08-29-2021, 12:14 AM
Dia/Sasha
Dia não desligou na cara de Wilbert apenas porque ele merecia. Na verdade, se precisava ligar para os pais dele, sabia que teria trabalho. Mesmo sendo uma Blanco, precisava marcar na agenda para falar com Deodatos, o que não fazia quase nunca. E menos ainda tinha contato com Beatrice. E a ideia de ligar para os Blanco e terminar sendo atendida por sua mãe, que se soubesse que algo aconteceu com Renaud, afundaria Wilbert na lama com a frieza de quem faria isso só por vingança pessoal não lhe agradava. Decidiu então ligar para St. Clavier ela mesma. Porque Wilbert não tinha essa competência. Só que levou mais tempo para conseguir ser atendida do que gostaria. Só depois pegou sua moto e partiu para o hospital.
Enquanto isso, Sasha só fez pegar a ficha pessoal de Renaud usando seus meios e estacionar a cadeira de rodas no pátio para que Jonah lhe levasse com emoção até o hospital. Mas nem se importava, desde que pudesse ajudar o menino. Deu um toca aqui de agradecimento para o chinês antes de empurrar a cadeira de rodas pela recepção, e, sem sucesso, tentar chamar a atenção da atendente no balcão alto. Aquela merda daquele balcão mais alto que devia sempre lhe fazendo inferno.
- Eu estou aqui por meu sobrinho, Renaud Blanco. Ele veio para a emergência com uma queimadura, acompanhando Wilbert Funske. Meu nome é Dia Blanco. Preciso vê-lo. – Dia chamou no balcão, ignorando o cadeirante do lado do balcão.
- Eu também vim ver o Renaud Blanco! – Sasha falou mais alto para chamar a atenção da atendendente, que para sua sorte, não era a que geralmente estava em seus horários de consulta.
- E o senhor é o que dele?
- Sou irmão! Sasha! – Sasha falou com muita naturalidade, também porque soubesse que se anunciasse como “amigo”, teria que esperar notícias dali mesmo.
- Você não é- - Dia voltou-se para o moreno, franzindo a testa, porém parou ao ver a expressão preocupada na cara do moreno. Renaud tinha amigos diferentes do que a classe Blanco teria. Eles pareciam mais leais. – Como você está diferente, sobrinho.
- Isso não é hora de saudosismo, tia. Tô com a ficha da escola do Renaud, informações importantes. – Sasha falou de um modo mais incisivo.
- Olha, não posso deixar que os dois entrem. Vai tumultuar lá dentro. – A atendente pediu compreensão.
- Bom, o meu sobrinho não pode ficar desacompanhado lá dentro. E ele sabe mais do Renaud que o homem que o trouxe aqui. Eu vou pedir que ele se retire da sala de emergência, já que somos parentes próximos. Ele já fez o trabalho dele. Prometo não tumultuar, senhora. – Dia falou com a polidez e a delicadeza de uma dama da sociedade.
- Bom, nesse caso...
Dia empurrou a cadeira de Sasha pelos corredores do hospital, seguindo o que parecia ser a voz mais alta conversando no telefone. Ela e Sasha ouviram um silêncio momentâneo, mas já tinha sido tempo de localizar Wilbert.
- Cheguei! Como está o menino!? Ele está sendo atendido?! – Sasha anunciou, o papel da escola em mãos. – Aqui tem os dados dele. Ainda precisam de tipo sanguíneo, essas coisas?
- Funske! Alguma notícia do Renaud? Eu liguei para a escola para avisar do acontecido. Como é que você pode ser tão devagar para fazer algo tão simples? Não sei se meu irmão e minha cunhada virão aqui tão cedo, mas é bom se preparar para abaixar a cabeça, porque eu sou muito mais compreensiva que os dois. – Dia reclamou, deixando seu suposto novo sobrinho para fazer o que tinha de fazer.
Natalia/Wilbert
A médica do hospital agradeceu pela ajuda do enfermeiro ao acomodar melhor o paciente na maca enquanto tratava de arrumar o cateter para que ele ficasse no soro. Precisava aplicar o supressor da droga que ele estava tomando ou ele corria o risco de ter um choque pela sinalização química da queimadura e os sinais vitais em alerta. Fez tudo muito rápido, com a presteza de quem estava acostumada a trabalhar em condições bem piores que aquelas que um hospital poderia lhe oferecer.
Riu baixo quando Richard lhe perguntou sobre o prontuário e apenas colocou a caixa do medicamento que havia usado em seu próprio jaleco, ocupada em verificar os sinais vitais do moreno acamado, colocando uma luz sobre a pupila dele e logo em seguida dando atenção especial às mãos dele.
- Fique tranquilo, meu bem, trate de arrumar um transporte para ele, assim que o supressor fizer efeito e o curativo das mãos estiver pronto, ele pode ir para casa. Não é como se queimaduras domésticas não fossem comum por aqui. - deu de ombros, omitindo em seu relatório o uso do supressor para os ansiolíticos e os medicamentos de receita psiquiátrica. - Ele vai ficar bem, mas eu vou precisar alterar a dosagem e a composição dos medicamentos enquanto ele estiver se recuperando das mãos. E vai precisar trocar os curativos todos os dias até a cicatrização ficar completa. Sorte que você tem um enfermeiro pessoal, heim garoto? - estendeu a mão, tocando a testa do moreno, afastando os fios escuros do rosto dele, notando que ele estava suando frio. - O processo de desintoxicação é um pouco desagradável, mas você vai se sentir melhor em… - fez uma pausa, calculando mentalmente a posologia com o tempo de ação do supressor. - … uma hora. - afastou-se do rapaz, olhando para Richard. - Fique com ele. Eu vou passar no almoxarifado e volto logo.
