[Drive] Vicissitude [Renaud; Wilbert; Natalia; Dia; Sasha]
#1
Renaud

Depois de todo um fim de semana que parecia finalmente mais calmo, o jovem Blanco estava agora, retomando sua rotina aos poucos, não estava conseguindo acordar cedo de forma natural como fazia antes por causa das novas medicações, por isso dependia do celular para despertá-lo. E mesmo sem ir aos treinos de natação por causa das mãos machucadas, sentia as câimbras nas pernas lhe incomodarem com força logo cedo, era preciso se alongar demoradamente para que elas fossem embora. Ainda tinha pouquíssimo apetite, mas estava seguindo a indicações feitas pelo Dr. Vlahos, tanto com os remédios quanto com a alimentação e sono, e ao menos sentia que seu peso tinha estabilizado. Tinha perdido quase 5 kg em pouco mais de uma semana, e não podia perder muito mais, ou ficaria com um aspecto aparente de “muito doente”. Seguiu para a aula da manhã, apresentou trabalhos em atraso, sentindo alguma dificuldade em responder perguntas que exigiam um raciocínio rápido, mas conseguiu resolver tudo fazendo anotações no quadro e explicando o passo-a-passo. Conversou um pouco com Sasha ainda no horário da manhã e isso lhe deixava menos tenso e mais confortável em ir pra aula

Almoçou no horário certo junto com Isaac, trocando conversas sobre assuntos das eleições do conselho estudantil, era algo bem mais simples de lidar, se comparado a toda a organização necessária que os jogos internos tinham exigido. Passou parte da tarde no conselho estudantil, assinando papéis, que precisavam de sua atenção por ser vice-presidente, mas não se demorou por lá, tinha uma prova da disciplina eletiva de gastronomia, e mesmo que não fosse essencial e indispensável para que se formasse, não faltaria a mesma. O jovem Blanco até gostava da matéria ministrada pelo prof. Funske, e sair de St. Clavier para cozinhar em um restaurante de verdade lhe parecia uma quebra de rotina agradável.

Ainda mandou mensagens para Didier, avisando que estava de saída para fazer a prova, e que se pudesse mandaria foto dos pratos, avisou que se pudesse também, quando voltasse a academia masculina, gostaria de tirar tempo para conversar um pouco.

Renaud tinha um aspecto cansado, de quem não estava dormindo bem, mas era principalmente por estar andando sem maquiagem. O Blanco sempre tivera algumas olheiras, por estudar até tarde e dormir pouco, e por estar sorrindo menos, parecia estar menos animado do que sempre. Embora ainda caminhasse com o queixo erguido e a postura aparentemente confiante de sempre. Renaud levou seu conjunto de facas e ferramentas específicas e particulares em uma maleta, sabia exatamente como funcionava um turno inteiro de cozinha em um restaurante grande, mas certamente não tinha qualquer experiência em trabalhar de fato num ambiente tendo de agradar clientes reais. Não considerava a situação estressante, era mais algo pra lhe distrair do que desafiar, mas respeitava a proposição de avaliação imposta pelo professor.

Afinal, quem quer ser chef, tem de experimentar como é a pressão de uma cozinha de verdade. Chegou no horário marcado e pontual, tinha levado sua diadema mais larga, que impedia que seus fios curtos da franja ficassem sobre seus olhos, as unhas estavam aparadas, e tinha trocados todos os curativos, para bandagens cor de pele, hipoalérgicas, sabia que teria de cozinhar usando luvas, mas estava se apresentando no melhor que podia. Se alinhou aos outros estudantes na antessala, antes da cozinha de fato, onde teriam uma reunião com o próprio professor, para receber indicações de como seria a avaliação.

Wilbert

Finalmente o dia de avaliação havia chegado. Passou a semana preparando os pratos que seriam colocados no menu da avaliação dos alunos da turma de gastronomia. Ao menos, como a matéria era eletiva, podia focar nas dificuldades de cada um dos alunos. Separou pratos chaves que envolviam o preparo não apenas de entradas, mas como pratos principais e sobremesas. Selecionou o próprio bistrô para realizar a avaliação. O ambiente era conhecido seu e inusitado para os alunos, como uma verdadeira cozinha deveria ser. Como faria o rodízio por estações, ensaiou o roteiro com os alunos durante as últimas semanas, focando nos pontos fortes e fracos de cada um dos desmiolados.

Demorou até conseguir organizar a avaliação prática pelo recolhimento dos termos de compromisso e toda aquela burocracia por propor aos meninos ricos daquela instituição uma experiência de verdade além da cozinha de St. Clavier. Não se importou com os gastos, reabastecendo o bistrô para a data em que levaria os rapazes para a cozinha do lugar. Com a frequência e a variabilidade de clientes, eles teriam uma avaliação mais diversificada e esperava ao menos poder verificar que tantos meses repetindo receitas e procedimentos, que eles teriam a prática necessária para o preparo e o atendimento ao público.

Estava com seu uniforme de chef para instruir os garotos pelas etapas da avaliação. O processo teria início durante metade da tarde e início da noite, considerando o período de preparo de uma cozinha para os pratos e para a preparação de fato das porções. Fez questão de verificar o estado dos alunos um a um, certificando-se que o uniforme estava devidamente colocado e eles estavam de acordo com o que havia requisitado para as aulas. Naquela altura do campeonato, depois de tantos gritos e discussões em sala de aula, os garotos já estavam mais do que habituados à sua lista de exigências para estarem em uma cozinha. Ao menos era o que esperava até avaliar o tal Blanco, repetindo as estações em que ele deveria ficar.

