08-29-2021, 12:13 AM
Renaud
O chinês seguiu dirigindo de forma imprudentemente rápida, tinha clara urgência em chegar o mais rápido possível no Hospital, e tão logo se aproximou das vias que desembocavam no prédio de 3 andares, reduziu drasticamente a velocidade, apenas para não ser preso ou parado nas imediações do Hospital. Passou por todas as outras entradas e seguiu direto para o portão C9, que era de acesso restrito para funcionários e ambulâncias, mas como a chegada já era prevista o guarda liberou a cancela de acesso dando espaço para o veículo, assim que avistou o taxi se aproximar. Jonah estacionou o carro e mesmo dentro do veículo ainda, já tinha visão do seu contato ruivo, em uma roupa típica toda na cor azul escuro. Antes mesmo de desligar o motor do veículo o chinês se virou completamente na direção do loiro e do moreno mais novo:
-- Oh desgraçado! -- apontou para o loiro mais velho: -- Eu pego a merda do seu dinheiro depois. -- Jonah resmungou e em seguida encarou o Blanco que parecia mais pálido do que o sobrenome sugeria: -- Menino, seguinte... é o Richard que vai ficar de olho em você lá dentro.
-- Valeu cara… dou notícias… quando puder…! -- Renaud respirou fundo e acenou positivamente respondendo num fio de voz, com o ar parecendo lhe faltar, não tinha muito mais pra completar naquele cenário todo.
Renaud estava notoriamente suando frio, pois o corpo demonstrava uma temperatura ainda muito baixa, além de uma visível camada de suor. O jovem Blanco, saiu do carro tão logo Wilbert abriu a porta do mesmo e lhe deu caminho, agora já mais consciente conseguia manter as mãos erguidas sozinho, sem que o professor se mantivesse segurando. As caretas de dor ainda estavam bem presentes no rosto do moreno mais novo, e ainda era possível notar um tremor involuntário perpassando todo o corpo como pequenos espasmos. Renaud se sustentou em pé com algum trabalho, apenas no tempo suficiente para que o enfermeiro ruivo se aproximasse com uma cadeira de rodas:
-- Olá, e olá…! Enfermeiro Walker, Richard Walker. -- O ruivo se apresentou sem encarar o loiro mais alto, logo dando atenção a pessoa machucada em questão, ajudando a por Renaud sentado na cadeira de rodas, e sem pedir qualquer coisa para o professor, já se pôs a empurrar o moreno mais novo pra dentro do Hospital: -- Consegue conversar Renaud?
-- Consigo…! Mas vai ter de falar bem devagar…!
-- Tá melhor do que eu imaginava. Olha, você senhor…?! você, não tem cara de parente, mas vai servir como responsável hoje, não vai poder entrar na zona de emergência por motivos óbvios de contaminação! Mas pode ir direto pra recepção e dar abertura na entrada do Menin-... do Renaud no Hospital. Eu cuido do resto daqui por diante, afinal eu que trabalho aqui, não é mesmo? -- Richard falou com toques claros de ironia, porém ele não aparentava está estressado ou preocupado - o mínimo que se espera de um enfermeiro - e logo parou de empurrar a cadeira de rodas para enfiar a mão nos bolsos do Blanco, sacando celular e carteira e deixando nas mãos do loiro mais velho, logo em seguida voltou atenção para o Blanco, tornando a guiar a cadeira para a zona interna do Hospital: -- Siga a direita, primeira a esquerda, saia da zona amarela, siga reto no corredor até o fim, depois de passar da área de consultórios do pré-atendimento, você vai sair na zona de serviço social, e depois a primeira porta a direita já dá acesso a recepção. Gravou? Agora me deixe trabalhar!
Richard se afastou de Wilbert, guiou a cadeira de rodas para junto de outros enfermeiros, que já começaram as perguntas de rotina com o Blanco, o ruivo deu descrições como se já tivesse feito uma pré-avaliação, em verdade estava apenas dando a descrição necessária pra que o moreno fosse levado diretamente pra zona vermelha de atendimento, supondo que as queimaduras era mais graves do que pareceriam, e o problema de pressão do rapaz podia fazê-lo desmaiar a qualquer momento.
Renaud claramente detestava a sensação de estar em um hospital, o que ficava cada vez mais evidente na expressão de angústia que o moreno sustentava. Conforme o número de vozes estranhas aumentavam e o cheiro de assepsia ficava mais fácil de captar, Renaud parecia se encolher na cadeira de rodas. O moreno ainda espiou por cima do ombro de forma tímida na direção do estacionamento, depois olhou para o outro lado no caminho que o prof. Funske tinha tomado. Por fim, tornou a olhar para o corredor branco interminável a sua frente e sua única reação foi engolir em seco.