Passou pelo enfermeiro ruivo, trocando olhares com ele, ciente de que ele também sabia que o almoxarifado significava que ela iria subtrair medicamentos do hospital para que o garoto pudesse ser medicado fora dali assim que melhorasse. A médica deixou a ala de pronto atendimento, alterando alguns prontuários de pacientes também em atendimento rapidamente, seguindo para a farmácia com a tranquilidade de quem sabia o que estava fazendo.
[...]
Finalmente havia se sentado após falar com o pai do garoto do telefone. O pé ainda batia inquieto no chão em um tique nervoso típico. Estava com o celular do menor em mãos, a cabeça baixa e o cenho franzido em frustração por ainda estar longe de terminar aquela noite. Não conseguia parar de pensar que de todas as vezes que poderia ter feito um favor ao Blanco, naquela prova era justamente o pior momento para fazê-lo. Se tivesse proibido o garoto de fazer a prova, não estaria naquela situação.
Não teve muito tempo para pensar no que poderia ter acontecido, pois logo se fizeram presentes, vindo pelo corredor de acesso a sala de espera, a tia de Renaud e um rapaz cadeirante que, se bem lembrava, já havia visto por St. Clavier. Não precisava se esforçar muito para juntar os pontos, considerando que aquele deveria ser o tal de Sasha. Levantou-se para encontrá-los, estendendo a mão ao receber o papel com as informações de Renaud.
- O pai dele está em Paris, acabei de falar com ele no telefone. - entregou o aparelho para o cadeirante, verificando no papel que lhe foi entregue se havia alguma nova informação que não havia descoberto na carteira do garoto. Franziu o cenho com o alerta da tia do garoto sobre os pais dele, certo de que aquela família sequer fazia ideia do estado do rapaz antes dele sofrer o acidente. - Pro inferno com a família dele, Dia! Você não estava lá quando toda essa merda aconteceu, então pare de perder seu tempo me acusando de qualquer merda! - brigou com a mulher, logo voltando-se para o cadeirante, respirando fundo antes de explicar: - Eu falei com o enfermeiro que tá ajudando no atendimento dele agora a pouco. As queimaduras foram de segundo grau, ele vai ficar sem poder usar as mãos direito por algum tempo, mas vai ficar bem. Ele disse que o garoto tava desidratado e a pressão caiu, mas ele não desmaiou. Ao que parece, daqui a pouco ele vai ser transferido para a área amarela. Não precisou de transfusão, usei as informações da carteira dele. Aqui! - entregou a carteira do garoto também para o irmão dele, certo de que ninguém ainda poderia entregar na ala de urgência e emergência quando a porta se abriu novamente.
Pela passagem, surgiu uma médica, alta, cabelo preso, olhos claros e gorducha. Tal logo ela saiu para a sala de espera, uma mulher se aproximou, aflita, perguntando sobre a mãe, uma idosa que também deveria estar em atendimento.
- A mãe da senhora vai ficar bem, já tiramos o raio x e não tem nada fraturado, senhora. Daqui a pouco ela deve ser liberada para a ala verde, a pressão dela subiu, então estamos mantendo ela em observação, mas fique tranquila. - sorriu, amistosa com a mulher quando enfim notou a presença do ser alto e nervoso, acompanhado de uma morena e de um de seus pacientes sumidos. - Peyrac! Heeey, rapaz! Tá fazendo o que por aqui? O atendimento do consultório não é hoje, querido. - brincou, acenando rapidamente para o que por um instante pensou que poderiam ser os pais dele. - Vocês são pais dele? Mãe jovem a sua, heim. - apontou, tranquila, considerando que havia acabado de traficar medicamentos para um certo paciente na emergência.
Dia/Sasha
Dia certamente não esperava que Wilbert tivesse recebido uma ligação de Deodatos, justo porque ele deveria estar em Paris trabalhando. A escola certamente tinha mais contato com ele que a própria família. Mas pelo menos isso dava alguma brecha para todos se recomporem. Porém, antes que pudesse ficar aliviada, Wilbert tornou a berrar certamente as piores palavras que ele poderia dizer com a família de Renaud ali, porque ela era um Blanco.
A morena segurou a língua apenas porque Wilbert estava dando detalhes sobre Renaud ao tal Sasha, e ela também estava muito curiosa para saber, mas certamente estava furiosa com aquela resposta desnecessária do loiro. Assim que ele calou a matraca, ela o encarou seriamente.
- Estou apontando sua irresponsabilidade de não ter ligado para a escola para avisar, não lhe acusando de nada. Mas se quer saber, se você acha que mandar a família dele pro inferno porque eles estão preocupados é mais fácil, parabéns. Parabéns, seu grande imbecil. E ainda bem que eu sou só tia dele, não a mãe, não o pai. Engula seu ego. Engula sua frustração de não conseguir impedir o acidente. Engula que você errou. Engula e deixe descer. Porque você é culpado também. – Dia pontuou num tom muito sério, encarando Wilbert sem desviar o olhar uma vez. – Você espera que se você continuar gritando e se esquivando de pedir desculpas, vá mudar o que aconteceu? Não vai. Só deixa mais evidente que você prefere salvar seu rabo, e que está se lixando pro que aconteceu com o Renaud. Ah! Pro inferno com você, Funske! – Dia certamente tinha perdido qualquer vontade de lidar com Wilbert, até sacudiu as mãos para o ar antes de ir arrumar um lugar pra sentar.