- Blanco, ficará primeiro na estação das carnes e depois na montagem dos pratos. - avisou de novo, a voz saindo como uma ordem como de costume. Encarou o moreno, observando-o de cima a baixo, as luvas que eram inusitadas para ele. O cabelo parecia ter crescido e tinha certeza que ele havia perdido peso. - E nem invente de ficar fazendo o trabalho dos seus colegas. Estou de olho em você hoje, Blanco. Faça o seu trabalho nas suas estações. - alertou, ciente de que o nível gastronômico do rapaz era superior ao dos outros. Na verdade, apenas ele e o garoto esquisito arqueado é que já pareciam ter alguma experiência ou sensibilidade natural para a cozinha. O restante dependia muito mais de esforço que da própria percepção natural.

Cruzou os braços e deu espaço para que eles se dirigissem a suas respectivas estações. O bistrô ainda não havia sido aberto, mas precisava que eles cumprissem seus papéis iniciais no preparo das carnes e no tratamento dos itens da cozinha para quando fossem colocar a mão na massa de fato. Além disso, como eles não possuíam familiaridade com a cozinha, era naquele momento que precisava testar a habilidade deles de raciocinarem por conta própria. Só respondeu às perguntas acerca de onde estavam os itens ao ser questionado sobre, franzindo o cenho a cada idiota que parecia perdido naquele espaço e sem iniciativa alguma de conseguir se posicionar como haviam ensaiado tanto durante as aulas.

- Onde diabos está a comunicação que eu tanto falei, seus cabeças ocas?! Trevor, eu acho bom o senhor verificar a temperatura e a potência do forno antes de pensar em preparar a massa para os bolinhos! Ernest! Verifique as porções do frango enquanto Blanco cuida dos filés! Quer que os clientes comecem a pedir mais frango que filé pela desproporção dos pedaços!? Quer?! - apesar de sua gritaria, não se sentia desconfortável em nenhum instante ao fazê-lo, visto que os garotos deveriam estar habituados aquela altura do campeonato.

Manteve o olhar vez ou outra sobre o jovem Blanco, estranhando a ausência de gracinhas vindas da parte dele. Para alguém que constantemente lhe desafiava e provocava durante as aulas de gastronomia, ele parecia aéreo. Esperava que as faltas dele durante os ensaios e as aulas sobre as estações não tivessem colocado o rapaz em uma situação complicada. Certamente não admitiria sua preocupação com o moreno, ainda mais no meio de uma avaliação como aquela. Contudo, manteve a atenção redobrada para as atividades realizadas pelos alunos, certo que eles deveriam se manter focados no que havia sido treinado em aula.

Renaud

Não estava no seu melhor dia na cozinha, disso o jovem Blanco não tinha dúvida, mas ao mesmo tempo, tinha consciência desse estado, e apesar de todos os seus problemas pessoais, cozinhar lhe distraia o suficiente de seus pensamentos negativos. E mesmo os gritos de Wilbert não eram o suficiente para lhe perturbar, em verdade, lhe passava uma sensação de que era apenas mais uma aula, e isso trazia certo “conforto”. Na medida do que era possível sentir conforto no estado em que Renaud estava. Ao contrário de si, seus colegas de classe, pareciam muito nervosos e incomodados, não estava em condições de oferecer seu sorriso dissimulado de sempre, mas estava disposto a cozinhar e fazer as coisas darem certo.

Apesar da expressão delatar cansaço por causa das olheiras evidentes, o jovem Blanco acenou positivamente diante de todas as explicações fornecidas pelo professor: -- Conforme estava programado, sim chef.. -- Chamou o professor pela função principal dele ali, porque tinha de botar na cabeça principalmente que apesar de se sentir confortável em aula, estava cozinhando para outras pessoas. E talvez aquela ideia, apenas atribuísse mais uma pilha de estresse para os colegas de classe, que aos poucos iam caindo a ficha, diante do momento de realização da execução na profissão que estavam escolhendo pra vida.

Tinha separado suas próprias facas para lidar com carnes, por estar ciente que iria ficar naquela estação desde muito antes. E levou apenas alguns instantes para observar a cozinha, que era certamente industrial mas não era tão grande a ponto de se perder nela. Repassou rapidamente as sequências das estações com os colegas próximos com quem dividiria serviço, enquanto abria e fechava armários. Fez sugestões aqui e ali, dizendo onde eles poderiam ficar mais próximos das ferramentas e ficarem mais confortáveis pra trabalhar. Checou o nível de congelamento das carnes, e alternou retirando as que estavam em ponto de descongelar, pra poder serem usadas nesse primeiro momento, e mudou as outras carnes que usaria mais adiante na noite, para outro freezer, para que ficassem apenas frias, mas não em temperatura de estragarem.

As receitas do dia, eram tradicionais em preparo, e exigentes na montagem em si, para que mostrassem uma aparência exuberante. E sabia que era seu fraco em dias normais por puro desinteresse, mas naquele dia, sabia que seria seu ponto fraco, por seu manejo fino não está totalmente recuperado ainda. Começou a fatiar as carnes, prezando pela manutenção da proporção dos pedaços do que pela agilidade, e era fácil de notar que Renaud estava mais lento do que de costume, embora por estar em um ritmo abaixo do seu, os outros alunos na estação conseguiam acompanhar sem se sentirem pressionados em cozinhar mais rápido.

Renaud não fez nenhum comentário adicional, além dos mínimos necessários para indicações, estava sério e não estava sorrindo, mas estava com o olhar muito focado e atento:

-- A prova do Chef Funske conseguiu deixar até o Blanco nervoso. -- Ernest comentou, depois da bronca dada pelo professor, porque parecia uma boa ideia para descontração daquela estação.

-- Não exatamente Ernest. Na verdade, cozinhar é relaxante. -- o Blanco comentou sem qualquer alteração no timbre de voz, chegando a parecer ironia: -- Mas hoje temos que agradar pessoas que sequer conhecemos, então é muito mais do que apenas o Chef Funske. Isso é empolgante, não concorda? -- Renaud desenhou um sorriso discreto, enquanto terminava uma seção de bifes finamente fatiados sem erros. Mudando de faca para executar outro tipo de corte para outro dos pratos.

