09-27-2021, 03:30 PM
Pietro
Já fazia uma semana desde o acidente inesperado na funerária e Pietro estava se sentindo muito melhor até mesmo com as marcas no pescoço que tinham suavizado até sumir. Annica tinha passado aqueles dias com ele em sua casa, lhe ajudando a se cuidar, assim como a cuidar da casa, ele até tinha pensado em vender a casa e continuar num apartamento menor, já que agora estava sozinho, mas a sensação de ficar na casa em que tinha crescido com a companhia de Annica era tão confortável que estava repensando aquela ideia. Claro que havia uma série de implicações, desde o fato de que eles só tinham começado a namorar recentemente, até a ideia de realmente compartilhar uma casa com a mulher que tinha sido tão atenciosa, por isso, quando uma semana se passou e ele já estava bem o suficiente para voltar a ficar sozinho, ficou até animado quando Annica insistiu em passar mais uma semana lá para ter certeza de que ele não iria exagerar.
Pietro seguiu naquele sábado de manhã até Limoges-Collet, a Academia feminina era aberta para visitação e desse jeito ele poderia ajudar Annica com algumas malas extras de roupas e itens pessoais para levar de volta para a sua casa e passar mais uma semana. Mas estava cada vez mais certo de que queria, pelo menos, sugerir que num futuro, mesmo que distante, os dois pudessem continuar compartilhando a experiência de morar juntos.
Ele chegou aos terrenos da academia cheia de visitantes - a maioria deles eram mulheres - e não se surpreendeu com os olhares tortos em sua direção por causa da expressão fechada, mas ainda mandou uma mensagem para Annica avisando que estava lá. Não ajudava muito ainda ter algumas marcas levemente vermelhas no pescoço, embora houvesse também um contraste com a camisa básica com uma fileira de patinhos seguindo uma pata mãe. Pietro seguiu até um banco na sombra e resolveu sentar, tentar ser mais discreto e só esperar que Annica visse a sua mensagem.
Mas mesmo que estivesse se esforçando para não chamar atenção, ele quase se assustou quando uma mulher se sentou bem ao seu lado, cruzando as pernas vestidas numa calça branca justa, os pés em saltos muito altos, e uma camisa preta folgada que deixava um dos ombros a mostra. Ela tinha a pele muito clara, só não tanto quanto Annica, e os cabelos curtos pretos em ondas leves caindo pelos olhos azuis. Pietro quase se sentou um pouco mais para o lado para deixá-la mais à vontade, mas a jovem o encarou de lado e se inclinou de maneira bem insinuosa em sua direção.
- Por que está se afastando? Eu não mordo, sabia? Só se você quiser. - a jovem falou, com um sorriso nos lábios rosados que só deixou Pietro um tanto desconsertado. - Vi que estava um pouco fora de lugar, por isso resolvi vir lhe fazer companhia, está esperando alguém ou queria fazer um tour pela academia feminina? Se estiver procurando alguém com quem sair, estou disponível, monsieur.
Pietro quase se inclinou mais para longe, como se estivesse prestes a ser devorado, numa sensação estranha. Todas as jovens da academia agiam daquele jeito?
- Estou… esperando alguém. - foi o que ele conseguiu responder, notando a mulher se inclinando um pouco mais.
- Podemos esperar juntos então.
Annica
A última semana tinha começado cheia de emoções fortes com um susto em relação a saúde do namorado devido a um ataque na funerária por um estranho, ou “não tão estranho” segundo o que Pietro estava pensando. Muito se conversou sobre o assunto, e uma semana se passou muito rápido com a albina na casa do namorado, dividindo sua rotina entre seus trabalhos e os cuidados com o moreno mais velho. Era como sua mãe tinha apontado, um “grande avanço” em sua forma de se relacionar, para quem tinha se mantido por muitos anos acreditando que tinha apenas interesse por mulheres, sem se envolver profundamente com ninguém de qualquer sexo. Estar em um relacionamento sério e estável com um homem era um passo enorme em sua vida, e até estava se saindo bem, afinal com a mente ocupada em tomar conta da saúde de Pietro sobrava pouco espaço para alimentar inseguranças e teorias da conspiração.
No entanto, seu pai já tinha lhe perguntado se tinha tratado sobre todos os detalhes com o novo namorado, e a verdade é que tinham um relacionamento recente, e apesar das emoções fortes, ainda tinham muita coisa que precisavam falar, principalmente da parte da albina. Talvez por isso também, que Annica tivesse decidido estender sua estadia na casa do namorado, para além de ficar de olho no moreno pra ele não exagerar, acreditava que agora com a situação mais calma, podia finalmente entrar no assunto.
Naquele sábado podia aproveitar que o namorado podia entrar na academia feminina pra lhe ajudar, não que de fato precisasse de alguém carregando suas coisas, mas sabia que ele ficava feliz em se sentir útil e ajudar ela nessas atividades diárias. Naquele dia estava usando um vestido claro estampado de tecido fino, um cinto marcando a cintura fina, meia calça preta, e um cardigã também de tecido fino amarelo, para cobrir os braços e evitar de tomar sol desnecessariamente. Viu a mensagem de Pietro e a respondeu indicando que o encontraria em breve, adicionou que estava de amarelo e ia ser fácil de ver de longe.
