09-01-2021, 02:14 PM
Didier
Imaginou que seu quarto não fosse ser exatamente o local mais confortável para Renaud, já que depois de tanto tempo juntos, ele deveria reconhecer que a bagunça era um sinal de que tinham outras coisas em sua cabeça. E o mais recente era o próprio Renaud e aquela briga desconfortável dos dois. Fora isso, não era como se tivesse permitido o outro se acomodar de fato em seu quarto em nenhum momento. Talvez fosse um bom lugar para começar, e ao mesmo tempo, um péssimo lugar.
- Pode sentar donde quieras, desde que eu possa me mover perto de você. El baño parece ser um lugar melhor. – respondeu, convidando Renaud para fazer o que quisesse. Em geral, estava acostumado a ser mais mandão, mas talvez fosse melhor evitar, já que o moreno tinha particularmente lembrado que não era um cão, e portanto não precisava obedecer nada. – Recogeré las cosas. – avisou, indo um instante no banheiro para fazer um pequeno kit de barbeiro. Então parou um instante. – Cera ou barbeador? – perguntou, se questionando como deveria fazer a barba dele.
Só tinha que dar um jeito na falta de jeito dos dois. Incomodava-lhe um pouco saber que tinham todos aqueles dedos. Mas não queria deixar Renaud desconfortável de novo.
Renaud
O jovem Blanco estava um pouco perdido, tinha aceitado aquele convite, tinha decidido o que queria, mas sentia-se sem fôlego, como se estivesse fazendo as coisas de um jeito errado, mas porque era errado? Tentou reduzir um pouco a velocidade dos pensamentos para não ter uma crise de ansiedade ali mesmo, ouviu o comentário de Didier sobre sentar onde quisesse, e ergueu o olhar para o loiro. Em verdade, estava ali só por causa da barba? ou porque tinha o convidado para experimentar pratos pela manhã? Porque estava ali afinal?
O pensamento deu voltas na cabeça e quando Didier parou para lhe perguntar se queria cera ou barbeador, apenas não soube o que responder, e teve de respirar fundo. Estava fazendo as coisas errado, estava invertendo as prioridades ali, tinha criado coragem de chamar Didier naquele domingo, não porque quisesse ele em alguma daquelas atividades comuns, não somente isso, era principalmente porque queria passar tempo com ele, de novo, porque sentia falta.
Caminhou no quarto até perto do loiro, e estendeu a mão até a dele, esperando que ele lhe retribuísse o gesto, e acariciou a mesma, encarando-o mais de perto, do que tinham estado aquela manhã toda: -- A minha barba pode esperar um pouco, afinal ela não tem como fugir daqui. -- Nem forçou o tom de brincadeira, embora estivesse fazendo algum gracejo: -- Em verdade, eu não sei bem como dizer isso… mas podemos sentar e ficar um pouco juntos? Eu… tenho algumas coisas que eu não tive cabeça pra falar antes… que talvez você queira saber… já que você mesmo disse que queria poder se preocupar comigo.
Apertou a mão de Didier um pouco, como se estivesse pedindo “por favor” com o gesto, não sabia exatamente o que queria falar, mas queria estar perto do loiro de novo, sem todos aqueles estranhamentos, e assim como tinha conversado no dia anterior com Sasha e Isaac, não conseguia ser só um “amigo” pra Didier, queria se sentir próximo de novo. Mas a sensação de que era uma péssima companhia por estar desgraçado da cabeça só lhe deixava mais inquieto:
-- Só peço um pouco de paciência comigo, nem eu tô me aguentando desse jeito…!
Didier
Estava indo pegar tanto o barbeador quanto a cera, quando, distraído procurando o barbeador novo, sentiu Renaud pegar em sua mão. Talvez porque estivessem com todos aqueles dedos um com o outro, o toque pequeno do moreno fez com que prontamente fechasse a mão em torno da dele também, enquanto seu coração parava por um milésimo de segundo. Só então voltou-se para ele, ouvindo aquele gracejo sobre a barba que também não lhe deu vontade de rir.
Didier observou Renaud de perto, notando nele aquela ansiedade quase infantil de quando ele ainda não era nem um pouco bom com as palavras. E embora naquela época isso lhe desse uma vaga sensação de superioridade a Renaud, por fingir ser mais confiante, agora podia se igualar a ele no quão estranho era não saber o que fazer naquela situação.
Apertou os lábios de leve quando Renaud lhe fez o pedido para que sentassem um pouco juntos para conversar, e deixou o pescoço pender um pouco para o lado, antes de afirmar com a cabeça.
- Podemos sentar juntos, si. – Didier respondeu, entortando de leve o lábio enquanto observava a mão dele e a sua de esguelha. Enquanto guiava o moreno para que sentasse na cama, tomou a liberdade de entrelaçar os dedos nos dele mais firmemente, o que amenizou sua expressão por um instante. Porém Didier não entendeu exatamente o jeito que Renaud achava que estava se portando e pedia paciência por. – No sé lo que pasa contigo ainda, pero, se for sobre os gestos... perdoname também. – mostrou a mão, ainda incerto se isso tinha deixado Renaud desconfortável - Admito que ainda vou estranhar un poco esse jeito quisquilloso entre nosotros. Queria poder só morder sua barba ao invés de fazê-la... – sorriu com o canto da boca brevemente, sabendo que estava deixando Renaud desconfortável. - Pero, se algo que lo hice te deixou desconfortável, digame sin demora. Estou feliz... de estarmos nos falando de novo... e pelo convite... então não me deixe meter la pata. – confessou com certa apreensão.