-- Se isso é empolgação Blanco, você é muito sem graça. -- Ernest revirou os olhos, acompanhando o ritmo nos cortes e finalmente acertando bifes com proporções equivalentes: -- Devia admitir logo que tá todo nervoso, ao invés de ficar fazendo pose…! -- resmungou mais baixo, mas em timbre suficiente para que o Blanco ouvisse.

Renaud devolveu apenas com um sorrisinho de canto de boca, mas logo tornou a ficar sem expressão, estava sem ânimo, até para provocar os colegas. Então apenas focou no próprio serviço, deixando todos as fatias de carne imersas em tempero feito pela estação de pré-preparo.

Wilbert

No alto da parede da cozinha que dava acesso ao restante do bistrô havia um relógio para lembrar aos presentes o tempo que estavam despendendo em cada uma das atividades. Atravessou estação por estação, observando o desempenho dos alunos, fazendo algum comentário mais afiado aqui e ali enquanto os rapazes se colocavam na linha. O rendimento estava indo como esperado e, apesar do nervosismo mais grave de alguns, a produção pelas estações estava indo bem.

Notou o Blanco lhe contrariando, assumindo a posição de líder mais uma vez e ajudando os pequenos cabeças ocas a assumirem suas posições e agirem de acordo com a dança do que havia sido programado. Franziu o cenho para a cena, mas não comentou diretamente sobre aquele aspecto. Se a turma aceitava enxergar o Blanco daquela forma, era um sinal que ele possuía uma habilidade natural de convencer os outros sobre seus próprios planos.

- Oi! Estamos próximos ao horário de abertura, então terminem o que precisam e se movam para a próxima estação! - bateu palmas chamando a atenção dos rapazes, como a cozinha era fechada, era complicado deles terem alguma noção exata de tempo, então não se incomodou de alertá-los do tempo que estavam levando nas atividades. Ainda que alguns cometem pequenos desvios aqui e ali, o importante era que aquela cozinha conseguisse produzir os pratos para atender aos clientes.

Não demorou muito até que um dos funcionários que havia contratado para auxiliar no atendimento dos clientes do bistrô chegasse. Não poderia abandonar os meninos na cozinha, então permaneceria ali apenas para receber os pedidos.

- Trevor, cuidado com o fogo! Verifique a chama do fogão primeiro antes de selar as panelas! - alertou ao garoto no tom grosseiro de sempre, observando como o outro parecia nervoso entre separar as panelas enquanto ignorava a intensidade da chama para os pratos. Mais alguns instantes e logo os clientes chegariam. Havia feito um pequeno anúncio e conseguido alguns contatos no mercado popular graças a sua visita turística guiada pelo próprio Blanco. Com isso, não havia dúvida que haveriam fregueses curiosos para saber o que a comida feita pelos alunos de St. Clavier deveria possuir como sabor.

Esperou até o rapaz moreno de luvas se mover para a estação para a montagem dos pratos, ciente de que a velocidade dele parecia reduzida. Não sabia dizer se ele estava fazendo aquilo pelos colegas ou se havia algo de errado com o garoto. Ele também já havia faltado algumas aulas e as olheiras na face lhe diziam que ele não parecia estar no melhor dos dias. Contudo, não era de sua natureza ser gentil ou delicado com seus alunos, principalmente quando se tratava no trabalho na cozinha. Aproximou-se de Renaud Blanco quando ele se dirigiu para a troca de estação e não fez questão alguma em ser discreto com o toque firme no ombro dele, chamando-lhe a atenção.

- O que houve, Blanco? Não quer estar aqui? Agora vai começar a parte difícil. Se não vai aguentar, é melhor sair agora que estragar o trabalho dos seus colegas no meio. - avisou severo ao rapaz, estranhando o peso do ombro do outro. Ele havia mesmo perdido peso, não era só impressão sua. Aquele era só mais um motivo para mandá-lo embora dali. O sujeito havia dito a cara de pau de ir para sua avaliação naquele estado. Só esperava que ele não achasse que pegaria leve com ele por conta do estado alheio.

Renaud

O jovem Blanco não se sentia cansado do serviço de preparo de carnes, em verdade, mesmo que estivesse fisicamente indisposto, ao menos a atividade lhe deixava mentalmente ocupado. O som de talheres, facas, e demais instrumentos de cozinha, batendo, picotando, mexendo, o vapor de comida sendo preparada os diversos cheiros e vozes, funcionavam como se fosse um tipo de melodia, que lhe ajudava a manter-se focado. Em certo ponto, justamente por saber que estava mais lento, estava prestando mais atenção no próprio corpo, consciente da falta de manejo, e por isso, apenas mantendo um ritmo constante, e não seu jeito costumeiro de cozinhar. Não havia nada de errado naquilo, e até certo ponto, parecia que o Blanco estava sendo “gentil” em manter o ritmo dos colegas e não se impor sobre ele. Em verdade, sequer estava pensando nos colegas, se eles estavam indo bem ou não, se estavam apreensivos, nervosos, entusiasmados, tudo isso flutuava muito distante de sua percepção.  Se tentasse focar demais em entender os outros, acabaria perdendo o foco de si mesmo, que era sua prioridade no momento.

Pouco antes de mudar de estação para seguir para a preparação dos pratos em si, o Blanco guardou suas ferramentas, higienizando-as de forma apropriada, antes de guardá-las de fato. Aproveitou para trocar as luvas que tinha usado no manuseio da comida crua. Avaliou os próprios curativos atestando o bom estado dos mesmos, exceto por um pouco de sensação de suor por passar muito tempo com as luvas plásticas. enxugou as mãos e trocou por um par de luvas novas, já que iria montar os pratos e mexer na comida já preparada.

