama. Deixou a água de lado para ajudá-la a erguer um pouco o corpo e depois ajudar a beber a água sem derramar, o que fez com a mesma precisão e cuidado de quando estava cuidando para que ela não movesse o braço com a agulha.
- Com cuidado, agora, não precisa se forçar, mas a água natural vai amenizar qualquer desconforto na sua garganta. - ele avisou, ajudando-a a se deitar de novo depois de beber alguns goles de água.
Ele continuou auxiliando-a depois de beber a água e em alguns minutos enquanto ela se fazia tão confortável quanto possível na maca, o homem que a tinha acompanhado apareceu, com um celular em mãos, alguns poucos pertences pessoais e uma camisa social com os primeiros botões abertos e as mangas um pouco arregaçadas que mostraram uma tatuagem complexa que facilmente chamou a atenção de Paul. Aquele era um casal bem incomum.
- Magali? Está acordada? Consegue falar? - Henrique perguntou à companheira de casa, ajustando o óculos no rosto depois de colocar o celular no bolso.
- O senhor deve ser o parceiro, eu sou o enfermeiro Walker, estou responsável pelos cuidados dela agora. - Paul se apresentou, e o homem o encarou de volta com uma expressão contorcida numa careta.
- Eu não sou parceiro nada dela. Só dividimos a casa, somos amigos. - ele esclareceu, ao que Paul só arqueou as sobrancelhas.
- Ah, desculpe a confusão. - respondeu Paul, sem se sentir culpado de fato, na verdade, estava mais curioso com as tatuagens.
- Como ela está? - Henrique voltou a perguntar, agora ao enfermeiro, que devia conseguir lhe dar uma resposta melhor do que Magali.
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Ainda com a mão sobre os olhos para esconder as lágrimas, concordou com o enfermeiro sobre ele se afastar para buscar água. Sabia que ele teria que ir cuidar de outros pacientes também mais cedo ou mais tarde, então não fazia sentido esperar que ele lhe desse atenção o tempo todo ali. Agradeceu mentalmente quando ele retornou e lhe ajudou a se sentar. Gemeu baixo de dor com o movimento ao sentir a agulha de novo em seu braço. Virou o rosto, o nariz já avermelhado pelo choro. Tomou a água com pequenos goles, suspirando aliviada quando o copo esvaziou e podia sentir a queimação em sua garganta diminuir o bastante para que conseguisse engolir a própria saliva sem sentir muito incômodo.
Concordou com um aceno de cabeça assim que o enfermeiro lhe ajudou a se deitar e tentou não virar o rosto para não ver a agulha que ainda estava em seu braço. Voltou a atenção para o rapaz, estendendo a mão do braço útil para poder pedir a ele que lhe conseguisse algum cobertor, considerando que não sairia logo dali. Foi então que Henrique adentrou na sala, chamando-lhe pelo nome. Automaticamente, sentiu os olhos enchendo de lágrimas de novo, imaginando que o homem iria finalmente brigar com sua pessoa pelo incêndio ocorrido.
Sequer prestou atenção ao que os dois conversavam, notando que o amigo havia guardado o celular. Como ele tinha recuperado o próprio celular? Se recordava que os bombeiros haviam chegado rápido e que tinha visto seu gatinho com Henrique antes de chegar ali no Hospital Geral de Cerise. Cobriu os olhos com a mão que conseguia mover de novo, tentando esconder o choro inutilmente, pois os soluços lhe denunciavam.
- Descul... pa... Henri... que... Desc... ulpa... Des... culpa... - tentou falar entre os soluços, o esforço fazendo com que o desconforto voltasse a sua garganta. Não fazia ideia do que iria fazer dali em diante. Talvez Henrique finalmente desistisse da ideia de ser seu colega de aluguel e decidisse que era melhor morar sozinho. Talvez conseguisse uma vaga no dormitório de funcionários de Limoges, mas não sabia por qual burocracia precisaria passar para conseguir um quarto. Talvez tivesse problemas no trabalho já que estava sem sequer conseguir falar, como iria conseguir dar aulas?
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- Ela inalou muita fumaça e isso pode danificar garganta e cordas vocais. O médico já pediu uns exames de rotina para confirmar se houve algum dano mais grave aos pulmões. Mas ela está consciente, é um bom sinal. - Paul explicou o estado de Magali a Henrique. - Por enquanto, precisa receber medicação, se manter hidratada e evitar falar muito.
- Certo, não parece difícil. - Henrique concordou, colocando uma das mãos dentro do bolso e procurando o celular de novo. - Quando ela vai receber alta?
- Vamos esperar os resultados dos exames, dependendo disso, talvez precise ficar em observação durante a noite. Caso contrário, ela deve receber alta até o fim do dia. - explicou o enfermeiro, desviando de novo o olhar de Henrique para as tatuagens e depois para Magali, e foi bem em tempo de ouvir o som baixo do choro, seguido do movimento dela e a tentativa quase desesperada de se desculpar com o suposto colega de quarto.