Renaud
O fato de Didier ter lhe segurado a mão de volta com urgência lhe deu um alívio enorme, e aquele sentimento se alastrou em seu peito, deixando o ar mais fácil de entrar, deixou que os dedos fossem entrelaçados e seguiu até a cama onde se sentou acompanhando o loiro mais velho. Não afastou a mão do outro, e o observou atentamente enquanto ele falava, e não escondeu a surpresa quando ele lhe disse que queria morder sua barba, mas lhe deixou ainda mais surpreso o fato dele estar incomodado com a distância, não queria ser invasivo e cobrar uma intimidade que estavam reconstruindo ali, não queria atropelar as coisas, e pelo visto os dois estavam sendo tão cuidados ao ponto de se tornar desconfortável.
Segurou a mão de Didier com ambas, e levou até o próprio rosto, roçando a barba rala, por fazer, sentindo o calor da mão do outro, e beijo-lhe os dedos de forma carinhosa, porque tanto ele quanto o loiro a sua frente precisavam da afirmação daquela proximidade:
-- Bem… eu acho inusitado essa vontade de morder… mas não nego que provavelmente eu gostaria que fizesse. -- respondeu ao comentário engraçado do outro, embora ainda não conseguisse de fato rir: -- e você não fez nada de errado, é só porque eu não quero ser invasivo com você, nem forçar qualquer coisa… mas também não sei “ser distante” porque eu me acostumei demais com você perto de mim… e bem… eu não quero ser só seu amigo. -- comentou aquilo porque tinha bastante consciência de como se sentia em relação ao loiro, mas também tinha tantas coisas acontecendo sobre si mesmo, que não queria se jogar como uma caçamba de problemas sobre o outro, justamente porque gostava demais dele para fazer isso:
-- Quando a gente conversou eu disse que eu não tinha como lhe ajudar a resolver os seus problemas porque eu mal estava dando conta dos meus…-- o moreno falou, desviando o olhar para a mão de Didier que mantinha bem acolhida entre as suas, mas suspirou fundo, erguendo os olhos pra encarar o outro diretamente: -- A questão é que eu estou doente, e em tratamento, e eu não quero simplesmente jogar meus problemas em você, porque você tá com os seus pra lidar, eu me sinto um peso, e fico com receio de você cuidar de mim por pena, por mais que não haja nenhum comportamento recente seu que me dê motivos pra pensar assim… mas é fato, que a minha cabeça… pensa sempre no pior… como se eu estivesse incomodando você e todos ao meu redor… como se eu não fosse necessário, fosse algum tipo de estorvo… por isso eu não comentei que estava tão mal…!
A voz do Blanco foi diminuindo como se estivesse morrendo na garganta, como era difícil falar daquelas coisas.
Didier
Didier suspirou aliviado que Renaud não negava sua vontade de mordê-lo ou o desejo de ficar próximo, até lhe devolvendo o carinho com um beijo nos dedos que aqueceu o loiro por inteiro, e lhe deixou ansioso para poder de fato morder aquela barba por fazer. Porém o que lhe deixou com o sentimento renovado de que, embora estivessem estranhos agora, achariam seu próprio ritmo, foi a confirmação de Renaud de que ele não queria ficar naquela de amigos, e tampouco queria ficar longe de Didier. O espanhol até suspirou aliviado, e antes que percebesse, estava com a cabeça sobre o ombro ao seu lado, quase se aninhando nele, porque sabia que ele tinha o que falar ainda, mas precisava daquela proximidade.
- Gracias a Dios… - falou mais para si mesmo, roçando de leve o rosto no ombro de Renaud, levantando apenas porque tinha que ouvir o que ele iria dizer sobre a situação complicada que estava passando. Sabia sim que ele estava com problemas, ele já tinha mencionado isso, mas não entendia a extensão dos mesmos. Mas supunha que era algo grave, já que ele estava tomando remédios, e tinha emagrecido naquele período. Sentiu o coração apertar, porque Renaud nunca lhe parecia tão indefeso e pequeno, ou pelo menos não há muito tempo. O que quer que ele tivesse, era algo muito alienígena para Didier, uma vez que não o via nunca em médicos. Aos poucos, entretanto, talvez mesmo sem a explicação direta do moreno, começou a entender que o via sim em médicos. Regularmente com o doutor Vlahos. E que o doutor era um psiquiatra, e portanto, podia receitar remédios. – Ahh... está sendo tratado pelo doutor Vlahos... - aos poucos começou a perceber. – Que tienes, Renaud...?
Perguntou porque queria entender, mas antes mesmo que ele respondesse, franziu a testa e sacudiu a cabeça, e abanou a mão livre na frente do corpo como se pedisse para que Renaud parasse.
- No. No, no, no, no...! Primero, no eres un peso, Renaud. ¿Cuántas veces te lastimé y aún me quedo a mi lado? Sé que era un peso a propósito para ti. ¡Te debo el cuidado que tomaste conmigo! No porque me da pena. Te conozco lo suficientemente bien como para saber que no necesitas mi piedad. Quiero saber lo que tienes y ayudarte porque necesito devolverte la devoción que me diste, porque te quiero igual y porque quiero estar a tu lado, porque me gustas. Sé que no soy confiable, y no entiendo lo que hace tu enfermedad, pero quiero ayudarte, ¡cómo puedo...! No eres un estorbo. Tu eres...– Didier disparou sem pensar, tão sem pensar que esqueceu que falava francês, porque foi muito estranho ouvir de Renaud aquele tipo de sensação de se sentir insuficiente. Quando deu por si, parou subitamente, encarando o moreno. – Desculpa... eu não queria interromper... só... explique mais.