Sasha não queria lidar com Wilbert, deixaria a tia dele para fazer o que precisava fazer, e ela parecia não querer mais amizade com ninguém. Era uma mulher com gênio mais forte do que a cara. Estava apenas segurando a carteira dele e guardando no bolso da calça para quando fossem pra casa. Conhecia bem aquele hospital, podia esperar ali até ter uma hora concreta dele receber alta, mas logo, surgiu um rosto conhecido da emergência.
- Doutora! Que bom ver você! Esses não são meus pais não. Estamos aqui por um garoto chamado Renaud Blanco. Aquela é a tia dele e esse é o cara que trouxe ele aqui. – apontou, sequer tendo vontade ou coragem de fazer piada e perder uma informação mais importante que as de Wilbert. – Não sei se você o viu aí na emergência. Ele queimou as mãos. Queríamos ter atualizações sobre ele, se desse. Como ele tá? Quanto tempo vao ficar? Quebra esse galho, doutora. Esse menino é muito importante pra gente.
Natalia/Wilbert
O chef rangeu os dentes ainda diante de todo o discurso da morena. Ela falava como se não estivesse preocupado com o garoto, além de lhe evidenciar o que já sabia. Tinha discernimento de que precisaria se desculpar pelo acidente, por isso ter acontecido em sua cozinha, em sua aula, sob sua supervisão. Encarou a mulher de volta, não esperando que ela entendesse sua preocupação ou sua versão dos fatos. Sabia que havia algo de errado com o garoto, por isso parou para ouvir a médica também que parecia lhe confundir com alguém da família do cadeirante.
- Olá, tudo bem? - a médica acenou brevemente, pontuando mentalmente que os três deveriam estar ali por conta do garoto que havia dado entrada há pouco tempo na emergência pelo caso de mãos queimadas. Sorriu para o cadeirante, parando para observar melhor o loiro mais alto e a morena irritadiça. - Tive que medicar ele, mas daqui a uns… - fez uma pausa, conferindo no aparelho celular o horário. - … quarenta e cinco minutos eu devo liberar ele, provavelmente. - guardou o celular, colocando as mãos nos bolsos do jaleco sobre o uniforme de atendimento da emergência. - Ele vai precisar trocar os curativos todos os dias e vai ganhar atestado para o tempo que não puder usar as mãos, mas daí vocês podem ajudar ele com isso, não é mesmo? Ah sim, e os movimentos não serão comprometidos, não pelas queimaduras. - fez questão de enfatizar, observando que o loiro alto estava usando um uniforme de chef de restaurante. - Acidente de cozinha?
- Ah… sim, senhora. - Wilbert respondeu à médica, confuso pelo ar mais relaxado da mulher ali no próprio trabalho, como se não estivesse levando o ocorrido realmente a sério. - A senhora quer dizer que ele vai ter os movimentos das mãos comprometidos? - questionou, incerto de que o caso do garoto era tão sério assim a ponto de o que fosse que ele estivesse passando, estaria colocando os reflexos dele em risco, tal como o que presenciou na cozinha.
- Talvez? Sim. Com certeza? Eu precisaria fazer novos exames com ele, mas ele está muito inquieto, vamos deixar isso para depois que ele começar a se recuperar das queimaduras. - explicou, aproximando-se devagar, observando por sobre o ombro o movimento da sala de espera antes de falar mais baixo: - Vocês, por acaso, sabem se ele tem um psiquiatra, médico ou farmacêutico conhecido que ele tenha visto esses últimos meses?
Wilbert observou os outros dois. Não fazia ideia de que tipo de acompanhamento médico o jovem Blanco deveria estar tendo nos últimos meses. Sabia que ele estava prestes a se formar e que sua disciplina era apenas uma optativa pela qual ele escolheu passar.
Dia/Sasha
Dia ficou feliz que Funske tinha decidido ficar bem quietinho em seu lugar após ouvir o que tinha a dizer. Honestamente não estava com paciência. Só deu um suspiro longo quando a médica disse que Renaud logo poderia ir embora do hospital, e notou que o tal Sasha também tinha ficado bem mais satisfeito de ouvir isso. Entretanto, tinha algo que Sasha não tinha gostado na atitude da doutora Arlovskaya. Embora concordasse que ajudaria Renaud com as ataduras, pensou que ela não tinha necessidade de dar uma indireta sobre outras condições de Renaud daquela forma. Ou ela era direta pra falar que o garoto não estava bem psicologicamente, ou ela não precisava falar em absoluto. Podia não ser o médico ali, por ora, não sabia no que isso afetava a coisa toda.
Dia cruzou os braços para ouvir a médica. Não tinha como ajudar Renaud em St. Clavier, e supunha que se ele fosse para casa, não era como se os pais dele fossem dispensar todos os compromissos para isso. Se ele fosse para a escola seria melhor para ele a longo prazo. Porém, sobre tratamento psicológico, não tinha ideia. Não era tão próxima assim de Renaud, então não sabia muito. Sacudiu a cabeça em negação. Só sabia que o tom da doutora mais baixo que o normal implicava que o que quer que ele tivesse tomando por conta de um psicólogo ou por conta própria não deveria ser bom.
Sasha franziu a testa quando a médica fez aquela pergunta ao grupo, mas depois se segurou de fazer cara feia porque sabia que Renaud não gostaria que duas pessoas estranhas a ele soubessem o que ele andava passando. Era melhor se fazer de desentendido e dar um jeito pra doutora falar direto com o doutor lá de St. Clavier, e não com os pais de Renaud, que provavelmente nem sabiam de nada, e Renaud provavelmente não queria que soubessem.