Assim que seguiu para a zona de atendimento o Blanco, foi transferido da cadeira de rodas para uma maca apropriada, os equipamentos já tinham sido pré-organizados por Richard que já sabia do que iria precisar pra adiantar o pré-atendimento do ex-colega de gangue. Renaud passou pelos procedimentos básicos, de ter pressão medida e foi posto num soro, já que o tratamento da mão iria demorar, e pelos suores acentuados ele precisaria repor líquido. Richard ficou lá todo o tempo, ele mesmo aplicando o soro com precisão, e o tempo todo tentando conversar qualquer coisa que fosse, mas sem sucesso. O Blanco apenas respondia com acenos positivos ou negativos de cabeça, ainda mantendo os ombros e o corpo em uma postura retraída e defensiva. Em seguida as mãos foram higienizadas com soro, além de ter sido retirado os restantes de curativo que estavam queimados junto a carne machucada dos ferimentos, por sorte as áreas mais gravemente atingidas foram justamente as com maior densidade de carne, que eram as palmas das mãos, deixando os dedos menos avariados. O ruivo dispensou os outros enfermeiros, ficando a sós momentâneamente com o Blanco, então estalou os dedos na frente do rosto do moreno lhe chamando a atenção, para que erguesse o olhar:
-- Olhe bem Renaud, está me ouvindo? Presta atenção, eu sei que é uma merda tá aqui, assim, mas eu tô tomando conta, a médica que vem falar com você é chegada minha, vai entender qualquer coisa “extra” que tenha acontecido. Então fique tranquilo, você já esteve pior que isso, e por vontade própria, não é? Só mais um dia de trabalho. -- O ruivo sorriu, conseguindo arrancar de Renaud apenas um suspiro mais conformado, seguido de um aceno de cabeça positivo em concordância.
Jonah depois de deixar Renaud e o acompanhante no hospital, seguiu para fora do estacionamento de ambulâncias, e ficou na parte reservada para Taxi. Puxou o celular e discou o número conhecido na agenda, estava notoriamente impaciente sentado batendo no volante com os dedos enquanto esperava qualquer sinal do outro lado da linha:
-- Desgraça atende... Ah-! Frater, seguinte... é o Jonah, oa... acabei de deixar o menino no Hospital, não sei o que poha vocês fazem nessa escola de rico, mas ele não tava bem não. Não tava mesmo... -- a forma do chinês de falar, alternava entre apreensão e estado de alerta.
- Ah, e aí, Jonah? - o moreno cumprimentou depois de atender, mas após prestar atenção na conversa, recebeu-a com um estalo de língua. - Tsc! Que merda foi que aconteceu? Tipo, bem bem ele não anda muito não, sabe, mas pra ir pro hospital... conta esse negócio direito! E conte logo que eu tenho que pedir táxi e só tenho esse celular!
-- Eu sou taxista, não recebo muita explicação não! As pessoas mandam dirigir e eu piso. -- O chinês bufou puxando o ar e soltando em um sopro fino, como quem estava fumando, e era bem verdade que precisava de um cigarro naquele momento: -- Um loiro alto engomadinho, cara de rico, entrou no meu carro com o Menino quase desmaiado e mandou pisar pro Hospital! O que você acha que eu fiz? Levei horas...! Pelo que deu pra ver ele tava com as mãos machucadas, queimadas ou coisa assim, ele mal tava falando Frater... Nem parecia ele.
A descrição da pessoa era vaga para Sasha. Seria algum professor? Do lugar de onde via, todo mundo era alto. -- Tá, tá, valeu o pé na tábua, mas e aí? Os dois foram pro hospital geral? Eu acho que tô ligado quem é o loiro. Tem uma cara de enjoado, né? Eu acho que é um professor daqui. Não te deu nome nem nada? Porra, e o menino já tava com a mão fudida. Se foram as duas dessa vez, não me surpreende que ele não tava falando. -- questionou, embora tivesse pressa em terminar a ligação. Então lhe ocorreu o óbvio. -- Ó, vou ligar pra ele pra ver se alguém atende, nem que seja o cara lá. E você, dá pra passar aqui em St. Clavier pra me buscar? Eu fico lhe devendo dinheiro, mas pago a primeira parcela com notícias. Rola?
-- Enjoado deve ser elogio pro sujeito, desgraçado de merda…! -- Jonah resmungou já mexendo nas próprias coisas e buscando carteira e isqueiro: -- Passo sim Frater, fica na conta, relaxa... Oa pelo que eu vi, estragou as duas mãos... mas eu falei com uns contatos no Hospital, então ele vai ser atendido rápido... Só puxar o ar e eu já colo aí.
-- Valeu mesmo, Jonah. Vou sondar por aqui também sobre o sujeito. Até mais. - Sasha desligou, já com o número de outros alunos na agenda, inclusive o de Isaac. Não demoraria pra saber pra quem endereçar todos os xingamentos que estava engolindo também. Jonah puxou o ar cheio de nicotina, porque aquela noite seria puxada, estava irritado, mal humorado, preocupado, e estressado, era uma péssima combinação pra quem ainda iria dirigir um bocado naquela noite.
Wilbert/Natalia
Estranhou como Blanco parecia conhecer pessoas úteis ali, mas não entrou em nenhuma discussão com o motorista ou o enfermeiro, preocupado que o garoto pudesse sair do veículo e ser colocado em uma cadeira de rodas para ser levado diretamente para o atendimento. Pelo menos o chinês miserável de direção imprudente, mas eficiente, não parecia mais preocupado com o dinheiro que com a saúde do moreno.
Olhou para Richard com desconfiança, mas como Renaud Blanco parecia à vontade com a companhia do ruivo enfermeiro, não reclamou, certo de que o setor de queimaduras era um lugar bem perigoso para algum cenário de infecção. Cortes e queimaduras eram acidentes comuns de cozinha, por isso conhecia a gravidade do atendimento. Contudo, tinha plena certeza que aquele tipo de reação não poderia ser apenas devido ao problema com a panela fervendo.
Ficou observando durante alguns instantes a direção que o enfermeiro estava tomando com aquela cadeira de rodas, ansioso com a ideia de que o Blanco estaria sozinho naquele momento. Não conhecia aquelas pessoas, não confiava nelas, mas era necessário fazer o que lhe era pedido ali. Os sujeitos não pareciam pessoas preocupadas em prejudicar o jovem rapaz, pelo contrário. Contudo, a falta de informação só contribuía para piorar seus nervos.