Caminhou pelos corredores cumprimentando outras alunas, puxando uma mala pequena de rodinhas sem muito trabalho, e quando estava já fora dos prédios, não era difícil de achar o namorado, afinal, mesmo que ele quisesse passar despercebido ele não era nem um pouco discreto. Mas qual foi a surpresa da albina quando notou quem estava sentada bem ao lado do moreno, sorriu porque sabendo como Pietro era tímido, uma pessoa como Hanna certamente devia deixá-lo ainda mais sem jeito.
- Hora, hora Pietro, eu deixo você esperando só uns minutinhos e já está fazendo novas amizades? - a albina falou num falso tom acusatório, sorrindo em seguida, e encarando a amiga: - Olá Hanna, e então, ele não é exatamente do jeito que eu descrevi? Lindo.
Hanna/Pietro
Pietro franziu mais o cenho com a aproximação da jovem ao seu lado, e aquilo não ficava nada bom para qualquer pessoa que estivesse vendo de fora, porque no mínimo ele pareceria estar sendo agressivo com a jovem, quando só estava muito desconfortável.
- Não precisa. - Pietro respondeu, e mesmo a expressão fechada não fez com que a jovem se afastasse, na verdade, ela sorriu ainda mais e se aproximou um pouco, o que fez Pietro sentir um calafrio estranho de desconforto.
- Você tem essa cara assustadora aí, mas na verdade, não faz mal a uma mosca, não é? - ela sorriu largamente, inclinando o ombro até tocar o de Pietro, que engoliu em seco. - Eu não sou boa em ler pessoas em geral, mas de gente ruim, eu entendo bem, hm.
- Eu não sou ruim. E é a minha cara de sempre... - respondeu Pietro, afastando-se do toque dela e percebeu que o assento do banco estava até acabando.
- E mesmo com essa cara fechada, você é muito bonito de perto, sabia? - ela sorriu mais largo, e daquela vez, não foi só o desconforto da proximidade, mas Pietro sentiu o corpo todo esquentar, principalmente as maçãs do rosto e as orelhas. - Oh...! Quem diria...! Você fica muito fofo constrangido, sabia?!
O elogio da jovem intensificou o vermelho do rosto e sumiu com as palavras que ele queria usar para protestar. Mas uma onda de alívio perpassou o corpo quando ouviu a voz conhecida da namorada e ergueu o olhar na direção dela, levantando-se quase de um pulo para ficar ao lado de Annica, um sorriso discreto quase inconsciente surgindo ao observar a namorada nas roupas casuais.
- Não, eu não estav- - ele nem teve tempo de negar a tal nova amizade, quando Annica falou com a jovem que estivera sentada e reforçou como ele era "lindo". A única reação de Pietro foi baixar o rosto, e se as orelhas já estavam vermelhas, até a nuca esquentou com o elogio direto da namorada.
- Bem mais quando não está com a expressão fechada. - Hanna concordou com a amiga. - Hm, quem diria, Anni? Eu realmente achei que se fosse arrumar um namorado, ele seria mais... feminino. Não um homem maravilhoso em todos os sentidos. - já tinha ficado bem óbvio que ele não sabia lidar com os elogios, e se fosse possível, Pietro teria tentado se esconder atrás de Annica, ou em algum buraco.
Annica
A albina não podia negar que se divertia em provocar os outros, era um lado seu não muito bonito, mas não devia ser criminoso poder tirar umas expressões divertidas dos outros, principalmente quando tinha um namorado que ao menor sinal de elogio mudava drasticamente da cara de “mafioso” para “fofo envergonhado”. E bem sabia que aquele ponto tinha em comum com a morena mais nova, no entanto, também sabia que nesse jogo de: “quem provoca quem”, Hanna tinha bem mais munição para se divertir que a própria albina.
Annica sorriu mantendo o ar divertido e virou o rosto na direção de Pietro, encarando-o longamento, e podendo perceber todo o constrangimento do namorado ao ser elogiado tão diretamente. A albina prontamente levou a mão até o rosto do moreno mais alto, passando as pontas dos dedinhos pela lateral da face alheia até o queixo de Pietro, em um gesto delicado e feminino, notoriamente fazendo charminho.
-- nunca é tarde pra se descobrir Bi, não é mesmo? - Annica sorriu convencida na direção do namorado, claro que aquele não era um ponto que tinham conversado abertamente, porém imaginava que não devia ter qualquer problema. Depois levou a mão até o ombro do mesmo repousando a ali em um carinho suave, e voltou a atenção para Hanna que ainda estava sentada:
-- Esse mocinho me deu um susto quando nos encontramos pela primeira vez, mas a cara “brava” é tudo propaganda enganosa, ele é um amorzinho completo. Só é teimoso, mas eu também sou, então nem posso reclamar.
Annica riu descontraída, parecendo muito a vontade de tratar do assunto “relacionamento”. E nem se estendeu demais de como se conheceram, até porque Hanna já conhecia aquela história toda, mas era sempre bom frisar na frente do namorado que ele era um “amorzinho de pessoa” apenas para assistir os 50 tons de vermelho vergonha que ele conseguia chegar.
Hanna/Pietro
Pietro queria ter perguntado a Annica se já estava tudo pronto para saírem de Limoges-Collet, mas todas as perguntas sensatas sumiram de sua mente quando os elogios da dona dos cabelos pretos continuaram e foram seguidos ainda dos de Annica, mais ainda quando a namorada se aproximou para tocar-lhe o rosto diretamente com uma declaração que passou completamente batida por um Pietro extremamente constrangido.