Ouviu bem em tempo o aviso do professor sobre as mudanças de estações e logo seguiu para sua nova posição, sendo parado no meio do caminho e sentiu o aperto mais firme em seu ombro. Ergueu o olhar mas manteve a expressão neutra, aparentemente cansada, mas encarou diretamente os olhos claros do mais velho. Em outros dias, sorriria, faria um gracejo, jogaria charme, mas não naquele dia. Apenas acenou positivamente diante do comentário:

--Eu entendo sua colocação Chef Funske, mas acredito que houve um equívoco. --  o Blanco ajustou a posição do corpo ficando completamente de frente ao chef, e jogou as mãos para trás em uma postura bastante respeitosa ao sujeito: -- Como o senhor sabe, eu curso essa matéria como eletiva, ela não é indispensável para minha conclusão de curso em St. Clavier, logo, se eu estou aqui, participando da avaliação, é decorrente da minha vontade.  -- Comentou de forma bastante sucinta e objetiva, encarando o maior todo o tempo: -- Ou seja, eu vim porque gosto de cozinhar chef Funske. -- Respondeu simplesmente, com um ar menos formal nessa última frase.

Em seguida fazendo um meneio de cabeça para seguir para seu posto de trabalho, mas no decorrer do caminho completou: -- Se eu chegar a comprometer o andamento da cozinha, o senhor como Chef está em posição de me por para fora. E eu não vou exercer qualquer discordância a sua decisão. -- E era estranho falar de forma tão subordinada ao professor que gostava de confrontar durante as aulas.

Mas não naquela noite em específico, naquele momento queria apenas cozinhar e se distrair um pouco de todos os seus problemas e dilemas pessoais. E se cozinhar lhe proporcionava aquele tipo de relaxamento mental, então queria estar naquela cozinha. No entanto, tinha ciência que estava no meio de uma avaliação, então se o professor acreditasse que era melhor tirá-lo de lá, não ofereceria resistência. Até aquele momento, a despeito de estar indisposto fisicamente, estava mantendo o ritmo igual ao da turma de forma geral, então não havia qualquer prejuízo a avaliação.

Wilbert

Não havia como não entender que algo de errado havia acontecido com aquele rapaz para deixá-lo em um estado tão discrepante em relação ao que ele normalmente demonstrava durante suas aulas. Contudo, não esperava que ele fosse admitir que gostava de cozinhar. Não fazia ideia se sua abordagem nas aulas de gastronomia teriam aquele tipo de efeito sobre o mais novo ou se, para ele estar com aquele semblante sério e mais concentrado em tarefas objetivas, teria acontecido algo além do que poderia averiguar pelo contato que tinham durante as aulas.

Algo lhe dizia que Blanco não estava em um bom momento, contudo, como ele mesmo havia destacado, tinha a autonomia para expulsá-lo dali. Observou sério o moreno seguir para a estação designada e cruzou os braços, certo de que só faltava apenas mais uma etapa da avaliação e ele ficaria livre para voltar para o dormitório. Ele mesmo havia admito que gostava de cozinhar. Não fazia ideia do que acontecia na vida pessoal do rapaz e definitivamente aquele não era o momento para tratar do outro como se ele fosse um pobre coitado. Ele havia escolhido estar ali e se não havia nada explícito que lhe permitisse expulsá-lo da cozinha, deixaria que ele cumprimisse a última etapa como os outros colegas dele.

A turma de modo geral não estava lhe decepcionando. Apesar do nervosismo e da tensão pela pouca experiência da maioria ali, os garotos estavam respondendo bem ao ritmo frenético de uma cozinha em funcionamento.

- Muito bem! Vamos aos primeiro pedidos! - anunciou, o timbre de voz impositivo. Com todos em suas posições, tratou de anunciar os pedidos que chegavam à cozinha após a abertura de seu bistrô naquele dia. Havia separado algumas das opções de entrada, aperitivos, prato principal e sobremesa para que os alunos pudessem lidar com um número limitado de pratos.

Como estava mais próximo da saída da cozinha de onde os pratos saiam e próximo da estação de onde eles eram montados. Notou o ritmo mais lento do Blanco na montagem e tratou de pressioná-lo em alguns momentos para que se adequasse a velocidade com a qual os pratos eram preparados. Assim como também pressionou alguns dos outros garotos a prestarem mais atenção ao tempo de preparo das carnes de acordo com o ponto pedido pelos clientes. Afastou-se da estação de montagem para se aproximar da estação de preparo das massas para o prato principal e sobremesa, chamando a atenção dos alunos no preparo da quantidade, alertando-os para a falta de materiais antes de anunciar ao seu empregado que avisasse aos clientes que uma das sobremesas não seria mais servida.

Assim que o horário se aproximou e os pedidos diminuíram após servirem as sobremesas, anunciou o fechamento da cozinha, fazendo algumas notas mentais sobre o desempenho dos alunos durante todo aquele processo que, tinha certeza, deveria ter parecido como uma eternidade para alguns. Ao encerramento, afastou-se para verificar os materiais que haviam sido utilizados e o que ainda poderia ser conservado e armazenado.

- Terminem o trabalho e tratem de limpar a bagunça de vocês na cozinha! - ordenou, acompanhando a tensão surgir de novo em alguns dos alunos. Talvez eles tivessem se enganado achando que precisavam só cozinhar naquele espaço e que daria algum tipo de folga a eles pelo bom trabalho, liberando-os da limpeza. Triste engano. Ainda havia panelas quentes que precisavam ser organizadas, bancadas para serem limpas, utensílios para serem lavados, entre outros cuidados que aqueles responsáveis pelo preparo dos pratos também deveriam ter.