Seguiu para a recepção com a carteira e o celular do garoto em mãos e tão logo foi atendimento pela recepcionista de plantão, sua irritabilidade só começou a piorar quando se deu conta da quantidade de informações que precisava preencher na porcaria de um formulário para o atendimento emergencial. Estava ocupado no balcão, quebrando a cabeça para tentar lembrar das informações mais pessoais do garoto, muitas das quais sequer fazia ideia de que eram necessárias ali, quando o celular de Renaud começou a tocar. Em reflexo, atendeu o aparelho, colocando-o apoiado no ombro com seu rosto para poder continuar na sua tentativa de preencher o formulário enquanto equilibrava a ligação com quem quer que fosse que estivesse a procura do moreno naquele momento.
[20:31, xx/xx/xx] Frater: Ei, é o Renaud ou o cara que levou ele pro hospital? É Sasha, irmão dele. Tô atrás de tirar essa história de queimadura a limpo.
[20:32, xx/xx/xx] xxxx-xxxx: ... oi. O seu irmão já foi direto pro atendimento. Sou o cara que trouxe ele pra cá. O que o senhor quer saber? - pausa de quem afasta o telefone. - Oi, enfermeira. Posso colocar meu nome aqui? É. Nessa linha mesmo. Tcs. Merda. - volta pro telefone. - O que o senhor quer?
[20:31, xx/xx/xx] Frater: Primeiro eu quero saber como ele está; segundo, eu quero saber o que aconteceu e terceiro, eu quero saber se você tem nome. - a voz parecia pontualmente irritada.
[20:32, xx/xx/xx] xxxx-xxxx: Eu sou o professor de gastronomia dele. Houve a porcaria de um acidente no final da prova hoje e o seu irmão acabou queimando as mãos com uma das panelas, ele entrou em choque, a pressão dele deve ter caído e eu trouxe ele para o Hospital Geral de Cerise. Meu nome é... Wilbert... Funske... - falou enquanto escrevia o nome no formulário. - Sabe qual o tipo sanguíneo dele? Esse tipo de informação tem na carteira dele?
[20:31, xx/xx/xx] Frater: Porra, que merda de acidente foi esse que fode as duas mãos do menino e deixa ele em choque? E tá precisando de transfusão também? Não me fode, Funske. - Sasha rosnou do outro lado da linha - Eu não tô com informações dele aqui, vou pegar, mas olha na carteira de motorista. Deve ter. Foi aqui em St. Clavier essa merda? Já avisou a escola e aos parentes dele? Eu vou aí, to só esperando o táxi chegar.
[20:32, xx/xx/xx] xxxx-xxxx: Não sei se ele vai precisar da porra de uma transfusão. Eu não entrei com ele para o atendimento, eu tô aqui preenchendo essa porcaria de formulário! Vou ver na carteira! O acidente foi fora, na minha cozinha fora do internato! Ainda não tive como avisar a escola, mas a tia dele já sabe! Se os pais dele ou responsáveis vão vir, não sei, não faço ideia! Ah, achei essa merda! - pausa de quem encontrou as informações na carteira do Blanco. - Pode vir, não sei quando ele vai ser liberado! E não tem como arrumar esse tipo de informação agora…
[20:31, xx/xx/xx] Frater: Aí tu não entra com ele pro atendimento, mas espera que esse formulário vá servir de alguma merda? Os médicos aí tem que tratar dele imediatamente, acha que vão ficar esperando você responder um caralho dum papel? Você tinha ligado pra escola, pra escola contactar os pais dele e te passar algumas informações urgentes. Como você acha que os pais dele vão aí, telepatia, cara? Se teve tempo de ligar pra tia dele e de atender minha ligação, já tinha feito isso também. Eu tô aqui com a ficha dele de St. Clavier, pra você preencher essa merda desse formulário aí, e vou avisar a escola já que você tá aí enrolando. Avisa que pode responder algumas perguntas mais imediatas e depois você deixa pra mim ou pra tia dele responder o formulário, se der. - Sasha respondeu ainda com a mesma irritação, mas um tom urgente. - E vou te dar uma dica, Funske: segura sua língua e esse tom, porque parece que tu tá mais puto de ter que ajudar o menino que nervoso que essa merda foi na sua aula. E eu sei que urgências fodem com a cabeça da gente, mas bote a sua no lugar, junto com a sua humildade, que cê vai pedir desculpas que só um caralho pela sua negligência. Agora pede as informações enquanto eu ainda tô aqui. Não posso falar no telefone e avisar a escola ao mesmo tempo.
[20:32, xx/xx/xx] xxxx-xxxx: Já acabou? - fez uma breve pausa, verificando se alguém estava por perto antes de tentar começar a falar mais baixo, ainda que nervoso e estressado com aquela situação. - Olha aqui, Sasha, eu não sei com quem o seu irmão anda, mas o cara do táxi conhecia ele. O enfermeiro que deixou a gente entrar conhecia ele. E aparentemente ele tá do jeito que tá não é só por causa da merda de uma queimadura. Mas vou fazer que nem você disse e deixar essa porcaria de papelada incompleta para quando chegar aqui, vou deixar as informações que achei na carteira dele e você avisa esse raio de escola logo. Vou ver como é que ele tá assim que preencher metade disso aqui e te aviso.
[20:31, xx/xx/xx] Frater: O menino conhece gente. E pra minha sorte o taxista é amigo da gente, por isso que eu soube disso tudo. E não, ele não tava bem, mas se precisou duma merda de queimadura pra você notar, tem algo de errado com você também. Vai fazer o que você tem que fazer que eu também vou. E se precisar de mais informações, liga, Funske. - Sasha soltou um logo suspiro de frustração e então desligou o telefonema, pois só com as duas mãos livres conseguiria ir até algum professor responsável.