- Ah, doutora. Eu trouxe a ficha dele da escola pra ver se ajudava. Diz que ele faz atendimento psicológico compulsório desde o primeiro ano de St. Clavier, por indicação dos pais. Aqui tem o nome dos médicos. O último é o atual psicólogo da academia. Esse tipo de informação é melhor se você conversar direto com alguém que saca dessas coisas de medicina, não? – Sasha falou, apontando na ficha que tinha nas mãos as informações que a doutora Arlovskaya precisava. – Espero que a ficha ajude. Eu tô aqui só pra cuidar do Renaud, então já tô bem feliz de saber que ele vai poder ser liberado em... – pegou o celular do bolso, apertando no botão para acender a tela. - ... quarenta e dois minutos? – abriu um sorriso amarelo. – A gente vai poder vê-lo até lá? Ou só ficar esperando?
- Ah, doutora. E posso dispensar o professor dele que o trouxe até aqui? Suponho que ele tenha outros alunos para cuidar e apaziguar depois desse incidente. Já tem um membro da família aqui, então suponho que ele possa ir? – Dia perguntou, não necessariamente porque queria se livrar de Wilbert, mas porque ele em nada contribuiria além de ser um grande monolito mal humorado.
Renaud
Havia algo errado, certamente tinha, que tinha se machucado de forma mais severa, já tinha percebido, e que não era do mesmo jeito com o qual já esteve desgraçadamente machucado na rua, mas de uma forma que lhe impossibilitava de cuidar de si mesmo sozinho. Está no hospital em nada lhe ajudava a acalmar-se, e depois que Richard se afastou com a promessa de que pediria sua transferência para a zona amarela por estar melhor em nada lhe ajudou. Pois ser transferido de uma área para a outra, ainda queria dizer que passaria mais tempo naquele lugar e isso só lhe deixava mais inquieto.
E estava começando a se perguntar de onde vinha toda aquela sensação de peso, e queimação ao tentar respirar, não tinha nenhum tipo de alergia, bem sabia, mas estava começando a ficar cada vez mais incomodado ficar naquele lugar, vendo pessoas estranhas passando perto de si, enquanto estava completamente vulnerável e se sentindo exposto:
-- Hrghh-hhh…! -- Gemeu baixo, não porque as mãos estivessem doendo, porque aquela altura a dor já nem era mais captada, provavelmente o analgésico fazendo seu trabalho, em contrapartida, estava cada vez mais inquieto, queria sair daquele lugar, queria poder ficar em pé e se carregar sozinho, mas quando puxava o ar, não sentia ele entrar, e isso lhe dava a noção de que estava tão fraco que mal conseguia puxar o ar.
O nervosismo tomou conta de seu corpo de tal forma, que arregalou os olhos escuros observando o entorno, buscando qualquer rosto conhecido, abriu e fechou a boca tentando verbalizar qualquer coisa que não saiu, cerrou os dentes e levou as costas da mão contra o peito, a passagem do soro sendo erguida. O peito estava tão pesado que era difícil respirar, sentiu o estômago oco, e o corpo ser tomado por frio, dos pés as mãos.
A inquietude do Blanco na maca finalmente chamou a atenção de um dos enfermeiros que rapidamente acionou Richard que estava responsável pela maca, quando os dois se aproximaram para falar com o moreno mais novo:
-- Renaud? Você está me ouvindo? -- o ruivo encarou o ex-colega de bando com semblante atento as reações do mesmo. Renaud apenas conseguiu acenar negativamente como resposta, desviando o olhar em seguida.
O ruivo mudou o moreno acamado de posição com ajuda do outro enfermeiro de plantão, principalmente para retornar o braço do soro a posição já que o sangue já estava voltando pela mangueira, e ajustou a cabeça do mesmo para melhorar a respiração, notando que ele estava transpirando em excesso.
Por mais que Renaud tentasse ajudar a si mesmo, ouvia as vozes muito distantes e a ideia de não estar conseguindo se mexer e estar prestes a desmaiar, lhe causou pânico de tal forma que o corpo reagiu em espasmos, tremendo e retesando os músculos de forma involuntária. Richard mediu a pressão no pulso do Blanco, fazendo uma expressão alarmada:
-- Ele deve tá tendo uma crise de ansiedade, a pressão tá caindo muito rápido, ele vai acabar desmaiando, chame a Doutora Arlovskaya aqui.
Wilbert/Natalia
O chef franziu o cenho para a morena assim que ela falou com a médica rechonchuda para poder lhe dispensar dali. Contudo, ainda tinha de fato que cuidar da burocracia com a escola e ligar para seu advogado. A dor de cabeça só aumentava conforme pensava no que ainda precisava fazer para resolver sua situação ali. Observou enquanto a doutora não parecia preocupada em responder a morena, mais atenta a ficha que lhe foi entregue pelo cadeirante e resolveu tomar a iniciativa para poder resolver as outras questões que envolviam aquele problema. Esperava que pelo menos agora, próximo do tal irmão dele, o rapaz Blanco ficasse melhor. No fundo, tinha um péssimo pressentimento sobre o quer que fosse resultar daquele acidente em sua cozinha.
- Eu vou sair para resolver a situação com os outros alunos e a escola. - avisou, se dirigindo a Dia. De fato, ainda parecia mal humorado, mas quando não estava? O cenho franzido não escondia seu desconforto, mas ainda estava inquieto por saber que o garoto ainda estava no hospital, agora com a suposta família dele que deveria se preocupar com ele. - Me avise se alguma coisa acontecer… quando ele conseguir sair daqui… - falou, o tom natural de irritação na voz. Contudo, pensou duas vezes por um instante. - … por favor. - adicionou ao seu pedido, escolhendo ser educado por um momento, pois dependia da boa vontade da tia dele para saber o estado do garoto depois que fosse embora dali.