Renaud

Sabia que sua resposta provavelmente tinha deixado o professor de gastronomia confuso, já que semanas atrás quando estavam no apartamento do mesmo, tinha dito com todas as letras que não tinha interesse restrito em cozinha, e muito menos se importava com a opinião dos outros sobre o que cozinhava. Seu ponto não tinha mudado, não faria daquilo profissão, mas admitia que o Wilbert estava certo em dizer que era mais prazeroso cozinhar para que outras pessoas também pudessem comer. Era uma forma de criar vínculo com os outros, sem que esses tivessem que te conhecer profundamente, ou saber exatamente seus problemas, era apenas um momento de troca. “Eu me sinto útil em poder cozinhar algo que possa ser apreciado”, agora parecia mais simples de compreender, e entendia porque cozinhar era relaxante para o loiro mais velho. E podia enxergar porque a atividade tinha passado a lhe relaxar também.

Contudo, o jovem Blanco não era ingênuo de pensar que não teria trabalho, ou não sentiria desgaste físico naquele lugar. Com o manejo fino comprometido, os movimentos com as mãos eram desengonçados, e precisava impor muita força e controle para não tremer e encaixar as finas fatias de carne na posição correta. Depois de pouco mais de uma hora na posição de montagem de pratos, os tremores nas mãos já não eram mais tão discretos, então mudou deliberadamente o desenho do molho nos pratos para que eles fizessem zigue e zague ao invés de meia-lua como era o ensaiado. Repicava as folhas verdes, ao invés de colocá-las posicionadas no canto do prato. Não que isso tirasse o charme dos mesmos, mas era um desenho não esperado, e a medida que a noite ia transcorrendo, os pratos iam ficando mais expressivos, não pelo controle milimétrico das posições das porções, mas justamente porque nenhum deles se parecia com o outro. Havia um “quê” de exclusividade em cada porção apresentada, como se estivesse sendo feita para agradar aquele cliente, que pedia mais ou menos carne, mais ou menos molho, mais ou menos salada.

No decorrer da noite, Renaud sentiu-se zonzo, pouco enjoado, mas contornou controlando a própria respiração, e ignorando momentaneamente os ruídos externos, estava focado, embora o cansaço físico lhe cobrasse no rendimento abaixo do que sempre fazia. Sentiu as mãos quentes, a sensação de formigamento era constante e percorria até o cotovelo, e o calor se alastrou até o ombro, em pequenos choques dolorosos semelhante a cãibras. E em determinado momento naquela noite, tudo esfriou, em dormência e sentiu as juntas dos dedos rígidas, mediante a tensão imposta a elas por tanto tempo. Quando a cozinha finalmente fechou, o jovem Blanco, estalou os dedos e o pescoço, sentindo as mãos pesadas e os braços doloridos. tirou as luvas plásticas, sentindo os curativos suados debaixo de seu toque, e se dirigiu até a pia, onde lavou e massageou as juntas, ainda mantendo a expressão séria, apenas quando um dos outros alunos se aproximou que o Blanco se atentou a presença dele:

-- Vai lavar as panelas Blanco? - o jovem se aproximou com um punhado de panelas em mãos.

-- Sim, claro. Cuide dos pratos, eu cuido das panelas. -- ao menos as panelas não iriam quebrar se as derrubasse pela preensão das mãos estarem comprometidas pelo cansaço.

Trevor que tinha passado toda a noite em frente ao fogão, estava nitidamente exausto, era possível ver que os olhos estavam marejados de quem estava prestes a ter uma síncope nervosa, como se não tivesse percebido que a cozinha já tinha fechado e tão logo terminassem de limpar poderiam voltar aos dormitórios. O mesmo se encaminhou com a panela ainda quente onde os frangos inteiros foram cozidos por toda a noite, com o caldo grosso ainda borbulhante, e o vapor subindo em nuvens opacas. O jovem seguiu em direção do descarte para que a mesma fosse lavada. O jovem baixou o olhar momentaneamente tomado pela vontade iminente de chorar, mas o tempo em que desviou o olhar, foi o suficiente para que outro colega trombasse em seu ombro, e a reação imediata de Trevor foi berrar em susto:

-- Ahh! CUIDADO!! -- Uma das mãos soltou a alça da panela fazendo com que a mesma fosse levada a lateral do balcão, batendo em som audível do metal no inox.

Renaud estava próximo demais dos dois, e se desviou da panela batendo no balcão por uma fração muito pequena de sorte, mas antecipou o líquido borbulhante de óleos e tempero jorrando sobre os dois. Em sua cabeça conseguiria levar as mãos na direção da alça pendente antes que a mesma terminasse de virar.

Mas quatro dedos abaixo da alça foi onde o Blanco conseguiu posicionar suas mãos, o som das gotículas de água encontrando o metal quente chiou alto, como se tivesse sido postas em chapa quente. O calor foi tão intenso que Renaud sentiu as mãos ficarem geladas, e um calafrio desagradável percorreu toda a sua espinha, a respiração travou por um instante, antes do grunhindo de dor escapar de sua boca, os dentes rangendo com o retesamento dos músculos:

-- ARGGHHHHHHHH….!

-- MAS O Q-...!!!!?? -- Trevor terminou de soltar a panela e os respingos do molho quente alcançaram o uniforme dos três garotos, e tudo aconteceu muito rápido, rápido demais até para o Blanco, que antes de sentir as pernas fracas usou de força para deslizar a panela fumegante sobre o balcão molhado em um som incômodo de metal arranhando metal e água chiando perante a pressão de calor. o Vapor tomou aquela parte da cozinha.

E antes mesmo que os outros garotos conseguissem assimilar o que aconteceu Renaud estava caindo sobre os joelhos as mãos emanando vapor quente, e na lateral da panela não dava para discernir se eram os curativo ou se havia pele queimada junto.