Deixou o telefone de lado, concentrando-se em como havia dito que usaria das poucas informações que havia na carteira do Blanco para completar os espaços em branco do formulário. Podia sentir a tensão do momento, diferente de quando estava trabalhando em algum de seus restaurantes, aquela situação era bem distinta dos momentos de pressão que passava no trabalho. Havia um desconforto além do esperado naquele cenário. Apesar de apreciar trabalhar dando aulas para os adolescentes e jovens adultos durante aquele semestre, não conseguia se importar com as variáveis de seu emprego naquele momento. Estava de fato preocupado com o estado de Renaud Blanco, a julgar que o quadro dele estava bem mais agravado que o de alguém que havia sofrido com uma queimadura de cozinha.
Após entregar o formulário ainda com alguns espaços em branco para preencher, informou que gostaria de saber sobre o estado do paciente por quem estava responsável. Foi encaminhado para outra zona, não sendo permitido todavia na área de atendimento dos pacientes devido ao risco de contaminação que o enfermeiro Richard já havia comentado sobre. Contudo, ficou em uma sala de espera que dava acesso ao lugar. Procurou com o olhar pela cabeça do ruivo para que pudesse conseguir alguma nova informação sobre o estado do garoto. Não se sentou, inquieto demais com a ideia de que a situação de Renaud pudesse piorar. O celular alheio e a carteira do garoto ainda estavam em suas mãos. Ao menos a emergência não parecia assim tão movimentada quanto imaginava que seria.
Pensou em ligar novamente para a tia do garoto para avisar que alguém da família já havia entrado em contato, mas achou melhor esperar. Se chegasse de fato a perder seu emprego, tinha de lembrar de agradecer ao atendimento do psicólogo que havia lhe aconselhado a fazer algumas trocas em seus hábitos. Em tempos normais, poderia já estar tendo um colapso nervoso. Porém, apesar da tensão que podia sentir em seus ombros e a dor de cabeça constante, não se sentia nervoso capaz de chegar aquele ponto. Ainda assim, continuou abordando todo e qualquer funcionário do hospital que passava por ali, perguntando pelo enfermeiro ruivo de nome Richard. A situação de entrada do jovem Blanco havia sido bem peculiar para achar que perguntar diretamente por ele seria algo eficaz.
Natalia segurou o grupo de prontuários que tinha em mãos, passando as páginas rapidamente para se recordar do nome dos pacientes enquanto ouvia sobre o tal favor pedido por um de seus colegas de trabalho. Não tinha problemas em fazer favores, contanto que fosse bem compensada depois. E pelo que conhecia do ruivo, ele não tinha uma fama de devedor, pelo menos não ainda com sua figura. Trocou de roupa na área dos funcionários, trocando seu horário para assumir o cargo de um de seus colegas na emergência.
Seguiu até a ala de emergência, vestida com seu uniforme de atendimento emergencial, o cabelo preso em um coque, rumando diretamente para o centro de distribuição dos enfermeiros com atendimento por medicamentos e exames clínicos. Cumprimentou os presentes, já buscando o exame da amostra de sangue do paciente que deveria atender. Não fazia ideia de quem era o sujeito, mas pela urgência de Richard, ele deveria precisar de certa discrição.
Observou os dados oriundos do resultado do exame sanguíneo apenas por protocolo, mas acabou passando o olhar mais vezes sobre os páginas enquanto caminhava para encontrar o paciente. Encontrou o mais novo no soro já, acompanhado pelo enfermeiro que parecia preocupado em monitorar as reações do moreno.
- Olá, garotos, como estamos hoje? - sorriu, entregando a prancheta com os prontuários no colo do enfermeiro ruivo para logo em seguida buscar seu estetoscópio e a pequena lanterna clínica. - Oi, Renaud. Queimou as mãos, não foi? - começou enquanto colocava as luvas e o estetoscópio para verificar a pulsação na região próxima da pele queimada das mãos do moreno. - Consegue mexer os dedos? Queimadura de segundo grau. Não chegou a danificar os nervos aparentemente. - fez uma breve pausa, estendendo o instrumento médico para verificar o batimento cardíaco e a respiração do rapaz. - Com licença. - pediu ao afastar o tecido do uniforme dele. - Olhe para mim, por favor. Hm. Não parece quadro de envenenamento, mas o batimento cardíaco está irregular, a queda de pressão não confere com o choque pela queimadura. Fez bem em colocar ele no soro, Richard. Tá bem desidratado. - pediu, afastando o estetoscópio para usar a lanterna. Segurou o rosto do moreno com uma das mãos, puxando a área da bolsa dos olhos para baixo, verificando a coloração dos vasos, da conjuntiva e o tempo de dilatação da pupila.
Guardou os instrumentos antes de se virar para Richard, indicando a pomada que deveria ser aplicada nas queimadura, o horário para limpeza dos ferimentos e o tempo de recuperação que não deveria levar mais de um mês para curar sem deixar cicatriz nas palmas, apesar de comprometer as digitais do moreno.