Sem mais delongas, partiu pouco antes da médica terminar de verificar a ficha guia com as informações sobre seu jovem paciente. Natalia fez um sinal para que o cadeirante ficasse quieto enquanto encarava os dados pensativa, concluindo que o garoto deveria estar tomando medicamentos adequados, mas que devido a alguma prática secundária e a falta de supervisão de outras variáveis, ele havia sofrido o acidente e ficado em estado de alerta.
- Ah, sim, não se preocupem, ele vai se recuperar e logo logo vão poder--
A médica nem teve tempo de terminar a sentença quando seu beep apitou e avistou um dos enfermeiros vindo pelo corredor que dava acesso à ala de onde havia saído. Franziu o cenho, dobrando a ficha com as informações em mãos e guardando o documento por dentro da roupa de atendimento.
- Eu volto já! Só um minuto! - pediu, apressando-se para a porta dupla com duas pequenas janelas de vidro que permitiam aos familiares dos pacientes assistir parte do que acontecia naquela ala, tal como ver a médica correr ao encontro de um dos enfermeiros de plantão para ser notificada do paciente em particular. - Ah, merda!
Deixou escapar, correndo para a sessão em que havia deixado o moreno, acabando por encontrar Richard tentando tranquilizá-lo. Aproximou-se rapidamente, colocando as mãos no rosto do moreno para verificar a pupila, a coloração da mucosa e logo depois os sinais vitais.
- Calma, meu bem, já vai ficar tudo bem! Respire fundo, sua família já está aí pra te ver! - sorriu, apesar de concentrada no trabalho. Encarou Richard e apontou na direção da farmácia do setor. - Eu preciso de uma nova solução em soro com minerais, a queimadura e o choque devem ter derrubado a pressão dele. - segurou a mão do garoto, colocando a outra mão sobre os olhos dele, mas sem tocá-los, impedindo que a luz do ambiente incidisse diretamente sobre as pupilas dele já que pessoas em quadros de hipotensão possuem irritabilidade a luz. - Hey, o que foi que eu falei sobre respirar, heim? Sua tia e seu irmão já estão aí! Vai querer desmaiar antes de encontrar com eles? Respire fundo pro sangue circular, garoto. - apertou a mão dele, esperando uma resposta. - Eu não sabia que era irmão do Peyrac. Mais novo, não é? - continuou falando para ele não perder o foco e achar que estava sozinho até o enfermeiro retornar com o medicamento que havia pedido, substituindo o soro que deveria ajudar ele a recuperar a pressão sanguínea arterial e não desmaiar.
Foi sua vez de respirar fundo, mais tranquila pela mudança do soro antes de se voltar mais uma vez para o enfermeiro, soltando a mão do garoto para poder acenar e chamar Richard para mais perto. Retirou o documento do decote e entregou para o ruivo, encarando-o séria.
- Se livre desse documento e arrume a maca, vamos levar ele para a ala amarela. No quarto, ele vai ficar mais confortável e vamos precisar esperar mais um ciclo para verificar se o quadro dele não sofre nenhuma nova surpresa. - informou, fechando e abrindo a mão, ciente da pressão dos músculos do corpo aparentemente magro do moreno acamado.
Dia/Sasha
O tom irritado de Wilbert enquanto concordava com a sugestão de Dia teria deixado a morena bem irritada, não fosse ele ter um súbito ataque de sensatez e pedir para que ela avisasse sobre Renaud... por favor.
- Eu aviso, Funske. – Dia respondeu um pouco menos irritada com o loiro, erguendo as sobrancelhas para ele. – Obrigada por cuidar dele até agora.
A Blanco não acrescentou mais nada, apenas vendo o tal Peyrac conversar com a doutora sobre a ficha médica de Renaud. Certamente que Dia não conhecia aquele “irmão”, mas bem que poderia aproveitar para questionar essa invenção do cadeirante para entrar na ala da emergência. Já Sasha só queria mesmo que a doutora parasse de ser invasiva e fosse fazer o próprio trabalho, e de certa forma, ficou aliviado que por ora, eram só as informações que ela queria saber.
Só que de repente, a médica foi chamada e saiu às pressas de volta para a emergência. Sasha franziu a testa:
- Ei, doutora, é algo a ver com o me-! – tentou perguntar, mas a pressa dela era maior do que a vontade de responder sua pergunta.
Dia aproximou-se de Sasha, colocando a mão no ombro dele brevemente e indo até a porta por onde Natalia tinha saído, observando a médica pela janela enquanto ela falava com os enfermeiros, pois sabia que Sasha não poderia ver nada do ângulo em que estava. Nada aconteceu no corredor, exceto talvez um médico indo buscar alguns remédios as pressas. Demorou algum tempo até que visse uma maca chegar, e Renaud sair nela. Dia então afastou-se daquela saída lembrando que talvez estaria atrapalhando alguém, e então se aproximou de Sasha.
- E aí?! Era com o Renaud? O que você viu? – Sasha perguntou com um ar levemente ansioso de quem tinha se segurado para perguntar tudo de uma vez.
- Vamos sair do caminho, “sobrinho”. Estamos atrapalhando o corredor da emergência. A doutora deve voltar em breve. – Dia respondeu, indo se acomodar em uma das cadeiras da espera. Não podiam fazer nada se não esperar.
Renaud
A sensação de peso sobre o corpo era tal qual, que o ar que entrava parecia arder nas vias ressecadas, o estômago se revirava de tal forma que se tivesse algo ali, certamente já teria posto pra fora. O movimento exagerado do peito subindo e descendo só deixava mais evidente o estado nervoso em que Renaud se encontrava ali. E embora Richard fosse uma voz conhecida no meio daquele mundo branco de estranhos, ainda assim, não conseguia sentir segurança sobre nada no estado debilitado que estava. E antes que o jovem pudesse se acostumar com a nova posição do corpo, sentiu a mão de uma pessoa vir em sua direção, e lhe encostar na altura do rosto e da mão que protegia seu peito.