Paul só olhou da mulher entregue ao choro para o homem tatuado que suspirou resignado em resposta, apoiando uma mão na cintura e ignorando o celular por enquanto.
- Por que está se desculpando? Não colocou fogo na casa de propósito. E ainda nem sabemos o que foi. - ele respondeu, e com aquela resposta, até Paul se divertiu internamente com a completa insensibilidade. - O chefe dos bombeiros disse que vai demorar uns dias para enviar o relatório. Eu já falei com a seguradora, mas temos que esperar a reforma, então eu vou procurar uma pousada pra ficarmos no meio tempo, a seguradora cobre parte do valor. Na academia que você ensina tem dormitório pra os professores, não é? Você prefere ficar lá? Quer que eu ligue pra alguém?
Não ajudava muito no estado da paciente que o amigo ficasse fazendo um monte de perguntas por cima uma da outra, especialmente porque ela devia evitar falar, então Paul achou melhor intervir, ficando de pé ao lado de Henrique.
- Posso sugerir que espere até um pouco mais tarde para resolverem os assuntos técnicos? Não é bom pra paciente ficar falando agora, pro conta da garganta. Também não é muito bom causar estresse, pode afetar o tempo de recuperação. - disse Paul, recebendo uma expressão torta de Henrique que ajustou o óculos no rosto.
- Eu não estou estressando ela. - ele retrucou, mas Paul só retribuiu com um sorriso de lábios fechados. Precisava mesmo discordar daquilo em voz alta?
- Certo. Eu preciso atender outros pacientes e pegar os resultados dos exames, se precisar de alguma coisa, me chame. - ele informou ao homem, voltando-se então para a paciente em seguida. - E a senhorita, evite falar muito agora, certo? Se sentir muito desconforto na garganta, beba um pouco de água. Eu volto para checar a sua recuperação.
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A vontade de chorar só aumentou quando Henrique perguntou porque estava se desculpando. Imaginava que ele ainda quisesse que admitisse o que havia feito de tão grave. Parou de chorar por um instante quando ele falou sobre procurar uma pousada para que "ficassem". Olhou para o homem com certa surpresa, intrigada com o fato dele ter considerado que poderiam continuar morando juntos. Meneou a cabeça de forma negativa quase que imediatamente quando ele perguntou se preferia ficar em Limoges. Na verdade, a única professora com quem tinha alguma proximidade era Katrina, mas ela tinha um filho adolescente. Apesar do comportamento irritadiço, já havia se acostumado a viver dividindo o espaço comum com o português.
Observou a interação entre Henrique e o rapaz que estava cuidando de sua pessoa e ficou apreensiva com o fato de saber que Henrique era do tipo rápido em respostas secas e o rapaz, até o presente momento, parecia gentil e atencioso para merecer ter de lidar com aquele tipo de tratamento. Sorriu mais agradecida pela atenção do enfermeiro, concordando com um aceno positivo da cabeça para o sujeito, imaginando que já havia dado trabalho demais para ele naquela noite com sua hipersensibilidade.
Voltou a atenção para onde Henrique estava e antes que ele pudesse dar atenção ao celular mais uma vez e acabasse desligando-se do mundo a sua volta - como ele geralmente fazia quando estavam em casa - estendeu a mão, gesticulando com a palma para que ele se aproximasse. Não podia falar muito, não queria desobedecer as ordens do enfermeiro, mas também não queria deixar Henrique ir embora procurar uma pousada sem antes conseguir falar de fato com ele. Esperou que ele chegasse perto para estender a mão e segurá-lo pelo antebraço, notando finalmente que as tatuagens dele estavam à mostra.
- A gente pode... continuar... junto? - perguntou baixo, tentando não esforçar demais a garganta, o olhar esperançoso de que o amigo não decidisse finalmente se livrar de sua pessoa, apesar de que era o que sempre havia imaginado que ele faria dada a oportunidade.
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Paul ainda deu uma boa olhada na dupla inusitada antes de se afastar e deixá-los a sós. Henrique voltou a olhar o celular em busca de informações e pousadas em que se hospedar, mas parecia providência divina que não tivesse muitas boas pousadas com quartos vagos. Ele só olhou torto para o celular ao ver uma pousada em que tinha ficado logo em sua chegada a Cerise que era péssima, em quartos, em internet e até mesmo com o dono destrambelhado.
Só desviou a atenção do celular quando Magali lhe chamou e, se a voz dela já era baixa, ficou ainda mais baixa ao perguntar se eles poderiam continuar juntos. Já era estranho ouvir aquela pergunta dela, porque fazia parecer que eram mesmo um casal, mas dado o estado da mulher, ele só rodou os olhos e ajustou o óculos no rosto.