- Olha só, Renaud, a dor das queimaduras vão aliviar logo que o medicamento for aplicado, tá bem? Você vai ficar bem. - puxou uma das cadeiras de rodas do corredor para poder se sentar e ficar na altura do paciente, observando-o com maior atenção. - Mas vamos conversar um pouquinho. Meu nome é Natalia. - sorriu, tranquila, apesar de saber de seu objetivo ali. - É o seguinte. Deu uma alteração no seu exame de sangue e pelo que eu vi, o senhor está com um quadro de efeito colateral devido ao uso intenso de medicamento. O que foi que houve, afinal? O que é que o senhor anda tomando? - olhou rapidamente para Richard. - Você não drogou esse garoto não, né? Ele tá com um quadro de intoxicação. - repreendeu o ruivo, ainda que aparentando estar bastante calma. O que poderia acontecer? O moreno ter algum choque anafilático? Se ele tivesse algum choque mais grave, estava no lugar certo para ser tratado. O que precisava fazer era receitar o antagonista correto para diminuir o efeito colateral pela intoxicação, mas precisava saber exatamente o que o moreno estava colocando no próprio corpo para confirmar suas suspeitas. E ele estava consciente, o que ajudava muito seu trabalho de investigação.
Renaud
Apesar de estar ao lado de uma pessoa conhecida, a sensação de estar em um Hospital não lhe deixava tranquilo, estava notoriamente abalado, os ombros retraídos pra dentro, e as dores de ter o sangue coletado ou o cateter do soro aplicado sequer se comparavam com a sensação de estar com as mãos cozidas. O formigamento, ardência, como se a pele ainda estivesse exposta a temperatura elevada da panela. Tentou não prestar atenção a dor, mas desviar a atenção do machucado lhe deixava atento demais ao entorno e ao fato de estar em um Hospital e sem previsão de sair. Focou sua atenção no cordão pequeno que Richard usava por baixo da bata azul do hospital, repetiu várias vezes na própria cabeça:
[...]
“cordão prateado, fino e pequeno, ele não me pertence, ele é um cordão do Richard”
[...]
Conseguiu com algum trabalho compassar a respiração e fechou os olhos momentaneamente jogando a cabeça para trás, sendo incapaz de relaxar naquela situação. Mas ao menos o jovem Blanco conseguiu tomar mais controle da própria respiração, e foi bem em tempo de escutar uma voz estranha surgir dirigindo a palavra aos dois. Abriu os olhos e espiou a figura nova, e olhou dela para o ruivo, que lhe acenou positivamente. A única reação do Blanco foi respirar fundo e acenar positivamente as colocações que a mulher lhe fazia, ela falava rápido, e estava com dificuldade de prestar atenção no que ela estava falando.
Quando ela finalmente sentou, e ficou na sua altura, a encarou diretamente, embora a postura ainda fosse retraída, não deixou de observar a médica diretamente nos olhos. E quando ela supôs que o enfermeiro tinha lhe drogado, estreitou o olhar para a mulher mais velha. Richard por sua vez apenas deu de ombros, pondo uma das mãos na cintura, enquanto a outra segurava o prontuário na prancheta:
-- O menino é “limpo”, as alterações devem ser por outra coisa. Vou deixar vocês conversarem, e dá alguma notícia pro grandão. Como eu chamo ele, menino?
-- Funske… Wilbert Funske. -- Renaud comentou baixo, seguido de um suspiro.
-- Tá, vou buscar a pomada e os medicamentos injetáveis, volto logo. -- Dito isto, Richard saiu, deixando o jovem Blanco sozinho com aquela completa estranha. Renaud tornou a encarar a mais velha:
-- Madame Natália… -- O Blanco repetiu o nome da mulher estranhado ter de chama-la pelo primeiro nome: -- Eu estou em tratamento com ansiolíticos… -- o Blanco descreveu brevemente o nome e a composição química do mesmo, por costume e por saber que isso devia ajudar em alguma coisa para que a médica não lhe aplicasse qualquer medicamento que tivesse uma combinação ruim: -- e eu tenho pressão baixa… deve está na minha ficha… eu já… fiquei aqui antes… por muito tempo…! -- Renaud moveu de leve os dedos de forma desengonçada e com pequenos espasmos mediante a dor local. Torceu a expressão em desgosto e desviou o olhar para as próprias mãos destruídas, pra não ter que ficar encarando a médica por tanto tempo: -- Eu perdi peso nessas duas semanas… por causa de crise de estresse... e eu tenho pouca gordura no corpo… sou atleta… então… 1,75m, 72kg, não tenho alergias… não que eu saiba… e…! -- Renaud queria enxugar o próprio suor da testa, porque os fios escuros grudavam na mesma, apenas levou o rosto até o ombro já que não podia usar as mãos. Estava notoriamente incomodado: -- eu tomo muito analgésico… quase nenhum funciona mais… se quiser eu falo as composições deles… mas são muitos…! -- Renaus suspirou verdadeiramente cansado daquilo, e querendo sair daquele local o mais depressa possível, mas olhar para o conta gotas lento do soro, apenas lhe recordava que ainda ficaria por muito tempo sentado naquela posição.
Richard caminhou pelo espaço do Hospital, e apenas alertou pra outro enfermeiro que separasse a pomada requerida por Natalia, além das outras medicações que precisariam ser aplicadas. Assinou no prontuário as informações novas, enquanto era dada baixa nos medicamentos no sistema. Tão logo chegou outro enfermeiro lhe avisando que o tal Funske estava perguntando por ele a algum tempo. Seguiu para sala de espera onde ele estava permanentemente em pé e dando voltas no espaço:
-- Senhor Funske. -- falou em tom audível para chamar-lhe a atenção: -- A médica está fazendo avaliação do Renaud nesse momento, as queimaduras são de segundo grau, e não danificaram os nervos, em um mês com o cuidado adequado ele deve está completamente recuperado, apenas com perda das digitais. -- Explicou pausadamente, reforçando a parte da recuperação para aliviar o mais velho de que a situação era menos séria do que parecia ser: -- Como ele chegou muito desidratado e com a pressão baixa, ele foi posto no soro, então vai ficar aqui por algum tempo, as feridas já foram higienizadas, e vai ser aplicado analgésico e pomada anti inflamatória, sendo que enquanto ele estiver na área vermelha ele não pode receber visitas e nem ser acompanhado por ninguém, por causa do risco de contaminação.