A reação imediata foi de erguer o torso do corpo, jogando-o para frente e impedindo que a pessoa estranha encostasse em si, o movimento com os braços fez o soro ser jogado ao chão, e instaurasse uma pequena confusão ali. Mas antes que pudesse de fato, se defender, sentiu o empurrão na altura do peito, e a mão que ia avançar contra a médica ser detida:
-- O Frater tá aqui!! -- o ruivo pontuou, seco e rápido, encarando o moreno acamado nos olhos, esperando a reação do mesmo ao nome. E como se tivesse sido sedado, a reação do jovem Blanco se aquietou.
Em seguida, Richard puxou os biombos separadores de leitos, usados quando um paciente está passando por algum procedimento mais delicado ou exposto. Logo mais, não foi difícil continuar com os demais procedimentos foram aplicados, o soro trocado, o medicamento administrado, e em poucos minutos. O Blanco espiou para a médica quando ela lhe perguntou se era o irmão mais novo, e apenas acenou positivamente concordando com ela, e então o jovem Blanco balbuciou a frase em tom baixo: -- Eu… só quero… ir embora…!
Richard se afastou junto com a médica, quando ela lhe passou a ficha com as informações de Renaud, o ruivo apenas acenou positivamente: -- Valeu Nat, tô lhe devendo por duas vidas;
Em seguida os biombos foram retirados e Richard pediu ajuda a outras enfermeiros para fazer a transferência do jovem Blanco para um leito na área azul. Na zona azul diferente dos leitos fechados em quarto de internação o que dividia as seções eram cortinas, ao lado da maca apenas uma poltrona, atrás e no lado oposto da maca, espaço para que os equipamentos do hospital ficassem alocados. E embora estivesse acordado, Renaud se mantinha consciente por muito pouco, estava exausto, dolorido, e respirar ainda doía, e toda aquela movimentação e medicamentos interferiam com sua noção de tempo, nem sabia a quanto tempo estava no hospital, e por consequência, nem quanto tempo faltava para que pudesse sair.
Mas agora poderia receber visitas, e talvez isso lhe deixasse menos incomodado com todo aquele branco interminável que o hospital lhe parecia.
Dia/Sasha
Dia e Sasha mal conversaram no ínterim em que Renaud era ajudado e locomovido. Embora Sasha parecesse calma, ele estava muito preocupado. E embora Dia parecesse menos preocupada, o que ela tinha era compreensão de que hospitais não eram passagens rápidas. Os dois trocaram algumas palavras sobre como eram, idade, profissão, mas ao fim, não era como se o interesse fosse de fato a conversa fiada.
Esperaram que a doutora voltasse, mas ao invés disso, veio uma enfermeira informar que Renaud havia mudado de local e que agora poderia receber visitas. Sasha empurrou a cadeira prontamente, sendo seguido por Dia até que chegaram na ala azul. Passaram os dois por diversas cortinas, até chegar na maca onde Renaud estava. Dia suspirou longamente ao ver que ele estava acordado, mas Sasha não hesitou em aproximar a cadeira.
- Ei, menino. Que susto para um dia tão sem graça, hm? – Sasha falou, estendendo a mão para tocar o braço de Renaud, cuidando para não fazer isso sem que Renaud soubesse que estava ali, afinal, a última coisa que precisava era ele tomando um susto. Supunha que ele não gostasse do ambiente em geral. Também não era do seus favoritos. – Como está?
- Oi, Renaud. Também vim lhe ver. Fico feliz que já foi atendido. – Dia anunciou a chegada, aproximando-se apenas um pouco.
Natalia
Achou surpreendente a forma como o garoto que nem era tão garoto assim reagir daquela maneira, desvencilhando-se do seu toque. Não sabia dizer se o problema dele era com médicos ou com o toque humano, ainda que não tivesse um pingo de segundas intenções ali com seus pacientes. Levava seu trabalho a sério quando se tratava do bem estar deles.
Olhou rapidamente para Richard com as sobrancelhas arqueadas como se sinalizasse a surpresa e ao mesmo tempo o alívio por ele ter segurado o garoto, falando sobre um tal de “frater” que logo imaginou que deveria ser o tal Peyrac. Não julgou o linguajar alheio. Ele não tinha cara de ser alemão, talvez tivesse algum tipo de ligação emocional com a língua - não importava naquele momento, então apenas se ateve aos procedimentos médicos.
- Calma, garoto. Já já você vai para casa! - avisou, voltando o olhar mais uma vez de forma breve para Richard, sorrindo amigável quando ele disse que estava lhe devendo por duas vidas. Assim que terminou de fazer as aplicações e conferir os sinais vitais do moreno acamado, voltou-se para o enfermeiro, batendo-lhe no ombro para puxá-lo rapidamente e explicar a situação sobre o que faria a respeito do prontuário e do quadro do rapaz. Não entrou em detalhes sobre o sumiço das informações, duvidava que qualquer um de seus colegas de profissão se preocuparia com um detalhe tão pequeno no diagnóstico da causa do choque de um jovem rapaz com aquele.
Liberou o menor para a zona azul e deixou a prescrição para os medicamentos que Richard deveria buscar na farmácia para o rapaz em breve, obviamente certificando-se de que ele se livraria daquelas receitas depois. Teria tempo depois para pensar melhor no quadro do jovem homem acamado, talvez trocar algumas palavras com Richard sobre o quadro de medicamentos que o outro estava tomando, mas não agora. Havia outros pacientes que precisavam de sua atenção e de certo que ficar apenas de olho em Renaud Blanco só atrairia mais atenção para o quadro de uma simples queimadura. Então apenas se despediu antes que ele pudesse receber de fato as visitas no quarto da zona de observação.