Bom, ao menos ela não tinha reforçado nenhum elogio. E Pietro conseguiu respirar mais aliviado quando ela se virou para falar com a outra jovem. Só não teve tempo de sentir o rosto esfriar, porque as palavras que seguiram de Annica sobre ele ser um "amorzinho" só pioraram o estado do calor no seu rosto e no resto do corpo, numa reação quase automática, ele virou o rosto para o lado, cobrindo a boca com uma das mãos, que também estava começando a ficar vermelha.
- Ora, ora, eu adoro ser surpreendida, especialmente por propagandas enganosas, hm? - Hanna fez questão de se colocar de pé, levando a mão até a altura do peito de Pietro. Mas não tocou no outro, só insinuou a proximidade do toque e trouxe a mão de volta ao rosto, tocando os lábios sorridentes com a ponta dos dedos ao desviar o olhar da expressão vermelha de Pietro para a descontraída de Annica. - Mas se ele foi capaz de fazer com que você se descobrisse bi, Anni... imagino todas as coisas das quais ele é capaz na cama.
Ela alargou ainda mais o sorriso ao encarar Annica, afinal, as duas tinham se aproximado através de um contato físico muito íntimo. Embora Annica tivesse receio com homens, se ela tinha decidido namorar o rapaz de expressão constrangida, talvez ele tivesse mostrado muitas novidades na cama. Quando Hanna voltou a atenção para Pietro, entretanto, os olhos levemente arregalados do outro denunciavam que ele estava, no mínimo, prestes a desmaiar.
- Você é tão bom assim, Pietro?
Pietro definitivamente iria desmaiar.
Annica
Annica sabia o que viria depois de Hanna se levantar, seria bom se fosse apenas as duas brincando de deixar seu namorado mais e mais constrangido, porém, sabia que logo a própria albina seria atingida no fogo cruzado. E antes mesmo que pudesse se preparar para o que vinha, Hanna já estava perguntando diretamente se ele era bom de cama. Mesmo que sexo fosse um assunto incrivelmente casual para as duas tratarem, aquilo era um universo paralelo em se tratando de Pietro, nem tinham chegado perto de abordar o assunto. E por ser uma pessoa de pele muito branca, qualquer mínima alteração de humor ficava facilmente evidente, num rubor que não lhe era natural alcançando as maçãs do rosto pálido.
- Eu imagino que muitos tipos de coisas também. - Brincou, delatando que nem ela sabia a extensão das habilidades do namorado naquele quesito em específico: - Sendo bem sincera a gente nem teve tempo de se aventurar ainda, aconteceu um monte de coisas seguidas, e ele ainda está se recuperando de uma saída recente do hospital. - Claro que sabia que aquela explicação não ajudaria em nada, e seria zoada do mesmo jeito por ser “lenta” e bem, pra o seu padrão de abordagem até que estava indo devagar, mas tinha seus motivos e travas pessoais pra lidar:
- Mas ainda temos um fim de semana inteiro e o restante da semana de folga pra aproveitar, não é Pietro? - sabia que isso deixaria o namorado perplecto, porque nem ele deveria ter aquelas pretensões, mas já que tinham entrado no assunto, não tinha pra onde fugir, era entrar no meio das provocações e dançar junto.
Pietro
A expressão só de Pietro já tinha denunciado bastante para Hanna que os dois não tinham avançado muito, mas foi uma novidade muito interessante ver como o rosto pálido de Annica se iluminou em muitos tons de vermelho quando ela foi bem direta sobre como Pietro devia ser bom de cama. Era engraçado como a albina ainda estava tentando se manter firme mesmo que estivesse muito constrangida, e daquela vez, Hanna se aproximou de Annica, com quem tinha mais liberdade de se aproximar e tocar também.
- Que pena, espero que tenha se recuperado totalmente então, acho um desperdício que não tenham avançado até esse ponto. - Hanna se aproximou, deslizando a mão pelo braço de Annica até os dedos tocarem na palma da mão da albina e entrelaçar os dedos aos dela, levantando a mão na altura do seu rosto para tocar os nós dos dedos de Annica com os lábios, dessa vez, desviando o olhar de modo insinuante para Pietro. - Se não passarem dessa parte, como é que vou poder me convidar para uma sessão a três? Vai ser divertido.
Pietro podia estar vermelho em muitos níveis, mas o vermelho de constrangimento tomou uma forma diferente quando a tal Hanna insinuou muito mais intimidade com Annica e com ele mesmo do que estava esperando. Mais ainda porque descobriu não gostar muito daquela invasão, menos ainda do rosto embaraçado de Annica que demonstrava pelo menos um pequeno nível de desconforto - pelo menos não gostava do fato de que Hanna tinha provocado aquilo.
Sem pensar muito, ele estendeu a mão na direção de Annica e segurou a mão livre dela com a sua, puxando-a de modo cuidadoso, mas ainda assim, firme, para se colocar entre as duas mulheres e encarar Hanna com a mesma expressão costumeiramente fechada de antes.
- Acho que é hora de ir embora. - ele anunciou para Annica, esperando alguma confirmação só para poder se livrar da amiga muito insinuante que ainda lhe lançou um sorriso muito largo e aparentemente entretido com toda a situação.