Renaud
O jovem Blanco sentiu o alívio em todos os gestos feitos por Didier, no final das contas embora quisesse dar espaço para que as coisas se acalmassem, talvez não fosse da natureza dos dois dar tempo para as coisas. Renaud tinha urgência em ocupar aquele sentimento de vazio que lhe perseguia como se fosse um ser estranho e desnecessário, e Didier precisava de afirmação de que sua proximidade não machucaria o moreno mais novo. Era algo que só se resolvia se falassem mais, e conversassem sobre os pensamentos que lhe assombravam. Deixou que o loiro se aninhasse ali perto de si, e retribuiu a proximidade acariciando as mãos com a ponta dos dedos.
As palavras ditas em espanhol lhe soaram tão familiares como se o idioma fosse o seu, a voz de Didier era mais natural falada daquele jeito, era muito ele, e já tinha se pego durante esses dias num misto de receio é saudade de ouvi-lo falar daquela forma. Mas indo contra seus pensamentos negativos, tudo que o loiro lhe falava eram palavras de apoio, e aquilo lhe fez suspirar de alívio, e desenhar um sorriso singelo nos lábios finos:
-- no hay necesidad de disculparse -- comentou no seu próprio jeito de falar espanhol, que o outro conhecia tão bem. Respirou fundo, sentindo o corpo um pouco tenso, e as mãos levemente perderam a temperatura pela ansiedade que lhe cortava em tratar do assunto ali, com o loiro: -- e sim, eu estou sendo tratado pelo Dr. Vlahos, apesar dele me acompanhar desde outubro no ano passado só em janeiro que eu comecei a levá-lo a sério, mas… foi só agora, há algumas semanas que eu percebi que não estou dando conta de mim, e fui pedir ajuda.
Falar com todas as letras que tinha ido pedir ajuda, era algo que devia no mínimo surpreender o loiro, ele sabia pela convivência desses anos que o jovem Blanco definitivamente não pedia ajuda, nem quando de fato precisava dela. Era um teimoso nato, e nisso os dois, tanto Renaud, quanto Didier se entendiam muito bem:
-- eu… eu tenho depressão… e isso está influenciando todo resto… comer, dormir, acordar, fazer qualquer coisa… e desde semana passada eu estou com uma medicação pra controlar meu humor… pra evitar que eu tenha crises como as que eu tive e fui parar na enfermaria… -- encarou o loiro, e embora quisesse parecer muito sólido e muito firme em dizer que estava em tratamento, mas falar daquilo lhe deixava tão consciente de que não estava bem, que era cansativo. Estava definitivamente cansado de estar doente e de ter que falar sobre isso para os outros, pois parecia um atestado de incompetência em gerenciar a própria vida.
Renaud apertou as mãos do loiro entre as suas, sentindo agora mais nitidamente o contraste das duas, as suas estando frias, enquanto a de Didier lhe pareciam tão quentes:
-- eu queria poder lhe dizer que as coisas estão indo bem e que logo tudo isso vai passar… mas a verdade é que eu não faço ideia de quando eu vou melhorar… eu só me sinto cansado… como se todo o sono do mundo não fosse suficiente pra dar conta desse cansaço… é uma sensação horrível…
Retorceu a expressão numa leve careta, porque era ainda pior quando colocava aquilo em palavras.
Didier
Para Didier, a ideia de Renaud, que costumava ser tão independente, ir pedir ajuda ao doutor Vlahos espontaneamente tinha sido bem marcante. Porque a única memória que tinha dele lhe pedindo ajuda para qualquer coisa tinha sido na ocasião do recital, talvez, e podia ver o quão ansioso ele estava com a ideia da mãe dele lhe ver cantar. Claro que ali era algo de crianças, agora os dois eram mais velhos, e Didier sabia que não era pouca coisa para abalar o moreno.
A medida que o francês começou a explicar, tudo que tinha acontecido ficava cada vez mais claro. Sentiu também uma pontada de culpa por ter brigado com ele quando provavelmente ele já estava naquele estado – supôs que também fosse sua culpa ele ter afundado um pouco mais naquele sentimento de exaustão – mas lhe restava reparar seus erros. Nem que fosse só encarar Renaud de volta e apertar de volta a mão dele com segurança de que estava ali por ele.
Virou o rosto de leve, pensativo sobre o que Renaud estava lhe dizendo, deixando os cabelos claros penderem um pouco sobre os ombros.
- No sé que fazer para ayudarte, no sé mucho sobre depressão, pero... farei o possível para lhe ayudar. No me gusta estar a oscuras e não fazer nada por você. Por eso, gracias por me decir todo. E continue me deciendo... estoy com você. De verdad. – respondeu para o moreno, colocando sua mão sobre as dele e trazendo ambas para perto de si, beijando-as longamente tal como o moreno tinha feito antes. – Tambien no sé se não está indo bien... pero para mi, ver você admitir o que sente é... diferente. Pero... no es malo. Porque agora te conoszco mejor... e cada vez que te conozco un poco más... tengo certeza que vou estar aqui por você, Renaud. – encostou brevemente a testa nas mãos que ainda segurava próximo ao rosto, e então devolveu elas para o colchão, para poder se aproximar um pouco. – E se estiver cansado, hambriento, o que sea... pode me llamar o vir aqui. Estoy aqui por ti.
Colocou uma perna por cima da de Renaud, e soltou-lhe as mãos para pegar o rosto do moreno, os polegares acariciando próximo a mandíbula.