Wilbert

Estava do outro lado da cozinha, verificando como os alunos estavam armazenando as massas que haviam sobrado do preparo naquela noite de atendimento. Certo de que os rapazes já deveriam estar encerrando o horário da avaliação sem maiores problemas, não esperava pelo que estava por vir, com o passar nervoso do senhor Trevor e a sequência de pequenos acidentes que culminou no pânico da cena assistida pelos menores presentes na cozinha.

Acompanhou a cena que aconteceu muito rápida. Só teve tempo de pensar em se apressar na direção dos garotos quando se deu conta da carne de Blanco já queimando com a panela e o óleo fervendo. Franziu o cenho, irritado com o cenário catastrófico em sua cozinha que não conseguiu evitar.

- MAS QUE MERDA VOCÊS FIZERAM?! - gritou com os garotos, afastando os rapazes do caminho, ainda atordoados pelo acidente presenciado com a panela de óleo quente.

Aproximou-se prontamente de Blanco de joelhos, segurando-o pelos braços e mantendo-o firme apoiado em si para verificar o estado das mãos dele. Aquilo não poderia estar acontecendo. Já havia presenciado vários acidentes de trabalho na cozinha, entre queimaduras sérias e cortes profundos, mas jamais poderia esperar que algo daquela gravidade fosse acontecer justamente com um aluno tão cuidadoso com o trato na cozinha.

- Porcaria! PIERS! - chamou pelo funcionário do bistrô enquanto abria a torneira da pia mais próxima com água fria para poder segurar os braços do menor, colocando as mãos dele debaixo da água corrente. Foi tempo suficiente para o funcionário vir rapidamente até a cozinha. - CHAMA A MERDA DE UM TÁXI AGORA!

- Sim, senhor! - apenas ouviu a concordância do funcionário enquanto os alunos ainda pareciam perdidos com o que fazer.

- Vocês estão esperando o quê?! SUMAM DA MINHA COZINHA! - gritou de novo com os garotos que aparentemente acharam bem conveniente a expulsão da área de trabalho ao se darem conta ao passarem para sair dali e verem a cena das mãos de Blanco na água corrente.

Em poucos instantes, o veículo já estava aguardando na rua, anunciado por seu funcionário Piers que já parecia bem ciente do acidente de queimadura. Pelo menos o funcionário parecia estar mais disposto a ser gentil com os garotos, afirmando que cuidaria da cozinha no lugar deles e que os levaria de volta a St. Clavier.

Observou o estado do rapaz com as mãos danificadas e aparentemente bastante fraco após todo aquele processo avaliativo. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ergueu-o nos braços, reconhecendo a diferença de peso do moreno. Ele de fato havia perdido peso, era inegável a facilidade com a qual conseguia levá-lo nos braços. Já na saída para a rua, pegou o celular de Piers, certo de que voltar para dentro do restaurante para pegar seu aparelho apenas faria com que perdessem mais tempo.

Acomodou o Blanco no banco de trás do táxi e entrou ao lado do menor, anunciando antes de fechar as portas para que o motorista acelerasse para o Hospital Geral de Cerise. Segurou os antebraços do moreno, deixando as mãos dele erguidas sem encostar com qualquer superfície.

Renaud

Os momentos seguintes depois de empurrar a panela quente de caldo sobre o balcão não foram bem apreciados pelo jovem Blanco. Sentiu o joelho encostar no chão, mas a dor que sentia nas mãos foi tão aguda, de forma tal, que não experimentava a algum tempo. Por isso, todo o corpo do moreno mais novo esfriou drasticamente, e o jovem Blanco sentiu o estômago revirar num azedume visceral a ponto do frio lhe percorrer por dentro, e o amargor chegar no topo de sua garganta. Tornou a respirar, mas estava pálido, e transpirando muito, a ponto do suor escorrer da testa pela lateral do rosto até o queixo, não tinha fechado os olhos mas sentiu a vista escurecer por um momento, e todos os ruídos da cozinha sumiram, a cabeça ficou pesada.

[...]

[...]

[...]

“não estamos em casa…”

E antes que desmaiasse de fato, a sensação de não estar seguro, lhe injetou adrenalina o suficiente para não desmaiar. Quando tornou a perceber o entorno ao seu redor e os ruídos de pessoas falando e dos gritos do professor, muito mais próximo de si do que antes, sentiu o corpo ser erguido num solavanco, tal qual, que o corpo não acompanhou e as pernas não se firmaram em pé. A expressão se contorceu em dor e cerrou os dentes ainda mais, o corpo estava pesado e foi necessário buscar suporte no corpo maior que o tinha erguido. Naquele momento que tinha se dado conta que era o próprio professor Funske que o erguia. Renaud estava completamente pálido, a ponto que suas olheiras estavam plenamente visíveis e seu olhar divagava entre a figura do professor e os próprios machucados, sem conseguir focar a visão.

Sentia-se frio como se a temperatura do corpo tivesse lhe fugido completamente, além de ter a pele úmida de quem tinha transpirando excessivamente naquele curto espaço de tempo, a ponto de sentir a camisa grudar na própria pele por baixo do uniforme de cozinha. Mas o corpo todo se retesou ao sentir a água ainda mais fria descendo sobre a área queimada sem pele das mãos, era como ter várias agulhas finas perfurando violentamente cada centímetro de pele a mostra, e outro grunhido de dor escapou entredentes:

-- ARGHHHHHH-HNN-nnn…! -- e como reação do corpo a exposição de dor intensa, Renaud começou a tremer intensamente, sem conseguir conter o movimento involuntário corpo, arregalou os olhos encarando a cena e depois mordeu o lábio inferior para evitar que qualquer outro grunhido de dor escapasse.