Tinha de lembrar o grandão daquilo antes que ele começasse a lhe pedir para entrar e querer ficar por lá. De alguma forma não gostava muito da cara do tal Wilbert Funske, talvez porque tivesse a impressão de já conhecer o sujeito, estava certo de já tê-lo visto na internet ou mesmo na tevê, mas deixou o pensamento de lado por hora:
-- Quando ele for transferido pra zona amarela vai poder ficar acompanhado, normalmente não pode, porque ele é jovem e está consciente, mas com as mãos inutilizadas por hora, ele precisa de ajuda pra fazer as coisas. Se tiver qualquer dúvida, ou quiser avisar alguma coisa pra ele, a hora é agora. -- O ruivo pôs a mão na cintura, ciente de que depois teria de continuar o serviço e não iria ficar de leva e trás de informação tinha mais o que fazer.
Wilbert
A médica observou o enfermeiro de esguelha, considerando que o garoto era “limpo”. Pelo uniforme, ele não deveria andar metido com entorpecentes mesmo. Guardou o nome da pessoa que estava esperando por ele na sala de espera na memória e voltou a atenção para o garoto quando ele tratou de lhe explicar sobre o que fazia e que tipos de remédios tomava em sua rotina. Brevemente afastou o olhar do garoto para conferir se Richard já havia voltado com o medicamento que havia solicitado.
Sua expressão, todavia, se alterou para uma de surpresa e conclusão assim que o moreno chegou ao ponto de lhe explicar sobre os valores do próprio peso e o fato de ser um atleta. Ele ainda estava suando e era notório o esforço que fazia para se manter desperto ali. Não deixou de pontuar mentalmente que ele conhecia bastante sobre os medicamentos e seus princípios ativos, então ou ele era um hipocondríaco em potencial ou uma boa vocação para a área de farmácia.
- Não. Não. Já deu pra descobrir o que o senhor tem. - deixou o prontuário dele de lado e se levantou com um breve pedido de licença para poder pegar, com as mãos enluvadas, uma das pequenas toalhas esterilizadas que serviam para os procedimentos médicos e removê-la do saco plástico para aproximar o tecido do moreno. - Os analgésicos possuem um ciclo químico cuja função é suprimir a sensação de dor através do retardo dos conectores químicos no seu corpo. Parecido com o que fazem os antidepressivos e ansiolíticos. Os seus analgésicos devem ter parado de funcionar porque o medicamento para sua ansiedade tem esse efeito colateral de deixá-lo mais letárgico. O seu peso, altura e o fato de ser um atleta só colaboraram para que isso acontecesse. Basicamente o seu corpo deve estar gastando muito mais energia devido ao metabolismo atual dele do que de fato se preocupando em fazer a manutenção do seu quadro de receptores bioquímicos.
Tentou falar de uma forma mais pausada para que o moreno pelo menos se distraísse enquanto aplicava a pomada sobre a pomada antiinflamatória e cicatrizante nas mãos do moreno. O medicamento não tinha cheiro forte, mas como era de uma substância semelhante a uma pasta d´água, dava a sensação de frescor sobre a pele exposta. Como Richard já havia realizado a limpeza e assepsia ali, a pasta deveria abrir de maneira mais rápida. Tomou cuidado em passar a pomada em cada uma das mãos, entre os dedos, próximo as unhas.
- Como foi que queimou suas mãos, rapaz? - perguntou enquanto fazia o procedimento, separando novas toalhas limpas para ele poder repousar as mãos untadas de pomada sobre o tecido limpo. - Vamos deitar um pouco na maca, vamos? Eu preciso que fique deitado para que o medicamento se espalhe mais rápido. - afastou-se para separar a maca mais próxima para ele se acomodar e retornou para segurar o cachorrinho do soro. - Consegue colocar as mãos para frente e andar? Vamos devagar, filho. - sorriu, mais compreensiva com a desgraça do paciente.
[...]
O loiro não se decidia entre ficar andando de um lado a outro da sala de espera ou simplesmente permanecer sentado com o pé batendo enquanto aguardava alguma notícia do rapaz Blanco, o celular dele em mãos, tal como a parte superior de seu uniforme na cozinha que havia removido na tentativa de se acalmar e respirar com maior tranquilidade - o que foi meio inútil, considerando que ainda parecia inquieto. Estava de camisa e calça agora. Levantou-se na mesma hora que o tal enfermeiro ruivo apareceu para poder questioná-lo sobre o estado de Renaud, mas o homem foi mais rápido em lhe explicar e adiantar as informações sobre as restrições para visita ali.
Passou a mão livre pelos cabelos loiros e concordou com um breve aceno da cabeça quando o enfermeiro lhe adiantou sobre o processo de recuperação do garoto. Um mês era muito tempo.
- Por favor, avise a ele que o irmão dele ligou e já está vindo para cá. Falei com a tia dele pelo telefone, mas não acredito que ela vá fazer muita coisa nessa situação. - pediu, alguns centavos mais aliviados que aparentemente o acidente não havia sido tão grave quanto parecia. Chocante seria ele perder o movimento dos dedos ou o trato fino por conta das queimaduras. - Obrigado. - dirigiu-se ao enfermeiro antes dele voltar para o próprio trabalho.