- Hm, não quer perder mais tempo, não é? Gostei muito dele, Anni.
Annica
E claro que sua tentativa de se manter na troca de provocações não foi totalmente convincente para Hanna, que logo tinha se aproximado e tocado em sua mão, jogando charme como a morena bem sabia fazer. Obviamente apenas o jeito insinuante da mais nova já era o suficiente para lhe tirar um par de reações, quem dirá quando tinha dado munição para que ela usasse a situação ao seu favor. Não podia nem julgar Hanna porque tinha o mesmo tipo de pensamento e acabaria fazendo algo parecido no lugar dela.
Annica não era uma pessoa de ciúmes intensos, em verdade não tinha problema em experimentar coisas que envolvessem outras mulheres, suas travas pessoais estavam todas em lidar e se relacionar com homens. Porém, mesmo que tivesse uma mente bem aberta, a ideia de fazer uma aventura a três com Pietro lhe arrancou um arquear de sobrancelhas, com ares de surpresa - embora houvesse surpresa zero em ser justo Hanna a propor aquilo - a albina sorriu tentando manter a compostura, mas era fácil de notar que ela tinha ficado levemente constrangida com a ideia. Não que fosse uma proposta ruim, mas era meio “rápido demais” pra quem ainda estava se acostumando a própria atração por corpos masculinos.
A albina abriu a boca pra responder a provocação e manter o joguete, mas foi em tempo de Pietro tomar-lhe a mão livre e se por entre elas duas, Annica encarou o namorado demonstrando leve surpresa com aquele lado protetor e “enciumado” (?). E ainda piscou um par de vezes com a forma como ele disse que era hora de ir embora:
-- Não tem como não gostar dele! - a albina sorriu descontraída e encarou a amiga, aproveitando que estavam todos próximos e se inclinou levemente, puxando dessa vez a mão de Hanna para depositar um beijo amigável no topo da mesma, já que ela não tinha largado sua mão: -- Depois vamos ter muito o que conversar, mas hoje e o resto da semana meu tempo é do Pietro.
Depois apertou suavemente a mão de Pietro na sua, chamando-lhe a atenção encarando o mais alto com um sorriso radiante de animação: - Podemos ir sim!
Pietro
Hanna não teve muita alternativa senão dar espaço para os dois, não que a expressão supostamente ameaçadora de Pietro fosse eficaz em lhe distanciar, mas ela aceitou o beijo de Annica e deixou que ela se livrasse de suas investidas - por enquanto.
- Me lembre de marcarmos algo para sair um dia desses, Anni. - Hanna indicou, antes que a albina de fato se afastasse. Pietro tinha se colocado entre as duas com mais veemência daquela vez. - Não precisa ficar com a guarda tão alta, Pietro. Eu não mordo. Só se pedir.
Se possível, a testa de Pietro ficou ainda mais franzida em desagrado com a insinuação de Hanna, e com os dedos entrelaçados aos de Annica, eles finalmente seguiram para fora dos terrenos de Limoges-Collet para pegar um táxi e voltar até a sua casa. Ele ajudou a namorada com as poucas malas que ela tinha para passar aquela semana a mais em sua casa e em pouco mais de dez minutos, já estavam parando diante da entrada da sua casa.
- Desculpe por interromper… a conversa com a sua amiga. - Pietro pediu, quando entraram em casa, embora ele não tivesse a menor intenção de realmente se desculpar em querer afastar a namorada daquelas insinuações inapropriadas. Bom, pelo menos enquanto eles não tinham nem metade daquela intimidade, que ficou bem evidente pelas palavras e gestos entre as duas.
Annica
Os comentários de Hanna deixavam bem claro para albina que teriam mais daquela dinâmica, e que com certeza Pietro ficaria mais enciumado, o que era engraçado de se lidar, porque não tinha nem competição ali pra se ter ciúmes. Mas conseguia entender parte do sentimento do namorado, afinal ainda tinham muitas coisas pra conversar e outras para se aventurar, e agora que finalmente pareciam ter uns 20 centavos de paz e tranquilidade, sem alguma emergência acontecendo no meio do caminho.
Ao chegarem na casa do moreno mais alto, ouviu o pedido de desculpas, que não parecia de fato um sinal de arrependimento, e apenas esperou que o mais velho fechasse a porta para de fato estarem a sós naquela casa. Annica se aproximou do mais alto e reduzindo a distância levando as duas mãos até os ombros do namorado, deslizando a ponta dos dedos ali em um carinho: -- pra se desculpar você precisa pelo menos parecer arrependido, pelo menos um pouquinho. -- a albina comentou com um sorriso no rosto, sem parecer brava com a situação, e desenhou caminho pelos ombros até o pescoço de Pietro, seguido para o rosto, fazendo um carinho com os polegares enquanto o observava longamente:
-- Você não precisa ficar chateado Pietro, é você que é meu namorado, e agora eu sou toda sua e sem ninguém pra atrapalhar.
Annica encostou a ponta do nariz em uma carícia suave mantendo o sorriso divertido de quem se entretinha tirando reações do namorado, em seguida beijou-lhe os lábios de forma igualmente carinhosa, sorrindo contra os lábios dele. Afinal apreciava aquela dinâmica de ter um namorado e poder encher ele de carinhos, beijos e abraços: -- vai dizer que não está feliz deu estar aqui por mais uns dias? - a albina sussurrou num tom confidente para o mais alto.