Ser erguido do chão lhe deixou momentaneamente confuso e levou as costas da mão até o rosto, sentindo tontura e muita dor de cabeça, sentiu toda a boca ficar seca, e o frio do estômago se contorcer em enjoo. Novamente as vozes ficaram distantes, mas estava alerta demais para perder a consciência. Só tomou ciência de que estava em um veículo quando uma voz familiar, que não era a do professor de gastronomia, lhe chegou aos ouvidos. Afinal em outros momentos de dor excruciante já tinha escutado aquela mesma voz, falando exatamente a mesma sentença:

-- Puta merda Menino! -- o sotaque chinês era fácil de reconhecer, mesmo o motorista falando francês, tão logo reconheceu a voz, o carro começou a se mover em velocidade com certeza acima a permitida para as vias da cidade pitoresca:

-- O que…? O que eu to fazendo aqui?Jonah? Wilbert? Arghrnnn-hnn...!!! -- Renaud ainda parecia confuso, ainda grunia de dor e a sensação de tontura era forte, tanto que o Blanco pendeu para o lado trombando no ombro de Wilbert, por sorte o mais velho estava mantendo suas mãos altas, elas doiam muito, e estavam formigando, e em contraste com o corpo gelado que não parava de suar, era como se toda a extensão queimada estivesse febril: -- eu... a minha pressão caiu… droga…! arghhnnn-hnn...!!!

-- Fique quieto o porra, me deixa dirigir! -- O chinês resmungou buzinando contra alguns carros e reclamando no meio do caminho, cortando veículos e fazendo barberagens, certamente receberia umas multas, mas ele não parecia estar minimamente preocupado com multas naquele momento.

Wilbert

Aparentemente a figura do motorista conhecia Renaud. Contudo, não ficou impressionado a priori, a julgar que o garoto parecia conhecer muita gente na cidade de Cerise. Além do fato de estar mais preocupado com o tempo que gastariam para chegar ao hospital. Bem notou a tremedeira e a confusão do mais novo, baixando o olhar para observar o semblante alheio assim que ele trombou em seu ombro.

- Merda! Oi, Blanco!? Renaud! - arrumou os antebraços dele, mantendo-os cruzados e para cima para que o tecido queimado das mãos não batesse em nada. - Não vá desmaiar agora! Estamos indo para o hospital! - alertou o menor na esperança que ele ficasse menos nervoso.

Podia sentir a própria adrenalina correndo com a sensação de que precisava levar o menor o mais rápido possível para ser atendido, antes que ele chegasse ao ponto de perder os sentidos ou entrar em choque. O mais estranho era já ter presenciado cenas de acidentes na cozinha, mas nunca havia visto alguém ter as reações que o moreno estava tendo devido a queimadura. Ainda assim, não teve muito tempo para pensar na situação. Virou-se de lado, ajudando o menor a se manter firme apoiado em sua figura devido aos movimentos bruscos que o veículo fazia por estar correndo, e enquanto tentava manter as mãos queimadas do moreno erguidas, puxou o celular de seu funcionário.

- Qual era o número dela!? Inferno! - praguejou na segunda tentativa ao colocar os números do telefone da tia do garoto machucado. Impaciente com a ligação, teve vontade de quebrar a porcaria do aparelho, mas controlou-se por saber que sem ele, ficaria sem comunicação. - Merda! Atende logo!

[número não registrado]: Alô? Que--?
[Piers]: É Wilbert! Preciso que avise a sua família que o Renaud sofreu um acidente!
[número não registrado]: Como é que é, Funske?
[Piers]: Tô levando ele pro hospital! Avise a família dele!
[número não registrado]: Hospital geral? Eu vou até aí! Mas você deveria notificar St. Clavier para eles notificarem a família,  não ligar para mim primeiro, Funske. Você é muito irresponsável!
[Piers]: Mas que me--!
[número não registrado]: E não venha me responder que quem fez a merda foi você. Você é o professor dele, deveria saber disso, no mínimo!
[Piers]: E você é a t--!
[número não registrado]: Tuu! [chamada encerrada]

- Essa vadia desligou na minha cara?! Porcaria de mulher! - teve vontade de jogar o celular contra a lataria do carro, mas acabou franzindo o cenho e apertando o aparelho em mãos, fazendo um esforço maior para segurar o menor em uma curva acentuada. - Merda! Tem uma pessoa machucada aqui atrás, cacete! Quer matar a gente antes de chegarmos no hospital!?

Estava nervoso e inquieto pelo tempo do trajeto até o hospital. Tinha ciência que o motorista estava correndo, mas a tensão da situação apenas lhe deixava cada vez mais irritado. Baixou o olhar de novo para observar Renaud, a irritação dando lugar a apreensão devido a situação do menor, suando e tremendo como se ainda estivesse fazendo um esforço inumano para permanecer acordado.

Renaud

Por mais que quisesse se orientar sobre onde estava e o que estava acontecendo, sentia a cabeça latejar profundamente, a visão estava turva e os tremores perpassavam todo o corpo em movimentos involuntários. A única parte que sentia quente no próprio corpo eram as mãos, que pareciam febris e cozinhando ainda, mesmo que não estivessem em contato com nada. Sabia que estava com a pressão baixa, não tinha como erguer as próprias pernas e melhorar a circulação de sangue, então tinha de tentar se manter calmo e controlar a própria respiração. Mas era muito difícil manter-se concentrado na respiração se a dor nas mãos era tão incômoda, sentiu o frio no estômago se intensificar com os movimentos bruscos do carros e a sensação de azedo lhe tomar completamente por dentro. Cerrou os dentes e buscou respirar fundo com o nariz e ignorou momentaneamente tanto o chamado alarmado de Wilbert quanto a conversa que ele tinha com Jonah.