Voltou até uma das cadeiras da sala de espera na esperança de conseguir respirar um pouco mais aliviado diante de todo caos. Ao menos, era o que esperava, mas não deu sequer cinco minutos desde a partida do enfermeiro para o telefone do Blanco começar a tocar novamente. Franziu o cenho, encarando a tela do celular e deixando passar alguns toques antes de finalmente atender, imaginando que só poderia ser mais alguém procurando por notícias do jovem Blanco.
[20:45, xx/xx/xx] Deodatos: Porque demorou tanto pra atender o telefone, Renaud? A Assessoria de St. Clavier não soube informar nada do seu paradeiro.
[20:45, xx/xx/xx] Wilbert: O garoto tá no atendimento agora. Sou o professor dele, Funske. Quem fala?
[20:46, xx/xx/xx] Deodatos: Funske, justamente a segunda pessoa com quem eu gostaria de falar. Aqui é Deodatos Blanco, sou pai do "garoto", explique o que aconteceu, já que quando falei com o secretário em St. Clavier ele sequer parecia ser ciência do ocorrido.
[20:46, xx/xx/xx] Wilbert: Pai? Hm. Ele sofreu um acidente na cozinha hoje. Queimou as mãos em uma panela. Trouxe logo ele para o hospital. Falei com o irmão dele a pouco no telefone.
[20:47, xx/xx/xx] Deodatos: Sim. Pai. Eu tenho muitas coisas para reclamar e apontar, mas quero saber como ele esta primeiro. responda.
[20:47, xx/xx/xx] Wilbert: Ele vai ficar bem. As queimaduras foram de segundo grau, ele vai ficar sem poder usar as mãos direito por algum tempo. Tava desidratado e a pressão caiu, mas ele não desmaiou. Daqui a pouco ele vai ser transferido para a área amarela.
[20:48, xx/xx/xx] Deodatos: Qual a estimativa de melhora, até que ele possa usar as mãos de novo? Vão ter sequelas graves? Responda.
[20:48, xx/xx/xx] Wilbert: Não sei. Vai depender do tratamento, acredito. Sequelas? É uma queimadura de segundo grau. Ele deve ficar com cicatrizes nas mãos, mas ainda vai usar elas.
[20:49, xx/xx/xx] Deodatos: Veja bem Senhor Funske, agradeço por ter levado meu filho ao Hospital, mas sendo bem sincero, não fez mais que a sua obrigação, visto que o acidente ocorreu justamente na sua cozinha, isso porque diga-se de passagem Renaud é um Químico que trabalha em laboratórios manuseando produtos perigosos a três anos, e nunca, passou por nenhum acidente nem perto do que aconteceu hoje. E espero que esteja acompanhando a minha linha de raciocínio, pois o senhor é totalmente culpado pelo que ocorreu hoje, e com certeza vai ser responsabilizado por isso, e o que estou exigindo é que se não se dispôs a ligar para instituição para avisar a família do "garoto", o mínimo que espero é que tenha informações concretas para me passar. Consegue entender o que estou dizendo?
[20:49, xx/xx/xx] Wilbert: Eu já disse ao senhor o que eu sei. Não posso entrar para ver o garoto agora. O irmão dele disse que estava vindo para cá.
[20:51, xx/xx/xx] Deodatos: Mesmo que o irmão dele vá, ele não se responsabiliza pelo Renaud, não pode assinar nenhum documento ou tomar partido sobre qualquer coisa que venha a acontecer. Não adianta ficar empurrando a responsabilidade para o menor, quando era algo muito básico que é função sua enquanto professor e responsável pelos alunos fora da instituição de St. Clavier. Isso porque estou falando de contatar a instituição que paga o seu salário com o meu dinheiro senhor Funske. Nem cheguei no mérito do trabalho simples de manter a segurança dos mesmos alunos dentro do seu espaço de trabalho. E eu devo dizer senhor Funske, que estou profundamente desgostoso dessa situação, e dos desdobramentos dela. A sua falha de gestão de aula, vai atrasar a vida do meu filho por semanas, quem sabe meses? Se não é capaz de gerenciar adolescentes na sua cozinha, não se predisponha a fazê-lo. Eles não são ratos de teste para trata-los como faz aos seus funcionários costumeiros.
[20:51, xx/xx/xx] Wilbert: Dos meus funcionários cuido eu. E o que foi feito na cozinha hoje foi planejado há semanas. Se o senhor quer me ensinar o meu trabalho ou recuperar o valor do seu investimento, senhor, fique à vontade para tratar diretamente com a instituição. O que ocorreu foi um acidente. Quer o número do meu advogado? Ou um pedido de desculpas formal em uma carta? Pode ir direto ao ponto, porque francamente eu parei de prestar atenção no que o senhor está falando quando começou a tratar do "atraso" na vida do seu filho. O senhor vai vir ao hospital ou não?
[20:52, xx/xx/xx] Deodatos: Eu não estou na França, e eu espero que ele não fique no Hospital tempo o suficiente para que eu chegue em Cerise. E sinceramente, Funske, tenha o mínimo de interpretação da minha fala. Quando falo de "atraso" falo em todos os aspectos da vida cotidiana de Renaud que envolve usar as mãos. E sim, eu espero um pedido de desculpas formal, porque o erro foi seu, não meu, e muito menos do meu filho. O meu advogado vai entrar em contato com o seu, não se preocupe com isso. E por fim, eu esperava minimamente que o senhor cuidasse bem dos alunos que estão sob sua responsabilidade já que isso é o seu trabalho e parece que o senhor não o fez adequadamente. Não me cobre a paciência quando o filho que está hospitalizado é o meu.