- Pero só que sei fazer é eso... – aproximou-se do moreno, e então, mordiscou dele a linha do queixo, como se estivesse mastigando a barba dele. Então aproveitou para lhe distribuir alguns beijos pelo rosto, aproximando-se aos poucos e abraçando o corpo do moreno firmemente, até encará-lo daquela proximidade. Talvez por ter certeza que não era uma atitude exatamente normal depois que alguém dizia que tinha um problema tão sério, encarou o moreno com um ar preocupado, sem perceber que o rosto estava um pouco vermelho de nervoso, esperando que não tivesse tomado uma atitude errada. – Ayuda...?
Renaud
O moreno mais novo estava ansioso com a reação de Didier aos seus comentários, até porque o que estava falando era apenas a verdade, estava cansado de ficar constantemente se mantendo sólido e firme quando de fato estava bem longe disso. Era tão difícil se deixar cuidar pelos outros, mas também tinha percebido como era uma necessidade inerente de seu interior “ser cuidado” e principalmente de ter alguém que se importasse consigo. Encarou o loiro mais velho, porque era sua forma de ter a percepção de que ele estava absorvendo suas palavras, e ter as mãos dele em torno das suas lhe dava ao menos segurança de que ele estava lhe ouvindo. Se iria compreender, aquilo já era outra questão, e dependia mais do outro do que do próprio Blanco.
Sentiu o corpo todo estremecer quando o loiro mais velho lhe devolveu a carícia em suas mãos, o toque dos lábios de Didier sobre a superfície de sua pele, daquela forma tão carinhosa, lhe aqueceu por dentro, preenchendo-o com um tipo de sentimento indescritível. Era o tipo de emoção que gostaria que ficasse em si por muito tempo, mas era algo tão singelo, tão simples, aparentemente tão momentâneo que poderia sumir a qualquer momento se não o envolvesse com as mãos de volta da forma correta.
O Jovem Blanco não respondeu nada imediatamente, abriu e fechou a boca, mas não formou nenhuma frase, ouvir de Didier que queria saber como Renaud se sentia, e que aquilo servia para aproximar os dois, era uma novidade, e algo que em tempos passados, acharia que só serviria para afasta-los. Ter a realização desse momento, fez com que o sangue circulasse mais rápido por todo o corpo, junto com a sensação de calor e conforto, e provavelmente o jovem Blanco não tinha como perceber, mas estava com o rosto corado.
Não ofereceu qualquer resistência para a aproximação do loiro, e ao invés de sentir-se nervoso, a medida que Didier segurava seu rosto e lhe acariciava, sentiu todo o corpo relaxar, os ombros cederam um pouco, e a respiração suavizou em um suspiro curto. Fechou os olhos, e apenas se deixou ser conduzido pelas carícias do mais velho. Inclinou a cabeça de lado, dando passagem para que ele lhe distribuísse os toques pelo rosto, e em contrapartida envolveu a cintura masculina do outro, acariciando o mesmo com os polegares. Quando Didier finalmente lhe perguntou se aqueles gestos ajudavam, o encarou de perto, encostando a ponta do nariz, devolvendo um pouco das carícias recebidas:
-- ¡Tu eres mi sol Didier! -- murmurou para o outro, levando as mãos até a curva do pescoço do outro, acariciando a região, mantendo aquela proximidade, nem percebeu que os olhos estavam marejados, e embora quisesse muito chorar, não estava triste. Nem sabia como nomear aquele sentimento, mas não era devoção, não era deslumbre, estava sim, em parte todo machucado e dolorido por dentro, e sabia que estava triste por muitas coisas que vinham lhe ocorrendo; mas naquele momento, naquele quarto, o jovem Blanco queria chorar, queria muito se deixar desmontar ali nos braços do outro, porque podia, e porque sabia que o outro iria lhe segurar.
Aproximou os rostos ainda mais e uniu os lábios, sentindo as respirações se cruzarem, o coração saltou no peito, mas estava leve, como não sentia em muito tempo. Respirou fundo, contra a pele do outro, sentindo que uma lágrima estava fazendo caminho pela lateral do rosto até o queixo, mas os lábios se curvaram pra cima em um sorriso singelo. E manteve o beijo simples, acariciando a boca do outro com a sua própria, em um gesto cheio de carinho e nenhuma malícia.
Didier
As mãos em sua cintura e aquelas carícias suaves dos polegares lhe deram uma vida nova, diante do medo que tinha de estar estragando tudo aos olhos de Renaud. Se sentiu um pouco mais livre para distribuir aquelas carícias, mas não o suficiente para confiar que fazia mais bem que mal com as mesmas. No fim, foi quando viu o rosto corado dele e a expressão mudar daquele cansaço crônico para os olhos com um pouco mais de vida que seu coração disparou.
As mãos em seu pescoço lhe fizeram sorrir por um breve momento. Aquele tipo de carinho que tinha dado a Renaud era o tipo de carinho que estava mais acostumado a deixar para os meninos, porque era um carinho inocente. A diferença era que para o moreno, sentia cada um daqueles beijos e mordidas com todo o sentimento que há muito não confessava para ele. E a resposta dele certamente não podia ter sido melhor.
Didier crispou os lábios, apertando-os juntos e franziu a testa, sentindo que os olhos se encheram de água. Mas não eram lágrimas que queriam correr. Só estava muito feliz. Tão feliz que podia agora extravasar aquele tipo de gesto para o moreno e que ele lhe considerava algo tão brilhante em sua vida que merecia ser “o sol”. Abriu um riso largo, e deixou que ele lhe devolvesse as carícias bobas e singelas, fechando os lábios em um sorriso amplo ao sentir os dele roçando nos seus.