Renaud
Após alguns instantes, logo a medicação começou a fazer efeito, e o corpo todo que antes ardia e parecia febril, agora estava lento, como se estivesse boiando sobre água, a visão estava turva como se de fato, tivessem jogado água em seus olhos. A chegada de pessoas a sala lhe deixou mais alerta, embora estivesse com a percepção toda bagunçada, como não se sentia seguro, não conseguia relaxar e deixar apenas o soro rodar. E isso ficava bem evidente, na expressão do jovem Blanco, que parecia apreensiva e tensa, porém, tão logo ouviu a voz de Sasha e reconheceu que era ele ali, aliviou o rosto e o encarou quando ele lhe falou: -- Quero sair daqui… -- comentou em tom baixo, e até desgostoso.
No entanto, a maior surpresa veio da presença de sua tia naquele lugar, ergueu o olhar para a mulher, e franziu as sobrancelhas e estranheza real, sequer fez qualquer menção de tentar ser sutil em demonstrar surpresa: -- oi Dia… erh… que bom que veio… eu não esperava que viesse, digo… eu não esperava vir parar em um hospital pra começo de conversa…
Levou as costas da mão até o rosto, fazendo uma careta e expondo as queimaduras na palma da mão, engoliu em seco, sentindo a boca amarga, e dor de cabeça além de tontura e leve enjôo: -- E se eu não estiver fazendo sentido é culpa dos remédios… -- reclamou, embora fosse bem notório que apesar de estar mais conversador, naquele momento o rapaz estava afetado pelos analgésicos. A respiração era descompassada e parecia sofrida, e o jovem Blanco piscava longamente, como se quisesse se manter mais acordado, mas sua noção de tempo e espaço estavam adulteradas. E em meio aos pensamentos que lhe corriam um pouco desnorteados, pensou que estava faltando alguém ali, olhou de um para o outro sentindo falta da figura loira ali, então pensou em puxar o próprio celular, mas sem qualquer destreza e com as mãos machucadas não daria certo. Tornou a encarar Sasha levando a costa da mão as dele: -- alguém avisou ao Didier que eu estou aqui...?
Com o soro recém colocado, era notório que tomariam um chá de cadeira de pelo menos uma hora, não era o que nenhum deles gostaria, mas ao menos, era uma sensação estranha, estar acompanhado no Hospital dos seus dos tipos de família, a que não escolheu nascer, e a que escolheu crescer. A alguns dias sequer teria imaginado que poderia ter qualquer suporte de sua família em qualquer um de seus problemas, e fosse karma, ou qualquer bobagem dessas, estava naquele momento, pagando a língua.
Dia/Sasha
Dia não tinha proximidade o suficiente com Renaud para saber como ele se comportava além dos trejeitos de menino da alta sociedade que toda sua família carregava. Então vê-lo falar algo tão mimado e vulnerável apenas por perceber a presença do cadeirante ali lhe deixou um tanto surpresa. Só assim tinha certeza enfim que os dois tinham um relacionamento próximo, e isso lhe deixou mais feliz pela decisão de se unir ao outro.
Sasha tocou devagar o braço de Renaud, para reafirmar sua presença, mas também para impedir que ele mexesse demais o braço que estava com o soro. Mas não segurou com força.
- Vai sair logo. E eu vou ficar com você até lá. – Sasha reafirmou. Sabia que a experiência de hospitais podia ser bem desgostosa, e para Renaud em especial.
O moreno olhou para a tia de Renaud quando ele pareceu surpreso com a presença dela ali. Pelo jeito a família dele não era o tipo próximo. Mas ela não parecia uma pessoa ruim. Requintada, talvez, mas não... fresca?
- Ninguém esperava estar aqui hoje. Mas ainda bem que o seu professor idiota ligou para mim. Estava preocupada, mas você já está medicado. Vai melhorar em breve. – ela falou calmamente, tentando ser otimista assim como o outro rapaz ali. – Se quiser ficar no meu apartamento quando for liberado, pode vir. Vai ficar um pouco complicado no dormitório, eu suponho.
Sasha só notou que tinha que avisar Didier porque Renaud mencionou isso. Apertou os lábios, mas evitou girar os olhos na frente dele. Sabia que ele precisava da presença do loiro.
- Não deu tempo, menino. Quem me contou que você tava aqui foi o Jonah. O seu professor pegou carona com ele por coincidência. – Sasha explicou, supondo que sobraria para ele ter que ligar pro loiro. – Mas tem chances dele saber. Quando os alunos chegarem espalhando a fofoca do que aconteceu com você, estou vendo ele entrando aqui e fazendo barraco pra lhe ver. – brincou, rindo um pouco para tentar descontrair Renaud.
- Quer que eu avise esse Didier? Se me der o número, eu posso ligar. – Dia comentou, arqueando a sobrancelha para a parte de fazer barraco.
- Oh, todo seu, ma cher. – Sasha falou, entregando a Dia seu celular e o número de Didier, que não usava para absolutamente nada, mas que tinha porque obrigações como conselho disciplinar. Assim certamente não teria que falar com o loiro até segunda ordem. – Ah, e... se puder ligar do seu... estou sem créditos. – deu um sorriso amarelo. Assim, caso Didier não tivesse seu número, evitava dele registrar.