Pietro
Depois de fechar a porta, Annica cortou a distância entre os dois e foi fácil para a albina notar que ele não estava realmente com a intenção de se desculpar. Mas como uma criança que tinha sido devidamente repreendida, ele baixou um pouco a cabeça, daquela vez, bem mais sincero em repetir o pedido de desculpas.
- Desculpe. - não pelo que tinha feito com Hanna, mas pela tentativa de se desculpar sem estar arrependido. Ele não ficou com a cabeça baixa muito tempo, logo sentiu o toque em seus ombros, pescoço e até o rosto, os polegares frios da namorada delineando seu rosto, e a definição dela de que era toda dele e não tinha ninguém para atrapalhar lhe causou um novo calor no rosto, as maçãs ficando vermelhas de novo. - Hm.
Ele só se rendeu às carícias da namorada e sentiu o beijo suave e gentil, o corpo todo relaxando ao mesmo tempo que ansiava e aproveitava o toque, e à medida que as carícias permaneceram suaves e ela ainda lhe sussurrou uma pergunta muito pontual sobre estar feliz ou não com a companhia, a resposta deixou os lábios de Pietro sem que ele ao menos percebesse.
- Vou ficar mais feliz quando ficar o resto da vida. - a resposta foi sincera, mas talvez sincera demais até para Pietro, que percebeu as próprias palavras e voltou aos sentidos, arregalando um pouco os olhos e o rosto ficando ainda mais vermelho. Ele desviou a atenção para as malas de Annica, engolindo em seco por um instante. - Eu… vou levar as suas coisas para o quarto.
Annica
Era sempre uma satisfação ver como o namorado a despeito da expressão fechada, ficava terrivelmente envergonhado com as carícias mais suaves que trocavam, a albina sentia o corpo bem leve e já estava suficientemente relaxada na companhia do namorado. E parecia que Pietro também estava bastante à vontade, a ponto das palavras fugirem em confissões que ele talvez não quisesse expor ainda. A albina encarou o outro na curta distância, notando o tom vermelho mais acentuado do que o costumeiro, os olhos arregalados como se ele tivesse tomado ciência das próprias palavras apenas depois de dizer. Annica não teve uma reação imediata além de surpresa porque estavam namorando a pouco tempo, para ouvir uma declaração tão séria, afinal não eram adolescentes apaixonados, eram dois adultos, e aquela confissão certamente lhe pegou desprevenida.
Tanto que a albina não ofereceu nenhuma resistência a ele se afastar e pegar sua mala para levar ao primeiro andar. A declaração do moreno, não somente era um deslize “fofo” dos sentimentos honestos dele, como também lembrava a Annica que ela mesma devia a ele um pouco mais de sinceridade sobre si mesma. Será que ele manteria esse mesmo pensamento depois de lhe conhecer mais profundamente?
Annica caminhou até a cozinha, para tomar um copo de água e acalmar os pensamentos, e organizá-los, afinal, se queria que Pietro lhe aceitasse completamente, era porque gostava dele com mais intensidade do que outras namoradas com quem já tinha se aventurado na academia feminina:
-- Vamos cozinhar o almoço ou vamos pedir comida? -- a albina comentou num tom mais alto, para que o namorado pudesse ouvir de qualquer ponto da casa, enquanto permanecia na cozinha, olhando para o próprio copo de água. Talvez fosse o momento de entrar nas miudezas de sua vida? Não tinha nada de errado em ser quem era, e imaginava que dada a personalidade do outro, não haveria qualquer problema, porém, um vermezinho de insegurança ainda morava no seu pensamento quando se tratava de sua transexualidade.
Pietro
Pietro fugiu da entrada da casa antes de ter qualquer oportunidade de ouvir alguma resposta de Annica, se é que ela tinha tentado. Ainda respirou fundo algumas vezes para retomar o controle dos próprios pensamentos, especialmente porque ele realmente tinha deixado escapar um comentário tão sério. Só podia ser algum efeito colateral de estar muito apaixonado pela namorada e agir como um idiota sem filtros, mesmo que não lembrasse daquilo ter acontecido outras vezes.
Depois de guardar as malas de Annica, ele retornou para a cozinha, num estado de espírito bem mais recomposto. Demorou alguns minutos a mais, mas foi muito mais fácil agir normal quando ela perguntou o que fariam para o almoço.
- Eu posso fazer o almoço, eu não fiz muita coisa enquanto estava me recuperando, então… eu posso fazer isso. - Pietro respondeu, com um sorriso discreto, já se movendo pela cozinha para pegar os ingredientes nos armários e pensar no que preparar. - Você tem alguma preferência? Desculpe, não sei fazer nada muito complicado.
Annica
A albina não ficou tanto tempo sozinha com seus pensamentos na cozinha, logo o outro apareceu no portal com um rosto mais recomposto depois da declaração que tinha dito. Será que deveria lembrá-lo das próprias palavras ou apenas seguir como se não tivesse ouvido? Guardaria aquela declaração honesta pelo menos por agora, queria ter aquela honestidade pra deixar as palavras simplesmente deslizarem pra fora, mas era tão mais difícil para si.