Por impulso, abraçou o moreno apertado, deixando que aquela distância fosse a mínima possível, pondo uma perna sobre a dele e enlaçando-o com a canela. Mas não queria mais do que aquilo naquele momento. Só queria aproveitar a proximidade e a liberdade para tocar Renaud novamente. E devolveu-lhe os beijos sobre os lábios, e sobre o rosto, e a testa, e a ponta do nariz, sobrancelha, pálpebras, cílios, e lábios. Os dedos afundaram nos cabelos escuros em um carinho singelo.
- Si soy tu sol, puedes ser mi cielo ... porque no puedo estar en otro lugar que no sea contigo. – Didier respondeu baixinho, então franzindo a testa e encarando Renaud com a cara de quem tinha ficado muito embaraçado com as próprias palavras. – Não ria... e-eu... ainda estou aprendendo... a ser... tão bom com as palavras como você! É de coração...! - encheu as bochechas involuntariamente, disfarçando a própria vergonha enquanto roubava mais um beijo dos lábios de Renaud.
Renaud
Como não sabia como descrever aquele sentimento, parou de tentar categorizá-lo, restava apenas aproveitar, era como abrir a janela de manhã e sentir a luz do sol entrar junto com a brisa salgada da praia pra afastar as sombras dos seus pensamentos pessimistas. Estar com Didier em outros tempos era um misto de confusões e desentendimentos, onde na mesma medida que era bom, era desconfortável. E agora, mesmo que estivesse todo machucado por dentro, conseguia sentir aquele calor bom do outro perto de si, conseguia não se sentir sozinho, estando perto de Didier a quem amava tanto, mas tanto, que era difícil achar as palavras certas para concretizar o momento.
Se deixou conduzir pelas carícias do outro, o abraço forte, que lhe pareceu bem mais apertado do que de costume, lhe fazendo perder um pouco o ar, até se distraiu que tinha choramingado, ou mesmo que estava plenamente corado com o sangue circulando rápido no rosto. Sentiu as madeixas escuras serem acariciadas, com carinho, e sem malícia, estava sendo tratado como gente e como uma pessoa querida, e ter percepção disso lhe dava uma vontade imensa de chorar ainda mais. Sentia o ar que lhe faltou no abraço se embolar na garganta. E retribuiu o abraço, envolvendo o corpo de Didier, mas ao invés de apertar com igual vigor, apenas o acariciou com o cuidado, de quem zela por algo precioso, esfregou o rosto contra o rosto do outro, pescoço e ombro, carinhoso, e até certo ponto, carente daquele tipo de afeto:
-- Não tenho como rir de você…pudera, olhe pra mim! Eu estou tão feliz que finalmente posso lhe amar… que eu posso sim demonstrar tudo… tudo…! Que não preciso mais guardar esses sentimentos só pra mim... que podemos dividir… e isso é tão surreal, que eu nem acho palavras boas o suficiente pra lhe dizer isso… da forma como e gostaria pelo menos… -- respirou fundo contra pele do outro, ainda mantendo aquela proximidade, e por mais que quisesse sentia os olhos ainda úmidos de quem se colocaria a chorar a qualquer momento. Mas respirar fundo, lhe fez engolir momentaneamente aquela vontade iminente de chorar, muito embora o coração estivesse acelerado demais com aqueles sentimentos novos que estavam ali. Renaud ergueu o rosto para encarar Didier de perto e manteve os braços em torno do corpo do outro para se certificar que eles estava ali junto e isso era real e não um sonho delirante:
-- Sabe… uma vez o Zac me disse que não entendia como eu e você conseguíamos lidar com um relacionamento vago e sem limites definidos, como o que a gente tinha… e eu na época desdenhei… mas na verdade, até que ele estava certo. -- respirou fundo, como quem tomava coragem enquanto organizava as ideias pra poder falar, puxou a mão do loiro e entrelaçou os dedos puxando-a para perto dos lábios para beijar e mordiscar sobre os mesmos: -- Eu não tenho condições de ficar esperando as coisas tomarem um rumo certo… ou mesmo ficar esperando aprovação dos outros… agora eu preciso de certezas… que as coisas sejam concretas… e principalmente, preciso de você... Didier, quer ser meu namorado...?!
Didier
Quando sentiu as mãos de Renaud passearem tão carinhosas por suas costas, lhe tocando como se fosse algo muito valioso, que o sentimento de coração aquecido ficou ainda mais intenso. As palavras de Renaud foram como um choque em contraste com aquele toque suave, porque não conseguia entender em que ponto daquele relacionamento torto dos dois, tinham impedido um ao outro de amarem e serem amados como mereciam. Aliás, sabia sim o porquê. Não sabia amar, além do carinho supérfluo que tinha para com os filhotes, e a amizade estranha e distante com Isaac, e o sentimento hesitante, receoso e intenso que tinha com Renaud. Como podia amar, e deixar que ele lhe amasse, e amá-lo se todos os sentimentos de amor que tinha sentido antes de chegar em St. Clavier tinham sido tão tortos? Mas agora podia sentir intensamente as palavras de Renaud. E era por isso que tinha tanto medo de sair de St. Clavier, e estava tão irritado... ali é que tinha aprendido o que lhe era mais precioso.
Não tinha nem o que responder quando o moreno lhe encarou diretamente e lhe lembrou, com outras palavras, que tinham perdido tanto tempo com aquele relacionamento esquisito dos dois. Mas o que podiam fazer naquela época? Não que fossem mais maduros agora para saber o que estavam fazendo - seria mentira -, mas agora que podiam ver o que tinha de errado, estavam em passos de bebê tentando fazer o certo.