Renaud
Por mais que quisesse ficar plenamente alerta ao que os dois falavam consigo, existia um tempo de delay entre a fala e a percepção do jovem Blanco do que tinha sido falado, talvez por isso suas expressões ficavam bem mais evidentes do que o rosto de traços comuns normalmente deixaria transparecer. E obviamente não esperava um convite da tia para ir dormir no apartamento dela, e enquanto processava a oferta, ouviu toda a troca de conversa sobre quem ligaria para Didier e sobre a possibilidade dele fazer um barraco no hospital. O moreno mais novo levou as costas da mão livre do soro, de volta ao rosto cobrindo a boca momentaneamente, antes de voltar a encarar a tia com a cara de surpresa bem notória:
-- Eu… eu nem sei o que dizer Dia… -- fez uma pausa, enquanto desviava o olhar na direção de Sasha e depois novamente para a tia: -- Admito que estou surpreso… eu não esperava que viesse aqui, muito menos que me ofereceria abrigo no seu apartamento… é muito mais do que eu esperaria em uma vida inteira… e eu me sinto estranho… desculpe por isso… não quero lhe ofender…-- o mais novo tentou organizar os pensamentos, naquele momento percebendo que estava difícil pensar e falar as coisas sem deixar escapar coisas demais: -- Mas eu não conseguiria descansar estando no seu apartamento, eu ficaria com a sensação de que estou lhe incomodando, sendo um estovo, e eu realmente não quero isso nem pra mim… e nem pra você… -- aquela altura nem sabia se já tinha feito um estrago muito grande, e sido completamente desrespeitoso, mas também não iria mentir, em sair de uma situação estressante para outra, onde teria de ficar se contendo pra não incomodar na casa da tia, aquilo era fora de cogitação, precisava descansar e só conseguia fazer isso nos dormitórios:
-- A verdade é que eu estou tão acostumado aos dormitórios, que é estranho pensar que eu tenho outros lugares pra ir, que não seja lá… eu agradeço a oferta… de verdade… mas vou negar dessa vez… quando eu estiver melhor, você pode me convidar novamente… então irei com certeza. -- tentou ser o mais honesto possível, mesmo que parecesse pouco educado, porque era o que podia oferecer em retribuição a preocupação de sua tia, honestidade sobre como estava se sentindo naquele momento de internação:
-- E só avise ao Didier que eu estou aqui, que eu estou bem, e peça, por favor, pra ele esperar se possível, e que assim que eu puder eu falo com ele… -- o Blanco virou-se na direção de Sasha encarando o moreno de perto: -- Desculpe fazer vocês virem aqui, por minha causa… eu vou ficar bem… -- levou a mão com o soro para próximo da mão de Sasha, encostando as costas da mão, já que não podia segura-lo com a palma da mão danificada da queimadura, foi em busca de apoio, porque no meio daquilo tudo, se sentia um puta ingrato, e mimado, mas também, se sentia tão exposto e vulnerável, que só podia ser direto com as pessoas ali.
Queria ir pra casa, e para ele, ir pra casa era ir pra os dormitórios, onde ficaria perto das pessoas que mais confiava, e embora agora soubesse que podia depositar vinte centavos de confiança na tia, ainda era muito cedo, pra por nela responsabilidades sobre si, que de fato, não eram obrigações dela. Os analgésicos deixaram Renaud com a sensação de flutuação, e embora o moreno mais novo quisesse se manter conversando, ele ia e voltava no nível de atenção a conversa, e tão logo o soro terminasse e o efeito do remédio ficasse mais suave, seria hora de ser liberado de volta aos dormitórios.
Dia/Sasha
Dia até podia ficar feliz que sua presença surpreendia tanto Renaud naquele estado. Porque agora sim conseguia se relacionar com o sobrinho de alguma forma. Conhecia a família Blanco em que o pai dele tinha sido criado, e Deodatos era bem um filho dos Blanco. Mas sabia, por também ser um tipo de ovelha negra, que havia algum tipo de calor que lhe permitia sentir empatia pelo garoto, tentando ser tão formal para falar com alguém que não tinha sequer cinco anos a mais que ele e que era família. Renaud precisava perceber que já tinha abdicado daquele nojo de distância que os modos dos Blanco mandavam há tempos.
Fazia melhor assim, e faria melhor para ele também, afinal, já esteve em uma posição parecida com a do moreno.
Dia riu, e então, deixou de pegar o número de celular apenas para dar um pouco de atenção à Renaud.
- Renaud, deixe de ser bobo. Não vou ficar ofendida porque está surpreso que quero lhe ajudar. Somos parentes, mas não somos tão próximos. – ela comentou, devagar e com cuidado, levando os dedos delicados até a testa do garoto, afastando a franja dele para os lados. – Mas abra os olhos. Eu estou aqui. E vou ficar ofendida sim se você se surpreender com meu convite para ir lá em casa quando estiver bem. E traga cerveja, eu gosto.
Sasha olhou para a mulher enquanto ela saía para falar com Didier do corredor, para não agitar Renaud mais do que as visitas já estavam. O moreno olhou para Renaud quando ele encostou a mão daquele jeito e se aproximou, ouvindo aquela conversa de que ele se desculpava.
- Ah, relaxa, menino. Não se desculpe, nada aqui é culpa sua. Mas se quiser agradecer, eu aceito de bom grado. – falou, ficando ali ao lado de Renaud enquanto os analgésicos pesados faziam efeito. – Ah, e se ela for solteira, aceito o número, viu? – sorriu amarelo, brincando um pouco para tentar relaxar Renaud.
Não seria tanto tempo quanto esperava para ser liberado. Mas podia dizer que independente do jeito que fosse, Didier veria Renaud, pela expressão de frustração de Dia enquanto ela tentava conversar no telefone, ocasionalmente afastando o celular da orelha. Ainda bem que não tinha sido ele a ligar.
[Thread encerrada]