[20:52, xx/xx/xx] Wilbert: Ele vai ficar bem da queimadura, mas não sei dizer quanto tempo isso vai levar. Posso perguntar diretamente ao médico responsável por ele quando tiver a chance. Além do que já lhe falei sobre o estado dele, eu não sei de mais nada. Também estou esperando notícias. Eu aviso que o senhor ligou quando o irmão dele chegar.
[20:53, xx/xx/xx] Deodatos: Não espere que o irmão dele de fato chegue aí. Assim que tiver qualquer notícia relevante me ligue, principalmente quando ele estiver em condições de conversar. Dito isto, eu ainda fico no aguardo das suas desculpas formais Funske.
Desligou. Fechou o celular em mãos e levou as mãos até o próprio rosto, a dor de cabeça lhe deixando frustrado com a lembrança de todos os acontecimentos que haviam lhe trazido até aquele momento. O pai do garoto estava certo. Não deveria ter acreditado no menor e permitido que ele fizesse a prova de gastronomia junto com os outros alunos. Ele não estava bem desde o começo daquela prova. Ao que parecia, para chegar naquele ponto, ele não estava bem já há algum tempo. E ao que parecia, a família dele não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo com o garoto. Maldita havia sido a hora em que se deixou levar pela ilusão de que havia conseguido transmitir alguma ideia para a cabeça daquele rapaz. Agora ele estava ali na emergência após o choque da queimadura, havia deixado seus outros alunos aos cuidados de um de seus funcionários no bistrô, o mesmo homem que não tinha nenhuma obrigação de cuidar dos menores. Além disso, a tia dele não lhe serviria de nada, o irmão dele já havia lhe ameaçado e o pai ainda era um miserável que sequer estava no país quando o próprio filho sofreu o acidente. Precisou respirar fundo algumas vezes antes de voltar ao seu ciclo de espera, pois a noite estava longe de acabar e antes que acabasse, precisava lidar com o desgosto da família Blanco.
Renaud
O Blanco estava letárgico, embora sentisse o coração acelerado, o corpo todo parecia gelado como se o sangue não estivesse circulando rápido por todo ele, as vezes tinha essa sensação quando estava sozinho no próprio quarto - coração acelerado, mãos suadas, e frio - estava tendo uma crise de ansiedade? Devia estar a 20 centavos de ter uma. Encarou a médica com os olhos escuros, como se enxergasse através dela enquanto ela lhe explicava através de termos biológicos seu problema, entendia o que ela dizia mas não absorvia. Piscou demoradamente, e desceu o olhar para as próprias mãos desgraçadas, que doíam e mistura de queimação e frio proporcionado pelo remédio lhe deixava confuso, e torceu a expressão em uma careta pela dor incomoda, respirou fundo, sem sentir o ar lhe chegar de fato e pendeu a cabeça pra frente quase como se fosse de fato perder a consciência mas se manteve.
Se atentou apenas quando ela lhe ofereceu ajuda para levantar para que pudesse deitar, mas não queria deitar, isso indicaria que passaria mais tempo ali, e acenou negativamente.
-- eu… não quero… mas precisa? não… é…? Não me pergunte coisas… que eu não… posso decidir… -- falou num tom arrastado, baixo, quase como um murmúrio. Ergueu os braços, mas não tinha força para erguer o próprio corpo, estava exausto em tentar se manter acordado: -- eu estava na cozinha… tinha prova… passamos cozinhando… eu cortei carne e montei pratos… tudo bem até que no fim… pra fechar a cozinha… um aluno com a panela quente se descuidou… eu fui ajudar… na minha cabeça eu ia chegar a tempo de segurar direito… mas não deu … meu corpo… meu corpo parecia em câmera lenta… minha cabeça estava normal… mas meu corpo não… então eu lembro da dor… do som da panela no balcão… água chiando quente… e depois todo o resto é chegar aqui… e não desmaiar… -- Renaud tossiu um pouco, sentindo a garganta seca e a cabeça doer, estava cansado e com enxaqueca.
Richard que já tinha dado muitas voltas naquele dia naquela enfermaria, voltou em tempo de ver o ex-colega de bando tentando por os pés pelas mãos e se levantar sozinho. E se Aproximou de pronto, pedindo licença para a médica: -- Não se preocupe Arlovskaya, ele é teimoso, e as vezes não têm noção quando não consegue fazer algo sozinho. Deixe o trabalho braçal comigo. -- O ruivo segurou renaud abaixo dos braços, deixando as mãos machucadas longe da área de contato, ergueu o corpo dele com algum esforço e o acomodou na maca: -- pronto! nem foi tão difícil, exceto que você tá gordo, vamos fazer um regime não? -- brincou, enquanto organizava o soro, verificando se o sangue não tinha voltado pela movimentação do paciente.
-- Vá se ferrar Richard…!-- o Blanco resmungou, deitando a contragosto, e respirando fundo levando as costas da mão contra o rosto para aparar a luz do hospital sobre o rosto.
-- Se está reclamando nem vai ficar muito tempo por aqui. -- Richard verificou a pressão de novo após acomodar Renaud apenas para atualizar os dados na prancheta e se virou para Natália ficando de costas para o ex-colega momentâneamente e falou baixo.
-- E ai Arlovskaya, acha que pode ajudar ele sem que isso vire um bolo de papéis e perguntas? Acha que dá pra simplificar? Colocar queimou as mãos por uma dor de barriga não vai colar. -- perguntou na maior sinceridade, imaginando que a cúmplice de serviço já tinha se ligado que não era pra por no relatório tudo que realmente rolou ali.