Sentiu as mãos mais uma vez ir aos lábios de Renaud, ele lhe mordiscando os dedos num carinho singelo. Até concordava com o começo da fala dele, mas não imaginava certamente que rumo elas tomariam, com medo de que ele fosse lhe reafirmar a dolorosa verdade de que não sabiam o que estavam fazendo. Mas foi exatamente o contrário.
- ... Si... si! Lo quiero! - respondeu após alguns segundos desnorteado com o pedido do moreno. Encarou-o longamente, a respiração lhe faltando em uma sensação esquisita de ter o corpo assomado por algo que lhe travava, mas seu corpo todo parecia pesar tal qual uma pluma. Estava paralisado. Mas o que lhe paralisava era felicidade. De repente, levou ambas as mãos ao rosto de Renaud, e beijou-lhe os lábios mais uma vez, um suspiro sonoro de alívio escapando após a carícia. - Si...
O corpo pareceu se desmontar aos poucos, derretendo sobre Renaud em um abraço.
- Zac não entendia, pero sé que quando empezamos... no sabiamos como ser namorados... acho que ainda não sabemos... pero ahora pelo menos percebemos o quanto somos importantes um pro outro... nos faltava la honestidad. - Didier se permitiu encostar a cabeça no peito de Renaud, os braços agarrados a ele. Queria só continuar naquela proximidade. - Errado como fosse... você foi meu primeiro namorado... e agora é o segundo... se siente correcto. - sentiu engasgar as palavras na garganta, pensando que poderia ter sido tão melhor para os dois desde o princípio. Mas não podia mudar o cão e o dono que foram. E os abusos. Mas também tiveram bons momentos antes, que não queria esquecer. - Perdoname por também não ter feito esse pedido antes... apesar de muito querer... - respirou fundo, erguendo o rosto para encarar Renaud, os olhos marejados, mas ainda segurando as próprias emoções, porque aquele momento era muito feliz para desperdiçar com lágrimas. - Quer ser meu namorado também, Renaud...? - brincou, sabendo que a resposta era positiva. Mas tinha a necessidade de replicar a pergunta, porque aquela vontade - e agora aquele relacionamento - era uma via de duas mãos.
Renaud
Para Renaud as reações de Didier não eram difíceis de ler, conseguia entender nos suspiros e na forma como ele lhe encarava que havia alívio na expressão do outro. Embora tivesse ficado nervoso em organizar as palavras para verbalizar seu pedido, era como se o nó na garganta tivesse desatado e agora tudo estivesse solto e leve. Era estranho, mas não era um estranhamento ruim, e se sentir “leve” era algo que precisava nesses últimos dias de turbulência. Retribuiu o beijo simples que recebera nos lábios, e era bom poder retribuir e ser retribuído, parecia agora tudo tão simples, e fácil de fazer e aceitar, que se sentia bobo de ter complicado isso antes. Mas o jovem Blanco tentava ao menos ser paciente consigo mesmo, relacionamento sérios nunca foram sua especialidade nem de longe, teria de aprender tudo agora que já tinha 20 anos nas costas.
Guardou bem o corpo de Didier entre seus braços, acariciando-o com a ponta as palmas das mãos de forma carinhosa, deixando que ele se aninhasse em seu corpo, e apesar de ter se sentindo tão fraco e patético ao longo dos últimos dias, ao menos naquele instante, se sentia plenamente capaz de dar carinho. E o pensamento lhe fez desenhar um sorriso simples nós lábios finos, e mesmo que não fosse plenamente expressivo, pra quem lhe conhecia, como o outro bem conhecia, perceberia facilmente que havia felicidade edificando aquele simples ato de sorrir.
—Sim. — respondeu simples e direto ao pedido feito pelo loiro: — eu já lhe disse ontem que estava desculpado, as outras coisas a gente vai aprendendo como fazer juntos, tudo é novidade pra mim também.
O jovem Blanco se aproveitou daquela proximidade, para levar a própria mão a de Didier, trazendo-a ao encontro de sua boca. Beijando-lhe o topo e roçando os lábios deixando um rastro morno até os nós dos dedos, e parou ali, arranhando com os dentes sobre o dedo anelar, envolveu o mesmo entre os dentes e pressionou a mordida com força o suficiente para deixar uma marca, mas sem de fato machucá-lo, em seguida, encarou o loiro sustentando um olhar escuro confidente: — Eu não tenho nenhum anel de compromisso, mas até a marca sumir eu lhe arrumo um… e eu não tinha planejado nada disso, mas agora, depois de ter falado… agora estou… feliz?! — beijou-lhe novamente sobre a área recém marcada: — É... eu estou feliz sim. — riu baixo com a constatação óbvia, pensar que eram namorados strictus sensus lhe deixava feliz, e ao mesmo tempo um pouco amedrontado, porque não tinha muitos parâmetros do que fazer, mas ainda assim só poderia seguir em frente, e queria seguir com Didier ao seu lado.
Didier
Se perguntava quando tinha sido a última vez que se sentiu tão seguro nos braços de alguém. Renaud, por muito tempo, lhe passava uma sensação de insegurança com o charme que disfarçava tantos sentimentos desagradáveis dentro de si, muito como sua autoconfiança e agressividade. Mas agora que estava sendo honesto, e que se sentia vulnerável de verdade perto do moreno, é que conseguia se sentir seguro naquele abraço firme, mesmo que em seu interior, Renaud se sentisse vacilante por conta da doença.