Annica colocou o copo de água na pia e observou o moreno andando pela cozinha, indo até os armários altos e se desculpando por não saber fazer algo “complicado”. A albina sorriu se aproximando do mais velho pelas costas e passando as mãos pela cintura do mesmo e beijando-lhe sobre o ombro de forma carinhosa: -- eu não sei qual seria seu conceito de comida complicada, o que você fizer pra mim está bom. -- e Annica não se afastou aproveitando o pescoço e nuca livres do moreno mais alto, para soprar ali e encostar a ponta do nariz gelado, fazendo graça: -- Você empenhado em cozinhar tudo arrumadinho, e meu único empenho é ficar aqui, pertinho, acho que vou atrapalhar você um pouquinho.
A albina sorriu com ar de quem estava se divertindo com aquela proximidade, e estava buscando ficar mais perto dele do que costumeiramente ficava.
Pietro
Pietro deu de ombros quando parou nos armários para tirar a comida e as panelas, procurando alguma massa que seria mais fácil e rápida de fazer, quando a albina falou que não sabia exatamente o que ele queria dizer com comida complicada. Mas antes de racionalizar a resposta, ele sentiu o toque pela cintura e o beijo breve e agradável sobre o ombro, que lhe fizeram sorrir de modo discreto.
- Eu não faço nada elegante como aquelas comidas de televisão ou de restaurante. Só o que meus avós me ensinaram. Minha mãe também não era muito boa na cozinha e ela e meu pai nunca tiveram muito tempo para preparar comida. - ele respondeu, separando os ingredientes antes de ir até a geladeira, o que foi bem dificultado com os toques de Annica que só fizeram com que um calafrio agradável perpassasse o corpo do pescoço até os pés. - Eu… você gosta de cebolas e cogumelos? Vou fazer uma massa que minha avó fazia…
Ele engoliu em seco, perdendo-se completamente nos itens que precisava para começar a fazer a comida, aproveitando a proximidade de Annica antes de fazer sentido dos itens a sua frente.
Annica
Ouvir um pouco mais de Pietro falando sobre seus pais e sua família que não estavam mais ali lhe deixava com uma sensação indistinta, porque ele falava com carinho dos pais, e dos avós, e da convivência, mas agora morava naquele lugar sozinho. Talvez por isso ele quisesse tanto companhia pra preencher aquela sensação deixava por uma família grande. Annica sempre teve uma convivência muito focada apenas nos pais, e sem nenhum contato com outros parentes, então aqueles sentimentos eram algo diferente para a albina absorver.
-- Gosto de comida temperada com cogumelos, principalmente apimentada, embora eu fique muito vermelha fácil comendo. -- brincou sem largar a cintura do namorado, o acompanhando pela cozinha, apoiou o queixo no ombro do mais velho, afinal apesar dele ser mais alto, as alturas eram próximas: -- Será que seu espiar daqui eu aprendo? -- comentou sem nenhuma seriedade na fala: -- ou será que eu vou ficar com fome mais cedo, vou acabar lhe mordendo no processo. -- o tom foi falsamente ameaçador e Annica mordiscou na linha da mandíbula de Pietro, seguido de uma sequência de beijinhos, sem deixá-lo muito livre pra de fato cozinhar em paz.
-- Eu não tenho nenhuma receita secreta dos meus avós pra trocar pela sua, mas sei fazer uma Karjalanpiirakka que fica bem boa. -- comentou despretensiosa, mas era bem atípico que Annica falasse de sua família, além de um comentário ou outro falando que tinha avisado aos pais que passaria os dias na casa do namorado.
Pietro
Pietro concordou com um aceno de cabeça quando ela disse que ficava fácil com comida apimentada, mas sorriu um pouco mais descontraído, agradado da proximidade da namorada e dando uma risada breve com a pergunta dela se aprenderia só observando dali.
- Eu não faço nada muito apimentado, talvez costume de preparar muita comida para crianças. - ele explicou, olhando brevemente por cima do ombro para o rosto da namorada quando ela ameaçou lhe morder no processo. Até podia ter tirado alguma conotação mais insinuante daquelas palavras e da atitude, mas foi impossível não lembrar como as crianças gostavam de se agarrar nele quando estava fazendo literalmente qualquer coisa na escola e na creche. - Eu acho que sua mordida não pode ser pior do que as crianças que eu cuido na creche. Pode me acompanhar daí, estou acostumado a fazer quase tudo com um bebê no colo ou uma criança agarrada na perna.
Ele começou a lavar as verduras para preparar o molho e só então, percebeu como o comentário podia ter soado de modo insultante para uma mulher como Annica, e quase se virou completamente na direção dela, ainda olhando-a por cima do ombro, entretanto.
- Ah, n-não estou dizendo que você é uma criança, eu… prefiro que seja você agarrada em mim e… - de novo, sentiu como se as palavras estivessem completamente erradas, e ficou um pouco mais vermelho para consertar. - Digo, não que eu prefira crianças… agarradas em mim. - ele fechou os olhos, franzindo o cenho e quase batendo a mão na testa, não fosse a cebola molhada ali. A expressão fechada parecia, de novo, de alguém muito mal-encarado. Mas ele torceu os lábios num bico discreto. - Mas… você disse que faz o quê? Lembro do dia que se apresentou com o seu sobrenome e eu não soube pronunciar. É alguma receita do seu país? Aprendeu com seus pais?