Por outro lado o chinês estava estressado ao volante, estava acostumado a pegar todo tipo de gente e deixar em todo tipo de lugar, e principalmente a fazer favores a amigos. Mas tinha algo naquela cena toda que mexia e revirava as tripas do chinês:

-- Se tá achando ruim vem dirigir no meu lugar! Fica calado também o porra que eu tô indo o mais rápido que dá! Se não for ajuda, desce do carro que eu levo o menino no hospital! -- Jonah espiou brevemente pelo retrovisor lançando um olhar furioso pro lado de Wilbert, mas em seguida desceu o olhar pra expressão de dor em Renaud, e então lembrou-se especificamente de quando tinha visto o outro daquele jeito. E lembrar daquela noite lhe fez ficar com uma expressão sinistra.

-- Fala com o… Richard ou o.. Paul…! -- Renaud soltou o ar falando devagar a expressão retorcida pela dor.

-- É o quê? -- Jonah reclamou de pronto, mas em seguida associou os nomes: -- ah porra eu tinha esquecido dos fedelhos ruivos! -- O chinês discou no telefone que deixava preso e fez a ligação no viva-voz

-- Falaí Flango, tô no meio do plantão.

-- Tô levando uma encomenda pra você, fresquinha…

-- Fresco quanto?

-- Gemendo de dor, mãos queimadas, suando frio, pressão lá embaixo, tá acordado por um milagre.

-- Tá. Vai pela Entrada C9, diz que ele desmaiou pelo menos duas vezes no carro, se perguntarem se ele tá sentindo dor, diz que não. Em caso de queimadura, quanto menos a pessoa sente pior é. Vai entrar direto na emergência. Como é a encomenda?

-- Rabugento, peludo vindo do inferno.

-- …! Tá…! Vou mexer minhas coisas aqui, chega em quanto tempo?

-- Dez minutos no máximo! OH FILHA DA PUTA SAI DA FRENTE TÁ VENDO A PORRA DO PISCA ALERTA NÃO? Como eu dizia… nove minutos.

-- Tá… tô esperando.

Jonah não acrescentou mais nenhum comentário na direção de Wilbert ou de Renaud! reclamando apenas quando alguém não saia de sua frente, buzinando com vigor. Por outro lado o jovem Blanco, desencostou do professor de gastronomia, e encostou a cabeça no estofado do carro, respirando fundo e compassadamente, os tremores ainda estavam ali, e o corpo ainda estava gelado, mas ao menos, não parecia que o menor iria desmaiar. 

Wilbert

Franziu o cenho de volta para o maldito chinês que dirigia de maneira irresponsável. Não conseguia negar que aquilo lhe incomodava, mas estava preocupado demais com a situação do moreno ao seu lado para se focar em discutir com o motorista miserável. Como se fosse lógico deixá-lo levar o menor sozinho até o hospital. Sabia que Renaud conhecia algumas pessoas na cidade, mas não era como se fosse confiar em todo vagabundo que aparecesse na sua frente simplesmente pela possibilidade dele ser um conhecido do Blanco.

Ouviu a conversa no viva voz e não conseguiu simplesmente ignorar o que lhe parecia ser uma rede de associados que o garoto Blanco conhecia. Aqueles sujeitos deviam algum tipo de favores a ele ou coisa parecida? Ao que parecia, no hospital já estaria tudo certo para o atendimento de Blanco, o que já lhe deixava alguns centavos menos tenso. Contudo, observou com maior estranheza quando Renaud desencostou de sua figura. A respiração dele parecia mais esforçada e os tremores ainda eram evidentes. Não hesitou em continuar mantendo as mãos dele erguidas a frente do corpo do menor para evitar impacto sobre a superfície queimada e continuou acompanhando o quadro dele.

A tensão sobre observar Renaud naquela cena dolorosa pela queimadura inesperada lhe deixou em alerta. E sequer se deu conta quando já estavam próximos de fato do tal Hospital Geral de Cerise. Os minutos para chegarem ali pareciam uma eternidade. Sequer se deu conta do celular que havia conseguido com seu funcionário tocando com outro número desconhecido. Ouviu o ruído da chamada, mas parecia ocupado demais em tentar evitar que o moreno magoasse o machucado e sofresse outro choque.

Até na entrada do hospital, parecia uma eternidade até que o veículo chegasse a tal entrada C9. Nunca havia visitado a sessão de tratamento ali para casos de queimaduras, mas esperava que ao menos alguém de fato pudesse receber Blanco e evitar que ele entrasse em choque. Com aqueles sintomas, tinha certeza que ele precisaria de auxílio para sair do carro, principalmente pelo fato das mãos dele estarem queimadas e não poder encostar nem sequer na maçaneta do carro.


Messages In This Thread
[Drive] Vicissitude [Renaud; Wilbert; Natalia; Dia; Sasha] - by Lil - 08-29-2021, 12:12 AM

Forum Jump:


Users browsing this thread:
[-]
Cerise News
Dia xx/xx/xxxx
População de Cerise come mais Patchdonald's que a média nacional de comedores de McDonald's, diz jornal Le Monde.

[-]
Birthdays
Today's Birthdays
No birthdays today.
Upcoming Birthdays
avatar (37)Skurai

[-]
Latest Threads
Trouble in Paradise [Carbella]
Last Post: Natalia
09-27-2023 04:34 PM
» Replies: 6
» Views: 28
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Last Post: Natalia
09-08-2023 11:08 PM
» Replies: 16
» Views: 42
Run Boy Run [Daniel]
Last Post: Qiang
09-07-2023 06:32 PM
» Replies: 6
» Views: 32

[-]
Recent Posts
Trouble in Paradise [Carbella]
Ao terminar de consu...Natalia — 04:34 PM
Trouble in Paradise [Carbella]
Carbella queria dize...Carbella — 10:02 PM
Julgando a vida alheia [Diodoro]
Voltou o olhar quase...Natalia — 11:08 PM