- É claro, como acha que eu vou pagar o aluguel da casa sozinho? E pare de falar, não ouviu o que o enfermeiro disse? Se sair hoje ou amanhã, é melhor já termos onde ficar. Vou achar uma pousada pra reservar. - Henrique disse, puxando um banco para se sentar ao lado da maca e continuar procurando as informações no celular, resignando-se a ter que ligar para os lugares quando não havia informação de disponibilidade na internet. Ainda pegou água para Magali um par de vezes e ela seguiu mais quieta pelos instantes seguintes, provavelmente pelo efeito do medicamento também.
Um par de horas tinha se passado e Magli já tinha dormido com o efeito da medicação. Henrique acabou se rendendo a reservar o quarto na L'eau Claire que era o lugar com mais disponibilidade e o melhor preço, para ficarem até o fim da semana com possibilidade de estender o período, quando o enfermeiro voltou com o resultado dos exames. Antes dos resultados, ele tinha passado ali só mais uma vez para monitorar o estado da mulher.
- Os resultados do exame chegaram, não houve danos graves às vias respiratórias, mas ainda vamos deixá-la em observação, porque algumas substâncias de fumaça de incêndio têm um efeito mais demorado. - Paul explicou, para Henrique enquanto Magali ainda estava adormecida. - O médico deve voltar para receitar medicamento para os próximos dias. O senhor também estava no incêndio, não era?
- Sim, mas eu estou bem.
- Mesmo assim, já que está aqui, é melhor fazer os exames. Para garantir. - recomendou o enfermeiro, colocando os resultados do exame junto do prontuário de Magali.
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Ficou mais tranquila após as palavras de Henrique, afirmando que poderiam continuar morando juntos e que ainda conseguiria um lugar para ficarem quando saísse do hospital. Mais aliviada e com o efeito do medicamento fazendo efeito, acabou adormecendo, o corpo já estava cansado do dia de trabalho anterior e de todo o estresse por conta do incêndio. Dormiu por algumas horas pelo efeito do medicamento, uma marca avermelhada se formando no local em que a agulha havia perfurado devido ao seu movimento desnecessário quando havia se assustado. Despertou algumas vezes com a sensação da boca seca, agradecendo mentalmente a gentileza de Henrique por ainda estar ali.
No último despertar, acabou sentada na maca, procurando Henrique com um olhar preguiçoso, sem se dar conta de que a agulha ainda estava em seu braço ao erguer a mão para coçar os olhos. Gemeu baixo com a dor e o desconforto de ainda estar com aquela agulha em seu braço, escolhendo deixá-lo esticado para que a mancha que, de certo, ficaria roxa depois, aumentasse. Levou a mão livre então até os próprios lábios, buscando forças para descer da maca, os músculos cansados. Notou que Henrique parecia ter cochilado na cadeira enquanto estavam ali no hospital, considerando que ele também deveria estar exausto. Observou melhor as tatuagens a mostra do homem e respirou fundo, não tão mais incomodada com a aparência delas no corpo dele.
Sem desejar incomodá-lo em seu descanso, colocou os pés descalços no chão, incomodada pelo frio daquele piso enquanto, cuidadosamente, puxava o carrinho com o soro que parecia ter sido trocado em algum momento da madrugada. Saiu do quarto, observando o movimento no corredor até estreitar os olhos em busca do colorido vermelho do cabelo do enfermeiro que havia lhe atendido. Ele parecia jovem e gentil. Talvez ele pudesse arrumar um cobertor para Henrique enquanto ele estava aguardando que fosse liberada dali. E também precisava de indicações sobre onde ficava o banheiro, pois muito soro e muita água estava começando a lhe deixar desconfortável.
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Fora o caso do suposto incêndio, não aconteceu nada de muito interessante na emergência do hospital geral naquele plantão. Paul teve tempo suficiente para fazer ronda por todos os pacientes com folga, dando assistência quando necessário, e até falou com um dos médicos para atender o tal Henrique que também tinha inalado fumaça do incêndio e conferir se os exames estavam ok. Ele também só ia ficar com a garganta irritada pelos próximos dias, mas enquanto esperava pelos resultados do exame, acabou dormindo sentado na cadeira na companhia da colega de casa.
O dia se estendeu entediante, e ele conseguiu dar atenção aos estudos e aos artigos. Ainda trocou mensagens no começo da noite com o irmão que estava de folga do hospital naquele sábado e confirmou alguns pacientes extras para a semana com alguns tratamentos específicos de fisioterapia nos seus horários vagos. A noite já ia alta quando ele finalizou o artigo para revisão e saiu para mais uma ronda pelos corredores do hospital, na emergência.
Paul conseguiu passar por três pacientes antes de encontrar no corredor com a paciente do incêndio, a tal Magali Florence, que estava tão pálida e com o rosto tão abatido que parecia estar com um pé na cova. Ele manteve o pensamento para si mesmo ao se aproximar para dar assistência à jovem.
- Está se sentindo melhor, Srta. Florence? Não devia estar fora da cama sozinha, seu amigo não podia lhe ajudar? - ele perguntou, aproximando-se para ajudar a paciente. - Os resultados dos exames dos dois foram bons, então o médico deve passar para dar alta à senhorita logo cedo pela manhã.
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