Annica
Ser comparada a uma criança não era algo necessariamente ruim, ao menos não no contexto de quem tinha a “pior mordida”, afinal, não era um documentário do discovery channel onde animais selvagens tinham suas mandíbulas postas a prova. Estava pronta pra dizer que se ele não se importava iria ficar grudada nele sem direito a folga, e que ele descobriria da pior maneira que era diferente de uma criança porque tinha um arsenal diferente para provocar, porém o próprio Pietro começou a se embolar com as comparações;
E quanto mais ele tentava explicar, mais ele se enrolava com as palavras, e era engraçado que ele ficava entre lhe tratar de forma infantil e comentários que podiam ser compreendidos de outras formas mais sugestivas. E quando ele fechou os olhos tentando por tudo no lugar foi que ficou mais vermelho, ele era realmente um homem adorável, e aquilo lhe dava um pouco mais de paz, que poderia conversar com ele sem ser tão julgada. Sorriu divertida diante daquele conjunto de reações envergonhadas do namorado, e foi em tempo dele lhe perguntar sobre o que sabia preparar, porque afinal, não era francesa, não tinha um sobrenome francês e com certeza “Karjalanpiirakka” não era francês;
-- Karjalanpiirakka é um prato finlandês, é como uma tortinha feita com grão de centeio onde você deixa o recheio por cima, é servido pra acompanhar café em lanches da tarde, você encontra em qualquer padaria.-- Annica permaneceu com os braços em torno do corpo de Pietro mas mostrou com as mãos o tamanho do que seria a tortinha mais ou menos do tamanho da palma da mão dela: -- Meus pais são psiquiatras, minha mãe dá aula em faculdade e é pesquisadora, meu pai trabalhou em Hospital e na clínica por vários anos, hoje em dia ele atende só alguns casos especiais, então eles nunca foram necessariamente “caseiros”, como essa receita é simples, eu aprendi olhando na internet.
A albina sorriu e depositou um beijo amistoso no rosto do namorado, afundando o rosto na curva do pescoço do mesmo em um abraço longo quase sem deixar que ele continuasse cozinhando. Se afastou um pouco apenas para seguir conversando:
-- Eu ainda não tinha lhe chamado pra ir conhecer meus pais pelas coisas todas que ocorreram recentemente, mas nós temos tempo, ainda tem muita coisa sobre mim que você precisa conhecer além da minha família, e nos meus planos mirabolantes pessoais eu quero ficar bastante tempo com você senhor Pietro Étienne. -- Sorriu confidente, o rosto corado e fácil de notar aquela curta distância que estavam.
Pietro
Pietro não se preocupou em continuar o preparo do almoço com Annica abraçada à sua cintura, já estava bem treinado das crianças como ele mesmo tinha dito antes. Ela explicou o que era a comida, mostrando o tamanho do bolinho com as mãos.
- Parece bom. Pode fazer pra gente comer depois. - Pietro sugeriu, colocando a massa no fogão enquanto seguia o preparo do molho.
Prestou atenção no que ela tinha dito sobre os pais, sabia muito pouco da família de Annica e os dois ainda estavam se conhecendo melhor a despeito de todos os problemas no caminho. Até se distraiu no preparo da comida quando ela falou mais da família e de que pretendia lhe levar para conhecer os pais. A ideia até teria lhe deixado mais nervoso, mas o beijo suave no rosto e o conforto dela com o rosto apoiado em seu ombro lhe deixaram mais relaxado, e gostava muito da novidade de ver Annica vermelha de perto. Ele aproveitou a proximidade para devolver o beijo, mas nos lábios dela, suave, sentindo o próprio rosto corar por causa da declaração muito direta de que ela queria ficar muito tempo com ele.
- Eu acho que nossos planos são parecidos então. - ele admitiu, com um sorriso sem graça, àquela altura, tendo ignorado completamente o preparo do molho pela metade. - Se seus pais trabalhavam tanto e você viu a receita na internet, não teve muito contato com eles crescendo? - ele perguntou, recuperando um pouco da compostura depois de admitir que tinha planos de ficar com a albina por muito tempo. - Meus pais me adotaram quando eu tinha cinco ou seis anos, eu não lembrava. Mas eles também sempre trabalharam muito em missões solidárias e ongs em países pobres e em guerra, por isso eu cresci mais com os meus avós aqui em Cerise. Eles me ensinaram muitas coisas.
Annica
Era bom ficar na companhia do namorado e trocando carícias despretensiosas, era uma boa mudança de rumo considerando todas as atribulações que tinham passado até então, chegar naquele momento de tranquilidade de um relacionamento completamente “normal” era algo que a albina às vezes até duvidava estar acontecendo de verdade. Em contrapartida, lá no fundo da sua mente, tinha uma vozinha que dizia que talvez aquela paz acabasse quando Pietro lhe conhecesse mais a fundo. Mas não deixou que o pensamento pessimista tomasse conta de sua mente, quando o namorado sugeriu que fizesse a comida finlandesa depois para um lanche. Acenou em concordância, e aceitou de bom grado o beijo singelo nos lábios, era bom poder espiar de perto o namorado desconcertado e com as bochechas tomadas pelo rubor.