Deixou a mão livre para ele, sentindo um arrepio de antecipação perpassar seu corpo quando ele beijou seus dedos e roçou os lábios sobre sua mão. Os dedos que cravaram em seu dedo foram firmes o suficiente para lhe arrancar um “tch” prontamente, mas não puxou a mão, porque sabia que Renaud poderia morder bem mais forte, e mesmo assim, ainda segurava sua mão com toda delicadeza. E quando parou, notou a marca dos dentes nos dedos, e levantou os olhos azuis para encará-lo, sem entender inicialmente o que aquela marca significava.
A medida que ouvia que aquela marca era um anel temporário de compromisso, abaixou o olhar para observá-la de novo, sentindo o calor se espalhar dali para seu rosto. Sentia o rosto queimar. Mordeu o lábio inferior com aquele beijo carinhoso e a constatação que apenas se tornarem namorados causava tanta felicidade, para os dois. Mas há muito não via um sorriso em Renaud, e na verdade, não sabia inteiramente se tinha visto aquele sorriso nele vez alguma.
- Se essa marca sumir antes de você me voltar com um anel... eu vou até você e peço outra. Quantas vezes precisar! – falou com um falso tom de irritação, franzindo a testa para disfarçar o nervosismo, sem saber como reagir, e sem ideia do que fazer para retribuir o presente, já que estava longe de ser tão hábil ou romântico como bem sabia que Renaud conseguia ser. – Gracias...!
Segurou o rosto de Renaud com ambas as mãos, o que lhe deixou ainda mais encantado pelo dedo marcado pelo moreno, e atacou-lhe mais uma vez com beijos no rosto inteiro, como se fosse uma brincadeira, propositalmente derrubando-o sobre a cama abaixo de si. Respirou profundamente, apoiando uma mão de cada lado do corpo do moreno, e então, encarou-o por alguns segundos, cerrando os lábios e tomando-lhe uma das mãos. Levou-a até o próprio peito, tentando não entregar o sorriso óbvio que queria sair em sua boca.
- Você faz muito mal para o meu coração... mira como late, Renaud... – riu brevemente, fazendo um bico em seguida, num misto de sentimentos tão intenso que não sabia se queria mais rir ou chorar, mas antes de fazer qualquer um dos dois, se aproximou do moreno, usando uma das mãos para afastar-lhe os fios escuros da testa e beijar-lhe longamente ali. – Essa marca me vale mais do que qualquer coisa que possa me comprar... assim como você aqui me vale mais do que essa marca... mas não tenho nada a oferecer em troca... então espero que me aceite no lugar... – brincou, abrindo um sorriso largo. – Mi cariño... – beijou-o mais uma vez na ponta do nariz. – Mi cielo... – beijou-o brevemente sobre os lábios. – Mi novio. – jogou-se ao lado do moreno com carinho, aproveitando o conforto da cama e de se aninhar no corpo dele. – Te amo, Renaud.
Renaud
A verdade para o jovem Blanco era que não sabia ainda como lidar com aquela nova situação em que estava, nem sabia se tinham tido tempo o suficiente pra digerir todos os assuntos que tinham trocado, se estava digerindo bem sua terapia ou mesmo os remédios, mas tinha uma inquietude que lhe corroía por dentro, serpenteando seu estômago, lhe tirando o ar e deixando seu coração pequeno. Um conjunto novo de sentimentos, que tão brevemente tinha aprendido a nomear, e agora queria dividir com Didier cada uma de suas novas descobertas, era como se estivessem se conhecendo tudo de novo,embora já se conhecessem a tanto tempo. Era tudo muito novo, embora também fosse tão familiar. Mas conseguia perceber em si que a inquietação que sentia ia além de medos ou ansiedade mediante o desconhecido e um relacionamento sério, estava inquieto porque estava feliz em ter reciprocidade vinda de Didier Callas.
Não desenhou nenhuma reação física que impedisse o avanço do loiro sobre si, e se deixou ser preenchido por beijos, o cheiro de Didier lhe envolvia, e sabia, tinha convicção que dos lugares que queria estar, um deles era ali, entre os braços de seu amado, podendo demonstrar o que sentia, e ser aceito daquela forma. Por mais que soubesse que fosse um momento fugaz de paz, onde conseguia momentaneamente esquecer-se de suas lamentações, sabia que depois, quando tudo fosse tempestade e estivesse inquieto pela tristeza que lhe consumia, não estaria mais tão sozinho. Aos poucos conseguia absorver aquele cenário inédito de sua vida, onde por mais que se sentisse só, tinha pessoas, tinha amigos, tinha um namorado, tinha amor. Sorriu diante de cada carícia recebida, retribuindo carinho com carinho, e um olhar confidente para o outro.
Levou a mão até os fios longos de Didier, lhe acariciando e trazendo uma mecha do mesmo para farejar: -- eu me sinto um pouco ingrato, pois lhe falei tantas coisas difíceis ontem, e hoje estou aqui, trocando palavras doces com você, me permitindo lhe dar carinho, e me permitindo receber… -- o moreno mais novo suspirou longamente, encarando o outro na curta distância entre os rostos: -- eu me sinto de muitas formas, as vezes triste, as vezes feliz, e um infinito entre um e o outro, agora eu estou bem, porque estou aqui, com você, e é algo que queria a muito tempo fazer. Me sentir estando com você…
Renaud enlaçou o corpo de Didier, abraçando-o e o envolvendo, com carinho, com cuidado de quem estava envolvendo algo precioso, e ao mesmo tempo, farejou o outro, se deixando afundar no meio dos fios claros, como se estivesse se entregando aquele momento de intimidade: -- eu te amo tanto… tanto… que me falta ar… que me falta as palavras… mas eu sinto, e está tudo aqui Didier, eu sou essa bagunça, eu sou esse emaranhado de pessoa, mas eu sei que lhe amo, e que lhe quer.o mais que tudo, então obrigado por aceitar ter este Renaud na sua vida.