E ouvindo o relato do mais velho sobre também ter crescido razoavelmente distante dos pais, pensava que eles até tinham mais coisas em comum do que podia supor em uma primeira olhada: -- Diferente de você, eu não tinha avós próximos pra fazer esses cuidados, era tutelada pelo meu irmão mais velho. O que era o mesmo que nada. -- a albina fez uma careta leve, demonstrando claramente que não gostava do irmão:
-- E bem, eu era muito tímida quando criança, o fato de ser albina trazia um quê de exótico que as crianças sempre foram bem malvadas em destacar, então eu sempre fui bem reclusa, até a adolescência. Só ganhei confiança depois de vir pro internato feminino aqui em Cerise. Então, podemos dizer, que a minha vida, assim como a sua, caminhou melhor nessa cidadezinha do interior. Obrigada Cerise. -- Annica tomou um ar mais brincalhão em sua frase, mas se afastou do mais alto mesmo que fosse muito divertido ficar grudada nele atrapalhando mais que ajudando, ainda queria que aquele almoço saísse hoje: -- eu vou lhe dar uma folga dos meus abraços, mas apenas o tempo suficiente deu fazer um suco e você terminar nossa comida.
Pietro
Pietro tentou voltar a concentração ao preparo do molho para terminar o almoço, mas era fácil se perder com a proximidade de Annica. Podia ignorar mais fácil outras crianças, mas não a namorada estando tão perto dele e com os toques tão carinhosos. E era uma sensação que gostava de apreciar. Foi uma novidade interessante que ela tinha um irmão mais velho e que parecia não gostar muito, mas ele ficou bem mais concentrado imaginando como tinha sido uma Annica criança albina, devia pedir algumas fotos depois, quem sabe?
- Eu queria ver você como criança. Me deixou curioso. - Pietro respondeu, concordando então com um aceno de cabeça sobre como Cerise tinha encaminhado melhor a vida dela. E a sua também, a despeito dos estranhos acontecimentos recentes. - Cerise me trouxe algumas surpresas estranhas… mas acho que tenho saldo positivo.
Ele só concordou com um aceno de cabeça quando ela se afastou para fazer o suco, e daí em diante, o preparo da comida foi bem mais rápido, para terem o almoço pronto em pouco menos de meia hora.
Annica
Estar na companhia do namorado era tão bom que parecia surreal, e sempre tinha aquela sensação quando estava com suas namoradas de paixonite dentro do dormitório, tinha aquele zumbido em sua cabeça dizendo que talvez não merecesse fazer parte daquela felicidade. E mesmo agora, e sabendo que aquilo era apenas o seu medo natural de rejeição e que era algo natural de se ter, pensava que os anos tinham lhe deixado mais segura sobre isso. O que não era tão verdade no fim das contas, ou talvez fosse justamente por estar namorando um homem e tudo sobre essa relação era algo “novo” pra explorar.
E sabia que falar sobre família lhe levaria para o tópico de como deveria ser enquanto “criança”, não podia negar aquele pensamento, considerando que Pietro trabalhava com crianças era algo que ele com certeza deveria achar apenas “natural” de se perguntar e falar. No entanto, lembrar da sua infância não era exatamente “confortável”, mas não podia falar sobre esses desconfortos sem passar pelo tópico de ser uma criança trans, e como todo esse processo foi tortuoso. E pensar demais sobre o assunto acabou lhe deixando mais calada, embora ainda mantivesse o sorriso no rosto que bem tinha aprendido a sustentar, não conseguia engatar assuntos pra conversar, apenas comentários aqui e ali sobre a comida estar boa, sobre o clima e coisas mais superficiais. Depois de terminar a refeição a própria Annica se levantou da mesa e recolheu os pratos pra lavar a pouca louça:
-- Quem cozinha não lava louça. -- a tentativa de fazer uma graça, saiu mais como um comentário genérico. E junto a pia já de costas para Pietro cuidando da pouca louça, Annica nem tinha ideia do que poderiam fazer do resto do dia, era como se não tivesse mais cabeça pra fazer nada, e mesmo que tivesse muitos anos de terapia, era notório até pra própria albina que o assunto sugava suas energias:
-- Se quiser podemos ver um filme ou começar uma série, ou mesmo só descansar, estou sem ideias admito, aceito sugestões…
Pietro
Não demorou muito para terminar de fazer o almoço e logo os dois se sentaram à mesa da cozinha para comer, do mesmo modo, não demorou muito para que Pietro percebesse que havia algo de diferente nas respostas mais breves de Annica e nas reações da albina, embora ele não entendesse inteiramente onde na conversa dos dois ou na refeição, ela tinha ficado daquele jeito. Também podia ser só impressão, afinal, Pietro estava mais acostumado a ler reações bem sinceras de crianças e Annica estava bem longe de ser uma.
Quando eles encerraram o almoço e ela recolheu os pratos para deixar claro que iria lavar a louça, foi mais fácil para Pietro notar que não havia o tom de graça pretendido, o que lhe deixou um pouco mais incomodado a ponto dele nem negar que ela fosse arrumar a casa dele, afinal, independente de ter ou não feito a comida, ele certamente não a deixaria lavar os pratos. Enquanto começava a arrumação, ela ainda sugeriu que fizessem alguma coisa no resto do dia e Pietro pegou os outros pratos para parar ao lado dela diante da pia.
- Podemos assistir um filme. - ele sugeriu, observando-a de lado com uma curiosidade crescente. - Você está bem? Eu fiz alguma coisa que não gostou?