Talvez fosse apenas o fato de estar sensível pela medicação, fosse o fato de estar segurando tantas palavras por tanto tempo, se sentia piegas quando falava demais, nem sabia se podia considerar aquilo romantismo. Mas tinha plena consciência que estava sendo honesto, então se fosse para escolher, preferia não sentir vergonha das coisas que dizia, e nem de estar se expondo daquela forma. Afinal, agora eram namorados, devia ser pelo menos natural, que os dois se mostrassem mais vulneráveis do que sempre, e se não fosse comum aos outros, seria agora para eles.
Didier
Sentiu o toque de Renaud em uma das mechas de seu cabelo e observou o moreno longamente, um tanto ainda fascinado que todas as grandes complicações entre eles tinham se dissolvido em meio a tantos sentimentos agradáveis de agora. Não que tivessem sido palavras fáceis, ou decisões fáceis, e provavelmente não haveria tempo além do que esse tempo para que chegassem a essa conclusão de que se amavam, porque só naquele momento tinham tão pouco a perder que se permitiam ser frágeis o suficiente diante um do outro.
As palavras do moreno eram muito simples, mas sabia que aquelas emoções que ele descrevia iam muito mais fundo do que conseguia entender apenas com um adjetivo.Abraçou o corpo de Renaud ao seu lado, ouvindo como ele se sentia e também se questionando se havia alguma outra palavra para descrever seu estado senão feliz por estar ali com ele. Mas também havia incontáveis outros sentimentos que não conseguiria colocar em palavras, mesmo se quisesse.
As palavras de Renaud enquanto ele agarrava sua cintura lhe deram a impressão que sentiam exatamente o mesmo, e por conta disso, não conseguiam fazer jus em palavras as coisas que queriam dizer. Mas se ele se definia como uma bagunça de ser humano, o que era Didier então? Não se daria o trabalho a pensar demais sobre isso, afinal, queria aproveitar a respiração dele em sua nuca, que não sentia há tempo já, e aquela proximidade entre os dois, agora muito mais do que tinham antes.
- Nosotros somos pessoas bagunçadas... e compartimos dos mesmos sentimentos um com o outro...se hicimos cosas que magoaram um ao outro, se hablamos de coisas difíceis, precisávamos fazer isso. E se ahora trocamos palabras de amor, é porque precisamos... e fico feliz que você está entendendo o quanto é amado, Renaud. Porque me sinto amado con la misma intensidad, e agradeço que você também aceita essa bagunça de Didier ao seu lado. – comentou, levando a mão até a testa do moreno, tirando os fios escuros da frente da mesma, beijando-o brevemente ali. – Tengo mucho que quero fazer com você novo e de novo... quiero probar sua comida, afetar su barba, te abraçar mais, te beijar mais, te tocar mais... e quiero acordar no meio da noite com você ao meu lado... podemos, de ahora en adelante...? Não precisa ser agora… mas com o tempo...
Renaud
Se tinha algo que não imaginaria em muito tempo, seria estar deitado na mesma cama que Didier, falando sobre como se amavam, se gostavam e queriam estar sempre juntos um com o outro, e embora consumisse amplamente literatura romântica, até para o Blanco, parecia um desenvolvimento muito maluco de brigas, caos até a reconciliação. Mas essa era a vida real, longe da ficção onde as coisas seguem um plano de fatos sequenciados, a vida dos dois, era toda intrincada e cheia de altos e baixos, e por mais que quisesse fazer jus aos seus livros de drama preferido, não teria metade da disposição de passar dias ou anos longe do loiro buscando uma evolução mental e emocional que não chegaria tão cedo.
Se deixou ser beijado e abraçado, retribuindo cada gesto de afeto, reafirmando para o outro, que estava agradado daquela proximidade, e que ela era consentida para o outro. Aquela altura tinha esquecido que precisava arrumar sua barba, e a proposta de passarem mais tempo juntos, inclusive dormirem juntos, não no sentido sexual da coisa, lhe tirou uma expressão de surpresa, bem clara nas sobrancelhas arqueadas. O moreno mais novo, desenhou um sorriso simples nos lábios finos:
-- Mesmo que eu quisesse dormir agora, eu não conseguiria, iria ficar lhe observando, e repensando se estou vivendo a realidade, ou se estou delirando, e isso tudo aqui é fruto da minha cabeça querendo paz entre nós dois. -- comentou num tom leve, claramente soando como uma brincadeira que era: -- E sim, podemos testar dormir juntos, eu tenho sérios problemas pra dormir, então você vai ter todas os motivos, para me abraçar, cuidar e dar atenção, e eu não vou reclamar.
Renaud envolveu Didier em um abraço mais forte, se reclinando sobre ele, farejando e distribuindo beijos carinhosos quase como se fosse uma brincadeira, ou um novo hábito entre os dois, “distribuição farta de beijos sem segundas intenções” era um nome muito comprido, certamente não lembraria depois. Mas gostava da sensação de se sentir próximo, íntimo, único e insubstituível:
-- Então, se despede da barba, amanhã vou cozinhar e não posso estar com ela. -- comentou em tom simples e leve, que tinha conseguido construir ao longo de toda aquela conversa. Era certamente algo pra se orgulhar de levar na próxima conversa com o Dr. Vlahos.
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